domingo, 18 de dezembro de 2011

NO MESMO DIA II

Sérgio Britto e Joãozinho Trinta morreram no mesmo dia. Ontem. Aposto que os dois partiram dessa com certo ar de missão cumprida.
A entrevista com o ator foi feita na casa dele, em Santa Tereza. Já as duas entrevistas com o carnavalesco foram no mesmo lugar, no antigo barracão da Acadêmicos do Grande Rio, na Gamboa. A primeira delas foi às vésperas da segunda Guerra do Golfo. A segunda foi para uma série da revista, em que a vida de alguém relevante era contada em capítulos, um por semana. A última matéria aí embaixo foi o primeiro capítulo dessa série.


Revista Istoé Gente, edição 229, de 22 de dezembro de 2003

“Disse a eles: ‘Não se impressionem com o tombo. Foi de propósito. Caio todo dia num lugar’. E saí de cena.”

Além de atacar os pulmões, a anemia congênita herdada da família por Sérgio Britto, 80 anos, provoca um desequilíbrio inesperado, como um empurrão. Por conta disso, o ator teve cinco pneumonias em 2001. Curou todas, mas não escapou do “empurrão” no mês passado, quando encenava Sérgio 80, na lona cultural de Guadalupe, subúrbio carioca. Diante de 700 pessoas, ele caiu do palco e fraturou quatro costelas. Após alguns segundos de silêncio, levantou-se e, sozinho, subiu os quatro degraus de volta. Sob aplausos, avisou que continuaria a peça.

A determinação mostrada no episódio não é muito diferente da que fez o jovem estudante do quarto ano de medicina decidir pelo teatro. Mesmo que até hoje ele não saiba por que aceitou entrar no Teatro Universitário de Jerusa Camões, em 1945. Acompanhando um amigo à sede da UNE (União Nacional dos Estudantes), no Rio, o rapaz tímido que começava a admirar as peças de Ziembinski e Nelson Rodrigues, mas ainda preferia o cinema, foi surpreendido por Jerusa. “Ela me achou simpático e perguntou se eu queria fazer teatro. Acho que o ‘sim’ que falei estava contido em mim há tempos”, conta.

Na primeira peça, Romeu e Julieta, Sérgio estreou junto com Sérgio Cardoso, ator morto em 1972. Na época, o teatro ainda era brincadeira para o médico residente que dividia seu tempo entre os ensaios e o trabalho no pronto-socorro do Hospital Souza Aguiar. Com os colegas da segunda peça, Hamlet, não era muito diferente, com exceção de Sérgio Cardoso. “Ele já era um ator. O Sérgio foi uma inspiração, o culpado de eu estar fazendo teatro”, resume Britto.

Quatro dias antes da estréia de Hamlet, em 6 de janeiro de 1949, o ator se formava em Medicina, mas nunca foi buscar o diploma. Sucesso no Rio, a peça viajou por São Paulo, e foi em Campinas que Sérgio Britto abandonou a medicina. Pressionado pelo pai, o funcionário público Lauro, teve com ele a conversa definitiva:

– Você está há três meses fazendo Hamlet. E a medicina?, quis saber o pai.

Após uma noite sem dormir, o ator respondeu no dia seguinte, dizendo que iria fazer teatro.

– Mas você disse que não era ator, retrucou seu pai.
– Também acho que não sou, mas vou tentar ser, disse Sérgio.

Logo depois, Britto e Cardoso montaram, com outros amigos, o Teatro dos 12, que marcou o início da carreira profissional dos dois. As dúvidas sobre se teriam o apoio da família se dissiparam na primeira montagem do grupo, um novo Hamlet. “Faltou o bilheteiro um dia e meu pai o substituiu”, conta Sérgio.

Por falta de dinheiro, a companhia durou um ano. Convidado para interpretar em São Paulo, em 1950, Sérgio participou da fundação do Teatro de Arena, de José Renato Pécora. Depois ingressou na companhia teatral de Maria Della Costa, onde encontrou Gianni Ratto, o diretor que em 1954, em O Canto da Cotovia, de Jean Anouilh, o faria considerar-se, definitivamente, um ator. Jovem e bonito, Sérgio foi escalado para viver o Delfim, feio e frágil. Seguindo os conselhos do diretor, conseguiu deformar o próprio corpo, livrando-se do estigma de galã. “O Gianni trabalhou em mim uma emoção verdadeira, não em cima da minha beleza.”

Em São Paulo, Sérgio também conheceu Fernanda Montenegro e Fernando Torres, num período rico em idéias e diversão. Após cada espetáculo, os atores jantavam e caminhavam a pé, de madrugada, para tomar café no ex-tinto Jeca, na esquina da Rua Ipiranga com Avenida São João. Compravam os jornais do Rio e iam dormir, com o dia claro. “Foi um período de grandes e maravilhosas memórias, quando começamos a sonhar uma companhia”, lembra Fernanda Montenegro.

Montado com Fernanda, Fernando, Gianni e, mais tarde, Ítalo Rossi, o Teatro dos Sete começou a surgir num momento difícil para Sérgio Britto. Com a saída de Gianni Ratto da Cia. de Maria Della Costa, o ator se viu obrigado a optar entre duas pessoas queridas. “Foi terrível, mas não traindo a Maria, trairia a mim mesmo.”

Depois de uma passagem pelo Teatro Brasileiro de Comédia, no Rio, Sérgio e seus futuros sócios decidiram montar o Teatro dos Sete. Para isso, o antigo galã precisou usar seus dotes de sedução. Como o grupo acumulava as peças com o trabalho na televisão desde 1956, no Grande Teatro Tupi, Sérgio, que dirigia o programa, entrava no início pedindo contribuições para a futura companhia. “Fui um sedutor canalha. Dizia: ‘Vocês vão poder nos assistir de perto, ir nos bastidores para um autógrafo, quem sabe um beijinho’, uma conversa muito safada”, diverte-se.

Na estréia de O Mambembe, em 1959, o Teatro Municipal do Rio estava lotado. Entre novos sucessos e um fracasso de público, O Cristo Proclamado, de Francisco Pereira da Silva, o grupo chegou ao Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, em 1961, quando Sérgio acumulou as maiores vaias da carreira. Na pele do jornalista Amado Ribeiro, dizia falas como “minha empregada fez aborto com talo de mamona. Tá num morre, não morre”. A vaia era estrondosa. “Com o tempo eu ficava esperando a vaia”, conta o ator. Mas com a renúncia de Jânio Quadros, o público caiu muito.

Por sorte, havia a televisão, apesar das dificuldades das gravações ao vivo. Numa delas, Sérgio dirigia Fernanda Montenegro. A cena terminava com a atriz olhando pela janela, com malícia, mas o diretor de câmera, Mário Provenzano, acostumara-se a finalizar cada ato com uma mulher chorando. “A câmera ficou quase um minuto na Fernanda, até que falei para ela chorar”, lembra Sérgio.

No palco, um dos maiores apertos aconteceu no Irã, em 1974, durante apresentação dos Autos Sacramentales de Calderon de La Barca, na Planície das 50 Colunas, monumento da antiga Pérsia. Com a tensão da estréia agravada pela proibição do nu dos atores, imposta pelo xá Reza Pahlevi, Sérgio acabou cuspindo durante a primeira fala o pivô que substituía um dente recém-perdido. “Continuei o espetáculo e, quando tudo tinha acabado, achei o pivô incrustado numa madeira, na platéia vazia.”

Ao longo da carreira, o ator só não foi assíduo no cinema. Em 1951 e 1952, fez roteiro e assistência de direção nos estúdios Maristela e Multifilmes, em São Paulo, mas a falência dos dois mudou sua trajetória. “Acho que o cinema não tinha que vir para mim”, diz Sérgio, que foi sondado para o lugar de Paulo Gracindo em Terra em Transe, de Glauber Rocha, e lembra-se de ter feito dois filmes, Society em Baby-doll e O Desafio.

Se o cinema não vingou, a paixão pelo teatro marcou a vida do ator a ponto de fazê-lo, mesmo sem muita convicção, tentar o suicídio logo no início da carreira. Com 23 anos, Sérgio acumulava a dúvida entre teatro e medicina com a descoberta da homossexualidade, hoje admitida publicamente pelo ator. Embriagado na volta de um baile de Carnaval, cortou-se com uma gilete. “Não foi com a fúria de quem quer se matar”, admite o ator, que tirou suas lições do episódio. “Fiquei sábio depois daquele dia.”

E era sobre a sabedoria de envelhecer o texto dito por Sérgio Britto nos 10 minutos finais de sua apresentação em Guadalupe, quando a dor das costelas quebradas, que não o incomodara até ali, começou a latejar com força. Com a determinação mostrada em 58 anos de carreira, levou o espetáculo até o fim, e ainda brincou com a platéia antes de se despedir, quase sem agüentar mais de dor. “Disse a eles: ‘Não se impressionem com o tombo. Foi de propósito. Caio todo dia num lugar’. E saí de cena.”


