segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O SUCESSO

A Cidade do México tinha um quê de nostálgica com seus fuscas verde-e-branco, táxis sem o banco do carona e com a cordinha pra fechar a porta, que remetiam aos anos setenta, no máximo oitenta, na muy amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. No México, o espaço vazio, sem o banco do carona, era ótimo para colocar a bagagem dos turistas, geralmente mochilas enormes, e foi numa dessas que o alquimista de origem germânica pode constatar, in loco, todo o talento, a categoria e a manemolência do povo asteca.

Vinha acompanhado de duas amigas e deixou a mochila no espaço vazio do carona, com o bolso da frente, estufado pela máquina digital, virado para o painel do fusca. O taxista foi muito simpático, conversou, deu dicas sobre a cidade e até gorjeta ganhou, antes que o alquimista de origem germânica descobrisse, já no quarto do hotel, que não era mais sua máquina digital, ultra-moderna, que estufava o bolso da frente da mochila, ainda devidamente fechado, como no início da viagem. No lugar da máquina, caríssima na época, três pedras, de tamanho e forma variados, cumpriam a função de evitar suspeitas. Um prodígio, de fato, prova cabal do que um mexicano da capital é capaz de fazer quando desafiado pelo destino.

E era nessa Cidade do México, onde a cada três estações um cego adentrava no vagão do metrô, às vezes munido de uma sanfona, que Paulo Ricardo tentava reconquistar o sucesso, que veio enorme, gigantesco, logo no início da carreira, quando a banda de rock liderada por ele arrebanhava multidões a ginásios e estádios, e vendia milhões, eu disse milhões, de discos. No México não havia mais rock, nem banda. Paulo Ricardo virara cantor romântico e almejava seguir a trilha do Rei. Disputaria o mercado com ícones do pop romântico, entre eles um porto-riquenho, outro espanhol e outra, linda, espetacular, hispano-americana. Seria preciso muito trabalho, e Paulo Ricardo não fugiu à luta.

Passou dez dias na Cidade do México, onde o centro histórico tem muitas ruas parecidas com aquelas que, no Rio, são exclusivas para pedestres. A diferença é que, no México, as tais ruas, além de infestadas por camelôs de todo o tipo – dos donos de barracas aos que vendiam seus produtos no chão mesmo, em cima de um saco qualquer –, permitiam o tráfego de veículos, caminhões inclusive. Tudo isso ao lado de uma ruína asteca de mil trezentos e alguma coisa.

Paulo Ricardo percorreu estações de rádio, sedes de gravadores e participou de programas de televisão. Fez também um show para 400 convidados, quase todos executivos do meio musical, ocasião em que, antes do espetáculo, foi entrevistado por duas repórteres da TV mexicana que... Meu Deus do Céu. Repito... Meu Deus do Céu... Cumpriu à risca toda a agenda, com profissionalismo exemplar, e não reclamou de nada, muito menos da altitude da megalópole, ridícula, se comparada a La Paz.

Depois foi para Miami, para sentir aquele bafo quente muito parecido com o do verão carioca logo na saída do aeroporto, antes de entrar na limusine branca que o aguardava do lado de fora. Durante dois dias, circulou pela cidade em grande estilo, percorreu estações de rádio, sedes de gravadoras e programas de televisão, e voltou ao Brasil para esperar o sucesso, de novo, como há treze, catorze anos. Mas o sucesso não veio, pelo menos o esperado, porque dois anos depois Paulo Ricardo não era mais cantor romântico. Remontara a banda antiga, com o mesmo nome, e caíra na estrada novamente.

Revista Istoé Gente, edição número 4, de 30 de agosto de 1999

"Acho que posso ocupar o espaço criado pelo Roberto"

Na manhã do dia 19 de agosto, o radialista cubano Javier Romero, 34 anos, radicado em Miami, gastou 35 minutos de seu programa diário de quatro horas de duração para entrevistar o cantor brasileiro Paulo Ricardo Medeiros. O programa, na Rádio Amor, é o mais ouvido pela comunidade latina da cidade e a entrevista, ao vivo, faz parte da estratégia internacional do ex-roqueiro para se firmar como cantor romântico. A idéia é incluir o Brasil como país de exportação dos artistas que têm faturado alto com o recente boom latino no continente, principalmente nos Estados Unidos. Paulo Ricardo quer dividir os refletores com o porto-riquenho Ricky Martin, a hispano-americana Jennifer Lopez e o espanhol Enrique Iglesias.
Lançada no México há dois meses, a música Dos, do disco em espanhol de Paulo, La Cruz y la Espada, já ocupa o primeiro lugar entre as mais tocadas nas rádios de Monterrey, terceira maior cidade do país. Em Guadalajara, Paulo está em quinto. Só perde para Enrique Iglesias e os mexicanos Luís Miguel, Alejandro Fernandez e Moenia. Na Cidade do México, Dos está entre as dez mais tocadas. Em Miami, a situação não é diferente. Na Rádio Amor, que mantém uma audiência diária de 500 mil ouvintes, Dos está em quinto, atrás de canções de Ricky Martin, Jennifer Lopez, do grupo mexicano Mana e de Christian Castro. "Estão pedindo a música do Paulo mesmo sem conhecer seu rosto", conta Javier Romero. "Isso é um ótimo sinal".
Só no dia 17, Dos foi tocada 40 vezes em 17 rádios de Miami, Porto Rico, Nova Orleans e Atlanta, entre outras cidades. Somou uma audiência de 2.411.000 pessoas, número superior aos 2,2 milhões alcançados por Bailamos, de Enrique Iglesias, da mesma gravadora, no mesmo dia.
No México, o cantor brasileiro é prioridade da Universal. "Queremos começar vendendo 100 mil discos até o fim do ano", diz Marco Bissi, presidente da filial mexicana da gravadora. "Dinheiro não vai faltar para promovê-lo", garante. Para divulgar o disco, Paulo Ricardo ficou dez dias no país, entre 8 e 18 de agosto, cumprindo uma agenda com aparições em programas de rádio e televisão. Além de trabalhar quase 12 horas por dia, o cantor ainda fez um show no Hard Rock Café da Cidade do México, para cerca de 400 convidados.
A estratégia da gravadora é aproveitar o mercado aberto por Roberto Carlos, até hoje um sucesso com as versões em espanhol de suas músicas. "Acho que posso ocupar o espaço criado pelo Roberto", diz Paulo Ricardo. Nas entrevistas em solo mexicano e em Miami, por onde passou nos dias 18 e 19, o rei sempre foi lembrado. "Roberto Carlos é o grande nome da música brasileira", não se cansou de dizer aos jornalistas.
Além de exaltar os românticos, Paulo Ricardo despreza o passado de roqueiro no RPM, banda que vendeu mais de 5 milhões de cópias na década de 80. "Sempre fui romântico, desde a época do RPM", diz. A certeza do que queria só veio com o sucesso da balada A Cruz e a Espada, em seu terceiro disco solo, Rock Popular Nacional, em 1996. A música, que já tinha feito parte do repertório do RPM, estourou na voz de Paulo Ricardo e Renato Russo.
Depois de estudar a fundo Francisco Alves e Lupicínio Rodrigues - "não conhecia nada antes de Roberto Carlos"-, o cantor gravou mais dois discos, O Amor Me Escolheu e Amor de Verdade. Este último já vendeu 500 mil cópias no Brasil. A vida pessoal do cantor também mudou. Atualmente solteiro, o pai de Paola, 10 anos - filha de seu casamento com a produtora de vídeo Moira Lynch, 33 -, garante que as drogas, o fumo e o álcool fazem parte do passado. Sempre acompanhado do personal trainer André Andrade, Paulo Ricardo mantém uma dieta rigorosa e faz ginástica sempre que sua agenda permite. Tudo para manter os atuais 77 kg distribuídos em 1,81m de altura. O esforço é tanto que o cantor prefere não revelar seus 36 anos de idade nas entrevistas. Nas perguntas sobre sua intimidade, ele se esquiva com um velho chavão: "Minha vida é a música".
Para enfrentar a forte concorrência, Paulo Ricardo fez mini-shows ao vivo em todas as entrevistas que concedeu. Acompanhado dos guitarristas Felipe Eyer, 32, e Paulo Galvão, 31, o cantor chegou até a improvisar um versão ao vivo de Dos dentro da limusine alugada pela gravadora, durante uma entrevista pelo telefone celular. Tudo pelo sucesso.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

