sexta-feira, 23 de abril de 2010

HONÓRIO, EL GURGEL, Y EL DIABLO RUBLO

Qui se passo és que El Diablo Rublo siempre, em toda su vida, fuera perseguido por los policiales rodoviários. Su pelos longos, rojos, y la tez blanca, como la Patagônia, llamaban de tal manera la atencion de los tiras qui bastava qui estiviesse em um coche para que este fuesse víctima de una ación rápida, precisa, de la Policía.

Asi si sucedeo em la jornada hasta Saquarema, quando fue parado a la saída de la gran puente Rio-Niterói, la mayor del mundo, portento de la genialidad humana. El coche, de su suegra, no tenía más qui el documento de transferência, y si siequer el nombre de la duena assinado. Em el hogar de la firma, lo espacio estaba em blanco.

Si escribo mi nombre a cá, le dijo el guarda, el coche és mio.

Com El Diablo Rublo viajava Don Chevalier, el mejor apertador de marijuana de todo el planeta, que empezava a se quedar vierde, aunque su compañero de viaje mantenia-se tranquilo y hablaba com lo policía que sí, como no, puede abrir todo el coche, puede nos revistar, sí, no tenemos nada.

Y el guarda llegó a abrir la mala, y Don Chevalier vierde como las montañas de Macchu Picchu... Pero no se importo com las valises. Se quedo satisfecho com la plata para la cerveza y asi no descobrió las cierca de vinte gramas de marijuana que llevaba Don Chevalier em su mojila, si que lo supiesse El Diablo Rublo, que despues ha seguido su sina, parado siempre por los policiales del tráfego, hasta lo gran dia de su redención, a bordo de Honório, El Gurgel.

Trafegávamos por región de muy rasa energia, una encruzillada desdicha, y el cabron hijo de puta nos cerro em lo cruzamiento. Apareció a frente de Honório, si colocar la sieta tampoco, y el choque fue inevitable. Una tonteria de lás más grandes del cabron hijo de puta, qui guiaba el coche de su mujer, qui, por su vez, era la dona del coche y se quedo sentada em el banco del carona, los brazos cruzados, enquanto el hombre, cabron hijo de puta, salió para, hijo de puta, tirar satisfación.

La razón se quedaba totalmente com nosostros, pero los documientos... No los habia, nadie. Y habia, para desgracia nuestra, uno de los representantes de nuestra valorosa Policía Militar, devidamente uniformizado. Si el policía requisitasse los documientos de los coches, seria malo, muy malo; pero, em tal situación, era necessário un poco de representación, y por esto jo fue de encuentro a lo policía, junto de mi oponente, y nos quedamos, los dos, a hablar a lo miesmo tiempo, a disparar argumentos, hasta que la voz del sábio PM nos calo a nosostros, para escuchar su sentença.

Ustedes, qui son hombres, qui si entiendam.

Dije, y salió, el salomônico guarda, polícia de los mejores, y así el cabron hijo de puta fue escuchar el espuerro de la mujer, y El Diablo Rublo, com su pelos rojos, por primera vez em su vida escapo de los policiales rodoviarios.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O MÉDICO

O plantão estava calmo no Hospital Municipal de Mangaratiba, e o médico fumava. Cara de cansado, a camisa branca pra fora da calça, de manga curta, falava dentro da sala onde tudo acontecera, um espaço menor que o pior conjugado de Copacabana, cercado por ladrilhos brancos de todos os lados, inclusive na bancada do centro, pouco maior do que uma cama de solteiro. A bancada, com mármore no alto, era o único “móvel” do recinto. Não havia mais nada ali além das paredes de ladrilho e do médico, que contava a história do paciente de dois dias atrás, à beira da morte, depois de cair de avião numa praia.

A missão ali, naquela sala sem nada, era manter vivo o paciente, que deu entrada no hospital com sérias dificuldades para respirar, traumatismo crânio-encefálico e provável hemorragia intracraniana, e ninguém precisa ser médico pra saber que um quadro desses não é nada simples. Manter ele vivo, repetiu o médico, fumando ainda, era só o que podia ser feito naquela sala vazia, o paciente deitado no mármore.