Revista Istoé Gente, edição 187, de 3 de março de 2003

“Nasci em novembro. Portanto, fui concebido em fevereiro. Sou filho do Carnaval.”

O lado direito do corpo está paralisado desde a isquemia cerebral sofrida em 1996, mas é com desenvoltura que o carnavalesco Joãosinho Trinta circula pelo barracão da Acadêmicos do Grande Rio, escola que defende há dois anos. Afinal, a rotina de preparar um desfile de escola de samba acompanha há 40 anos o filho da operária Júlia Jorge Trinta e do mestre de obras José de Almeida Trinta, morto quando Joãosinho tinha 2 anos.

Antes de fazer história ganhando cinco carnavais seguidos, de 1974 a 1978, no Salgueiro e na Beija-Flor, o maranhense de São Luís realizou o sonho de ser bailarino do Teatro Municipal cinco anos após sua chegada ao Rio, em 1951, sozinho num navio. Hoje, ele tem uma explicação bem-humorada para sua ligação com a maior festa popular do Brasil. “Nasci em novembro. Portanto, fui concebido em fevereiro. Sou filho do Carnaval.”


Em 40 anos, qual foi o seu Carnaval mais marcante?
O de 1989 na Beija-Flor, com o enredo Ratos e Urubus. Apesar de não ter ganhado (a Beija-Flor perdeu o título para a Imperatriz Leopoldinense por meio ponto), as pessoas me falam desse desfile até no Exterior. Ter entrado para a história compensa. Lamento somente ter esquecido de mostrar o lixo de algum jurado do desfile, porque mostrei os lixos de diversos setores da sociedade.

Naquele ano, a Beija-Flor saiu com uma imagem do Cristo Redentor coberta por ordem da Justiça. O que acha dessa nova polêmica da escola, que queria mostrar Jesus atirando no diabo?
Não tomei conhecimento, mas posso perguntar: será que não estão querendo reeditar a polêmica?

Ultimamente seus desfiles não causam tanta polêmica. Por quê?
Nunca busquei sensacionalismo. Ele surge de vez em quando, mas a intenção não é essa. É claro que se busca no Carnaval o inusitado, algo que possa surpreender como o astronauta sobrevoando a avenida no último desfile da Grande Rio. Mas a polêmica quem faz são os outros.

O apoio de empresas ao desfile tirou a identidade do Carnaval?
Esse tipo de pensamento é romantismo barato. Como manter um espetáculo grandioso sem estrutura? Quem fala isso nunca assistiu a um desfile de escolas do quinto grupo nos subúrbios. As escolas cariocas não são apenas as da Marquês de Sapucaí que a tevê mostra. Para mostrar tem de ser um espetáculo internacional, precisa estrutura. A Grande Rio está dando um exemplo de como trabalhar com a colaboração de empresas sem se deixar influenciar pelo merchandising.

De que forma isso ocorre?
Esse ano a Vale do Rio Doce está colaborando com a escola, mas tivemos cuidado de evitar merchandising no desfile. Não precisa. A mineração no Brasil é um assunto vasto. É só saber fazer, porque não dá para dispensar o apoio das empresas. Só com a verba que a Liga das Escolas de Samba repassa hoje, fica difícil de fazer, com o dólar disparando. Algumas escolas podem ter exagerado no merchandising em outros desfiles, o que gerou comentários.

A frase “pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”, afinal, é sua ou do jornalista Elio Gaspari?
Me arrependo de não ter guardado um artigo do Elio Gaspari no jornal no ano passado, em que ele deixava claro que a frase é minha.


Continua pensando assim?
Continuo. Me referi não ao luxo superficial de riqueza, mas ao luxo que o povo gosta, da emoção, alegria, criatividade. E falava dos pseudo-intelectuais, que diziam que eu não retratava a realidade do Brasil. A miséria existe mas o Brasil não é miserável. Tem riquezas para dar e sobrar. Quem torna esse país miserável são políticos, corruptores e
ladrões, homens contados a dedo.

A quem se refere exatamente?
Preciso citar? Não preciso. Vocês da imprensa sempre denunciam.

Qual o real poder de um carnavalesco na escola?
A Grande Rio tem um patrono, um presidente executivo e uma diretoria, que administram a escola. Na parte artística fica tudo comigo. Chego no barracão às 9h e, quando precisa, fico até de madrugada.

O que mudou após a isquemia?
Tinha padrões errados tanto de alimentação como com o meu corpo. Não descansava, não me alimentava direito. Hoje como regradamente e faço a sesta religiosamente. Não atendo ninguém depois do almoço e ainda tomo um vinho tinto por recomendação médica, porque é benéfico para o coração. Também fiz reciclagens mentais depois da doença.

Que tipo de reciclagens mentais?
Tinha bloqueios e com a isquemia fui entender muita coisa por intuição. Jung dizia que muita gente morre antes de ter nascido completamente, porque carrega as mazelas da infância e até de vidas passadas, e não recicla nunca. Envelhece porque carrega um fardo pesado. Esse ano faço 70 anos e estou me reciclando dos problemas que tive na vida. Depois de uma isquemia, duas pontes de safena e uma mamária (em 1997), me sinto melhor do que há 40 anos.

Teve medo de morrer?
Nunca. A isquemia te dá uma noção de que você está perigando, que não é brincadeira. Mas no hospital sua intuição lhe esclarece muito, você entende os conselhos que te davam e, principalmente, os conselhos do seu corpo. Antes da isquemia tive milhões de avisos. Me sentia mal, tinha uma dor no peito que levou quase 10 anos. Hoje não dou conselhos, porque ninguém escuta. A quem eu vejo repetindo meus erros, desejo boa isquemia. Porque sobrevivi a uma e mudei.

A paralisia influi no seu trabalho?
A isquemia paralisa metade do corpo. É um certo esforço no desfile, mas nem sinto diante da emoção do povo. No barracão, antes eu metia a mão na massa, hoje sou forçado a delegar poderes.


Pensa em parar?
Planejo viver mais 70 anos. Pretendo fazer uma cirurgia no cérebro a laser e tenho certeza que os movimentos voltarão ao normal. Não sei que tipo de Carnaval farei nos próximos 70 anos, mas quero continuar vivo. Trabalho com o divino. A palavra divino vem do verbo advir. Então divino para mim é o futuro, o que há de vir.

Quando entrou na Beija-Flor tinha conhecimento que ela era financiada pelo jogo do bicho?
Claro que tinha. Graças a Deus o bicho financiava, porque o governo, que devia tomar conta do evento que traz turistas e melhor representa o Brasil lá fora, nunca fez nada. O governo foi relapso, os banqueiros do jogo do bicho não foram.

Não fica constrangido em ter o Carnaval financiado pelo jogo do bicho?
Constrangido eu deveria ficar diante dos governos que não são sensíveis ao Carnaval. As escolas estavam morrendo e só os banqueiros do bicho tomaram conhecimento. Se não fossem eles, ninguém estaria lamentando o fim do Carnaval porque simplesmente ninguém iria conhecer essa festa maravilhosa que é o desfile das escolas de samba.

Como começou no Carnaval?
Em 1963 fui ser assistente de Arlindo Rodrigues no Salgueiro. Tinha know-how de montagem de óperas, porque vinha do teatro. Ainda como bailarino me interessava pela cenografia e pelo figurino, tanto que nos anos 70 cheguei a montar óperas no Teatro Municipal, como Aída e O Guarani.

Você sofreu preconceito por ser bailarino?
Da família, não, mas claro que teve. Era tão apaixonado pela dança que não entendia a reação preconceituosa das pessoas.

Qual foi seu primeiro enredo?
Em 1974, fui campeão com O Rei de França na Ilha da Assombração, no Salgueiro. No ano seguinte fomos bi, mas já estava perturbado pelas mudanças sociais no Rio e principalmente no Morro do Salgueiro.

Que mudanças?
Vi um garoto de 12 anos, que tinha o apelido de Pedro Marreco e era presidente da ala das crianças da escola, virar o maior bandido do morro em dois anos. A bandidagem e o tráfico tinham se instalado e vi que as crianças eram as mais atingidas. Queria fazer um trabalho social, porque naquela época tive a intuição do inferno que o Rio ia se tornar, mas a diretoria do Salgueiro achava que só fazer Carnaval já era demais.


Por isso foi para a Beija-Flor?
O contrato que fiz com o Anísio previa a obra social. Em 1976 vencemos o Carnaval numa época em que só as quatro grandes (Portela, Mangueira, Salgueiro e Império Serrano) ganhavam. Quando saí da escola, 17 anos depois, estava instalada uma creche para 450 crianças, um educandário para 500 e um centro comunitário, entre outras melhorias. Agora na Grande Rio também fazemos um trabalho social intenso, com diversos cursos profissionalizantes.

