Relatos

sábado, 31 de outubro de 2009

O DIRETOR

Na muy hermosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, pouquíssimas pessoas detêm mais poder do que os diretores de Núcleo da Globo. A entrevista abaixo é com um sujeito que começou como ator, passou a diretor e, pouco tempo depois, virou um desses caras com salário inimaginável.

Revista Istoé Gente, edição número 253, de 14 de junho de 2004

"Parei um ano após a operação. Voltei com a novela. É muita ansiedade, mas estou fumando dois, três cigarros por dia. Com o fim da novela, vou parar".

Casado pela sétima vez, com a atriz Deborah Evelyn, Dennis Carvalho gosta de se definir como um diretor de conflitos urbanos e humanos. Conflitos como a briga entre Maria Clara e Laura, personagens de Celebridade – novela que ele dirige e é recorde de audiência com média de 58 pontos, o equivalente a 2,8 milhões de residências em São Paulo. Aos 57 anos, com a experiência dos casamentos desfeitos com a atriz Bete Mendes, a psicóloga Maria Tereza Schimdt e as atrizes Christiane Torloni, Monique Alves, Ângela Figueiredo e Tássia Camargo, ele elege o tipo de cena que mais gosta: “Sou especialista em cenas de separação”, diz o pai de Leonardo, 24, seu filho com Christiane, Tainá, 22, filha de Monique, e Luiza, 11, fruto da união com Deborah, que pôs fim à longa lista de separações de Dennis. Com a ajuda dela, superou conflitos mais sérios, como a morte do filho Guilherme, gêmeo de Leonardo, há 12 anos, e as drogas.


Qual a participação do diretor no sucesso de uma novela?
Se não tiver uma boa história, não adianta. O telespectador quer saber o que vai acontecer. Cabe ao diretor coordenar. A cena em que a Maria Clara bateu na Cacau (Cláudia Abreu, intérprete da Laura na novela) foi um desafio. Era perigoso, podia ficar inverossímil duas mulheres brigando no banheiro. Fiquei sem dormir na noite anterior. Podia ter ficado um pouco melhor, mas o resultado foi dentro das expectativas.

Concorda com quem achou exagerados os hematomas no rosto de Laura, após a surra?
Às vezes a crítica procede. As pessoas acham que tinha de ter batido mais, mas aí achei que era demais. A Maria Clara não é uma lutadora. É difícil achar esse meio termo. Geralmente briga de mulher é de rolar no chão, puxar cabelo. Ali, o Gilberto pedia no texto que a Cacau tivesse o rosto transfigurado. O grau dos machucados foi mesmo para dar o impacto, para o público ver a vilã castigada, embora alguns achem que ela não apanhou tanto para ficar daquele jeito.

Concorda com isso?
Tenho a justificativa do anel da Maria Clara. Você não pode botar os caracteres embaixo na hora da cena dizendo “aqui o anel da Maria Clara atingiu o rosto”. Não tem como explicar, é difícil. Mas essas coisas fazem parte da profissão.

Que outra cena lhe tirou o sono?
A morte do Bruno Ferrari (Fábio, filho de Fernando na trama) foi difícil. O Gilberto é tão legal comigo que, quando estava escrevendo a sinopse, me disse que mudaria a história se a morte de um dos filhos fosse me fazer mal. Disse: “Não, vamos fazer”. Para mim foi meio como exorcizar a morte do meu filho. Na hora foi muito dolorido, mas fiz questão de dirigir a cena. Todo mundo chorou no estúdio, eu chorei.
Minha filha (Tainá) é assistente de figurino da novela. Ela também sofreu com a cena.

Ainda sente a morte de Guilherme?
Perder um filho está fora da ordem natural das coisas. Ele era muito criança, tinha 12 anos. Ele e o Leonardo eram gêmeos idênticos. Os dois não se largavam, eram muito ligados, nem se chamavam pelo nome. Era meu irmão pra lá, meu irmão pra cá. Quando cheguei no hospital e a Christiane falou “perdemos o Guilherme”, minha vista ficou preta, a perna tremeu, uma loucura. O sentimento de perda de um filho é terrível. Estava fazendo O Dono do Mundo. O Léo foi com a Christiane para Portugal. Eles não iam agüentar a barra aqui. Foi duro, mas estamos aí.

O trauma está superado?
Tá. Só tenho a curiosidade de ver como ele seria hoje, do tamanho que o Léo está. Seriam dois parrudos. O Léo tá forte, grande. A Christiane também foi forte. Ele morreu nos braços dela. Ela que segurou a barra toda, no carro e, depois, no caminho para o hospital.

Depois de tantas perdas (um mês antes da morte de Guilherme, Dennis perdeu a mãe, Djanira Carvalho. Sua ex-mulher, Monique Alves, mãe de Tainá, morreu em 1994, de leucemia), acredita em destino?
Acredito, um pouco, que as coisas estão traçadas. Só podia estar escrito. Meu filho, por exemplo, morreu num acidente bobo, de um carro cair de uma garagem (Christiane estava manobrando sua caminhonete na garagem de casa, em São Conrado, no Rio, quando o carro se desgovernou e caiu de uma altura de quatro metros no barranco situado atrás da garagem). Ele não estava surfando ou voando de asa delta.

Pensou em abandonar a carreira ou se isolar?
Não. Foi o trabalho que me segurou. Era um alucinado. Queria fazer reunião à meia-noite. Coitados dos meus assistentes! Morro de pena deles. Hoje, dez e meia estou dormindo. Minha barra pesada foram as drogas. Era consumidor esporádico de cocaína, em festas. Depois da morte do meu filho, era quase todo dia. E trabalhava direto, sem querer dar bandeira, comandando mais de 100 pessoas.