Durante cerca de 15 minutos, o médico e mais nove colegas, outros médicos e enfermeiros, mantiveram o paciente com vida, dentro daquela sala sem nada, e com vida o entregaram ao helicóptero que o transportou para o Copa D’Or, onde novos médicos, renomados, consagrados na profissão, conseguiram, com a ajuda de tudo de mais moderno disponível na medicina, salvar definitivamente a vida de Herbert Vianna. Um trabalho de fato espetacular, que mostra como a inteligência humana é capaz de salvar uma vida que se esvai. De um fiapo de reação do organismo, quase último sopro, os grandes médicos, renomados, conseguem trazer o sujeito de volta, como no caso do Herbert Vianna. Só precisam do fiapo de vida. E o médico, a camisa social e a calça ligeiramente amarrotadas, fumava naquela sala sem nada, com a cara de cansado e um certo ar de consciência tranqüila.

O resto da história do acidente e da recuperação de Herbert Vianna está nas duas matérias abaixo. A primeira delas foi assinada também pela Márcia Montojos e pela Vivianne Cohen. A segunda foi mais uma parceria com a Vivianne Cohen.


Revista Istoé Gente, edição número 80, de 12 de fevereiro de 2001

“O quadro dele era gravíssimo. Nosso trabalho foi o de estabilizar o paciente na gravidade para ser socorrido numa unidade com mais recursos”