Quantos meninos tirou do tráfico de drogas com os trabalhos sociais nas escolas de samba?
Não sei especificar quantos, mas já ajudamos centenas. Isso porque só trabalhávamos com crianças carentes e já delinqüentes. Quem não se recuperou, morreu, porque a expectativa de vida no tráfico é muito pequena. Quem ficou conosco sobreviveu e mudou de vida.

A motivação hoje é a mesma?
Trabalho ainda com o Carnaval como quem cumpre uma missão importante para o Brasil. Enquanto o mundo se prepara para uma guerra de cobiça, onde vai predominar a morte, aqui no Brasil estamos preparando a guerra da alegria.


Revista Istoé Gente, edição 237, de 23 de fevereiro de 2004

“Ficou uma fantasia sei lá de quê, mas entrei no baile.”

Do formigueiro no quintal ao carcomido muro da casa onde passou parte da infância, em São Luís, tudo era motivo para despertar a imaginação do menino João Clemente Jorge Trinta. Aos cinco anos, o filho da operária tecelã Júlia Jorge Trinta passava horas observando o trabalho das formigas. Já os buracos do muro se transformavam, na visão do garoto, em palácios, numa antecipação do que a mente do futuro carnavalesco criaria nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. “Minha infância foi cheia de surpresas. Me assombrava a todo momento com pequenas descobertas”, lembra Joãosinho.

Quarto de cinco irmãos (três mulheres e o caçula), João não se lembra do pai, o mestre-de-obras José de Almeida Trinta, morto quando o filho tinha dois anos. Nascido a 23 de novembro de 1933, numa casa da Praça Silva Jardim, morou também na Rua do Alecrim e na Rua da Paz durante a juventude marcada pelas dificuldades financeiras, mas facilitada pelo esforço da mãe mesmo quando a comida era pouca. “Quando só tinha restos de arroz, achava tão gostoso que não sentia a tragédia”, conta ele.

Entre as lembranças da Praça dos Remédios, da igreja no mesmo local e dos coretos da antiga São Luís, o carnavalesco se recorda especialmente das tardes passadas no Teatro Arthur Azevedo. Com 12 anos, já era freqüentador assíduo do local, onde assistia a ensaios de companhias como a de Procópio Ferreira. Apesar do começo trabalhando com teatro amador e teatro de bonecos, por volta dos 16 anos, foi o balé que atraiu definitivamente o futuro carnavalesco para o meio artístico. “São Luís nem tinha academia de dança. Não tenho justificativa, mas essa minha paixão pela dança foi muito forte”, recorda Joãosinho.

Tão forte que o jovem freqüentador das rodas de intelectuais da capital maranhense, que reuniam o ex-presidente José Sarney e o poeta Ferreira Gullar, entre outros, aproveitou a primeira oportunidade para viajar ao Rio de Janeiro, sonho de todo aspirante a artista da época. Promovido de office-boy a auxiliar de escritório de uma financeira, a Cosmos, João conseguiu uma transferência para o Rio. Com suas economias, comprou a mais barata passagem de um velho Ita do Norte, o barco que costumava levar retirantes do Norte e do Nordeste para a então Capital Federal.

Antes de o navio partir, porém, teve um susto e uma grata surpresa. Instalado no fundo do Ita do Norte, foi chamado à sala do capitão. O medo de ser retirado da embarcação por ser menor de idade durou até a chegada diante do comandante, que, mostrando um documento, informou ao passageiro que ele deveria mudar de lugar. “Ele me
disse que, por ser menor de idade, estava sob sua responsabilidade e iria viajar num camarote ao lado do dele”, conta o carnavalesco.

Após 20 dias de um viagem cheia de mordomias inesperadas, Joãosinho Trinta desembarcava no Rio em pleno domingo do Carnaval de 1951. Mal levou suas coisas para a casa de dona Zizi, maranhense amiga da operária Júlia Trinta, foi ao Teatro Municipal do Rio com um firme objetivo: participar do baile que seria realizado ali no dia seguinte e era um dos maiores acontecimentos do Carnaval.

Após conversar com um eletricista do teatro, obteve a promessa de ter a entrada facilitada no baile caso aparecesse com uma fantasia. Uma intensa busca por trapos velhos na casa de dona Zizi resolveu o problema, mesmo que até hoje o carnavalesco não saiba definir o que representava a primeira fantasia que criou. “Ficou uma fantasia sei lá de quê, mas entrei no baile.”

Passado o Carnaval, a primeira providência foi se matricular numa academia de dança, mas o sonho de ingressar no corpo de baile do Teatro Municipal só seria realizado cinco anos depois. Aprovado em concurso, Joãosinho estrearia como bailarino no fim de 1956, como parte do elenco da ópera Coventina. Antes disso, ainda amargaria duras experiências.

Assim que passou no concurso do Municipal, João pediu demissão da financeira. Só não contava com a demora em ser chamado para o balé. No primeiro mês ainda conseguiu pagar o aluguel da pensão onde morava, no Catete, zona sul carioca. Despejado, passou três meses dormindo no bonde que ia do centro da cidade ao Leblon, na zona sul. “Pagava uma passagem e o condutor me deixava dormir no banco de trás, indo e voltando pelo trajeto”, lembra.

Apesar de se alimentar com as amêndoas da Praça Paris, na Glória, João mal saciava a fome. Já desesperado e sem forças, lembra-se de ter suplicado a ajuda de Deus sentado num banco quando o vento provocado pela passagem de um ônibus pelo local levou aos seus pés uma nota de 50 cruzeiros. “Foi um momento de uma súplica e de um atendimento. Fiquei aberto para a energia altamente sábia de Deus”, conta o carnavalesco, que logo depois foi chamado para o Municipal.

Não demorou para que o bailarino começasse a se interessar pela montagem dos espetáculos. Ainda no fim da década de 50, virou chefe do guarda-roupa, cargo que passou a acumular com o trabalho na escola de samba do Salgueiro, onde chegou em 1963. Levado por Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, dois ex-cenógrafos do Municipal, Joãosinho participou da equipe que revolucionou o Carnaval carioca. “O Carnaval era o chamado samba do crioulo doido. O Pamplona e o Arlindo organizaram mais o desfile e começaram a fugir dos temas oficiais para abordar o negro, por exemplo”, explica o carnavalesco.

Com a experiência de quem chegara a montar óperas no Municipal como Aída, no fim da década de 60, Joãosinho deu sua contribuição à equipe numa época em que preparar um desfile era bem mais difícil que nos dias atuais. “Hoje as técnicas, os materiais, está tudo codificado, mas naquele tempo não tinha nada. Tivemos de descobrir tudo”, explica ele que, após a ida de Pamplona e Arlindo para a Mocidade Independente, em 1973, assinou sozinho o Carnaval do Salgueiro de 1974. Com o enredo O Rei de França na Ilha da Assombração, Joãosinho Trinta conquistou seu primeiro Carnaval e abriu seu caminho.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

UM ANO BOM



Janeiro fervia e era preciso comprar um desumidificador, daí a necessidade de sair da agradável umidade do Cosme Velho e pegar o carro até o Leblon. No caminho, já na Lagoa, não dava para deixar de perceber a quantidade de pessoas vestidas com as cores do “maior do mundo”, e todas caminhando na mesma direção. Grupos enormes de gente reunida, que só aumentavam de tamanho na medida em que o carro se aproximava da sede do time deles, daquelas paredes descascadas que há décadas envolvem o campo de futebol. Estádio? Não, o “maior do mundo” não tem estádio. Tem apenas um campo de futebol, e só horas depois de presenciar aquele espetáculo surreal, que se estendia também pelas ruas do Leblon – todos com as cores do “maior do mundo”, caminhando para o mesmo local –, é que pude constatar, já no trabalho, na tevê da redação, que uma multidão suada se espremia, debaixo de sol, nas precárias instalações do “maior do mundo”, isso por volta das quatro da tarde de um dia de semana. O povo ocupava todo o gramado, voltado para um palco improvisado em que Ivo Meirelles fazia U-hu! Sandra de Sá entoava gritos de guerra e Lecy Brandão cantava um pagode. No auge da festa, surge o “melhor do mundo”, jogador que até já jogou muito bem, mas que nunca decidiu nada na vida, e que, tal qual foca amestrada, faz embaixadinhas e demais gracinhas com uma bola de futebol. A multidão delira, grita, berra e no fim de tudo deixa o saldo de um portão quebrado, deixando ainda mais precárias as instalações do “maior do mundo”. Diante dessas cenas, na tevê da redação, é inevitável pensar:
Vem coisa boa aí.