Como foi esse período?
Ficava sem comer, sem dormir. Cheirava uns cinco gramas por dia em casa, a qualquer hora, para me anestesiar. De manhã, para poder trabalhar, porque virava a noite me destruindo em casa. Durou uns três anos, após a morte do Guilherme.

Como parou?
Cheguei num limite de o coração palpitar e eu ficar com medo de morrer. Foi acumulando e a Deborah falando para eu parar. Ela queria se separar. Com razão. Não agüentava uma pessoa ao lado como eu estava. Ela me ajudou, me deu coragem para me internar. Achava uma vergonha, mas foi o que me salvou. Fiquei 40 dias numa clínica de dependentes químicos e passei a freqüentar o NA (Narcóticos Anônimos) diariamente, por um ano e meio. Estou há nove anos limpo. Vou esperar o fim da novela para voltar lá uma vez por semana. É bom não parar.

Qual o papel da Deborah na sua vida?
São quase 16 anos juntos. É uma grande companheira. Senti que ela falou “vou comprar essa briga”, e comprou. Passou muitos perrengues ao meu lado, sofreu e hoje conseguimos ter a vitória. Metade da responsabilidade pela minha volta por cima é dela.

Os problemas consolidaram o casamento?
Sim. E a vinda da Luiza também. Além disso, a Tainá tinha 9 anos quando a mãe dela morreu. Veio morar com a gente e a Deborah foi mãe dela também, ajudou a criá-la na fase mais difícil de uma garota, quando ela precisa de uma mulher para orientar.

Teve medo de morrer ao detectar um câncer no pulmão?
Tive. A vida inteira passa na cabeça. Tive sorte porque detectei ele muito pequeno. Meu médico (Yunes Ryad, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo) decidiu operar e fiquei apavorado. Mas ficou tudo em ordem. Nem quimioterapia fiz.

Como foi a operação?
Fiquei apavorado na hora da anestesia. Nunca tinha tomado antes. Fiz um escândalo no hospital, gritava palavrão, um vexame. Foi há dois anos, durante a Copa do Mundo. Assisti à final no hospital, sem poder gritar porque doía à beça.

Ainda fuma?
Parei um ano após a operação. Voltei com a novela. É muita ansiedade, mas estou fumando dois, três cigarros por dia. Com o fim da novela, vou parar.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O ATOR

Um grande amigo que trabalha na Grobo me contou essa. Ele entrevistava o Tony Ramos para algum especial da emissora e o cara, em dado momento, disse algo do tipo: Depois do serviço, eu faço sei lá o quê, porque o resto não importa. O que importa é que um dos maiores atores do país, quiçá do planeta, chama de “serviço” tudo o que ele fez em 45 anos de carreira, do Rubinho, de Nino, o Italianinho, na Tupi, ao indiano dessa última novela das oito, da Globo, passando pelo Riobaldo do Guimarães Rosa e pelo Jorge do Eça de Queiróz.

E a pauta eram os 40 anos de tevê desse sujeito, que chama a fama de “serviço”, e que talvez por isso nunca foi de se expor muito. O jeito foi contar a vida dele pelos trabalhos na tevê. A entrevista foi na sala de imprensa do Projac. Cheguei na hora marcada e Tony Ramos já estava lá, lógico.

Abaixo, a matéria.

Revista Istoé Gente, edição 258, de 19 de julho de 2004

"Vim para essa profissão não como voyeur, para espiar minha vaidade. Vim porque gosto de representar personagens. É disso que vivo e ponto final."

Ao longo de seus 40 anos de carreira, completados este ano, Tony Ramos, 55, fez personagens marcantes no teatro, como o Zé do Burro de O Pagador de Promessas, e no cinema, como o inspetor Guedes de Bufo & Spallanzani. É a tevê, porém, o melhor veículo para contar sua história. Desde a adolescência em São Paulo, para onde a família de Arapongas (PR) se mudou quando Tony tinha 13 anos, o ator tem levado a vida paralelamente a algum personagem na tevê. É através das telas que ele é mais conhecido, até porque sempre preservou a vida pessoal. “Não alimento o glamour por ser famoso. Vim para essa profissão não como voyeur, para espiar minha vaidade. Vim porque gosto de representar personagens. É disso que vivo e ponto final.”

A Estréia
Aos 16 anos, Antônio de Carvalho Barbosa já tinha estreado, no programa Novos em Foco, quando, em 1965, fez sua primeira novela, A Outra, na TV Tupi. Aluno do curso clássico (hoje ensino médio) do Colégio Estadual Brasílio Machado, em São Paulo, estudava de manhã e, à tarde, encarnava o Vevé, filho de Juca de Oliveira na trama. “Comia pastel, tomava caldo de cana e andava de ônibus”, conta. Da época, ele se recorda ainda dos improvisos do texto. “Não havia emenda eletrônica de videoteipe. Se errássemos, tínhamos de recomeçar toda a seqüência.”

Namoro
Após a primeira novela, o ator só tirou férias em 1974, quando viajou para a Europa com a mulher, Lidiane. O início do namoro foi trabalhoso para Tony. Em 1966, ele estudava à noite quando conheceu Lidiane, então aluna do turno da manhã, numa festa do colégio dos dois. O ator levou 15 dias até convencer a futura mulher a namorar. “Para dar o primeiro beijo, levei uma semana”, conta. Tony só não lembra se a novela que fazia era O Amor Tem Rosto de Mulher ou Os Irmãos Corsos, mas lembra que Lidiane não o assistia. “Ela via a TV Excelsior, até que um dia assistiu e disse ‘legal, gostei’.”