HONÓRIO, O GURGEL, E O PARALELEPÍPEDO MOLHADO

A situação seria bem estranha se não tivesse partido do Palhoça, sujeito polivalente, que já trabalhou como segurança em show do Oswaldo Montenegro e baixista de banda de pagode, de calça branca e camisa cintilante azul bebê, ele que nem gosta de samba. Dessa vez, o caso envolvia uma máscara de mergulho especialíssima, cujo visor era uma lente para alguns graus de miopia.

Animado com as aulas de um curso de mergulho, onde mostrou desenvoltura nos exercícios da piscina e aprendeu todas as técnicas necessárias para admirar as maravilhas do fundo do mar, Palhoça mandou fazer a máscara. E já tinha pagado tudo, as aulas do curso e a máscara, quando o médico de sempre lhe disse que, se ele insistisse com essa história de mergulho, poderia deixar o convívio dos amigos com rapidez impressionante, talvez na primeira incursão aos domínios de Netuno.

Diante daquele sábio doutor, do outro lado da mesa do consultório, a máscara virou artefato inútil, lembrança de uma vontade não saciada. Só que não tinha custado barato e, pior, não tinha sido nem entregue. Questão de honra, portanto, pegar aquele material precioso, caríssimo, nem que fosse apenas para assistir ao Discovery Channel com ele. E como Honório nunca deixava um amigo na mão, lá fomos eu, o Palhoça e a Pequena Espevitada, moça cheia de charme, muito próxima na época, atrás do “especialista” em construir máscaras de mergulho para míopes, que já tinha parado de atender telefonema há uns bons quinze dias.

Tudo o que tínhamos era o endereço da casa do sujeito, em Petrópolis, num bairro chamado Samambaia, do qual eu nunca ouvira falar, mesmo tendo freqüentado a aconchegante cidade serrana desde muito pequeno até os 20 anos. A viagem de ida foi tranquila. Honório teve atuação espetacular, desde a saída do Rio, passando pela subida da Serra, pela parada obrigatória do croquete do alemão, por vielas nunca antes visitadas da terra de Dom Pedro II, perguntando aqui e ali, até chegar na frente da casa do “especialista”.

Ficava no alto de uma ladeira com duas fileiras de pedras e grama em volta, por onde deveria entrar e sair, todo dia, o carro do dono da casa. Chamamos, batemos palmas, buzinamos, e eis que assoma, no alto da ladeira, um sujeito calvo, de cabelos amarelos e ligeiramente mais baixo que um urso polar.

Goleiro de handebol nos tempos de estudante, e de futebol até os dias de hoje – desde a glória maior nas olimpíadas do colégio, quando pegou, sim, pulando num canto mas deixando a perna esticada, o pênalti do craque da turma, do bonitinho da escola –, Palhoça subiu sozinho. Eu e a Pequena Espevitada ficamos ao lado do carro, eu de braços cruzados, apoiado no Gurgel e fazendo cara de peça de Gerald Thomas.

Lado a lado, e vistos de baixo da ladeira, Palhoça e o “especialista” tinham um quê de Danny De Vitto e Arnold Schwazenegger naquele filme em que os dois interpretaram irmãos gêmeos. A conversa foi rápida, de poucos gestos e fala mansa, e logo o Palhoça desceu, ainda sem a máscara mas de posse de uma garantia escrita de próprio punho pelo “especialista”, num papel de pão em que se lia, apenas e tão somente, o endereço da casa onde estávamos.

Concordamos, os três, que a garantia tinha valido a viagem, até porque quem escrevera aquele endereço, no papel de pão, poderia muito bem ter um rifle em cima da lareira, quem sabe embaixo de uma cabeça de alce ou, por que não, de urso polar. Que a vida seguisse, que fosse feita a distribuição de renda involuntária, se assim era a vontade do destino.

Imbuídos desse sentimento nobre, de profundo desapego, decidimos relaxar e aproveitar as maravilhas da joia do Império, o palácio das pantufas, os passeios de charrete, o lanche na Colombo, a carne da churrascaria Maloca, com seu teto de palha, a casa de Santos Dumont e muito mais, até a volta ao Rio, de início pela estradinha de paralelepípedos com um canal no meio, os paralelepípedos molhados, todos, pela garoa fina que quase não caía.

Honório vinha devagar, cauteloso, com todo o respeito devido ao paralelepípedo molhado, mas a época era de salário ridículo e os pneus não estavam lá muito confiáveis. Numa das curvas, e contra a vontade própria (tenho certeza), Honório decidiu se livrar do meu comando. Rodou completamente descontrolado, seguramente mais de 180 graus, e só parou na beira do canal, graças ao meio-fio, alto, sólido, exemplo digno da competência dos pedreiros nacionais, construído talvez durante o governo de nosso melhor imperador, que segurou as duas rodas traseiras do Gurgel, interrompendo o descontrole. Do banco de trás, Palhoça repetia esporadicamente: Eu vi o canal. Eu vi o canal. Falou isso ainda algumas vezes no bar, enquanto bebíamos a cerveja de emergência, antes de pegar a estrada de volta, e aqui que a Lei Seca me perdoe, porque foi uma cerveja só e sem ela não haveria a menor condição de descer uma serra cheia de curvas depois de ficar tão perto das águas fétidas daquele canal.

A viagem foi tensa, lógico, mas chegamos sãos e salvos, a Pequena Espevitada dormindo no banco do carona, eu com dor no pescoço, pelo receio de cada curva, e o Palhoça com o endereço do “especialista” no bolso, no papel de pão. Todos nós muito felizes, bem longe daquele canal.

sábado, 28 de novembro de 2009

O POETA

O poeta brasileiro concorre ao Nobel. Nas horas que antecedem o resultado, ninguém sai da frente da televisão ou do rádio, de Aquidauana a Bagé. A bandeira verde e amarela toma conta das janelas e as cornetas insuportáveis dão o ar de sua chatice a todo momento, no meio da rua ou no alto de um prédio. É o Brasil de novo na Suécia, abençoada terra gelada, para mostrar dessa vez a arte de sua literatura; e os publicitários, claro, não perdem essa oportunidade. Em quase todos os comerciais, daqueles com música de exaltação aos mais pretensamente sérios, com algum ator declamando um texto metido a literário, uma expressão se faz presente: O Nobel é nosso. O País vive em função da disputa na Suécia. De novo, a Suécia.