E o ano de fato começa bem, não pelo carioquinha da Globo, que esse, definitivamente, não dá mais pra levar a sério. O ano começa com um Mundial de Clubes chancelado pela Fifa, um torneio reunindo camisas como as do Barcelona, Milan, Boca Juniors, Sporting de Lisboa, Vasco da Gama, o “timão” e o “maior do mundo”. Na divisão das equipes, feita tal qual num drafting de NBA, o melhor jogador do mundo cai no “timão”, e o maior artilheiro vai vestir as cores do “maior do mundo”. O Vasco fica com dois ou três veteranos da seleção, nenhum deles perto do melhor do mundo, muito menos do grande artilheiro. A Globo se anima, investe no torneio e decide transmitir a final ao vivo, no Esporte Espetacular, só que o Vasco elimina o “timão” nas quartas-de-final, vence o “maior do mundo” na semifinal e vai para a final contra o Sporting de Lisboa. A Globo, então, é obrigada a mostrar, domingão de manhã, a vitória do Vasco, que, pioneiro mais uma vez, conquista o Primeiro Mundial de Clubes de Futebol de Areia. Enquanto isso, o “maior do mundo” celebra uma tal Copinha, vencida graças a um gol de pênalti, daqueles bem marotos, e a CBF decide mudar critérios. Não será o campeão brasileiro Sub-20 o único representante do País na primeira Libertadores Sub-20 da história. Será, sim, só pode ser, o campeão da tal Copinha, e o “maior do mundo” recebe, de mão beijada, a chance de ser pioneiro em alguma coisa pela primeira vez na vida. Com uma geração que, dizem os entendidos, é de ouro, do goleiro aos atacantes, vai para a tal Libertadores Sub-20, a primeira da história, como um dos favoritos.

No futebol profissional, depois da saída de um técnico dado a ataques de histeria e de um vagabundo metido a ídolo, o Vasco começa a se acertar. Ricardo Gomes chega. Diego Souza também. E o time engata uma sequência de goleadas e de ótimas atuações fora de casa, que culminam na conquista da Copa do Brasil, a primeira da história do clube. A volta à Libertadores está garantida. Os três jogos finais são vistos no Bar do Nilson, boteco no coração da zona portuária, reduto cruzmaltino em que brilham figuras como Tião Cachaça, vascaíno típico, negro como boa parte do time de 1923, que garantiu ao Vasco vitórias acachapantes nos primeiros confrontos da história contra seus três rivais da cidade, e que fez com que o time nascesse campeão, conquistando o primeiro campeonato carioca do qual participou. Uma conquista e tanto, se levarmos em conta que o “maior do mundo” nasceu vice, e vice de um time que não existe mais, e que em mais de 100 anos de campeonato só ganhou unzinho, justamente aquele em que o “maior do mundo” nasceu vice, em 1912. E mais: A sede do campeão carioca de 1912 fica, até hoje, em frente à carcomida sede do “maior do mundo”, como uma singela lembrança de como o “maior do mundo” nasceu para o futebol. Nasceu vice, e vice do Paisandu, que não é nem o de Belém do Pará.

O “maior do mundo” também disputou a Copa do Brasil, e como franco favorito, mas caiu nas quartas-de-final, abatido por uma carroça desembestada num filme já visto outras vezes. Comemorando efusivamente mais uma carioquinha da Globo, conquistado na fórmula mágica de sempre, os mulambos tomam um sapeca-iá-iá do Ceará dentro de casa, casa aqui em termos figurativos, lógico, porque os mulambos, como se sabe, não têm estádio. No jogo de volta, o “melhor do mundo” começa com tudo, jogando muito, mas depois some do jogo, desaparece, e o Ceará leva a melhor. O juiz deixa de dar um pênalti claro contra o “maior do mundo” e o treinador mulambo, malandro que só ele, reclama do juiz, e continua reclamando semanas depois, em entrevistas coletivas depois dos jogos do Brasileirão, que já estava sendo diputado. Os favoritos ao título? Segundo os entendidos de sempre, eram o “timão” e o “maior do mundo”, que tinha o “melhor do mundo” em seu elenco.

Na Libertadores Sub-20, a primeira da história, “o maior do mundo” se classifica para as quartas-de-final, fica a três jogos do título histórico, mas toma de cinco de um time peruano. Na primeira Libertadores Sub-20, o futebol brasileiro volta pra casa sendo humilhado pelo futebol peruano, e o goleiro mulambo ainda agride o juiz com tapas de Didi Mocó, é obviamente expulso e deixa o campo chorando, aos prantos. Mais um na vasta coleção de vexames internacionais do “maior do mundo”.

Mas no Brasileirão, tudo vem seguindo o script. O “timão” lidera e os mulambos estão logo ali, no encalço, e o “melhor do mundo” vem sendo elogiado por todos os entendidos, que tem de voltar pra seleção, que tem de conduzir o Brasil ao hexa, que é muito melhor que Neymar etc etc etc. Só o que destoa é o Vasco ali, sempre entre os primeiros. Como assim o Vasco? Já conquistou a Copa do Brasil, já tá na Libertadores, e vai disputar o Brasileirão? Vai. E na última rodada do primeiro turno, o Vasco só precisa vencer o “maior do mundo” para assumir a liderança.

Tirando um único lance, em que Fernando Prass faz grande defesa, o jogo é um verdadeiro massacre do Vasco. Logo no começo, o zagueiro mulambo, ruim que só ele, entrega a bola de presente pra Diego Souza. O Camisa 10 do Vascão se livra do zagueiro com extrema facilidade e toma a banda por trás quando partia em direção ao gol, livre, já na meia-lua da grande área. Cartão vermelho obrigatório. Juninho bate a falta na trave e o bombardeio continua até que, no começo do segundo tempo, o técnico Ricardo Gomes sofre um AVC durante a partida e tem de deixar o estádio numa ambulância, em estado gravíssimo. Parte da torcida do “maior do mundo” grita das arquibancadas, com sorrisos nos rostos: Vai morrer! Vai morrer!

Mesmo assistindo a uma cena dessas do gramado, sem saber se seu treinador está vivo ou morto, os jogadores do Vasco continuam dominando amplamente o adversário. Duas, três bolas na trave, o goleiro mulambo fazendo quatro, cinco defesas difíceis, um massacre sem trégua, enquanto Fernando Prass assiste a tudo do gol vascaíno, sem ser incomodado. O “melhor do mundo”? Sumiu do jogo. Desapareceu. E o massacre continua até que, no último minuto, Bernardo domina na área e é atingido direto no tornozelo, por um carrinho com os dois pés do lateral mulambo. Pênalti escandaloso. Mas o juiz não marca. Depois do jogo, todos os entendidos afirmam que de fato, não há como negar, foi pênalti, mas alguns deles resolvem censurar o vascaíno que tomou o carrinho no tornozelo. “Ele abriu demais os braços quando caiu”, dizem, e são levados a sério, e esse tema chega a ser discutido em mesas redondas, tudo dentro da maior seriedade.

Com um técnico entre a vida e a morte, sendo treinado por um interino, o Vasco vai cair de produção, dizem os entendidos. Os favoritos continuam sendo os dois de sempre, o “timão” e o “maior do mundo”, que permanece como único invicto da competição até as últimas rodadas do turno, quando toma de quatro, em casa (lembrando sempre do sentido figurativo), do Atlético Goianiense. Daí em diante a mulambada fica quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez jogos sem vencer. Perde pro Avaí, toma sacode do Bahia em casa, perde do Atlético PR num daqueles estádios de aluguel do interior e se afasta da liderança. De segundo cai pra quarto, quinto, sexto, enquanto o “melhor do mundo” distribui carrinhos, entradas desleais e reclama cada vez mais dos juízes, toda hora, a exemplo do treinador mulambo, que reclama até do juiz do jogo contra o Vasco, numa malandragem que dá gosto de ver.

O Vasco? E não é que o Vasco ainda está lá nas cabeças, disputando o título? Pra ser líder, basta ganhar do Figueirense em Florianópolis, e ganha. Faz dois gols e toma só um, mas tem um dos gols anulados. O bandeirinha inventou alguma coisa que até hoje não conseguiu explicar e anulou o gol de Elton. Já o “maior do mundo” consegue vencer finalmente. Depois de tomar um baile do lanterna em casa no primeiro tempo, consegue a virada com um gol em impedimento nos últimos anos. A torcida se ouriça toda e brada: Deixou chegar!

