sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

NEVE

O primeiro contato foi logo depois de acordar, oito e pouco da matina, ao abrir a cortina da janela do hotel. A noite da chegada tinha sido fria, claro, mas nada muito diferente de Gramado, e além disso praticamente não saímos daquele lugar muito bem aquecido, que em cima era restaurante e embaixo, no subsolo, boate, e onde a garçonete era a Natasha Kinski, a atendente do balcão era a Anna Kournikova e na pista de dança evoluíam, uma sorrindo, os olhos fechados, outra entregue à música, de frente pro espelho, ignorando um idiota em volta, Ana Paula Arósio e Nicole Kidman.

A cortina do quarto do hotel era grossa, pesada, e assim que foi aberta mostrou aquela imagem inédita, nunca antes vista, um jardim quase todo branco. Mas neve mesmo, daquela que cai em flocos, nos filmes e nas lembrancinhas mais bregas, só veio a aparecer no estádio de futebol fantasma, inaugurado em 1955 para celebrar o décimo aniversário da rendição nazista. Tinha sido erguido em alguma ruína da Segunda Guerra e parecia incrustado no alto de um pequeno monte, como um teatro grego. Mesmo abandonado há mais de vinte anos, mantinha intactos o campo de futebol, com traves e marcações, e boa parte das arquibancadas. Em volta, nas bordas daquele vale, as barracas de camelô ofereciam uma infinidade de produtos, do capacete nazista perfurado a bala ao sobretudo do comandante soviético, da pistola usada, sim, com certeza, no motim do gueto, ao terço benzido por Sua Santidade, o papa. E foi quando eu examinava nas mãos um quepe bege, com a foice e o martelo bem no meio da testa, que começou a nevar. Milhares de flocos do mesmo tamanho, que caíam devagar, como que flutuando, e que voltaram a cair no pátio do palácio presidencial da Polônia, durante a visita do presidente brasileiro, o primeiro da história a aparecer por lá, à frente de uma comitiva enorme de políticos, empresários, convidados de multinacionais e, lógico, jornalistas.

Abaixo, a matéria

Revista Istoé Gente, edição número 135, de 4 de março de 2002

“Ah, nisso eu sou Romário. Quanto a isso não há dúvida”

Uma menina de 14 anos e um craque de futebol mundialmente conhecido fizeram com que a visita de Fernando Henrique Cardoso à Polônia – a primeira de um presidente brasileiro àquele país – não fosse apenas mais uma série de encontros oficiais, endurecidos pela rigidez dos protocolos diplomáticos. A menina, Júlia Cardoso Zylberstajn, viajava pela primeira vez ao exterior com os avós, o presidente e a primeira-dama, Ruth Cardoso, sem a companhia de outros parentes. Talvez contagiado por sua presença, FHC não escondia o bom humor, que chegou a provocar surpreendentes declarações de apoio a Romário, na luta do atacante para ir à Copa do Mundo de 2002. No primeiro dia em Varsóvia, durante passeio pela Cidade Velha, centro histórico da capital polonesa, o presidente não quis falar sobre a campanha para sua sucessão, mas não resistiu a uma pergunta sobre a convocação, ou não, do craque para a seleção. “Ah, nisso eu sou Romário. Quanto a isso não há dúvida”, afirmou.

Se o artilheiro vascaíno foi assunto na Polônia sem sair do Rio de Janeiro, Júlia só precisou ir a um evento da programação oficial do presidente em Varsóvia para dar um toque de suavidade à comitiva do avô. Ainda no domingo, durante o concerto no Teatro da Orquestra Sinfônica de Varsóvia – patrocinado pela Brasil Telecom –, ela sentou-se na mesma fila dos avós, do presidente da Polônia, Aleksander Kwasniewski, e da primeira-dama Jolanta Kwasniewska.