Casamento
Quando se casou, em 1969, o ator já tinha um personagem de destaque, o Rubinho de Nino, O Italianinho. Mas não teve qualquer regalia por isso. Casou numa quarta-feira e, na segunda-feira, já estava trabalhando. “Fui para a praia do José Menino, em Santos, num apartamento emprestado do meu cunhado”, lembra.

Filhos
No nascimento dos dois filhos do ator, Rodrigo, 33 anos, e Andréa, 31, não foi diferente. O parto de Rodrigo foi num dia sem gravações da novela As Bruxas. Mas no nascimento de Andréa, o ator teve de gravar algumas
cenas da novela Rosa dos Ventos. “Fui trabalhar de manhã, mas deu tempo de virar para o pessoal e dizer ‘olha, vai nascer meu neném, tchau, tchau’.”

A Fama e os pais
Na Globo, Tony estreou em 1977, em Espelho Mágico, mas virou ídolo nacional ao emendar três sucessos: Márcio, filho de Salomão Hayala, em O Astro, de 1978, André Cajarana, em Pai Herói (1979), e os gêmeos Quinzinho e João Vítor de Baila Comigo, de 1981. Durante Pai Herói, o ator perdeu o pai (Paulo, que se separou de sua mãe, Maria Antonia, quando o filho tinha 4 anos) e o padrasto (Salvador, que criou o ator desde os seus 14 anos). “Não tive muita vivência com meu pai, mas sempre o respeitei. Já meu padrasto foi muito importante”, diz o ator, que gravou a novela no dia seguinte ao enterro de Salvador. “Foi duro, mas com muita dor quis trabalhar, para fazer a catarse da perda. Para chorar, sim, mas ter consciência que a vida seguia.”


O Sertão
A cena em que Tony Ramos gravava em 1985, como o Riobaldo de Grande Sertão, Veredas, era noturna. O ator rastejava em pleno sertão mineiro, entre Tarcísio Meira e Lutero Luiz, quando ouviu um barulho estranho. Com uma faca entre os dentes, como pedia a cena, perguntou o que era. Tarcísio não soube responder, mas Lutero, rindo, avisou que Tony estava em cima de um cupinzeiro. “Fiz a cena toda, mas quando acabou fiquei só de sunga. Estava cheio de cupim nos meus pêlos e todo mundo rindo em volta.”

O Galã
Como os cômicos Tonico, de Bebê a Bordo (1988), e Manolo, de As Filhas da Mãe, de 2001, ou o perturbado Zé Clementino de Torre de Babel (98), Riobaldo foi um dos personagens que ajudou Tony a se livrar do rótulo de galã, apesar de nunca se incomodar com o fato. “Dizia baixinho à minha mulher e aos amigos, ‘deixa falar, vamos ver quem é galã’”, conta Tony. “Não tenho 1,90m de altura, nunca tive um físico de deus apolíneo. Sou um homem normal, fruto de espanhóis, italianos e portugueses.”

O Avô
Quando Henrique, 5, seu primeiro neto, nasceu, Tony ostentava uma autêntica cara de avô, graças à barba do Miguel de Laços de Família, de 2000. Na hora de raspá-la, o ator quis o neto, então com 1 ano, do lado. “Dizia a ele:‘Vou tirar a barba, mas continuo sendo teu avô’”, lembra Tony, que também é avô de Gabriela, 6 meses, e está no ar como o coronel Boanerges, de Cabocla. Os dois são filhos de Rodrigo. “A gente com neto, relaxa. Criança pra mim é a presença de Deus.”

domingo, 6 de setembro de 2009

O AUTOR


Imagina ter que escrever uma história de cento e oitenta capítulos durante oito meses. Uma história cujo desenrolar será acompanhado por milhões de pessoas, diariamente, e que precisa agradar a toda essa gente. Uma trama com algumas dezenas de personagens, distribuídos em vários núcleos, que serão gradativamente esquecidos ou valorizados, na medida em que caiam, ou não, no gosto popular.

Imagina que para entregar o texto no prazo será preciso internar-se no trabalho em regime de dez, doze horas diárias; e que, em virtude disso, será no contínuo estado de sono interrompido que a mente terá de funcionar para garantir a sobrevida da história, sempre sob a pressão do ibope. Pra finalizar, imagina que o texto a ser escrito será exposto a todo o país, ainda durante o processo de criação, e que as críticas, positivas ou negativas, serão diárias.

A entrevista abaixo é com um sujeito que trabalha dessa maneira.

Revista Istoé Gente, edição número 245, de 19 de abril de 2004

A um filme as pessoas reagem como se fossem críticos: “Esse roteiro é bom, a fotografia não sei quê”. Na novela, não. É: “A Bárbara tem que casar com o Paco, esse tem que namorar aquela”. É tudo direto, não uma coisa filtrada por uma crítica. Todo mundo que vai ao cinema é expert. Novela não tem isso, é muito mais visceral.

Desde que começou a escrever Da Cor do Pecado, João Emanuel Carneiro dorme às 8h, acorda às 14h e trabalha todo o resto do dia. O resultado da rotina estafante é medido pela audiência de 43 pontos, em média – índice que há oito anos não era atingido por nenhuma novela das sete – ou pelo pico de 48 pontos, esse o melhor desempenho do horário nos últimos 10 anos. É a primeira novela de João Emanuel, 34 anos, e essa foi uma espécie de reedição do que já conseguira no cinema quando assinou o roteiro de seu primeiro longa, Central do Brasil, junto com Marcos Bernstein. Solteiro, o autor mora num apartamento no Leblon e foi descoberto por Walter Salles graças a seu primeiro curta-metragem, Zero a Zero – que fez aos 19 anos, com os US$ 4 mil arrecadados com a venda de uma estátua egípcia que herdara. Apesar do começo “meio por acaso”, encara o sucesso como um veterano. “Penso sempre que o que estou fazendo vai ser extraordinário. Senão, é melhor nem fazer”, diz.