Mas o Vasco continua ali, e não demora para alcançar a liderança, numa goleada de 4 a 0 sobre o Grêmio, com São Januário lotado. Show de Diego Souza, Fágner, Éder Luis e cia. A liderança é mantida por quatro rodadas, até que vem o Inter em Porto Alegre. Jogo difícil, ainda mais quando o Inter faz 1 a 0 no começo do segundo tempo. Mas o Vasco reage, Diego Rosa entra driblando na área e é derrubado. Pênalti claro. Mas o juiz não marca. Logo depois, marca falta inexistente ao lado da área do Vasco. Do cruzamento, sai o segundo do Inter, que ainda faria mais um. O “timão” volta à liderança. Já o “maior do mundo” continua atrás, lá pelo quarto lugar, mas consegue outra vitória nos últimos minutos, num fla-flu, e de virada, graças a uma falta inexistente e ao tradicional pênalti do adversário não marcado. A torcida delira e berra: Deixou chegar! Depois o time empata em casa contra o Palmeiras, com mais um gol irregular. Nessa altura, já toma corpo na mídia esportiva uma estatística que mostra que em todo o campeonato, em sei lá quantos jogos, não foi marcado um pênalti sequer a favor do “maior do mundo”. Mas como? Perguntam os “entendidos”, e debatem o assunto com toda a seriedade, e não conseguem buscar ao longo de tantas rodadas um lance sequer de pênalti que deveria ter sido marcado a favor do “maior do mundo”, e o treinador continua reclamando das arbitragens, malandro toda vida.

Eis que, faltando sete rodadas para o final, o Vasco volta à liderança com uma vitória sobre o Bahia na Bahia, bela atuação de Felipe, mais um jogaço de Diego Souza. A fase é tão boa que o Vasco ganha até o Brasileiro de Showbol, com show de Pedrinho. No jogo seguinte pelo Brasileiro, em São Januário, o time pressiona o São Paulo o jogo inteiro, mas o gol não sai, até que, nos últimos minutos, Allan domina a bola dentro da área e sofre uma espécie de golpe de jiu jitsu do lateral são-paulino, que caiu por cima do meia vascaíno segurando o braço dele. O juiz manda seguir o jogo e, com o empate garantido, o “timão” volta à liderança. Enquanto isso, o “maior do mundo” tem um jogo difícil no Sul. Depois de esnobar o clube que o formou, que o auxiliou nos primeiros passos na carreira, o “melhor do mundo” volta pela primeira vez ao estádio do clube que abandonou uma vez, e que traiu uma segunda vez, quando já tinha um contrato apalavrado mas resolveu, por grana, fechar com o “maior do mundo”. O jogo promete ser muito difícil. A torcida gremista investe em várias provocações e durante a semana só se fala em como o “melhor do mundo” reagirá. E ele até começa bem, ajudando seu time a abrir 2 a 0. Mas depois some do jogo, desaparece, e o “maior do mundo” acaba caindo de quatro, de novo.

Aí vem a Copa Sulamericana, e o “maior do mundo” resolve colocar suas estrelas em campo, inclusive o “melhor do mundo”, para o jogo contra a Universidad do Chile, La U para os íntimos, e desde o ano passado o “maior do mundo” é bem íntimo da La U, porque foi eliminado da Taça Libertadores pelos chilenos, com derrota no Maracanã jogando meio tempo com um a mais, o que completou uma triste estatística: O “maior do mundo” não vence um mata-mata de Libertadores contra time estrangeiro desde 1993, quando conseguiu vencer um time venezuelano qualquer nas oitavas. E só. De lá pra cá foram quatro confrontos, contando o vexame da Sub-20 no Peru, e quatro eliminações. Nos últimos 18 anos, o “maior do mundo” só venceu um confronto de mata-mata em Libertadores: exatamento contra o “timão”, que em termos de Libertadores é uma espécie de São Caetano. Ou nem isso. Porque o São Caetano ao menos já foi vice da competição. Mas o “maior do mundo” tem a chance da vingança. Escala o time titular no jogo de ida, em casa (sentido figurado, não esqueçam) e.... Toma de quatro. Isso mesmo. Quatro a zero. Simplesmente a maior derrota da história do futebol brasileiro para o futebol chileno em território nacional. Mais um vexame pra coleção. O Vasco? E não é que o Vasco resolveu disputar também a Sulamericana e acabou caindo nas semifinais pela mesma La U, só que por 2 a 0 fora de casa, depois de empatar em casa, com o time todo morto de cansaço e sem três titulares. Eliminação digna, numa campanha que ainda serviu para redimir um pouco o vexame do futebol brasileiro no Peru, já que o Vasco meteu cinco gols no Universitário de Lima, conquistando a classificação para as semifinais numa daquelas viradas que só o Vasco consegue. Bom pra mostrar que nem só do “maior do mundo” vive o futebol brasileiro nas competições internacionais. Ainda bem. Aliás, da Sul-americana o que fica é a frase do técnico da La U antes de enfrentar o Vasco. Questionado sobre um suposto favoritismo de La U, depois do time ter vindo ao Rio para aplicar uma goleada vexatória no “maior do mundo”, o técnico argentino que treina o time chileno foi bem claro na resposta. “Vasco não é flamengo. Se passarmos pelo Vasco atingiremos outro patamar”.

Voltando ao Brasileirão, o Vasco vai enfrentar o Santos de Neymar, Ganso e cia. O Santos não quer mais nada no campeonato, mas resolve ir de força máxima. Neymar e Ganso juntos, e os dois jogam muito. O Santos faz 1 a 0 com um gol contra de Renato Silva, em falta batida por Neymar. Ainda no primeiro tempo, o Vasco empata. Diego Souza de cabeça. Mas o juiz vê a falta mais sutil do campeonato e anula o gol, por causa de um leve roçar de braço entre Diego e o zagueiro santista. Uma falta que, se fosse marcada sempre, prejudicaria bastante a carreira de um certo imperador, cuja maioria esmagadora dos gols foi conquistada na disputa pelo alto com os zagueiros, quando várias vezes os defensores se estatelavam no chão no choque com o imperador, que sempre jogou de braços bem abertos. Nesses casos, nunca foi marcada a tal falta. Os zagueiros caíam, segundo a opinião geral, porque o imperador era forte. Diego Souza, ao que parece, não é tão forte, e o juiz resolveu anular o gol. No segundo tempo, ainda com o placar de 1 a 0 Santos, o outro zagueiro santista resolve cortar um cruzamento com o braço, dentro da área. A bola ia fugindo de seu alcance e ele estica o braço pra rebatê-la. Mas o juiz nada marca. Depois, Felipe Bastos sofre falta no ataque do Vasco, o juiz resolve não marcar e no contra-ataque o Santos faz 2 a 0, selando a derrota vascaína.

Depois de mais uma boa vitória, dessa vez sobre o Botafogo, o Vasco volta a jogar em São Paulo, contra o Palmeiras. Começa logo fazendo 1 a 0, Dedé de cabeça. Mas cede o empate no segundo tempo. Depois parte pra cima, tentando a vitória, e poderia até consegui-la, se o juiz marcasse o pênalti sobre Felipe, que, dentro da área, passou a não conseguir se mexer, pois um defensor do Palmeiras resolveu se jogar em cima dele. Nessa altura do campeonato, a CBF já tinha transferido a festa do título do Rio, onde a cerimônia sempre foi realizada, para São Paulo, terra do “timão”. Pra completar, o presidente da entidade, El Capo Teixeira, anuncia que o novo manda-chuva da CBF, abaixo apenas dele na hierarquia da confederação, será... O presidente do “timão”. Enquanto isso o Vasco tem mais dois gols legais anulados, um contra o Avaí e outro contra o Fluminense, mas chega à ultima rodada ainda brigando pelo título, apesar da situação difícil. Quando chega dezembro, o Vasco precisa vencer o “maior do mundo” e torcer para que o “timão” perca para o Palmeiras para ser campeão brasileiro. O “maior do mundo”? Não tem mais chance de título há algum tempo. Depois de ser exaltado como favorito ao título durante meses, depois de sua torcida gritar Deixou chegar! algumas vezes, depois das vitórias sofridas, sempre com um golzinho em impedimento, com um pênaltizinho não marcado para o adversário, o "maior do mundo" chega ao fim do ano com o incontestável título de maior cavalo paraguaio da era dos pontos corridos. Precisa de um empate pra garantir uma vaguinha na pré-Libertadores, ou de uma vitória e de uma derrota do Fluminense para entrar direto na fase de grupos da competição. E só.

Lembram do primeiro jogo? Do juiz que não marcou o pênalti escandaloso no último minuto? Acreditariam se eu dissesse que o mesmo juiz foi escalado para o segundo jogo entre o Vasco e o “maior do mundo”? Pois foi. E se eu dissesse que o mesmo juiz, de novo, deixou de dar um pênalti escandaloso a favor do Vasco? Contando ninguém acredita, né? Mas foi isso mesmo que aconteceu. Diego Souza entrou na área pronto pra chutar e sofreu um puxão de camisa daqueles de anúncio de gelol. O tal do Willians, jogador que, acreditem, chegou a ser cotado para a seleção, sequer se preocupou em tentar ser discreto. Esticou o braço todo, agarrou na camisa do vascaíno desesperado e puxou com força, com tanta força que o Diego Souza caiu para trás. E o juiz, o mesmo juiz que não deu o outro pênalti escandoloso no outro jogo, não marcou nada de novo. E muito provavelmente esse juiz ainda vai apitar jogos entre o Vasco e o “maior do mundo”. Se for jogo decisivo, então, as chances de isso acontecer são enormes.
Update: O tal juiz, ao fim da temporada, recebeu o escudinho Fifa. Outro juiz, que perdeu o tal escudinho, saiu esbravejando denúncias sobre favorecimento da arbitragem a determinados times, entre eles citou explicitamente o "timão". As denúncias já caíram no vazio.