Ao lado de dona Ruth Cardoso, a filha de Beatriz Cardoso e de David Zylberstajn (ex-presidente da Agência Nacional de Petróleo e ex-genro de FHC) acompanhou a apresentação da Orquestra Sinfônica da Rádio e Televisão Polonesa, que, regida pelo polonês naturalizado brasileiro Henrique Morelembaum, tocou a abertura de O Guarani, de Carlos Gomes, além das Valsas Humorísticas, de Alberto Nepomuceno, e o concerto para piano e orquestra Formas Brasileiras, de Hekel Tavares. No fim do programa tipicamente brasileiro, a menina, que junto com o irmão, Pedro, 9, costumava dormir no quarto dos avós quando visitava o Palácio da Alvorada, não escondeu a empolgação com o encerramento preparado pela produção do concerto. Sutilmente, acompanhou com a cabeça o som dos nove ritmistas de escolas de samba cariocas que, comandados pelo mestre de bateria Jorjão, tocaram Aquarela do Brasil junto com os músicos poloneses.

O bom humor de Fernando Henrique continuou afiado no segundo dia da viagem, durante a entrevista coletiva realizada após a reunião no Palácio Presidencial, onde os presidentes trataram de assuntos em comum entre os dois países. No discurso antes da entrevista, Fernando Henrique arrancou risos ao dizer que tinha estado na Polônia para aprender. “A primeira coisa que aprendi foi a pronunciar o nome de meu colega, ‘Qua-chi-niévski’”. FHC elogiou a vodka polonesa servida no jantar de domingo, quando foi informado por Kwasniewski de que o Brasil exportava álcool para a Polônia. Na ocasião, o presidente tranqüilizou o colega polonês que, em tom de brincadeira, manifestara a preocupação de que o álcool brasileiro pudesse prejudicar a qualidade da principal bebida da Polônia.

“Disse a ele que, provavelmente, o álcool exportado pelo Brasil só era bebido por automóveis”. Até a última pergunta da entrevista – feita ao presidente polonês a respeito de boatos sobre a possível candidatura da primeira-dama à prefeitura de Varsóvia – gerou brincadeiras de FHC. Depois da resposta do colega, ele pediu a palavra para um último comentário. “É só para dizer que, se ela se candidatar, terá o meu voto.”

Não faltou quem pegasse carona na descontração do presidente para garantir momentos inesquecíveis. Foi o caso de Jorjão e seus ritmistas, que ganharam uma foto ao lado de Fernando Henrique. “Pedi e ele aceitou na hora. Essa foto vai para o currículo”, disse o mestre de bateria da Acadêmicos do Grande Rio.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

PAUTA ESTRANHA

Não dá pra lembrar o motivo, o que aconteceu no Rio de tão importante para Niterói, mas o fato é que veio a ideia, oriunda muito provavelmente da cachola do chefe da redação na época, idiota completo. O jornal passaria a ter uma sucursal no Rio, que funcionaria na fiat Uno pilotada pelo valente Itamar, motorista dos melhores que até já saiu nas páginas do jornal, de dorso nu, em frente à bela Lagoa de Itaboraí, em foto que ilustrava a matéria sobre o abandono do local.

Seria uma sucursal móvel, dotada de motorista, fotógrafo e repórter, que passaria a sair da redação por volta das 7h30, à caça do que fosse notícia no Rio, e pobre da chefe de reportagem, obrigada a arrumar o que fazer já tão cedo para a nova equipe. Foram tempos esquisitos, de acordar com o céu escuro, pegar ônibus, barca, e voltar logo depois pro Rio, para fazer pautas que até então jamais seriam entregues a qualquer repórter de um jornal que se preocupava, essencialmente, com o lado de lá da Baía de Guanabara.