Por que a novela é um sucesso?
Quis fazer uma fábula tipo Alexandre Dumas, mas tocando em pontos da nossa realidade social, como o menino mulato que é neto do milionário, ou a negra que mora no Maranhão e namora o branco rico do Rio de Janeiro. Apontaria isso como motivo do sucesso e também o fato de a novela trazer de volta as relações humanas, de ternura, família. Às vezes você faz uma novela com muita ação, muito efeito, violência. Minha história tem isso também, mas tocando em sentimentos humanistas, como a relação do avô com o neto. Isso comove as pessoas.

Escreve pensando na audiência?
Fico ligado no Ibope, ele te dá a medida de muitas coisas.Se você finaliza um capítulo com um personagem que o povo não gosta tanto, no dia seguinte a audiência já começa mais baixa. A novela é uma amostra de situações cômicas e dramáticas. Claro que tem coisas que interessam mais ao público e outras, menos.

Teme não agradar o público?
Esse horário é complicado. As pessoas estão em casa mas também não estão. Alguns estão chegando, as crianças estão ali. Precisa de agilidade, de chamar a atenção do telespectador de alguma maneira. Fico tenso porque a novela no fundo é um jogo. Por mais que você faça por uma satisfação artística, pessoal, tem que jogar com essas milhões de pessoas que assistem, e são elas também que fazem a novela. Já aconteceu de me pedirem na rua para criar uma situação que eu já tinha escrito, só não tinha ido ao ar. Fico feliz, parece que o público está escrevendo comigo.

A primeira protagonista negra da Globo ajudou na audiência?
Na imprensa ajudou muito, em termos de divulgação, mas não acho que isso tenha sido um fator de alavancagem da audiência. É um factóide de imprensa, a primeira protagonista negra, e não tem como você fazer sucesso com um factóide. O sucesso é da história. Com factóide se faz um filme, um especial, mas não uma coisa tão longa quanto uma novela, porque são 180 capítulos.


Como é o ritmo de trabalho?
Animalizante (sic). Acho que as novelas eram menores antigamente. A Globo era hegemônica, então muitas novelas eram ótimas, mas tinham situações no meio que era a pessoa indo na feira saber o preço do peixe, e virava cena. Hoje é muito mais pesado, o Ibope exige mais. E o fato de fazerem novelas sempre tão longas é mortificante.

A duração deveria ser menor?
Novela de longa duração, com esse tamanho de oito meses, é um problema. Escrevo com o auxílio de uma equipe, mas faço a novela muito sozinho no sentido de que eu conduzo toda a história. É muito pesado narrar 180 capítulos, 40 cenas por dia. Se fossem 150, daria facilmente. Esses 30 a mais fazem a diferença porque não seriam oito meses que ficaria internado, mas cinco. É uma coisa física, humana. Não sei como a Glória Perez ou o Benedito Ruy Barbosa fazem, mas estou quase caindo pelas tabelas.

A escolha de Taís Araújo para viver a Preta foi imediata?
O elenco foi feito por mim, pelo Silvio de Abreu e pela Denise Saraceni (diretora da novela). O que um dos três não queria, dançava. A Taís era a primeira opção dos três. Ela tem a jovialidade que eu via na Preta, essa coisa alegre, carismática. Não podia ser uma bonita triste para fazer esse papel.

Quem escalou Reynaldo Gianecchini para dois papéis (Paco e Apolo)?
A escolha foi minha, pela cara dele. Acho que o Gianecchini tem gente ali dentro. Tem alguma coisa ali. É um homem bonito, mas tem um mistério, uma indagação atrás dele. Como um galã de filme do Hitchcock, um James Stewart.

Já disse que não queria discutir racismo na novela, que escolheu a protagonista negra só para realçar o contraste social dos personagens. Por que incluiu cenas de racismo envolvendo o Raí (filho de Taís Araújo na trama)?
Quando chegou o avô rico (Afonso, vivido por Lima Duarte) com o neto mulato (Raí, interpretado por Sérgio Malheiros) a coisa veio mais forte. No romance você entra pelo sexo, mas muda no momento que tem o filho. É diferente você ter um caso com uma negra e ter um filho, uma família com uma negra. Aí o preconceito passa a abranger a família inteira. Mas acho que o que agrada as pessoas é que a novela tem a discussão desses temas polêmicos dentro de um contexto de fábula. Você não aprofunda isso como aprofundaria numa novela das oito, com uma discussão mais didática do problema. O racismo está dentro da leveza da fábula.

Por que alguém que escreveu Central do Brasil migrou do cinema para a televisão?
Fiz 12 filmes depois do Central do Brasil e sempre tive vontade de fazer novela. É mais estimulante você falar com o povo que assiste tevê do que com a elite que vai ao cinema. A um filme as pessoas reagem como se fossem críticos: “Esse roteiro é bom, a fotografia não sei quê”. Na novela, não. É: “A Bárbara tem que casar com o Paco, esse tem que namorar aquela”. É tudo direto, não uma coisa filtrada por uma crítica. Todo mundo que vai ao cinema é expert. Novela não tem isso, é muito mais visceral.

Há preconceito contra a tevê?
As pessoas acham que desprezando a televisão estão se valorizando. É um erro. A novela é o primeiro prato do consumo cultural do Brasil. Venho do cinema. Minha mãe (Lélia Coelho Frota) é crítica de arte. Fui filho dessa elite cultural, educado no Moma (principal museu de Nova York), no Louvre (maior museu de Paris). Venho desse mundo que nega um pouco a novela e vim trabalhar com isso.