Mas mesmo assim, de novo, mais uma vez, o Vasco dominou amplamente o “maior do mundo”. Fez 1 a 0 com o mesmo Diego Souza, de cabeça, e só não foi para o intervalo com um placar mais elástico por capricho, e por causa do pênalti não marcado, lógico. Ainda no primeiro tempo, mais dois lances chamaram a atenção com relação à arbitragem. No primeiro, Jumar tomou cartão amarelo por uma falta que não existiu. No segundo, o mesmo Willians do pênalti se jogou na direção de Felipe quando este partia para um contra-ataque. Willians não achou nada, se jogou no vazio sem encostar em Felipe e se estatelou no chão. O meia vascaíno se viu livre, com a bola dominada e com várias opções de passe, com a defesa mulamba batendo cabeça, sem saber para onde correr, até que o juiz, rápido como só ele, soprou o apito e seguiu uma antiga tradição entre os árbitros brasileiros, sobretudo os do Rio de Janeiro, inventando mais uma falta a favor do “maior do mundo” e livrando a defesa mulamba do perigo de gol. O cartão amarelo do Jumar? Virou uma expulsão no começo do segundo tempo, numa falta que merecia apenas o cartão amarelo. Como foi o segundo cartão, graças àquele primeiro inventado do primeiro tempo, o Vasco se viu, mais uma vez na história dos confrontos com o “maior do mundo”, com um a menos em campo, isso logo depois do gol de empate do “maior do mundo”, numa jogada que, à primeira vista, pareceu impedimento. O tira-teima da Globo mostrou que o Deivid estava na mesma linha de um zagueiro vascaíno. De qualquer maneira, foi um gol muito mais anulável do que qualquer dos seis tentos legítimos do Vasco anulados na reta final do Brasileirão.

Com um a mais, o “maior do mundo” bem que poderia tentar a vitória. Bastava um gol contra o Vasco e mais um do Botafogo contra o Fluminense (estava 1 a 1 lá também) para pular de fase na Libertadores. Em vez de se classificar pra pré, passar direto pra fase de grupos e trocar de lugar com os tricolores. Mas o “maior do mundo”, mesmo com um a mais em campo, preferiu segurar o resultado. O goleiro mulambo fazia cera sempre que tinha oportunidade para isso. Com o empate entre o “timão” e o Palmeiras, e o apito final no Engenhão, o Vasco perdeu o campeonato brasileiro. Depois de perder seu técnico no meio do campeonato, de ter seis gols legítimos anulados e seis pênaltis a seu favor não assinalados pelos árbitros, que poderiam dar à equipe, no barato, mais doze pontos, o Vasco termina a competição em segundo lugar, a dois pontos do campeão. Enquanto isso, depois de passar todo o campeoanto sonhando com o título, depois de gritar Deixou chegar por várias semanas, toda vez que o time conseguia uma vitoriazinha, e depois de ver seu time chegar a lugar algum, provando mais uma vez, de novo, que o melhor slogan para definir o “melhor do mundo” seria Deixou chegar, tem que entregar, a torcida mulamba sai do estádio feliz da vida. Em menor número no estádio, até tenta “sacanear” os vascaínos com a tal história do vice que eles tanto adoram – ainda que tenham mais vices que o Vasco, ainda que o time deles seja mais vice do Vasco do que o Vasco é dele –, mas é abafada pelo gritos de incentivo da torcida vascaína aos seus jogadores, como reconhecimento da brilhante temporada do time, campeão da Copa do Brasil, garantido na fase de grupos da Libertadores. De qualquer maneira, os torcedores do “maior do mundo” vão as ruas celebrar ao fim do campeonato, e celebrar pelo simples fato de o Vasco não ter sido campeão. O “melhor do mundo” também tenta tripudiar dos vascaínos. Depois de completar seu nono ou décimo clássico em branco, sem marcar um golzinho sequer, ele desce os degraus para o vestiário gesticulando para a torcida vascaína. E depois diz que quer ficar no “maior do mundo” para o ano que vem. Em janeiro, logo na volta das férias, o “maior do mundo” enfrentará um time boliviano por uma vaga na Libertadores. O Vasco entrará direto na competição em fevereiro, na fase de grupos, graças a um time que, ao longo do ano, jogou muita bola, fez o Vasco voltar a ser campeão depois de oito anos, uma eternidade para os padrões históricos do clube, e revelou-se, ao longo do ano, uma equipe capaz de bater de frente com qualquer um, em qualquer lugar. Diante disso, é inevitável pensar, de novo.

Vem mais coisa boa aí.

sábado, 3 de dezembro de 2011

CASAL TELEJORNAL



Num dia primeiro de dezembro, a Rede Globo anunciou com pompa e circunstância: Fátima Bernardes deixaria a bancada do Jornal Nacional, que apresentava ao lado do marido, William Bonner, há sei lá quantos anos. O anúncio teve entrevista coletiva e edição especial do JN, com a carreira de Fátima sendo revista diante de milhões de brasileiros e brasileiras, um pouquinho antes da novela das oito. A repercussão foi enorme. Das revistas semanais ditas sérias às de celebridade, dos jornais diários à internet, a notícia foi replicada milhares de vezes. Todo mundo ficou sabendo, pelo menos em território nacional.

A entrevista com a Fátima foi feita por telefone, com a conversa sendo devidamente gravada. O Brasil acabava de ser penta no Japão e ela, depois de virar musa da cobertura da Copa, voltava com fama de pé-quente, o que não deixa de ser natural. Afinal de contas, Fátima é Vascão.

Com William Bonner foi ainda mais fácil. A matéria era a capa da edição de fim de ano e ele era o grande homenageado. Nas outras duas revistas do grupo, os homenageados eram Lula e Fernando Henrique Cardoso, e haveria uma festa em São Paulo onde os dois presidentes, o de fato e o eleito, estariam presentes. Os dois e William Bonner, os três sendo homenageados no mesmo nível. A matéria foi tratada com ele pelo diretor da revista, o big boss, e como o Bonner gostou da ideia e resolveu ajudar, ficou muito fácil. Foi só chegar e entrevistar.

Revista Istoé Gente, edição 155, de 22 de julho de 2002

“Em casos como o meu, a dilatação do útero dá um sinal para o organismo de que está na hora de nascer bem antes dos nove meses. Então tinha que ficar deitada, tomando remédio para não ter contração. Fiquei parada dois meses e meio, até meus filhos nascerem, com sete meses e meio de gestação”.

Dias atrás, a jornalista Fátima Bernardes, 39 anos, almoçava com o marido William Bonner, seu colega de bancada no Jornal Nacional, num restaurante do Rio de Janeiro. A todo momento a conversa do casal era interrompida por crianças que saíam e voltavam de uma festa infantil ao lado apenas para gritar o nome de Fátima. A história ilustra a que ponto chegou a popularidade da apresentadora do telejornal de maior audiência no País, depois dos 42 dias de cobertura da campanha vitoriosa da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.

Eleita musa da Seleção pelos jogadores, a carioca que aos 10 anos sonhava em ser bailarina ao mesmo tempo em que já brincava de jornalista com uma máquina de escrever, hoje é uma celebridade. É parada nas ruas e recebe centenas de e-mails e telefonemas de telespectadores opinando sobre o seu corte de cabelo ou as roupas que veste. Prestes a completar 15 anos de Rede Globo e há 12 casada com Bonner, a jornalista que comandou no JN, ao lado do marido, a rodada de entrevistas dos quatro candidatos a presidente jura que não se incomoda com o assédio dos fãs. Ela só não abre mão do tempo para ficar com os trigêmeos Beatriz, Laura e Vinícius, de 4 anos.

Como foi entrevistar os presidenciáveis no Jornal Nacional?
Como estivemos tão presentes na Copa e em todos os momentos importantes do País, queríamos também estar presentes nessa eleição. A gente tem de mostrar ao público que esse é o assunto do momento. As pessoas têm de entrar nessa discussão, se informar e saber em quem votar. É ótimo estar no Jornal Nacional quando ele está atendendo a isso. Temos noção de que a tevê é a fonte de informação e diversão da grande maioria da população. Não temos a pretensão de fazer entrevistas definitivas, mas ficamos felizes em colaborar.