Na noite do sábado, 3, o cantor Leoni, ex-integrante da banda Kid Abelha, e sua mulher, Luciana Fregolente, receberam em casa seus novos vizinhos: o músico Herbert Vianna, líder do conjunto Paralamas do Sucesso, e a mulher, a jornalista inglesa Lucy Needham.
Velho amigo do casal, Leoni havia completado naquela semana a mudança para a nova casa de Vargem Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde Herbert e Lucy residiam havia mais de seis anos. “Nos divertimos como amigos de 20 anos que se encontram e se gostam”, conta Luciana. O jantar se estendeu pela madrugada. Herbert confidenciou à mesa que estava de férias e pronto para investir na boa forma física praticando natação e corrida diariamente.
Lucy chegou a comentar que no dia seguinte ela iria voar pela primeira vez no novo ultraleve do marido — um modelo Fascination, de dois lugares, fabricado na Alemanha e capaz de atingir 280 km/h, o mais avançado dos três ultraleves que Herbert Vianna adquiriu nos últimos quatro anos.
“Só perguntei se ela queria deixar a Hope na minha casa, mas a Lucy disse que as crianças iriam a uma festa”, conta Luciana, referindo-se à filha do meio do casal de amigos. No fim da comemoração, ficou acertado que a primeira saída dos quatro juntos como vizinhos de bairro seria um pulo ao cinema, na quarta-feira, 8, para assistir às agruras de Tom Hanks em O Náufrago.
Às duas horas da tarde do domingo, 4, Herbert chegou acompanhado de Lucy à sede do Clube Esportivo de Ultraleve em Jacarepaguá, próximo à sua casa. Foi direto à secretaria para fazer sua notificação de vôo. Os dois seguiriam para Mangaratiba, no litoral Sul do Rio de Janeiro, onde o músico Dado Villa-Lobos, ex-integrante da Legião Urbana e amigo de Herbert desde a época da adolescência, em Brasília, preparava um churrasco de comemoração do aniversário de sua mulher, Fernanda. Antes de embarcar Herbert inspecionou a aeronave de prefixo U 5210 durante meia hora. Verificou o óleo do motor, as asas e os comandos. Pegou no seu armário o headphone e pediu para que colocassem o avião na pista. Por fim, abasteceu o tanque de gasolina.
Eram duas e meia da tarde e estava tudo pronto para a decolagem quando ele teve uma última conversa com Valdir Lacerda, 51 anos, seu mecânico desde o primeiro ultraleve, adquirido há quatro anos.
– Você está indo para onde? — perguntou Valdir.
– Para Mangaratiba, no aniversário de uma amiga — respondeu Herbert.
– Vai com calma, porque vai ter formação de chuva para o lado de lá.
– Tá tudo bem – disse Herbert, levantando o polegar em sinal de positivo.
A nova aeronave tinha apenas 42 horas de vôo. Havia sido comprada há dois meses em Fortaleza, por US$ 80 mil. Quando chegou ao hangar do clube de ultraleve, foi saudada na oficina com champanhe francês. “Ele só passou a usar a máquina quando instalou os pára-quedas”, afirma Valdir.
Coube ao irmão de Herbert, Hermano, e a sua mãe, Maria Teresa, a missão de reunir as crianças para dar a notícia da tragédia na presença de uma psicóloga. Assim que souberam da morte da mãe, Luca, 8 anos e Hope, 5, começaram a chorar. Phoebe, de um ano e meio, deu brinquedos para os irmãos. “Se eu estivesse lá, abria a porta e salvava a mamãe”, disse Luca. “Eu sei abrir a porta do avião.”
Hermano, que dormiu no quarto de Luca, contou que o menino passou a noite perguntando sobre os pais. “Ele pegou a foto de um painel e me falou. “Esta é a foto mais preciosa que eu tenho: a minha família toda reunida”, disse o menino, grudando-a no computador. Emocionado, Hermano contou que Luca pediu a mãe de volta. “Eu disse que todos nós queríamos, mas que isso era impossível. Aí ele falou: “Mas tem a máquina do tempo”.
Uma hora depois da rápida conversa com o mecânico, o cantor e Lucy já estavam na Enseada de Mangaratiba. Herbert, como piloto da aeronave, chegou a passar três vezes na frente da casa de Dado, no condomínio Portobello. Quando tentava outra manobra, o músico perdeu o controle da aeronave. Ela caiu no mar, a cerca de 20 metros da praia particular do condomínio. “Parecia que ele queria dar um vôo rasante”, conta o comerciante Guilherme Ribeiro, 36, que velejava na enseada na hora do acidente.
A parte da frente da aeronave ficou submersa, mas uma lancha que passava pelo local facilitou o resgate, empurrando o ultraleve para terra firme. O resgate do casal até a areia durou entre três e cinco minutos. Guilherme foi o primeiro a socorrer o líder dos Paralamas. “Saltei do meu barco e ajudei a empurrá-los para a areia. Entrei no ultraleve, retirei o cinto de segurança do Herbert e o tirei de lá.” Outros cinco velejadores que estavam no local ajudaram a retirar Lucy da aeronave. Aos 36 anos, ela deixou o ultraleve já morta.