E aquela pauta eras dessas que, de acordo com as prioridades da reportagem do velho e bom O Fluminense, não fazia o menor sentido. Consistia em deixar de lado os valões de São Gonçalo, os camelôs de Alcântara e as delícias de Niterói, cidade maravilhosa, para atravessar a ponte e fazer a mesma matéria que as agências de notícias, baluartes do editor de um jornal pequeno, enviariam dali a algumas horas. O País vivia tempos diferentes, com novos ventos na economia. Depois de um período curto em que a moeda brasileira passou a ser uma sigla, a URV (Unidade Real de Valor), o Real começava a se consolidar. Nas ondas do sucesso do plano, Fernando Henrique percorria o Brasil andando de jegue e comendo buchada, com chapéu de cangaceiro, prestes a vencer Lula já no primeiro turno das eleições de 1994. No lugar dele, no Ministério da Fazenda, assumiu Ciro Gomes, e a pauta era a primeira visita dele ao Rio como ministro, em evento concorridíssimo no auditório da associação comercial da cidade, lotado de jornalistas, entre eles um repórter do velho O Fluminense, sem gravador.


Abaixo, a matéria.

Jornal O Fluminense, edição de sábado, 10 de setembro de 1994

“O presidente Itamar Franco colocou os bois adiante dos carros, onde eles têm de estar. Eu entro agora no Ministério para trabalhar com a mesma equipe que elaborou o plano e dar continuidade a esse programa”

O ministro da Fazenda, Ciro Gomes, garantiu ontem, em encontro na sede da Associação Comercial do Rio de Janeiro, que os fundamentos da estabilização econômica serão mantidos e que os preços permanecerão estáveis. O ministro esteve na associação para fazer um balanço sobre o programa econômico do governo e foi ouvido por cerca de 300 pessoas, entre empresários, líderes sindicais e representantes de classe. Ele também ouviu perguntas e sugestões de alguns líderes empresariais e sindicais, na palestra que começou por volta das 11h e durou duas horas. Ciro Gomes estava acompanhado dos ministros da Justiça, Alexandre Dubeyrat, e da Comunicação, Djalma de Moraes.

O ministro da Fazenda afirmou que o Plano Real é fundamental para o Brasil, já que nenhuma abordagem dos problemas estruturais do País seria possível diante do quadro de hiperinflação que estava se formando. “O presidente Itamar Franco colocou os bois adiante dos carros, onde eles têm de estar. Eu entro agora no Ministério para trabalhar com a mesma equipe que elaborou o plano e dar continuidade a esse programa”, disse.

Em resposta ao presidente da Confederação Nacional do Comércio, Antônio de Oliveira Santos – que reclamou das críticas generalizadas que os comerciantes vêm recebendo da opinião pública e da imprensa, que os acusam de buscar o lucro a qualquer custo –, Ciro Gomes disse que em qualquer área existem pessoas boas e más. “Há comerciantes honestos e desonestos, e acredito que os primeiros são maioria. A princípio, acreditamos em todas as pessoas, mas todos podem ter certeza que o governo será duro com aqueles que agirem contra a lei”.

Questionado pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio, Arthur João Nonato, sobre a necessidade de estímulos à manutenção e aumento dos níveis de emprego, o ministro afirmou que esse problema é a grande chave para acabar com a miséria e, conseqüentemente, um dos principais objetivos da política econômica do governo. “Essa questão é importantíssima, mas vale ressaltar que, hoje, a administração do Ministério da Fazenda é semelhante àquele número de circo dos pratos: o equilibrista roda os pratos nos pinos e não pode deixar nenhum cair. Nós também estamos tendo de cuidar de vários assuntos ao mesmo tempo”.

Ciro Gomes também recebeu o apoio da Federação das Associações de Donas de Casa do Rio e do presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias da Construção Civil do estado, José Boaventura Ferreira. Este último aproveitou para pedir a volta de uma política de financiamento que diminua o atual estado de abandono em que se encontra o setor, não só no Rio, mas em todo o País. O ministro concordou com Boaventura e disse que a decadência da indústria da construção civil é mais um exemplo do colapso em que se encontra todo o País.