Abriu caminho para uma renovação dos novelistas?
Não sei. É uma honra pertencer a esse time, conseguir fazer uma novela. Fazer 180 capítulos e sobreviver já é um talento extraordinário. Essa novela é tão absorvente
que não tenho mais projetos para o futuro. Só de vida, como poder dormir. Quero sobreviver a isso, aí vou poder ir à praia, tomar um suco...

Voltará a fazer cinema?
Poderia fazer outro filme com Walter Salles. Foi minha experiência mais feliz no cinema, por poder contar uma história junto com uma pessoa em sintonia com você. E
contar uma história original, que é o que falta no cinema nacional, pois o que se vê é adaptação de um livro ou uma biografia. Enquanto a tevê se aplicou em encontrar seus narradores, o cinema encontra sempre diretores, com raras exceções. E o cinema nunca será a indústria que pretende ser enquanto não contar histórias originais.

Walter Salles é uma exceção?
Walter é um gênio que tem dedicação total ao trabalho. Também é um narrador. Filmou três histórias originais (Terra Estrangeira, Central do Brasil e O Primeiro Dia). Outras exceções são o Beto Brant, em parceria com Marçal Aquino, o Jorge Furtado, a Sandra Werneck. Já é um caminho.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

PEQUENO TRECHO DO XARÁ

Cada rapaz que escreve, pelo tempo, tem-se na conta de um ser privilegiado e que se faz respeitar. Cada sonêto que publica ou cada conto que assina eleva-o do solo, mais um palmo. E é por isso que êsse semideus das letras divide os literatos freqüentadores da Garnier em dois grupos distintos: o das bêstas e o dos gênios. Bêstas são os desprezíveis sêres que a opinião pública consagra, por estupidez ou engano, e que a Academia engole. Gênios, as vítimas dos erros dessa mesma opinião e da estultícia acadêmica, os que se julgam roubados no conceito público, sem admiradores, sem leitores ou sem nome, mas com um enormíssimo talento... Como, porém, as bêstas mantenham sobre os gênios idéias inteiramente diferentes, gênios e bêstas vivem num completo desentendimento, latejando rancores, a desmanchar, por vêzes em mentidos sorrisos, hostilidades tenebrosas.
(...)
O gênio, em geral, usa o cabelo crescido, caindo sôbre a gola do casaco, as botinas cambaias, roupa sovada e gravata borboleta. Anda quase sempre sem punhos e traz a barba por fazer. Isso por fora. Por dentro um resplandecer de coisas escovadas e brunidas. Adora o luar e a giribita. Deve o quarto em que mora, a pensão onde come... Recolhe à casa de madrugada e, com freqüência, berra pelas rodas em que anda, alto, para que todos ouçam, esta frase quem em sua bôca tem foros de um clichê:
- Nós, os boêmios!...

Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro do meu tempo

No caso, o tempo de Luiz Edmundo - historiador com texto de cronista - englobava a última década do século 19 e a primeira do 20. Entre as "bêstas" da época estavam Joaquim Nabuco, Olavo Bilac e a maior de todas elas: Machado de Assis. Já os "gênios" mudaram um pouco o figurino, aposentaram a gravata borboleta e continuam andando por aí, até hoje.

terça-feira, 30 de junho de 2009

HONÓRIO, O GURGEL - O CASAMENTO

Sábado de sol, às nove e meia da manhã. Eu de blazer e o copiloto de terno e gravata. O Gurgel rodando macio pela Tijuca e passando em frente ao Maraca, o que motiva a pergunta que talvez seja a mais estúpida da vida do copiloto. No ano do centenário – e da Libertadores –, o cara vira e manda do banco do carona, com a maior naturalidade, o Gurgel já alguns metros depois do estádio:

Você já foi ao Maracanã ver jogo?

Em ato reflexo, bem perto da entrada para o Alto da Boa Vista, o sinal do cruzamento acabando de abrir, apelo para o tradicional soco no braço. Exagero um pouco na força, ou nem tanto, porque perguntar isso a um sujeito de 26 anos no período de glória maior do time dele merece uma resposta contundente. E nesse caso, nada como uma boa porrada, daquelas que machucam mas não danificam.

A subida do Alto da Boa Vista estava chata, em marcha lenta. O engarrafamento era provocado pelo pessoal que invadiria a Praia da Barra, enquanto eu e o copiloto cumpríamos uma obrigação social, por livre e espontânea vontade. O casamento, marcado para as 10h de um sábado, nem era de gente muito íntima, mas a noiva era muita amiga de uma mulher bem próxima na época, baixinha arretada, e o noivo era um canalha dos mais gente finas. Por isso estávamos ali, eu e o copiloto, de ressaca mas determinados a curtir aquela festa, como manda o manual da juventude feliz. Até que Honório resolveu aprontar uma das suas.

Naquele irritante revezamento entre a primeira marcha e o ponto morto, avançando cinco metros por minuto, debaixo do sol das 10h, o Gurgel resolveu que não queria mais funcionar. Apagou tudo no painel. Virava a chave e o único barulho que se ouvia era das buzinas atrás. Virei uma, duas, três vezes a chave, até cair na real. Era sábado de manhã e estávamos, eu e o copiloto, dentro de um carro de fibra de vidro, que enguiçou na subida de uma ladeira e no meio de um engarrafamento. Pra arrematar, eu estava de blazer e o copiloto, de terno e gravata.