A equipe de paramédicos da Defesa Civil de Mangaratiba chegou ao local cinco minutos mais tarde. Quando viram o acidente, Dado e Paula Toller, vocalista do Kid Abelha, correram para a praia e entraram em desespero com o que presenciaram. “O Dado estava fazendo muita força para segurar a cabeça do Herbert, porque se ela caísse, poderia fechar a traquéia e prender a respiração dele”, contou Antônio Carlos Aniceto, coordenador da Defesa Civil. “O Dado não parava de gritar ‘Reage Herbert!’. Foi aí que nós assumimos e imobilizamos ele na prancha.”
As condições gerais de Herbert não pareciam boas. Ele tinha um corte de 15 centímetros na cabeça, um hematoma no peito e estava expelindo água do mar e sangue pela boca. “A pupila de um dos olhos estava dilatada e a outra, não. Isso nos fez suspeitar logo de lesão cerebral”, disse o chefe dos paramédicos.
Em 10 minutos, Herbert foi levado da praia para o Hospital Municipal de Mangaratiba. Lá, o cantor deu entrada na Sala de Parada, reservada a pacientes graves, com sérias dificuldades de respiração, traumatismo crânio-encefálico e provável hemorragia intracraniana. Na avaliação do médico Paulo Roberto Roseli, que chefiava a equipe de plantão, o corte na cabeça provocou perda de parte do couro cabeludo. Herbert mobilizou 10 pessoas da equipe do hospital — entre médicos e enfermeiros — nos 15 minutos em que permaneceu naquele local. “O quadro dele era gravíssimo. Nosso trabalho foi o de estabilizar o paciente na gravidade para ser socorrido numa unidade com mais recursos”, disse Paulo Roberto.
O momento mais crítico aconteceu no trajeto de helicóptero de Mangaratiba até o Hospital Copa D’Or, em Copacabana, na Zona Sul do Rio. O músico teve uma convulsão e quase morreu. Uma hora depois de ter sofrido o acidente, Herbert dava entrada no Hospital Copa D’Or. Para comandar a equipe médica, formada por 20 profissionais, foi chamado o médico da família, o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho.
O pai de Herbert, Hermano, e os irmãos Hermano e Hélder foram os primeiros a chegar ao hospital. A mãe do cantor, Maria Teresa, passava férias em João Pessoa, na Paraíba, mas chegou ao Rio na noite de domingo.
As manobras que Herbert teria feito foram o estopim de uma polêmica. Enquanto testemunhas como Guilherme Ribeiro afirmam que o avião fez dois loopings e caiu quando o músico tentava o terceiro, amigos do roqueiro descartam essa hipótese. “Ele nunca faria isso”, diz o compositor Paulo Sérgio Valle, que também é piloto de ultraleve. “O perigo é a mudança repentina dos ventos naquele local”, diz Antônio Carlos Aniceto.
A primeira experiência de Herbert Vianna como piloto foi a bordo de um helicóptero há alguns anos, que ele largou devido ao alto custo para mantê-lo. O músico cresceu vendo o pai, Hermano, hoje major brigadeiro da reserva, pilotando aviões. Ainda na escola primária, quis prestar exame para ingressar na Academia da Força Aérea de Barbacena, mas foi reprovado porque era míope.
Nos últimos tempos, Herbert se dedicava cada vez mais à aviação. As horas vagas eram preenchidas com vôos diários de, no mínimo, 40 minutos. Muitas vezes, Lucy e os três filhos assistiam a suas manobras da piscina do clube. Além da mulher, Herbert também costumava levar Luca, para voar com ele.
Quando adquiriu a nova aeronave, ele teve que passar por um período de adaptação e tirar uma nova carteira de habilitação, o Certificado de Piloto Desportivo Avançado. “Ele foi um ótimo aluno. Chegou aqui já sabendo tudo”, afirma Jesus Domingues, seu primeiro professor de ultraleve.
A compensação para o fracasso na Aeronáutica veio na música. Em 1982, o jovem de 20 anos que tocava de brincadeira com o amigo Bi Ribeiro conheceu o baterista João Barone. Estavam formados os Paralamas do Sucesso, uma das bandas de rock mais respeitadas do País, que já vendeu mais de 4 milhões de cópias de seus 14 discos lançados desde 1983.
Herbert e Lucy se conheceram em 1989, quando a jornalista inglesa veio ao Brasil fazer um documentário para a BBC londrina sobre a música jovem produzida no Brasil. Um ano depois, ela e Herbert se casaram.
Presente em quase todas as viagens do marido, a jornalista inglesa usou a experiência de levar os filhos nas excursões para escrever Viajando com as Crianças – Um Guia para Pais de Primeira Viagem, em 1997. Durante as 100 páginas, Lucy conta suas experiências de viagens com a família completa. O casal conheceu a Grécia, o Marrocos, a Espanha, a França e os Estados Unidos com seus filhos a tira-colo. “Nosso filho Luca chegou a dormir na mochila, enquanto nós perambulávamos pelas vielas de Marrakesh”, conta, na página 41 do seu guia.
“Eu tive o tempo de me dedicar a uma mulher que é excepcional como esposa, como mãe, como profissional. Para mim, o grande afrodisíaco da vida é admiração. Isso eu tenho muito por ela”, disse Herbert recentemente, em entrevista à revista Marie Claire.