Ainda bem que nada disso aconteceu quando resolveram oficilizar a candidatura do Ferreira Gullar ao Nobel, mas pelo menos o poeta se divertiu. Entre uma caminhada e outra pelas calçadas de Copacabana, o autor de Poema Sujo recebeu o apoio de copacabanenses bem informados e pôde sentir um discreto clima de Copa do Mundo, por mais contraditório que seja botar as palavras discreto e Copa do Mundo na mesma frase. Não levou o Nobel, ainda, mas isso também não tem tanta importância assim.

Abaixo, a matéria:

Revista Istoé Gente, edição 141, de 15 de abril de 2002

"São as mesmas pessoas escrevendo há anos. Não há imaginação que agüente. Graciliano Ramos escreveu uns cinco romances, Flaubert fez quatro. Balzac escreveu muitos, mas nem ele daria conta do que a tevê pede para os autores."

As caminhadas pelas ruas de Copacabana nunca mais foram as mesmas para o poeta Ferreira Gullar, 71 anos. O maranhense que revolucionou a poesia brasileira com o concretismo de A Luta Corporal, em 1954, tem vivido experiências dignas dos maiores ídolos do esporte nacional. Parado pelos vizinhos do bairro, ouve incentivos e recebe apoio como se fosse disputar uma Copa do Mundo. O motivo é a candidatura do poeta ao Prêmio Nobel de Literatura, oficializada em janeiro, quando o catedrático de Literatura Brasileira Antônio Carlos Secchin foi à Suécia para entregar, na centenária Academia de Estocolmo, a defesa de Gullar.
Depois das tentativas de lançar os nomes de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Mello Neto e Jorge Amado, essa foi a primeira vez em que as exigências burocráticas foram seguidas à risca para a candidatura de um brasileiro. “No caso do Jorge, foi enviado apenas um telegrama à academia sueca, assinado pela União Brasileira de Escritores. Quanto ao Drummond e Cabral, parece que a indicação nunca chegou a Estocolmo”, conta Secchin, representante do grupo de intelectuais que apóia Gullar.
Sem querer pensar muito no Nobel, cujo resultado sairá em outubro, o pai de três filhos e avô de oito netos prefere gastar o tempo livre curtindo as estripulias do único bisneto, Pedro, 5 anos. Viúvo da atriz Thereza Aragão, o ex-integrante do Partido Comunista vive hoje com a poetisa Cláudia Ahimsa, mas não mora com a mulher. Em casa, sua única companhia é o gato Gatinho, que inspirou um livro de poemas infantis. “A casa foi esvaziando e ficamos eu e o gato”, resume Gullar.

Como recebeu a candidatura para o Prêmio Nobel?
A princípio, tentei dissuadir o grupo que apresentou minha candidatura. Os prêmios Nobel são escritores por quem eu tenho muita admiração. Jamais imaginei ser um deles, seria petulância. Mas não vou brigar com quem quer me indicar, não sou maluco. Acho bastante difícil. Nunca fez parte do meu projeto de vida, mas se vier, será bem-vindo.

Sua rotina mudou depois disso?
As pessoas me encontram na rua e falam: “É o Brasil, vamos ganhar!”. Digo que só não quero que me transformem no Guga, porque quando ele perde querem acabar com ele. Não sou o primeiro do ranking, nem pretendo. Porque depois vão dizer “esse filho da mãe não correspondeu à nossa expectativa”. Mas tem um lado simpático.

Que lado é esse?
Tenho muito o sentido de herdeiro da cultura brasileira e me orgulho disso. Sou um poeta brasileiro, nasci da poesia brasileira. Costumo dizer que o sentido da vida são os outros e incluem, em primeiro plano, seu próprio país, língua, gente e cultura. Se o Nobel acontecer, o maior significado será esse. De ser a literatura brasileira. A senhora que me encontra na rua e diz “vamos lá, é o Brasil!” se sente representada e torce.

Acha que é a hora de um brasileiro levar o Nobel?
O prêmio do Saramago (o português José Saramago foi o primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o Nobel, em 1998) teve um significado enorme e chamou a atenção para a literatura de língua portuguesa. Era um escândalo que nenhum escritor da nossa língua, um Fernando Pessoa, um Drummond, tivesse ganho. O João Cabral, sem dúvida, mereceria também. O Jorge Amado idem, é um nome mundial, traduzido em todas as línguas e com um prestígio maior fora do Brasil do que aqui.

O que pensa da intenção de Paulo Coelho de entrar para a Academia Brasileira de Letras?
É um escritor e qualidades ele tem, porque não existe mágica. Se não tivesse algo especial, que atraísse o interesse das pessoas, Paulo Coelho não teria esse êxito. Não é a literatura que me interessa, mas isso não quer dizer nada. Essa coisa do valor literário é relativa. Não existe um critério que estabeleça o que é literatura.

A crítica não gosta de quem vira best-seller?
Há essa tendência. Mas é claro que existe um tipo de arte, em todos os gêneros, que por ser menos inovadora ou inquietante atinge uma faixa muito maior de pessoas. Uma literatura mais crítica, profunda, não oferece solução fácil para os problemas e não atinge tanta gente. Como a novela de televisão. Do ponto de vista estético, é a linguagem fácil, aceita sem inquietação. Quase tudo ali são falsas soluções, muitas vezes falsos sentimentos. Mas você não vai pretender fazer uma literatura televisiva para atingir milhões de pessoas se não for assim.

Como vê a qualidade das novelas hoje?
Está mais baixa, e não é culpa dos autores. São as mesmas pessoas escrevendo há anos. Não há imaginação que agüente. Graciliano Ramos escreveu uns cinco romances, Flaubert fez quatro. Balzac escreveu muitos, mas nem ele daria conta do que a tevê pede para os autores. Então esgota. O cara não tem mais o que contar.

Qual a solução?
Como a novela é a espinha dorsal da tevê, está criado um conluio estranho. A tevê não pode dispensar a novela e o autor está cansado mas não pode deixar de escrever, porque também ganha um belo salário. A televisão bota no ar o que é escrito, e o cara escreve sabendo que não está tão bom. Não sei como sair disso.

O que acha das adaptações da literatura para a televisão?
Acho válido, sabendo que é outra coisa. Por exemplo, Dona Flor e Seus Dois Maridos tem umas 500 páginas, mas deu um filme de uma hora e meia. E está tudo lá. Quando a Globo encomendou, para o Dias Gomes e para mim, a adaptação de Dona Flor para uma minissérie de 36 capítulos eu disse, tô fora. A história é muito curta e a tevê tem de fazer muitos capítulos para compensar os custos.