Tirei o blazer, o copiloto tirou o terno, dobramos as mangas e iniciamos o exercício inimaginável para aquela manhã de ressaca: Começamos a empurrar o Gurgel ladeira acima, no meio do engarrafamento. Para nossa sorte - se é que podemos falar em sorte numa situação dessas - havia um recuo próximo, coisa de uns cinquenta metros, e conseguimos levar Honório até aquele pouso tranquilo, debaixo de densa vegetação.

Perto dali, uma casa tinha aspecto de oficina, mas não encontramos o que procurávamos. O sujeito na casa disse que o único mecânico por perto se chamava Odir e morava no fim de uma descida perto do recuo. Só que já passava da hora marcada para o casamento e decidimos chegar na cerimônia a pé. O problema com o carro que ficasse para mais tarde.

Chegamos com a igreja já lotada e os noivos lá dentro. Era pequena a igreja, e cor de rosa. Estávamos ligeiramente suados da caminhada de quinze minutos do Gurgel ao casório e decidimos pela situação mais cômoda, depois de tanto incômodo naquele sábado ensolarado. Ficamos do lado de fora esperando o regabofe, que seria ali mesmo, nos jardins da igreja cor de rosa. Conosco, no pátio, só outro convidado que também chegou a pé: Um negão rastafari, que carregava uma sacola plástica dos supermercados Disco, de saudosa memória.

Os noivos saíram, fizeram aquela festa tradicional, jogaram arroz neles, cumprimentamos os dois e passamos à recepção no jardim. Mas não ficamos muito tempo. Havia um problema a ser resolvido. Honório precisava voltar a funcionar para nos levar de volta. E para isso acontecer precisávamos encontrar Odir. Saímos então, no exato momento em que alguém deixou cair no chão uma garrafa de Red Label, eu de blazer, o copiloto de terno, os dois com uma missão a cumprir.

Achar a casa foi fácil, mas demorou até que tivéssemos certeza de que era ali mesmo. O portão parecia de uma daquelas propriedades de história do Stephen King. Era de ferro e arame, e estava, além de torto, meio arrebentado. Mas logo depois apareceu uma casa "normal", e uma senhora gentil, gordinha atarracada, nos atendeu e disse que Odir não estava. Tinha ido fazer um serviço, mas voltava logo. Será que não queríamos esperar no terraço? Queríamos, sim, e então fomos levados por ela ao terraço, uma laje onde só havia duas cadeiras de plástico, além de uma aranha que começava a tecer sua teia num canto do telhado.

A teia estava pronta quando Odir chegou, uns quarenta minutos depois de nos acomodarmos nas cadeiras, munidos de uma garrafa com água gelada e dois copos, tudo fornecido pela gentil senhora.

Odir era magro, tinha cabelos grisalhos e usava boné de algum time da NBA (provavelmente o Chicago Bulls). Vestia bermuda jeans e mocassim sem meia, e chegou numa pick up quase do tamanho daqueles caminhões da Vale, que carregam minério de ferro. Estava visilmente mau-humorado, porque, aparentemente, alguma coisa tinha atrasado o tal serviço. Quando explicamos nosso problema, o sujeito revelou toda a sua educação e seu profissionalismo. Em vez de nos mandar à merda, por atrapalhar ainda mais o sabadão dele, nos mandou entrar no carro gigantesco, e nos levou ao local onde Honório descansava.

No caminho até lá, Odir só falou uma frase: "Paciência tá curta", disse, enquanto esperávamos uma brecha para entrar na estrada do Alto da Boa Vista. Até hoje não sabemos se o cara se referia ao trânsito intenso àquela hora, seis e pouco da tarde - que nos fez esperar quase três minutos até sairmos da rua para a estrada - ou se falava da gente mesmo. Preferimos não perguntar.

Diante do motor traseiro, Odir não gastou nem dois minutos para resolver o problema. Colocou um fio solto no lugar, emendou com fita isolante e falou a segunda frase desde que entramos na pick up gigantesca. "É 20 reais". Paguei de bom grado, e antes de entrarmos no bom e velho Honório, novamente ressuscitado, o copiloto mostrou que, ao lado do carro, no asfalto daquele recuo, uma galinha e cinco pintinhos devoravam uma cobra coral. Mais uma cena estranha, de um sábado muito estranho.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

LOTOCRACIA

A entrevista tinha sido marcada pelo próprio. Era a voz dele no telefone, inconfundível, concordando com a hora e o local, Rua Alegrete, porque ele tinha nascido em Alegrete, no Sul. Mas o interfone foi tocado com certa insistência, quatro vezes, duas mais longas, e nada do cara responder. Eis que chega outro morador do prédio, abre o portão eletrônico e os toques passam a ser na campainha da porta do apartamento. Dois, três, o terceiro duplo, e ouve-se a voz dele ao fundo, inconfundível.

Já vai.

Pereio vestia algo entre bermuda e pijama, havaianas das antigas e camisa social branca, de manga curta, aberta até o umbigo. Vinha de uma temporada de três anos em Olhos D’Água, pequena e pacata cidade do interior de Goiás. Foi pra lá, como disse na entrevista, para “atingir a temperança”. E disse isso com essa cara aí embaixo, à esquerda, de uma das quatro fotos que ilustraram a matéria

Aliás, o cara disse coisa à beça em uma hora de conversa, e como era para uma revista de celebridades – e o espaço dado a gente como Pereio nesse caso não é grande –, muita coisa acabou cortada. Ficou de lado, por exemplo, a sugestão dele para reformular radicalmente o sistema político-eleitoral do País. Na opinião do cara que traçava a Sônia Braga em Dama do Lotação – e falava pro Nuno Leal Maia, marido dela, que só tinha ele no mundo como amigo – a solução para o Brasil era a Lotocracia. A Presidência decidida por sorteio.