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Revista Istoé Gente, edição número 158, de 12 de agosto de 2002

“A cabeça do malandro aqui voltou a ter um mínimo operacional.” E a platéia chorou, vibrou e aplaudiu a volta dos Paralamas.

Quem se emocionou ao assistir à volta dos Paralamas do Sucesso ao palco, numa participação especial no show da banda Reggae B, na terça-feira, 30, no Rio, pode se preparar para ver a cena cada vez com mais freqüência. Um ano e meio após o acidente de ultraleve que matou sua mulher, Lucy Needham, e o deixou entre a vida e a morte, o cantor e compositor Herbert Vianna, 40 anos, vem mostrando uma recuperação acima das expectativas dos médicos. Apesar de persistir a dúvida sobre a possibilidade de o cantor se recuperar totalmente do traumatismo na medula que o deixou paralítico, ele já consegue mexer a perna direita, e não há dúvidas sobre a plena recuperação do líder dos Paralamas em relação às lesões cerebrais. “Herbert está pronto para retomar a vida normalmente. Meus encontros com ele hoje são quase sociais”, diz o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, que acompanha o tratamento do líder dos Paralamas e, hoje, só precisa ver o paciente de três em três meses.
Motivado pela recuperação e sem esconder o ânimo com a retomada da carreira, Herbert aumentou as aparições nos últimos dois meses. No dia 11 de junho, tocou em público pela primeira vez, durante o show do colega argentino Fito Paez, no Canecão, no Rio. Duas semanas antes do reencontro com os parceiros de banda Bi Ribeiro e João Barone, no Ballroom, o guitarrista dos Paralamas subiu no mesmo palco, para uma participação especial no show da banda Reggae B, do companheiro Bi, que contou ainda com a canja de Lulu Santos. Em meio a tudo isso, gravou o novo disco dos Paralamas do Sucesso e fez viagens a São Paulo, nas últimas quatro semanas, para acompanhar a mixagem do CD, que terá o nome de Longo Caminho e será lançado em outubro, pela EMI. Aos parentes e amigos, tem repetido uma frase que marca a nova fase de sua vida: “Estou me reconstruindo”.
Para completar a reconstrução almejada, o cantor não tem medido esforços. Diariamente, faz duas horas de exercícios pela manhã, alternando-se em três tipos de fisioterapia: a hidroterapia, feita na piscina aquecida de um clube, onde é estimulado a caminhar com pesos nas pernas; a terapia ocupacional, realizada em casa, onde Herbert se acostuma a fazer todas as atividades da rotina diária, desde trocar de roupa a passar da cadeira de rodas para a cama, por exemplo; e a cinesioterapia, num miniginásio montado dentro de sua casa, em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio, onde o músico se exercita num aparelho semelhante às barras paralelas da ginástica olímpica. Ele caminha apoiado nas mãos e impulsiona as pernas com o quadril.
Acompanhado por um fisioterapeuta em cada exercício, Herbert já dispensa os enfermeiros e toda a estrutura hospitalar montada em sua casa logo após o acidente. No dia-a-dia, tem a ajuda de apenas um acompanhante. A boa performance na fisioterapia, porém, não é uma garantia de que o cantor conseguirá voltar a andar. “Os exercícios servem para que ele retome o equilíbrio e possa se reacostumar a andar rapidamente, caso se recupere da lesão da medula”, explica o médico fisiatra Luiz Alexandre Catanhede, que coordena a equipe de fisioterapeutas responsável pelo tratamento de Herbert.
Segundo Alexandre, quanto mais tempo passar do acidente, menores serão as chances de o músico voltar a caminhar. “O prazo para saber se um paciente com a medula lesionada poderá andar costuma ser de até três anos após a lesão. Se ele não se recuperar nesse tempo, dificilmente conseguirá depois”, explica o médico. O último grande avanço de Herbert foi há cerca de dois meses, quando o cantor, deitado na cama, conseguiu dobrar a perna direita num ângulo de 30 graus. Catanhede não arrisca prognósticos, mas garante que seu paciente está preparado para o que acontecer. “Ele tem esperança de andar novamente, mas sabe que pode continuar a levar uma vida normal se isso não acontecer”, resume o médico.