O ex-governador do Ceará revelou sua esperança de que o presidente Itamar acelere o processo de saneamento financeiro da Caixa Econômica Federal, mas confessou que não se pode esperar muito de um ministro que chega para garantir, fundamentalmente, a estabilização econômica. “Acredito que no ano que vem, quando não estarei mais servindo o governo como ministro, o Brasil já possa apresentar um grande crescimento econômico, o que vai gerar maiores ofertas de emprego e moradia, por exemplo. Estamos trabalhando para isso”, afirmou.

Depois de ouvir o presidente da Associação Brasileira de Supermercados, Levi Nogueira, o ministro homenageou todos os donos de supermercado que permitiram a queda dos preços, e aproveitou para pedir a adesão daqueles que ainda não estão agindo dessa maneira. “A grande maioria dos donos de supermercados está colaborando com o governo. Eles estão agindo de acordo com as determinações do presidente, que prevêem um plano sem sustos, sem choques”.

Ciro Gomes aproveitou o discurso do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda, Luiz Oliveira Rodrigues, para tratar de dois temas também considerados fundamentais: a privatização e o entendimento entre trabalhadores e empresários. O ministro afirmou que Itamar foi o presidente que mais avançou na questão das privatizações em toda a história do País, e citou o exemplo da CSN, hoje a maior companhia privada do País.

Apesar disso, Ciro avisou que nem ele nem o presidente Itamar vêem a privatização como um modismo neoliberal. “A privatização não é um fim, e sim um meio importante para reduzir as dívidas do País. Está provado no mundo inteiro que ela é um instrumento eficaz para fortalecer a capacidade gerencial. No entanto, não se deve afrouxar o controle sobre a manipulação do patrimônio público. Não vamos jogar esse patrimônio pela janela”.

Quanto ao entendimento entre as câmaras setoriais, o ministro espera que se encerre o falso conflito entre trabalhadores e empresários. “O trabalho e o capital podem ter um espaço comum de atuação, com a valorização do diálogo”, concluiu.

O presidente da Associação dos Exportadores do Brasil, Marcus Vinícius Pratini de Moraes, pediu ao ministro providências para diminuir as três principais dificuldades dos exportadores brasileiros: os tributos excessivos (PIS, Cofins, IPMF), os altos custos dos juros e a lentidão das leis portuárias. Ciro Gomes prometeu lutar para diminuir os obstáculos à exportação no Brasil.

Quanto à questão tributária, o ministro afirmou que a intenção do presidente é desonerar ao máximo o produto brasileiro na direção do exterior. “O mercado lá fora é muito competitivo e o Brasil não pode exportar impostos”, disse. Além disso, Ciro contou que o governo já está debatendo, há algum tempo, medidas para diminuir os custos de transferência e tornar as leis portuárias menos lentas.

No que diz respeito aos altos custos de juros, Ciro Gomes disse que, antes do governo Itamar, esses juros eram de 51% ao mês, e agora eles não passam de 3,8%. “Nós temos que comparar esses juros aqui dentro do País. É perverso compará-los com o mercado internacional por razões macroeconômicas”, explicou o ministro, que lembrou ainda o risco que representaria uma queda maior na taxa de juros. “O consumo pode extrapolar na base do crédito e do acesso fácil e, com isso, perderíamos todo o espaço conquistado até agora”.

Ciro Gomes avisou que o plano é expansionista e admitiu que o governo vai precisar aumentar a oferta preventivamente. “Faremos isso com parcimônia, sem os erros dos governos passados, que tentaram correr atrás de um aumento de oferta quando não era mais possível”, disse, sem explicar como o aumento seria feito.

Ao fim do encontro, o ministro deixou a Associação Comercial e falou muito pouco. Questionado pelos jornalistas sobre a reportagem de um jornal de São Paulo, que acusou sua administração no governo do Ceará de crime eleitoral, ele limitou-se a negá-la. “Isso é futrica. No meu governo nunca houve isso”.