O sujeito dá uma cagada e vira presidente da República, resumiu, sucinto, sem se alongar sobre o tema, com a cara da foto aí em cima, à esquerda, e das outras duas ali embaixo, depois de atingir a temperança.

Com vocês, Paulo César Pereio.

Revista Istoé Gente, edição número 107, de 20 de agosto de 2001:


"Atingi a temperança. Voltei a ser normal. Fui muito desmedido e, com a idade, o corpo não agüenta os exageros. Deixei de ser um adolescente senil".

Ator de 63 filmes e com 43 anos dedicados ao teatro, Paulo César Pereio, 60, nunca fez mais do que participações esporádicas na tevê. Sua última participação foi em 1997, em Hilda Furacão, na Rede Globo. De volta à emissora na minissérie Presença de Anita, Pereio quer mudar esta estatística. Depois de uma temporada de três anos em Goiás, para superar uma confessa tendência ao exagero, seja com drogas, álcool e até comida, o ator diz ter atingido o equilíbrio. Nada que o impeça, contudo, de reativar sua metralhadora giratória. Expulso em abril da peça Hamlet – que está em cartaz em São Paulo – sob a acusação de assediar uma atriz, o ator critica Diogo Vilela, protagonista e produtor do espetáculo. “Ele não quer que tenha um cara fazendo sombra a ele”, diz Pereio, pai de Lara, 28, Tomás, 22, João, 17, e Gabriel, sete.


A volta à tevê é definitiva?
Meu problema era mais com novela. Em alguns casos era quase como servir o Exército. Oito meses tendo de estar maquiado às 7h. Hoje há condições melhores. Mas prefiro fazer personagens de impacto com uma permanência não muito superlativa, como em Presença de Anita. Se o cara não está na “Grobo”, está morto. Duas vezes por semana passa filme meu no Canal Brasil, então eu estou no cinema. Picasso morreu, mas se fizerem uma exposição, a arte dele vai estar lá.

Você prefere fazer teatro?
Às vezes é uma lenha, como agora com o Diogo Vilela e o Marcus Alvisi (diretor de Hamlet), uma turma que não tem nada a ver. Vi opiniões da Bárbara Heliodora (crítica de O Globo), do José Celso Martinez Corrêa, dizendo que minha estatura artística era muito superior à deles. Isso incomodou os caras. Fui expulso da peça como tarado. Deixei gravada uma brincadeira na secretária eletrônica de uma atriz (Rita Elmor), falei: “Tara, você é minha tara”. Ela se queixou com o Diogo dizendo que tinha medo de mim. Isso serviu de pretexto para me chutarem. O Diogo não quer um cara que faça sombra a ele.

Mas o que acontecia?
Quando eu fazia o Fantasma, ele ficava um pouco chateado e reclamava que eu não olhava pra ele. Toda hora tinha piti. E aí teve esse episódio estranho. Queria convidar o pessoal para assistir a um filho meu, o João, numa peça. Telefonei para a menina. Há dois meses a gente convivia e nunca faltei com respeito. Ela trabalhava na Globo, tem filho, não é ingênua. Deixei gravada a brincadeira. Agora ela deve estar arrependida e sabe que foi usada. O Diogo não estava agüentando. E os caras não iam dizer: “Ô Pereio, você tá fazendo muito bem, piora aí”. Quando fui expulso não argumentei nada. Mas fiquei um pouco aliviado. Estava me sentindo um estranho no ninho.

Por que se isolou três anos em Goiás até voltar ao Rio para fazer Hamlet?
Morava em Olhos D’Água, uma cidade a 90 quilômetros de Brasília. Queria uma vida mais equilibrada. Se você quer evitar as drogas, álcool, continuar vivendo em situações que te seduzam para isso não é muito inteligente. Fui para lá atingir a temperança. Tenho tendência ao exagero. Sou uma pessoa extremada, até para comer.

Você parou de beber e de usar drogas?
Atingi a temperança. Voltei a ser normal. Fui muito desmedido e, com a idade, o corpo não agüenta os exageros. Deixei de ser um adolescente senil. Durante a peça, forcei a barra para ficar abstêmio. Exagerei no bom comportamento. Com a expulsão tive uma pequena crise alcóolica. Tirei um pouco a válvula da panela de pressão. Meu filho, João, ficou preocupado e procurou o Antônio Pedro (ator), o Hugo Carvana e o Tunga (artista plástico). O plano era me internar em São Paulo. Quer dizer, era seqüestro. Achei engraçado o Antônio Pedro dar uma dessa porque ele estava no elenco da peça e viu que eu não estava maluco. O Carvana estava começando um filme. Pô, se ele estava preocupado, tinha personagem à beça pra eu fazer no filme dele.

Como foi colocar um marcapasso?
Tive um bloqueio no coração. Botei o marcapasso e voltei a ser normal. Foi há dois anos e até agora nem examinei. Se por acaso começar a baquear eu vou lá e troco por outro. É um geradorzinho.

Como se relaciona com sua ex-mulher, Cissa Guimarães, depois que passou oito dias preso por não pagar pensão, em 1994?
Foi uma declaração de amor dela. Foi ciúme. Eu tinha engravidado outra mulher. Me botar na cadeia foi uma manifestação. Foi só falar bem e ela abriu a cela logo, a chave estava com ela. Eu não ia pagar mesmo.