A dúvida sobre as chances de voltar a andar não tira de Herbert a alegria que a música vem lhe proporcionando. A família e os médicos, aliás, acreditam que a vontade de tocar guitarra, violão e até o piano de sua casa tem sido fundamental na recuperação do líder dos Paralamas. “Quando meu filho está travestido de músico, ganha outra energia, tem atitudes seguras. É muito importante que ele retome a carreira”, diz o brigadeiro Hermano Vianna, pai do compositor. Com a experiência de quem acompanhou o parceiro na gravação do novo CD dos Paralamas, o baterista João Barone já avisou a amigos que quem quiser saber como o guitarrista da banda está ficará muito surpreso ao vê-lo em ação.
Outro amigo de Herbert, o músico Leoni, faz coro. “Ele está eufórico em constatar que se lembra de todo o repertório que compôs antes do acidente. Quando fala de música, a memória dele funciona perfeitamente”, conta o ex-integrante do Kid Abelha. O último contato com o amigo foi há um mês, quando Herbert telefonou de São Paulo para felicitar Leoni pelo lançamento de seu disco solo.
Segundo Hermano Vianna, a memória do filho está praticamente recuperada, resta apenas um lapso referente a cerca de dois meses antes e depois do acidente ocorrido no dia 4 de fevereiro, em Mangaratiba, no litoral sul do Rio de Janeiro. Além da retomada da carreira, o compositor tem se dedicado a atividades de rotina, como buscar no colégio os filhos Luca, 9, Hope, 6, e Phoebe, 3. Antes avesso a computadores, Herbert agora gasta um tempo de seu dia navegando na internet e trocando e-mails com amigos. Apesar de todo o entusiasmo com a nova fase, o músico ainda não superou a tristeza pela perda da mulher. “Ele sempre diz que está de luto pela morte da Lucy”, conta Hermano.
Além de ver o filho recuperado, o pai de Herbert também sonha em vê-lo voando de ultraleve novamente. Embora o assunto não seja freqüente nas conversas entre eles, Hermano diz que a possibilidade já foi cogitada pelos dois. “Seria ótimo, porque foi por causa dos vôos que me tornei mais próximo do meu filho.” Se depender do mecânico que sempre cuidou dos ultraleves do líder dos Paralamas, o sonho tem tudo para se realizar. “Vamos tentar fazer uma adaptação no avião para que o Herbert possa pilotar. Ele sente muita saudade disso”, disse Valdir Lacerda, que esteve com o cliente mais famoso há dois meses.
Antes de voltar a voar, porém, o músico terá muito trabalho pela frente. Além do lançamento do novo disco dos Paralamas em outubro, a banda deverá fazer alguns shows em novembro ou dezembro. Empresário do grupo, José Fortes já começou a se reunir com representantes da gravadora para traçar a estratégia de marketing para o primeiro CD gravado por Herbert e seus parceiros após o acidente. “Estamos avaliando a possibilidade de um pequeno show para convidados quando lançarmos o disco”, diz o empresário. Ainda este mês, a música Calibre, que o líder dos Paralamas começou a compor antes da tragédia e concluiu depois, começará a ser tocada nas rádios. Já os ensaios para os shows terão início na próxima semana, primeiro na casa de Herbert e depois num estúdio maior, a ser escolhido.
Provavelmente, o clima dos ensaios será parecido com o que foi visto no Ballroom, no reencontro dos Paralamas. Animado com seu retorno, Herbert mostrou a disposição do início de carreira. Totalmente à vontade, o cantor cumpriu o ritual de aquecimento antes do show e abusou do bom humor puxando o coro de músicas repletas de palavrões. “Ele está com ótimo astral. Durante sua apresentação, olhava para seus amigos como se dissesse: ‘Estou de volta’”, conta George Israel, integrante do Kid Abelha que estava no show. Levado ao palco na cadeira de rodas pelo músico Dado Villa-Lobos, o líder da banda emocionou a platéia cantando sucessos como A Novidade e Meu Erro. Herbert admitiu ter sentido pequenas tonturas no palco, mas disse que se achava pronto para tocar. Lá, no palco, diante de fãs emocionados e ao lado dos amigos, resumiu o que sentia ao apresentar a música Calibre durante a apresentação: “A cabeça do malandro aqui voltou a ter um mínimo operacional.” E a platéia chorou, vibrou e aplaudiu a volta dos Paralamas.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A ÚLTIMA ENTREVISTA