O que aconteceu então?
Dos 36 capítulos iniciais passamos para 24. No capítulo 15 Dona Flor se encontrava com Vadinho. Como se conta uma história em que os protagonistas só se encontram no capítulo 15? Quando chamaram o Guel Arraes para dirigir, ele leu e falou que daquele jeito não dava. Eu disse: “Então vai lá e diz pro Boni, porque já conseguimos passar de 36 pra 24”. Negociamos e foi ao ar com 12 capítulos.

Como avalia sua experiência na Globo?
Fiquei 22 anos. Comecei em 1978, convidado pelo Dias Gomes, e fiquei até 2000. Tinha voltado do exílio em 1977, desempregado, e só tinha feito teatro. O Dias me deu as dicas e fiquei trabalhando, mas não queria me transformar em autor de novela. Não estou subestimando, é que não é a minha. Não tenho vocação para isso.

Como o poeta de vanguarda se adaptou à tevê?
Sempre separei as coisas. A televisão era algo profissional. Até porque só um louco diz “agora vou escrever uma novela de 180 capítulos” sem ninguém pedir. Na tevê só se faz o que é encomendado. Tive sorte de trabalhar 90% do tempo com o Dias, que tinha uma qualidade excepcional. Trabalhar com ele me protegia, porque o Dias tinha prestígio na Globo, não precisava seguir as mesmas exigências, que obrigam muitas vezes o autor a se submeter a determinadas coisas.

Voltaria a trabalhar em televisão?
Jamais. A melhor coisa que me aconteceu foi sair da Globo. Não tenho queixa de lá, mas há algo angustiante, que é essa coisa do público e da própria emissora. O contrato em suspenso como uma espada na cabeça do cara, que não sabe se vai ser contratado. Um clima terrorífico, que leva todo o pessoal para a ponte de safena. O dia em que saí de lá fui jantar com minha mulher para comemorar, junto com meus 70 anos.

Como vê o cenário político atual?
Foi dado um passo para um país mais organizado com o Fernando Henrique, temos de reconhecer isso. Quero saber quem vai dar o passo adiante sem destruir o que foi feito, quem vai começar a governar para os 50 milhões que não têm nada.

Que candidato tem condições de fazer isso?
Ainda não sei. Estou observando. O quadro está aí, as pedras estão sendo lançadas ainda.

O que acha de Roseana Sarney, sua conterrânea?
Ela pelo menos não dizia que ia para trás, dizia que ia continuar as coisas. O governo dela no Maranhão não é pra trás. Ela acabou com as secretarias e criou gerências. Fez isso porque cada secretário criava um pequeno governo e gastava à toa. Agora o cara é gerente, não faz mais isso. Parece que tem uma série de coisas que ela fez que são certas.

O escândalo envolvendo o marido de Roseana atrapalha a candidatura dela?
É um golpe forte. Acho difícil que ela consiga ir adiante. Não estou a par dos bastidores da política, mas até agora a responsabilidade pessoal dela no caso ainda não foi apurada. Lamento porque de fato tenho carinho por Roseana, mas é um caso grave e tem de ser apurado. Não acho que aquilo tudo foi fruto de conspiração.

Ainda acredita no socialismo?
É evidente que o socialismo acabou, o que não significa que o capitalismo é bom. É fecundo, cruel e injusto como a natureza, porque a natureza não tem sentido de Justiça. Ela cria milhões de bichos, depois inunda e mata tudo. Como o capitalismo é injusto, tem de ser mudado, se não for com o socialismo será de outra forma. As pessoas não continuam brigando, protestando? Então, a luta continua.

sábado, 31 de outubro de 2009

O DIRETOR

Na muy hermosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, pouquíssimas pessoas detêm mais poder do que os diretores de Núcleo da Globo. A entrevista abaixo é com um sujeito que começou como ator, passou a diretor e, pouco tempo depois, virou um desses caras com salário inimaginável.

Revista Istoé Gente, edição número 253, de 14 de junho de 2004

"Parei um ano após a operação. Voltei com a novela. É muita ansiedade, mas estou fumando dois, três cigarros por dia. Com o fim da novela, vou parar".

Casado pela sétima vez, com a atriz Deborah Evelyn, Dennis Carvalho gosta de se definir como um diretor de conflitos urbanos e humanos. Conflitos como a briga entre Maria Clara e Laura, personagens de Celebridade – novela que ele dirige e é recorde de audiência com média de 58 pontos, o equivalente a 2,8 milhões de residências em São Paulo. Aos 57 anos, com a experiência dos casamentos desfeitos com a atriz Bete Mendes, a psicóloga Maria Tereza Schimdt e as atrizes Christiane Torloni, Monique Alves, Ângela Figueiredo e Tássia Camargo, ele elege o tipo de cena que mais gosta: “Sou especialista em cenas de separação”, diz o pai de Leonardo, 24, seu filho com Christiane, Tainá, 22, filha de Monique, e Luiza, 11, fruto da união com Deborah, que pôs fim à longa lista de separações de Dennis. Com a ajuda dela, superou conflitos mais sérios, como a morte do filho Guilherme, gêmeo de Leonardo, há 12 anos, e as drogas.

Qual a participação do diretor no sucesso de uma novela?
Se não tiver uma boa história, não adianta. O telespectador quer saber o que vai acontecer. Cabe ao diretor coordenar. A cena em que a Maria Clara bateu na Cacau (Cláudia Abreu, intérprete da Laura na novela) foi um desafio. Era perigoso, podia ficar inverossímil duas mulheres brigando no banheiro. Fiquei sem dormir na noite anterior. Podia ter ficado um pouco melhor, mas o resultado foi dentro das expectativas.

Concorda com quem achou exagerados os hematomas no rosto de Laura, após a surra?
Às vezes a crítica procede. As pessoas acham que tinha de ter batido mais, mas aí achei que era demais. A Maria Clara não é uma lutadora. É difícil achar esse meio termo. Geralmente briga de mulher é de rolar no chão, puxar cabelo. Ali, o Gilberto pedia no texto que a Cacau tivesse o rosto transfigurado. O grau dos machucados foi mesmo para dar o impacto, para o público ver a vilã castigada, embora alguns achem que ela não apanhou tanto para ficar daquele jeito.

Concorda com isso?
Tenho a justificativa do anel da Maria Clara. Você não pode botar os caracteres embaixo na hora da cena dizendo “aqui o anel da Maria Clara atingiu o rosto”. Não tem como explicar, é difícil. Mas essas coisas fazem parte da profissão.

Que outra cena lhe tirou o sono?
A morte do Bruno Ferrari (Fábio, filho de Fernando na trama) foi difícil. O Gilberto é tão legal comigo que, quando estava escrevendo a sinopse, me disse que mudaria a história se a morte de um dos filhos fosse me fazer mal. Disse: “Não, vamos fazer”. Para mim foi meio como exorcizar a morte do meu filho. Na hora foi muito dolorido, mas fiz questão de dirigir a cena. Todo mundo chorou no estúdio, eu chorei. Minha filha (Tainá) é assistente de figurino da novela. Ela também sofreu com a cena.