Pretende se casar de novo?
Não, não sou bom nisso. Há cinco anos namoro uma cientista da Fundação Oswaldo Cruz. Ela tem o filho dela, eu tenho os meus. Moramos no mesmo prédio, mas ela na casa dela, e eu na minha.

sábado, 18 de abril de 2009

TREM DAS CINCO

A matéria começou no início da noite anterior, no banheiro da redação, quando um gesto atolado levou o papel de enxugar rosto ao olho. No dia seguinte, às 4h45, o carro do jornal parava na frente de casa, com destino a Japeri. O olho estava vermelho e lacrimejava um pouco. Nada que colírio e lenço não resolvessem.

O jornal tinha feito pesquisa sobre os transportes públicos da cidade e a pior avaliação era dos trens, administrados na época pelo governo do estado. A pauta era conferir essa avaliação in loco. Escolher um dos ramais, no caso Japeri, achar alguém que fosse até o fim da linha, na Central, e pegar o primeiro trem ao lado do personagem. Fomos eu e o fotógrafo Marcelo Sayão, sujeito que, ao meio-dia no verão do Rio, já traçou uma feijoada completa antes de uma pauta em Bangu.

Em Japeri, às 5h10, foi fácil achar a personagem. Na primeira abordagem, apareceu dona Cirlene. O olho incomodava, ardia, e ela faria a viagem até a Central, num trajeto que repetia há 13 anos. Conversamos bastante até a terceira estação. Depois ela continuou sentada e eu fiquei em pé, com a batata da perna encostada na perna de outra senhora sentada, um dos braços colado na costela de um sujeito ao lado e o queixo a milímetros do couro cabeludo de uma dona baixinha, que se agarrava à barra onde eu também segurava.

Ninguém se movia, praticamente, e pro Sayão foi mais difícil; mas ele resolveu o problema enfiando meio corpo pra fora do trem e fazendo uma foto bem ilustrativa de mais um novo dia nessa nossa cidade maravilhosa. De um lado, imagens borradas de barracos na beira da ferrovia, efeito da velocidade nem tão alta assim do trem. Do outro, gente espremida numa janela, em primeiro plano o sujeito de olho fechado, tentando abstrair alguma coisa, e a senhora encarando a câmera com cara de zangada. Ao fundo, três metades de corpos pra fora da porta, de costas pra lente, a vislumbrar o horizonte onde os últimos vagões faziam a curva e, lá atrás, o sol começava a despontar. Deu até pra esquecer o olho.

Hoje o sistema ferroviário do Grande Rio é privatizado. Não tive a oportunidade de voltar a andar de trem desde então, mas, pelo que aconteceu na quarta-feira, acho que não mudou muita coisa.

A matéria abaixo foi publicada dentro de uma arte que mostrava os trilhos e as estações. Cada estação era um quadradinho de texto acompanhando o trajeto do trem. Por isso essa estrutura. Quanto ao olho, só ficou bom após consulta médica, aplicação de pomada e dois dias de visão tapada, sem tirar o curativo, pra cicatrizar a ligeira lesão na córnea que o papel do banheiro da redação havia provocado, segundo o oftalmologista.

Jornal do Brasil, edição de domingo, 18 de agosto de 1996:

“Já teve homem que puxou o revólver só pra pegar o lugar do outro. Também já vi uma mulher pegar uma tesoura e ameaçar um cara que tava se esfregando nela. Esse tipo de coisa é normal aqui”

5h10, estação de Japeri:
A empregada doméstica Cirlene Pereira, de 51 anos, espera uma amiga para entrar no trem que, se tudo correr bem, a levará até a Central em uma hora e meia de viagem. “Não dá pra confiar no trem porque a gente nunca sabe se ele vai quebrar”, diz, com a autoridade de quem segue a mesma rotina há 13 anos.
5h35:
Cirlene já está sentada no trem, que parte com cinco minutos de atraso. Sentar, aliás, é um luxo restrito aos moradores de Japeri e aos mais rápidos de Engenheiro Pedreira, a segunda parada do percurso. “Depois disso, achar lugar é o mesmo que ganhar na loto”, compara Cirlene, que da Central ainda pega um ônibus em direção à Zona Sul, onde trabalha.

5h42, estação de Queimados:
O trem chega à 3ª estação do ramal de Japeri e já está lotado. Espremida no banco, Cirlene estranha a tranqüilidade da viagem. “Já teve homem que puxou o revólver só pra pegar o lugar do outro. Também já vi uma mulher pegar uma tesoura e ameaçar um cara que tava se esfregando nela. Esse tipo de coisa é normal aqui”, conta. Medo mesmo ela só sente há pouco tempo, com a divulgação das suspeitas de sabotagem no sistema da Flumitrens. “Todos aqui estão preocupados”, afirma a doméstica.

5h57, estação de Nova Iguaçu:
Depois de passar por Comendador Soares e Austin, o trem chega à sexta estação do ramal. De Nova Iguaçu, o carro segue viagem abarrotado e já com passageiros pendurados do lado de fora das portas, que não mais serão fechadas até o fim do trajeto. Apesar da superlotação, os passageiros garantem que o trem está vazio. “Hoje tá muito bom, dá até pra se mexer”, diz um deles, revelando o bom humor necessário para suportar a viagem.

6h30, estação de Cascadura:
A situação começa a melhorar. Depois de quase uma hora de viagem e de passar por 16 estações, o trem já não está superlotado, e deve seguir assim pelas três estações restantes, até a Central. “Só é assim quando não tem atraso, ou o trem não quebra, o que é raro”, se apressa em alertar Cirlene.

7h, Central do Brasil:
Após passar uma hora e meia espremida entre centenas de pessoas, a doméstica sai comemorando o que, segundo ela, foi uma das melhores viagens de trem da sua vida. Apesar da felicidade momentânea, Cirlene não pensa duas vezes antes de dar uma nota para os trens urbanos: “É zero”.