Dedicar o mesmo tempo aos quatro candidatos principais e mostrar imparcialidade é uma forma de o JN se recuperar depois da acusação de favorecer Fernando Collor nas eleições de 1989?
Não discuto o passado, quando eu nem estava no Jornal. Quero discutir agora. Todos estão dando espaço para as eleições e não poderia ser diferente com a gente. Estamos cientes e tranqüilos de que estamos cumprindo o nosso papel da forma mais isenta e séria possível.

Já tem candidato a presidente?
Não dizia nem se achava que o Romário tinha que ser convocado para a Copa. Jamais falaria em quem vou votar ou qual candidato acho que tem mais chances de ganhar. Formador de opinião não deve fazer isso.

Como você e William Bonner fazem para separar trabalho e vida pessoal no dia-a-dia?
Não temos tempo para discutir assuntos pessoais no Jornal. Em casa, a ordem antes era para não falar de trabalho, mas vimos que não funciona porque, como não temos tempo de discutir no Jornal, ficaríamos sem comentar assuntos importantes. O normal é conversarmos no carro até chegar em casa, quando entramos no domínio das crianças. Mas não somos tão rígidos nisso.

E depois do “boa noite” no JN, o que vocês conversam?
Ali é sempre uma coisa qualquer sobre o Jornal, é rápido.

São viciados em jornalismo?
Essa profissão não tem jeito. No domingo que antecedeu a semana das entrevistas com os presidenciáveis nos preparamos juntos, em casa, vendo nosso material de pesquisa. Nós dois não abrimos mão de ler sempre os jornais e revistas, e de entrar na internet para ler notícias sempre que temos uma folga.

O rótulo de Casal 20 a incomoda?
É inevitável que falem isso, mas pra gente é fundamental ter a noção de que cada um tem sua história. Trabalhamos no Jornal da Globo de 1989 a 1992, depois o William foi editar o Jornal Hoje e eu fui para o Fantástico. Nos reencontramos no JN, mas cada um cuida do seu.

O que fazem para relaxar?
O William gosta de correr. Eu faço ginástica três vezes por semana e gosto de ler antes de dormir. Adoramos ver filmes no vídeo ou no DVD e somos muito caseiros.

Foi difícil suportar a saudade da família durante a Copa?
Chorava praticamente todo dia depois de conversar com as crianças por telefone. O pior é que, por mais franca que você seja, elas não têm noção de espaço e tempo. Aí ficava arrasada porque não conseguia fazer com que as crianças entendessem o quanto eu ia demorar para voltar.

E como as crianças agüentaram tanto tempo sem a mãe?
O William fez um calendário de 40 a 0. Cada criança tinha um adesivo de uma cor e cada dia um colava no calendário. O William também comprou um globo terrestre para mostrar onde eu estava. Eles foram vivendo esses 40 dias em torno disso.

William deu conta da rotina da casa durante a Copa?
Deixei um manual com todos os horários dos filhos, da natação de um, da fonoaudióloga da outra, dos deveres de casa que eles trazem na sexta-feira e devem ser feitos no domingo, porque na segunda fica apertado, tudo. Ele seguiu bem, depois engrenou e fez no ritmo dele, e as crianças estavam ótimas quando voltei.

Em dias normais ele ajuda?
Quando os bebês eram pequenos ele ajudou muito, desde trocar fralda a dar mamadeira durante a noite. Mas depois que ele assumiu a chefia do JN não posso cobrar isso, porque a carga de trabalho dele é enorme.

Assustou-se ao saber que teria trigêmeos?
Estávamos preparados para ter até quatro. Na primeira vez colocamos três embriões e nenhum vingou. Botamos quatro na segunda para aumentar as chances. (O casal fez um tratamento de fertilização em 1997). Seis semanas depois, numa ultra-sonografia, o médico perguntou se estávamos preparados para uma emoção mais forte. Percebemos que seriam gêmeos, mas o médico disse: “Acho que vem mais emoção”. Aí gritei: “São três, William!”. E o William ainda falou para o médico: “Procura o quarto aí, que tem mais um”. Mas ele confirmou que eram três. Digo às crianças que pedi a Deus para ter três filhos e elas me dizem que papai do céu deve gostar muito de mim, porque me deu os três de uma vez só.

Qual foi o momento mais difícil da gravidez?
Quando tive de parar de trabalhar, com cinco meses e meio. Me sentia ótima, mas recebi cartão vermelho da médica. Em casos como o meu, a dilatação do útero dá um sinal para o organismo de que está na hora de nascer bem antes dos nove meses. Então tinha que ficar deitada, tomando remédio para não ter contração. Fiquei parada dois meses e meio, até meus filhos nascerem, com sete meses e meio de gestação.

Quanto engordou?
Engordei 14 quilos. Usava uma cinta especial, com material usado na recuperação de queimados, para diminuir o peso, e fiquei bem. Vomitei só no início e enjoei de doce e café.

Como se convenceu a parar de trabalhar?
Visitei uma UTI neonatal e saí de lá sem conseguir andar direito. Levei um susto ao ver recém-nascidos com 800 gramas de peso. Ali, vi como estava botando em risco minha gravidez mantendo uma atividade normal. Você vê sempre bebês rosadinhos e gordinhos nas revistas e quando ele nasce prematuro não é assim. Nasce com risco de vida, parece que não está formado mesmo.

Quanto tempo seus filhos ficaram na UTI?
Laura e Vinícius ficaram 23 dias e a Beatriz, 25. Mas não houve riscos. Foi só para ganhar peso. Lembro que vi um bebê de 3 kg enquanto estava lá e achei que fosse uma criança que já tinha nascido há um tempo. Era tanta diferença para meus filhos de 1,3 kg que não acreditei que um bebê pudesse nascer daquele tamanho.

O que mudou com a maternidade?
Nunca tinha pensado em morte. Agora sei que posso morrer, e que tenho que ficar viva para criar meus filhos. No resto nada mudou. Nem minha relação com o trabalho, nem com o William, nem com a vida. Pelo contrário, tudo ficou mais colorido.

Mudou a casa para recebê-los?
Trocamos logo o fogão de quatro bocas por um de seis, mudamos a geladeira para uma dúplex e compramos mais uma. Também compramos uma secadora de roupa.

Ter se tornado uma celebridade a incomoda?
Entendo bem isso, por mais que eu saiba que não sou artista. Tudo bem que as pessoas que me vêem na casa delas achem que eu sou, desde que prestem atenção no que eu digo. Óbvio que tenho limitações quando estou na rua com as crianças, mas não me incomodo de dar autógrafos de vez em quando.

Já gostava de futebol antes da Copa do Mundo?
Com 10 anos ouvia jogos no rádio e depois as resenhas da noite. Meu pai (o militar Amâncio Bernardes) sempre me incentivou a gostar de esportes, e minha primeira matéria na carreira, no jornal de bairros de O Globo, foi sobre um jogo de futebol de salão, em 1983. Sou vascaína, mas infelizmente não dá para ir aos jogos.

É verdade que você tem fama de pé-quente?
Nas Olimpíadas de 1992, coincidiu de eu trabalhar em três medalhas do Brasil. Fui à Copa de 1994 e fomos tetra. Fui em 1996 e o Brasil conseguiu o maior número de medalhas em Olimpíadas. Na Copa de 1998 e nos Jogos de 2000, quando o Brasil não conseguiu ouro, não fui por causa dos filhos. Fui de novo à Copa e fomos penta. Mesmo que eu não queira, o povo acha que eu sou pé-quente.


Revista Istoé Gente, edição 176, de 16 de dezembro de 2002

“Quando vi meu espermograma com o índice de 200 mil cheguei a comemorar, dizendo que tinha um Maracanã lotado. Até que o médico disse que o ideal seriam 60 milhões”

Ele foi o único jornalista a participar do debate que encerrou o segundo turno da disputa presidencial de 2002, transformou-se no principal nome da imprensa durante a campanha, quando entrevistou os quatro principais candidatos no Jornal Nacional, mas nunca deixará de dar valor a outra eleição, bem menos importante e ocorrida há 10 anos. Foi num longínquo plantão de madrugada com notícias sobre a corrida pelas prefeituras do País que William Bonner, 39 anos, começou a dar a volta por cima. Naquele tempo, o comportamento “arrombador de portas”, como ele mesmo define, tirou-o das principais coberturas da Globo.

Na época no Jornal da Globo, Bonner começou 1992 deixando de apresentar o Jornal Nacional aos sábados. Depois, não lembraram dele na hora da cobertura da
ECO 92, a conferência sobre meio-ambiente que reuniu os principais líderes mundiais no Rio. “Me achei bom demais naquele momento. Arrumava encrenca, discutia e meti os pés pelas mãos no relacionamento com colegas e com a chefia”, lembra o jornalista.