Ainda sente a morte de Guilherme?
Perder um filho está fora da ordem natural das coisas. Ele era muito criança, tinha 12 anos. Ele e o Leonardo eram gêmeos idênticos. Os dois não se largavam, eram muito ligados, nem se chamavam pelo nome. Era meu irmão pra lá, meu irmão pra cá. Quando cheguei no hospital e a Christiane falou “perdemos o Guilherme”, minha vista ficou preta, a perna tremeu, uma loucura. O sentimento de perda de um filho é terrível. Estava fazendo O Dono do Mundo. O Léo foi com a Christiane para Portugal. Eles não iam agüentar a barra aqui. Foi duro, mas estamos aí.

O trauma está superado?
Tá. Só tenho a curiosidade de ver como ele seria hoje, do tamanho que o Léo está. Seriam dois parrudos. O Léo tá forte, grande. A Christiane também foi forte. Ele morreu nos braços dela. Ela que segurou a barra toda, no carro e, depois, no caminho para o hospital.

Depois de tantas perdas (um mês antes da morte de Guilherme, Dennis perdeu a mãe, Djanira Carvalho. Sua ex-mulher, Monique Alves, mãe de Tainá, morreu em 1994, de leucemia), acredita em destino?
Acredito, um pouco, que as coisas estão traçadas. Só podia estar escrito. Meu filho, por exemplo, morreu num acidente bobo, de um carro cair de uma garagem (Christiane estava manobrando sua caminhonete na garagem de casa, em São Conrado, no Rio, quando o carro se desgovernou e caiu de uma altura de quatro metros no barranco situado atrás da garagem). Ele não estava surfando ou voando de asa delta.

Pensou em abandonar a carreira ou se isolar?
Não. Foi o trabalho que me segurou. Era um alucinado. Queria fazer reunião à meia-noite. Coitados dos meus assistentes! Morro de pena deles. Hoje, dez e meia estou dormindo. Minha barra pesada foram as drogas. Era consumidor esporádico de cocaína, em festas. Depois da morte do meu filho, era quase todo dia. E trabalhava direto, sem querer dar bandeira, comandando mais de 100 pessoas.

Como foi esse período?
Ficava sem comer, sem dormir. Cheirava uns cinco gramas por dia em casa, a qualquer hora, para me anestesiar. De manhã, para poder trabalhar, porque virava a noite me destruindo em casa. Durou uns três anos, após a morte do Guilherme.

Como parou?
Cheguei num limite de o coração palpitar e eu ficar com medo de morrer. Foi acumulando e a Deborah falando para eu parar. Ela queria se separar. Com razão. Não agüentava uma pessoa ao lado como eu estava. Ela me ajudou, me deu coragem para me internar. Achava uma vergonha, mas foi o que me salvou. Fiquei 40 dias numa clínica de dependentes químicos e passei a freqüentar o NA (Narcóticos Anônimos) diariamente, por um ano e meio. Estou há nove anos limpo. Vou esperar o fim da novela para voltar lá uma vez por semana. É bom não parar.

Qual o papel da Deborah na sua vida?
São quase 16 anos juntos. É uma grande companheira. Senti que ela falou “vou comprar essa briga”, e comprou. Passou muitos perrengues ao meu lado, sofreu e hoje conseguimos ter a vitória. Metade da responsabilidade pela minha volta por cima é dela.

Os problemas consolidaram o casamento?
Sim. E a vinda da Luiza também. Além disso, a Tainá tinha 9 anos quando a mãe dela morreu. Veio morar com a gente e a Deborah foi mãe dela também, ajudou a criá-la na fase mais difícil de uma garota, quando ela precisa de uma mulher para orientar.

Teve medo de morrer ao detectar um câncer no pulmão?
Tive. A vida inteira passa na cabeça. Tive sorte porque detectei ele muito pequeno. Meu médico (Yunes Ryad, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo) decidiu operar e fiquei apavorado. Mas ficou tudo em ordem. Nem quimioterapia fiz.

Como foi a operação?
Fiquei apavorado na hora da anestesia. Nunca tinha tomado antes. Fiz um escândalo no hospital, gritava palavrão, um vexame. Foi há dois anos, durante a Copa do Mundo. Assisti à final no hospital, sem poder gritar porque doía à beça.

Ainda fuma?
Parei um ano após a operação. Voltei com a novela. É muita ansiedade, mas estou fumando dois, três cigarros por dia. Com o fim da novela, vou parar.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O ATOR

Um grande amigo que trabalha na Grobo me contou essa. Ele entrevistava o Tony Ramos para algum especial da emissora e o cara, em dado momento, disse algo do tipo: Depois do serviço, eu faço sei lá o quê, porque o resto não importa. O que importa é que um dos maiores atores do país, quiçá do planeta, chama de “serviço” tudo o que ele fez em 45 anos de carreira, do Rubinho, de Nino, o Italianinho, na Tupi, ao indiano dessa última novela das oito, da Globo, passando pelo Riobaldo do Guimarães Rosa e pelo Jorge do Eça de Queiróz.

E a pauta eram os 40 anos de tevê desse sujeito, que chama a fama de “serviço”, e que talvez por isso nunca foi de se expor muito. O jeito foi contar a vida dele pelos trabalhos na tevê. A entrevista foi na sala de imprensa do Projac. Cheguei na hora marcada e Tony Ramos já estava lá, lógico.

Abaixo, a matéria.

Revista Istoé Gente, edição 258, de 19 de julho de 2004

"Vim para essa profissão não como voyeur, para espiar minha vaidade. Vim porque gosto de representar personagens. É disso que vivo e ponto final."

Ao longo de seus 40 anos de carreira, completados este ano, Tony Ramos, 55, fez personagens marcantes no teatro, como o Zé do Burro de O Pagador de Promessas, e no cinema, como o inspetor Guedes de Bufo & Spallanzani. É a tevê, porém, o melhor veículo para contar sua história. Desde a adolescência em São Paulo, para onde a família de Arapongas (PR) se mudou quando Tony tinha 13 anos, o ator tem levado a vida paralelamente a algum personagem na tevê. É através das telas que ele é mais conhecido, até porque sempre preservou a vida pessoal. “Não alimento o glamour por ser famoso. Vim para essa profissão não como voyeur, para espiar minha vaidade. Vim porque gosto de representar personagens. É disso que vivo e ponto final.”

A Estréia. Aos 16 anos, Antônio de Carvalho Barbosa já tinha estreado, no programa Novos em Foco, quando, em 1965, fez sua primeira novela, A Outra, na TV Tupi. Aluno do curso clássico (hoje ensino médio) do Colégio Estadual Brasílio Machado, em São Paulo, estudava de manhã e, à tarde, encarnava o Vevé, filho de Juca de Oliveira na trama. “Comia pastel, tomava caldo de cana e andava de ônibus”, conta. Da época, ele se recorda ainda dos improvisos do texto. “Não havia emenda eletrônica de videoteipe. Se errássemos, tínhamos de recomeçar toda a seqüência.”

Namoro. Após a primeira novela, o ator só tirou férias em 1974, quando viajou para a Europa com a mulher, Lidiane. O início do namoro foi trabalhoso para Tony. Em 1966, ele estudava à noite quando conheceu Lidiane, então aluna do turno da manhã, numa festa do colégio dos dois. O ator levou 15 dias até convencer a futura mulher a namorar. “Para dar o primeiro beijo, levei uma semana”, conta. Tony só não lembra se a novela que fazia era O Amor Tem Rosto de Mulher ou Os Irmãos Corsos, mas lembra que Lidiane não o assistia. “Ela via a TV Excelsior, até que um dia assistiu e disse ‘legal, gostei’.”
Casamento. Quando se casou, em 1969, o ator já tinha um personagem de destaque, o Rubinho de Nino, O Italianinho. Mas não teve qualquer regalia por isso. Casou numa quarta-feira e, na segunda-feira, já estava trabalhando. “Fui para a praia do José Menino, em Santos, num apartamento emprestado do meu cunhado”, lembra.

Filhos. No nascimento dos dois filhos do ator, Rodrigo, 33 anos, e Andréa, 31, não foi diferente. O parto de Rodrigo foi num dia sem gravações da novela As Bruxas. Mas no nascimento de Andréa, o ator teve de gravar algumas
cenas da novela Rosa dos Ventos. “Fui trabalhar de manhã, mas deu tempo de virar para o pessoal e dizer ‘olha, vai nascer meu neném, tchau, tchau’.”

A Fama e os pais. Na Globo, Tony estreou em 1977, em Espelho Mágico, mas virou ídolo nacional ao emendar três sucessos: Márcio, filho de Salomão Hayala, em O Astro, de 1978, André Cajarana, em Pai Herói (1979), e os gêmeos Quinzinho e João Vítor de Baila Comigo, de 1981. Durante Pai Herói, o ator perdeu o pai (Paulo, que se separou de sua mãe, Maria Antonia, quando o filho tinha 4 anos) e o padrasto (Salvador, que criou o ator desde os seus 14 anos). “Não tive muita vivência com meu pai, mas sempre o respeitei. Já meu padrasto foi muito importante”, diz o ator, que gravou a novela no dia seguinte ao enterro de Salvador. “Foi duro, mas com muita dor quis trabalhar, para fazer a catarse da perda. Para chorar, sim, mas ter consciência que a vida seguia.”

O Sertão. A cena em que Tony Ramos gravava em 1985, como o Riobaldo de Grande Sertão, Veredas, era noturna. O ator rastejava em pleno sertão mineiro, entre Tarcísio Meira e Lutero Luiz, quando ouviu um barulho estranho. Com uma faca entre os dentes, como pedia a cena, perguntou o que era. Tarcísio não soube responder, mas Lutero, rindo, avisou que Tony estava em cima de um cupinzeiro. “Fiz a cena toda, mas quando acabou fiquei só de sunga. Estava cheio de cupim nos meus pêlos e todo mundo rindo em volta.”

O Galã. Como os cômicos Tonico, de Bebê a Bordo (1988), e Manolo, de As Filhas da Mãe, de 2001, ou o perturbado Zé Clementino de Torre de Babel (98), Riobaldo foi um dos personagens que ajudou Tony a se livrar do rótulo de galã, apesar de nunca se incomodar com o fato. “Dizia baixinho à minha mulher e aos amigos, ‘deixa falar, vamos ver quem é galã’”, conta Tony. “Não tenho 1,90m de altura, nunca tive um físico de deus apolíneo. Sou um homem normal, fruto de espanhóis, italianos e portugueses.”

O Avô. Quando Henrique, 5, seu primeiro neto, nasceu, Tony ostentava uma autêntica cara de avô, graças à barba do Miguel de Laços de Família, de 2000. Na hora de raspá-la, o ator quis o neto, então com 1 ano, do lado. “Dizia a ele:‘Vou tirar a barba, mas continuo sendo teu avô’”, lembra Tony, que também é avô de Gabriela, 6 meses, e está no ar como o coronel Boanerges, de Cabocla. Os dois são filhos de Rodrigo. “A gente com neto, relaxa. Criança pra mim é a presença de Deus.”

domingo, 6 de setembro de 2009

O AUTOR


Imagina ter que escrever uma história de cento e oitenta capítulos durante oito meses. Uma história cujo desenrolar será acompanhado por milhões de pessoas, diariamente, e que precisa agradar a toda essa gente. Uma trama com algumas dezenas de personagens, distribuídos em vários núcleos, que serão gradativamente esquecidos ou valorizados, na medida em que caiam, ou não, no gosto popular.

Imagina que para entregar o texto no prazo será preciso internar-se no trabalho em regime de dez, doze horas diárias; e que, em virtude disso, será no contínuo estado de sono interrompido que a mente terá de funcionar para garantir a sobrevida da história, sempre sob a pressão do ibope. Pra finalizar, imagina que o texto a ser escrito será exposto a todo o país, ainda durante o processo de criação, e que as críticas, positivas ou negativas, serão diárias.

A entrevista abaixo é com um sujeito que trabalha dessa maneira.

Revista Istoé Gente, edição número 245, de 19 de abril de 2004

"A um filme as pessoas reagem como se fossem críticos: “Esse roteiro é bom, a fotografia não sei quê”. Na novela, não. É: “A Bárbara tem que casar com o Paco, esse tem que namorar aquela”. É tudo direto, não uma coisa filtrada por uma crítica. Todo mundo que vai ao cinema é expert. Novela não tem isso, é muito mais visceral."

Desde que começou a escrever Da Cor do Pecado, João Emanuel Carneiro dorme às 8h, acorda às 14h e trabalha todo o resto do dia. O resultado da rotina estafante é medido pela audiência de 43 pontos, em média – índice que há oito anos não era atingido por nenhuma novela das sete – ou pelo pico de 48 pontos, esse o melhor desempenho do horário nos últimos 10 anos. É a primeira novela de João Emanuel, 34 anos, e essa foi uma espécie de reedição do que já conseguira no cinema quando assinou o roteiro de seu primeiro longa, Central do Brasil, junto com Marcos Bernstein. Solteiro, o autor mora num apartamento no Leblon e foi descoberto por Walter Salles graças a seu primeiro curta-metragem, Zero a Zero – que fez aos 19 anos, com os US$ 4 mil arrecadados com a venda de uma estátua egípcia que herdara. Apesar do começo “meio por acaso”, encara o sucesso como um veterano. “Penso sempre que o que estou fazendo vai ser extraordinário. Senão, é melhor nem fazer”, diz.

Por que a novela é um sucesso?
Quis fazer uma fábula tipo Alexandre Dumas, mas tocando em pontos da nossa realidade social, como o menino mulato que é neto do milionário, ou a negra que mora no Maranhão e namora o branco rico do Rio de Janeiro. Apontaria isso como motivo do sucesso e também o fato de a novela trazer de volta as relações humanas, de ternura, família. Às vezes você faz uma novela com muita ação, muito efeito, violência. Minha história tem isso também, mas tocando em sentimentos humanistas, como a relação do avô com o neto. Isso comove as pessoas.

Escreve pensando na audiência?
Fico ligado no Ibope, ele te dá a medida de muitas coisas.Se você finaliza um capítulo com um personagem que o povo não gosta tanto, no dia seguinte a audiência já começa mais baixa. A novela é uma amostra de situações cômicas e dramáticas. Claro que tem coisas que interessam mais ao público e outras, menos.