Com o bom trabalho no plantão das eleições municipais, Bonner reconquistou a confiança de seus superiores, mas guardou a lição. “Fiquei na geladeira um bom tempo para nunca mais esquecer”, afirma. Talvez seja este o motivo de o editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional fazer questão de atribuir seu sucesso em 2002 ao trabalho coletivo da cobertura eleitoral. “Tenho isso na cabeça por justiça aos meus colegas e para que não me perca numa egotrip de achar que sou sensacional, porque não é fato.”

O jornalismo da Globo firmou ousadia, independência e equilíbrio na cobertura da eleição deste ano e Bonner, o rosto mais visível dessa orientação editorial, consolidou-se como um dos profissionais mais respeitados do País. Nada mal para quem começou a carreira, pelo menos a de apresentador, graças ao mais absoluto acaso. Em 1984, então estudante de Comunicação da Universidade de São Paulo (USP), ele pensava em se sustentar por meio da escrita - já tinha um emprego de redator publicitário - quando gravou a locução de um programa de rádio para o trabalho de um grupo de colegas. No dia da gravação, o diretor da Rádio USP FM passou pelo estúdio, gostou do que ouviu e convidou o aluno para apresentar um programa de rock.

No ano seguinte, o recém-formado aposentou a barba rala dos tempos de faculdade e aceitou o convite para trabalhar na Rede Bandeirantes. No começo, não aparecia na tela, apenas lia notícias no programa Oito e Meia. Em seguida, apresentou o Jornal de Amanhã. Com apenas um ano de formado, em 1986, chegou à Rede Globo, sepultando definitivamente os sonhos juvenis de se tornar engenheiro mecânico. “Queria construir carros, mas odiava cálculo. Ainda bem que a vida me corrigiu”, conta.

William, no entanto, mantém a antiga paixão. Não constrói, mas adora dar consultorias aos colegas que estão prestes a adquirir um automóvel e tem um prazer especial em comprar um carro. Em sua casa, são três: o dele, o da mulher, a também jornalista Fátima Bernardes, e o que o casal usa quando sai com os três filhos. Atualizado com os novos lançamentos e atento a cada detalhe, Bonner já chegou a fazer seis test-drives em um mês até escolher seu último carro. Quando o assunto é automóvel, só não consegue influenciar a própria mulher. “Ele sugere, dá palpite, mas para mim é tudo igual”, diz Fátima, revelando um dos poucos pontos que o casal não tem em comum.

A maneira de se vestir também chegou a ser uma diferença entre os dois, mas desapareceu ao longo dos 12 anos de união. “Era mais largado. Melhorei porque a Fátima é tão elegante que comecei a me sentir incomodado”, conta o jornalista. Hoje, ficaram no passado histórias como a vez em que William entrou numa farmácia de Ribeirão Preto (SP) vestindo bermuda surrada, camisa amarrotada, com barba por fazer e óculos para os seis graus de miopia. “Depois a Fátima foi à mesma farmácia e a vendedora disse que o marido dela tinha ido lá antes, disfarçado. E eu estava autêntico”, lembra Bonner, que no JN usa lentes de contato.

Na época, os dois estavam em Ribeirão Preto para o tratamento de fertilização in vitro que possibilitou ao casal ter os trigêmeos Laura, Beatriz e Vinícius, 5 anos, assunto que William trata com o mesmo espirito esportivo. “Quando vi meu espermograma com o índice de 200 mil cheguei a comemorar, dizendo que tinha um Maracanã lotado. Até que o médico disse que o ideal seriam 60 milhões”, conta.

O bom humor foi fundamental para superar um momento efetivamente duro: o jornalista sentiu-se culpado por só descobrir que o problema era com ele, após a mulher fazer dois exames. A necessidade de Fátima tomar hormônios no tratamento contribuiu para esse sentimento. “A gravidez foi de risco porque foi fertilização in vitro, e foi assim porque a produção do pai era baixa. Me senti culpado um tempo, mas acabou quando deu tudo certo, e a gente é muito feliz hoje”, diz.

E essa felicidade está longe de ser ameaçada. Nem mesmo o assédio, que ele garante não receber, representa um risco. “Não sou mais um homem desejável. Sou o cara do Jornal Nacional. Na melhor das hipóteses sou o marido da Fátima”, diz o homem que foi tímido até 1982, quando se rebelou contra a decisão de uma professora da faculdade. “Ela queria que comentássemos um trabalho de colegas. Fiz um discurso contra aquilo, ninguém entendeu, mas descobri que podia dizer o que pensava.”

Hoje o jornalista não se aborrece nem ao lembrar do preconceito que sofria por ser apresentador. “Fui ser chamado de jornalista há meses”, diz, ressaltando a injustiça com que grande parte da mídia trata apresentadores sem funções editoriais. “Achavam que quem estava ali era um mero leitor, mas profissionais como Cid Moreira têm uma qualidade insuperável em seu ofício.”

Como editor-chefe do JN, Bonner é bem diferente da imagem séria vista diariamente pelos mais de 30 milhões de espectadores do telejornal. “O William parece sério no ar desde os 24 anos, mas na redação está bem próximo do jeito brincalhão de casa”, conta Fátima. A descontração costuma ser a marca das reuniões comandadas por Bonner, onde há espaço para brincadeiras em meio à discussão de assuntos sérios. “Minha equipe é jovem e não precisa estar condenada a fazer uma reunião barra pesada todo dia”, diz.

William, porém, enfrentou uma barra em 1999, logo que assumiu o JN. Debaixo de forte pressão nos três primeiros meses, que ele atribui a uma conjugação de vaidades feridas pela sua escolha, pensou em desistir. Um período de férias o fez mudar de idéia. “Se continuasse a ter discussões homéricas, me deixando influenciar por aquele clima, transformaria a vida de todos ali num inferno.” A solução foi sublimar a pressão até que ela desaparecesse. “Isso eu consegui, e considero uma grande vitória pessoal” diz Bonner, dando, enfim, uma trégua à modéstia.

Ainda falta conquistar algo na carreira?
A motivação é sempre grande. Fui à entrega do Emmy em Nova York, fomos festejados, mas eu queria ter ganho (O JN foi um dos quatro indicados ao prêmio, pela cobertura dos atentados de 11 de setembro, mas quem venceu foi a BBC de Londres). É um desafio cumprir a meta de mostrar tudo de importante que aconteceu no mundo algemado pelo tempo, um exercício diário para nossas coronárias. Um trabalho tenso, em que não pode haver erro, porque qualquer erro no JN é um escândalo.

Quais coberturas foram mais difíceis?
Fiz o plantão quando estourou a Guerra do Golfo, em 1991. Foram horas chamando Nova York, Israel, lendo notas como malabarista, ancorando tudo aquilo. Quando o Ayrton Senna morreu fiquei dois dias seguidos em São Paulo narrando a chegada do corpo, o velório e o enterro. Foi uma cobertura dolorosa, muito emocionante e não tinha intervalo.

Ter virado celebridade incomoda?
Já tive dificuldade com isso, até que a Fátima me disse que se eu não conseguisse me sentir à vontade onde todo mundo estivesse olhando pra mim é porque estava na profissão errada. Com o tempo aprendi a lidar com isso, mas com relação a filhos isso me incomoda muito.

Por quê?
Não tenho como perguntar para três crianças de 5 anos se elas querem ser celebridade, então procuro preservá-las. Não permito que a imprensa entre nas festas de meus filhos, mas não posso impedir que tirem fotos na rua. Não vou cobrir meus filhos com um pano, isso é ridículo, só gostaria que eles pudessem escapar desse tipo de assédio, porque não sei que conseqüências isso poderá ter no futuro, na cabeça deles.

Alguma vez se chateou com o assédio?
Este ano, estivemos no Hopi Hari (parque de diversões no interior de São Paulo). Foi ruim porque tinha muita gente e, se parássemos para dar autógrafos, acabariam nossas férias. Mas tínhamos que explicar isso a cada pessoa que vinha pedir, para não magoar ninguém. Ali vi que meus filhos estavam ficando chateados, porque não conseguiam andar para lugar algum.

Prefere ser editor-chefe ou apresentador?
Como editor-chefe, é bom demais organizar o jornal, dar ao texto a cara que você acha que deve ter, construir o bicho. Mas nesse ano apresentar foi mais desafiador, com as entrevistas e debates. Quando a apresentação tem um charme a mais como esses, é claro que é mais legal fazer.

Pensa em envelhecer no JN?
Pela minha vontade, não quero sair, mas o editor-chefe mais longevo do jornal ficou cinco anos. Verdade que antes de mim nenhum editor-chefe era apresentador, mas acho improvável que fique 20 anos. E não sendo editor-chefe continuaria como apresentador? Não sei.