Teme não agradar o público?
Esse horário é complicado. As pessoas estão em casa mas também não estão. Alguns estão chegando, as crianças estão ali. Precisa de agilidade, de chamar a atenção do telespectador de alguma maneira. Fico tenso porque a novela no fundo é um jogo. Por mais que você faça por uma satisfação artística, pessoal, tem que jogar com essas milhões de pessoas que assistem, e são elas também que fazem a novela. Já aconteceu de me pedirem na rua para criar uma situação que eu já tinha escrito, só não tinha ido ao ar. Fico feliz, parece que o público está escrevendo comigo.

A primeira protagonista negra da Globo ajudou na audiência?
Na imprensa ajudou muito, em termos de divulgação, mas não acho que isso tenha sido um fator de alavancagem da audiência. É um factóide de imprensa, a primeira protagonista negra, e não tem como você fazer sucesso com um factóide. O sucesso é da história. Com factóide se faz um filme, um especial, mas não uma coisa tão longa quanto uma novela, porque são 180 capítulos.


Como é o ritmo de trabalho?
Animalizante (sic). Acho que as novelas eram menores antigamente. A Globo era hegemônica, então muitas novelas eram ótimas, mas tinham situações no meio que era a pessoa indo na feira saber o preço do peixe, e virava cena. Hoje é muito mais pesado, o Ibope exige mais. E o fato de fazerem novelas sempre tão longas é mortificante.

A duração deveria ser menor?
Novela de longa duração, com esse tamanho de oito meses, é um problema. Escrevo com o auxílio de uma equipe, mas faço a novela muito sozinho no sentido de que eu conduzo toda a história. É muito pesado narrar 180 capítulos, 40 cenas por dia. Se fossem 150, daria facilmente. Esses 30 a mais fazem a diferença porque não seriam oito meses que ficaria internado, mas cinco. É uma coisa física, humana. Não sei como a Glória Perez ou o Benedito Ruy Barbosa fazem, mas estou quase caindo pelas tabelas.

A escolha de Taís Araújo para viver a Preta foi imediata?
O elenco foi feito por mim, pelo Silvio de Abreu e pela Denise Saraceni (diretora da novela). O que um dos três não queria, dançava. A Taís era a primeira opção dos três. Ela tem a jovialidade que eu via na Preta, essa coisa alegre, carismática. Não podia ser uma bonita triste para fazer esse papel.

Quem escalou Reynaldo Gianecchini para dois papéis (Paco e Apolo)?
A escolha foi minha, pela cara dele. Acho que o Gianecchini tem gente ali dentro. Tem alguma coisa ali. É um homem bonito, mas tem um mistério, uma indagação atrás dele. Como um galã de filme do Hitchcock, um James Stewart.

Já disse que não queria discutir racismo na novela, que escolheu a protagonista negra só para realçar o contraste social dos personagens. Por que incluiu cenas de racismo envolvendo o Raí (filho de Taís Araújo na trama)?
Quando chegou o avô rico (Afonso, vivido por Lima Duarte) com o neto mulato (Raí, interpretado por Sérgio Malheiros) a coisa veio mais forte. No romance você entra pelo sexo, mas muda no momento que tem o filho. É diferente você ter um caso com uma negra e ter um filho, uma família com uma negra. Aí o preconceito passa a abranger a família inteira. Mas acho que o que agrada as pessoas é que a novela tem a discussão desses temas polêmicos dentro de um contexto de fábula. Você não aprofunda isso como aprofundaria numa novela das oito, com uma discussão mais didática do problema. O racismo está dentro da leveza da fábula.

Por que alguém que escreveu Central do Brasil migrou do cinema para a televisão?
Fiz 12 filmes depois do Central do Brasil e sempre tive vontade de fazer novela. É mais estimulante você falar com o povo que assiste tevê do que com a elite que vai ao cinema. A um filme as pessoas reagem como se fossem críticos: “Esse roteiro é bom, a fotografia não sei quê”. Na novela, não. É: “A Bárbara tem que casar com o Paco, esse tem que namorar aquela”. É tudo direto, não uma coisa filtrada por uma crítica. Todo mundo que vai ao cinema é expert. Novela não tem isso, é muito mais visceral.

Há preconceito contra a tevê?
As pessoas acham que desprezando a televisão estão se valorizando. É um erro. A novela é o primeiro prato do consumo cultural do Brasil. Venho do cinema. Minha mãe (Lélia Coelho Frota) é crítica de arte. Fui filho dessa elite cultural, educado no Moma (principal museu de Nova York), no Louvre (maior museu de Paris). Venho desse mundo que nega um pouco a novela e vim trabalhar com isso.

Abriu caminho para uma renovação dos novelistas?
Não sei. É uma honra pertencer a esse time, conseguir fazer uma novela. Fazer 180 capítulos e sobreviver já é um talento extraordinário. Essa novela é tão absorvente
que não tenho mais projetos para o futuro. Só de vida, como poder dormir. Quero sobreviver a isso, aí vou poder ir à praia, tomar um suco...

Voltará a fazer cinema?
Poderia fazer outro filme com Walter Salles. Foi minha experiência mais feliz no cinema, por poder contar uma história junto com uma pessoa em sintonia com você. E contar uma história original, que é o que falta no cinema nacional, pois o que se vê é adaptação de um livro ou uma biografia. Enquanto a tevê se aplicou em encontrar seus narradores, o cinema encontra sempre diretores, com raras exceções. E o cinema nunca será a indústria que pretende ser enquanto não contar histórias originais.

Walter Salles é uma exceção?
Walter é um gênio que tem dedicação total ao trabalho. Também é um narrador. Filmou três histórias originais (Terra Estrangeira, Central do Brasil e O Primeiro Dia). Outras exceções são o Beto Brant, em parceria com Marçal Aquino, o Jorge Furtado, a Sandra Werneck. Já é um caminho.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

PEQUENO TRECHO DO XARÁ

Cada rapaz que escreve, pelo tempo, tem-se na conta de um ser privilegiado e que se faz respeitar. Cada sonêto que publica ou cada conto que assina eleva-o do solo, mais um palmo. E é por isso que êsse semideus das letras divide os literatos freqüentadores da Garnier em dois grupos distintos: o das bêstas e o dos gênios. Bêstas são os desprezíveis sêres que a opinião pública consagra, por estupidez ou engano, e que a Academia engole. Gênios, as vítimas dos erros dessa mesma opinião e da estultícia acadêmica, os que se julgam roubados no conceito público, sem admiradores, sem leitores ou sem nome, mas com um enormíssimo talento... Como, porém, as bêstas mantenham sobre os gênios idéias inteiramente diferentes, gênios e bêstas vivem num completo desentendimento, latejando rancores, a desmanchar, por vêzes em mentidos sorrisos, hostilidades tenebrosas.
(...)
O gênio, em geral, usa o cabelo crescido, caindo sôbre a gola do casaco, as botinas cambaias, roupa sovada e gravata borboleta. Anda quase sempre sem punhos e traz a barba por fazer. Isso por fora. Por dentro um resplandecer de coisas escovadas e brunidas. Adora o luar e a giribita. Deve o quarto em que mora, a pensão onde come... Recolhe à casa de madrugada e, com freqüência, berra pelas rodas em que anda, alto, para que todos ouçam, esta frase que em sua bôca tem foros de um clichê:
- Nós, os boêmios!...

Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro do meu tempo

No caso, o tempo de Luiz Edmundo - historiador com texto de cronista - englobava a última década do século 19 e a primeira do 20. Entre as "bêstas" da época estavam Joaquim Nabuco, Olavo Bilac e a maior de todas elas: Machado de Assis. Já os "gênios" mudaram um pouco o figurino, aposentaram a gravata borboleta e continuam andando por aí, até hoje. Alguns acabam se dando bem, outros nem tanto, o que não tem nada a ver com a matéria aí embaixo, que é outra história, ou não, já que se trata de livro, também, e de escritor, a saber somente se é gênio ou besta.

Revista Incrível, edição 46, de agosto de 1996

"O fato é que ele teve o mérito de juntar o quebra-cabeças da evolução do ser humano como ser cósmico e fechar algumas peças que estavam faltando".

Enquanto grupos de esotéricos aguardam a Nova Era, já há quem viva sua própria revolução graças ao escritor americano James Redfield. Mesmo execrados por céticos e críticos, seus livros estão virando mania internacional, inspirando reuniões entre amigos e até lançamentos de CDs. A receita para a vendagem astronômica de seu primeiro livro, A Profecia Celestina, é simples. Basta adicionar uma grande quantidade de esoterismo na história, incluindo as tradicionais dicas de auto-ajuda espiritual para o tão almejado enriquecimento interior do leitor, misturar com uma pitada de aventura, com direito a vilões malvados que poluem a Terra e querem impedir a revelação dos segredos para a chave do Universo, e está pronto um dos maiores fenômenos editoriais da atualidade. Qualquer semelhança com um roteiro hollywoodiano pode ser mera coincidência - ou não, quem sabe? Afinal de contas, o livro está prestes a ser transposto para o cinema.
Lançado em março de 93 pelo ex-terapeuta James Redfield, através de uma edição independente de 3 mil exemplares, A Profecia foi beneficiada por uma surpreendente divulgação boca-a-boca, que fez as tiragens posteriores subirem para até 100 mil, despertando o interesse das grandes editoras. A Warner Books acabou adquirindo os direitos da obra, comercializada hoje em 16 países, com cinco milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. No Brasil, o livro foi publicado pela Editora Objetiva e já vendeu cerca de 200 mil exemplares.
No rastro de seu sucesso, Redfield lançou o Guia de Leitura da Profecia Celestina, também editado no Brasil pela Objetiva, e A Décima Profecia, que chega ao país em novembro, pela mesma editoria. Esse último livro foi lançado em abril nos Estados Unidos e ocupa o terceiro lugar na lista dos mais vendido do The New York Times. Já A Profecia Celestina está há 130 semanas na mesma lista.
Como a maioria dos best-sellers, a obra de Redfield é execrada pelos críticos, o que, no entanto, não incomoda muito o autor. O ex-terapeuta não tem o menor problema em admitir os lucros de seu sucesso, mas ressalta que escreveu o livro para ajudar as pessoas "relatando através de uma parábola experiências de conhecimento e revelação". O leitor brasileiro, já acostumado com as histórias de Paulo Coelho, certamente vai identificar semelhanças entre os textos do dublê de mago e escritor e A Profecia Celestina. O livro de Redfield só é um pouco mais romanceado. Na trama criada pelo ex-terapeuta, um americano se envolve numa perseguição pela Cordilheira dos Andes para encontrar um manuscrito do século 6 a.C. com as nove visões que representam a chave para o Universo. As perturbadoras revelações contidas no documento indicam grandes transformações espirituais e sociais previstas para o fim do milênio, o que incomoda as autoridades civis e eclesiásticas.
Com todos esses ingredientes, nada mais natural do que a adaptação do best-seller para o cinema, o que já está sendo estudado pelo autor. O filme, caso seja realmente realizado, será apenas mais um dos diversos subprodutos gerados pelo estrondoso sucesso da Profecia. Nos Estados Unidos, o livro virou jornal, calendário e até um CD de música new age.
Entre os leitores brasileiros, a mania pela obra de Redfield vem inspirando reuniões entre amigos. Gente como o cantor Léo Jaime, o músico Kledir Ramil (da dupla Kleiton e Kledir) e a atriz Patrícia Travassos, além de interessados em esoterismo das mais diversas áreas, já pararam para analisar a importância da mensagem que o autor tenta passar em meio às aventuras de seu personagem. Enquanto Redfield vai colocando seus sucessos no mercado, os grupos de estudo de sua obra se organizam no Brasil, principalmente no Rio, em São Paulo e no Rio Grande do Sul.
Grupos como o coordenado pela analista de tarô Lúcia Vasconcellos, 35 anos, no Centro Criativo Além da Imaginação, em Niterói, no Estado do Rio de Janeiro. Juntamente com o marido, o homeopata Lúcio Abbondati Júnior, 39 anos, ela abre as portas de seu centro duas vezes por mês para discutir as visões do manuscrito sagrado. "Essa obra tinha realmente tudo para virar um best-seller. Ela é fácil de ler e trabalha os mistérios de uma forma simples. Para se entender Freud, por exemplo, é necessário quase uma vida inteira de análise, e o autor da Profecia conseguiu resumir toda a sua mensagem, que não deixa de conter referências freudianas e de Jung. O fato é que ele teve o mérito de juntar o quebra-cabeças da evolução do ser humano como ser cósmico e fechar algumas peças que estavam faltando", diz Lúcia.
O livreiro Álvaro Piano da Rocha, 39 anos, especialista em esoterismo, considera o livro de Redfield um clássico, mas reconhece que a qualidade literária não é o forte da obra. "O escritor consegue prender a atenção do leitor e mostrar uma série de princípios espirituais para uma Nova Era. É claro que o texto não tem uma alta qualidade literária, já que o autor não é um escritor, mas ele não denigre a literatura, e sim a utiliza para passar uma mensagem". Para o livreiro, somente um fenômeno de empatia com o público poderia justificar os recordes de vendas de A Profecia Celestina. "Quando o Alfredo Gonçalves (sócio da Objetiva) me disse que tinha comprado o livro, senti que ele iria vender muito, mas não tanto. Não há como prever um sucesso dessa dimensão. Parece que pessoas como Redfield, Paulo Coelho e Monica Buonfiglio têm o dom de tocar o inconsciente coletivo. Só isso pode explicar como esses autores vendem tanto, enquanto outros que falam dos mesmos assuntos não têm a mesma sorte".
Não são poucos os astrólogos que relacionam o sucesso de A Profecia Celestina com a chegada de uma nova onda, que seria o sintoma de que a esperada Era de Aquário está próxima. Mas nem todos os especialistas esotéricos se desmancham em elogios ao romance do ex-terapeuta americano. Para a professora de meditação e expressão corporal Evelyn Sá, 44 anos, há muito delírio ao longo da história contada por Redfield. "Concordo com algumas coisas que ele diz, mas não chegaria ao ponto de chamar o livro de bíblia da Nova Era. Existe muito modismo em torno disso para o meu gosto. Tenho a impressão de que todo mundo vai ler o livro e. daqui a três meses, não vai se falar mais no assunto, e ninguém vai ter crescido ou se autoconhecido", afirma a professora, que também é zen-budista.