As recomendações da chefe antes da entrevista beiravam o terrorismo. A Cássia Eller era muito difícil, tinha acabado de derrubar um daqueles pingue-pongues gigantescos da Playboy, contava a chefe, porque não gostou de uma pergunta da repórter. Ouviu a pergunta e encerrou a entrevista, no começo dela, deixando a repórter plantada. Além disso, continuava a chefe, a Cássia era ruim de falar, tímida em entrevistas simplesmente porque não gostava daquilo, e a cantora confessava isso sempre que perguntada. Pra arrematar, o horário da revista com ela seria o último de uma série marcada na sede da gravadora. Cássia Eller passaria a tarde inteira no mesmo lugar, fora de casa, fazendo algo que não gostava; e quando ela já estivesse mais do que saturada disso, haveria ainda mais um repórter, no caso eu, para fazer a última entrevista do dia.

O interesse de tantos jornais e revistas era mais do que justificado. Cássia Eller vivia o melhor momento de sua carreira. Depois de anos de marginalidade bem criticada, a cantora conhecia o sucesso, de vendas e de público, no nono disco, e por isso estava visivelmente cansada quando nos encontramos, ainda no pátio da gravadora, eu chegando e ela saindo da sala de entrevistas, achando, sinceramente, que seu suplício já tinha terminado. Quando a assessora disse que haveria ainda mais uma entrevista, a última, Cássia jogou a cabeça pra trás e deu um desses suspiros de quem se prepara para sofrer um pouco mais, antes do alívio final. Talvez tenha chegado a dobrar os joelhos no gesto, mas a reclamação ficou apenas no corporal. A cantora voltou resignada à sala de entrevistas e, durante pouco mais de uma hora, revelou uma despreocupação com as próprias respostas rara em entrevistados. Parecia bem à vontade.

A matéria abaixo foi publicada doze dias antes de Cássia Eller partir dessa

Revista Istoé Gente, edição número 124, de 17 de dezembro de 2001

"Sempre acreditava que iria me tornar uma artista popular, mas cada disco que fazia quase nunca ficava um ano em turnê. Já tinha desistido. Me conformei em ser meio maldita"

Cássia Eller virou cantora popular. Depois de 11 anos de uma carreira sempre elogiada pela crítica, mas com um quê de marginal, a cantora de 38 anos acaba de atingir a marca de 400 mil cópias vendidas com seu nono CD, Acústico MTV. Tudo bem diferente de quando a filha do sargento pára-quedista do Exército Altair Eller e da dona-de-casa Nanci começou a cantar pelos bares de Brasília músicas de Cazuza, Beatles e da vanguarda paulista. A nova fase só não fez com que a carioca criada em Minas perdesse por completo a timidez, que confunde quem assiste às apresentações da artista escrachada e sempre à vontade no palco. Companheira de Eugênia há 14 anos e mãe de Francisco Ribeiro Eller, o Chicão, oito anos – seu filho com o percussionista Jorge Felipe, que morreu antes do menino nascer –, Cássia admite que até recentemente ficava apavorada com a idéia de dar entrevistas. “Tenho tentado melhorar, ficar mais civilizada, e acho que estou conseguindo.”

Você esperava todo esse sucesso?
Sonhei com isso há muitos anos. Sempre acreditava que iria me tornar uma artista popular, mas cada disco que fazia quase nunca ficava um ano em turnê. Já tinha desistido. Me conformei em ser meio maldita. Tinha respeito do público, da crítica e dos outros artistas. Estava mais do que satisfeita. Ainda estou meio na onda do susto, não me acostumei. Lógico que é bom, mas até hoje me assusto quando vou a um lugar aberto e tem 30 mil pessoas me vendo. Não era assim até o ano passado comigo. Suava para botar mil pessoas num lugar.

Teve problemas com gravadoras?
O terceiro disco (Cássia Eller) foi feito na base da troca. Eu queria gravar uma coisa e eles falavam “só se você gravar tal coisa”. Tive que trocar. Metade do disco era meu, metade deles. Agora estou no meu melhor período de relação com a gravadora. Temos mais diálogo, mais condição de conversa. Briguei para nunca mudar meu estilo por causa das tendências do mercado. Valeu a pena.

Sempre quis ser cantora?
Na minha casa se ouvia muita música. Minha avó materna tocava bandolim, todos na família da minha mãe tocavam instrumento e ela cantava. Cresci ouvindo minha mãe cantando enquanto arrumava a casa e comecei a cantar com ela. Aprendi a tocar violão com primos. Mas ninguém na família quis ser profissional.

Quando virou profissional?
Com 18 anos, em Brasília, fiz um teste para um espetáculo do Oswaldo Montenegro. Passei e trabalhei com ele um ano. Depois cantei num trio elétrico, fiz dois anos de ópera e tinha um grupo de samba com os músicos da guarda presidencial. Com eles, cantava, tocava surdo e fazia o carnaval dos bailes. Tinha 19 anos e só queria saber de cantar. Em 1986, formei uma banda e cantava em bar, com repertório de quem eu gostava, Beatles, Caetano, Luís Melodia, Gil, Barão Vermelho e Cazuza, principalmente. Também cantava o som dos caras de São Paulo, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé.

Trabalhou no Ministério da Agricultura?
Tentei, né? Fui despedida com dois dias, acho. Substituí uma amiga minha que pediu licença para fazer uma cirurgia no olho. Só que demorei horas para escrever uma carta na máquina elétrica. Aí o chefe falou: “Pega seu violão, minha filha, e vai embora”. Tinha uns 21 anos e já estava na música. Fiz o bico pela grana. Também fui garçonete nessa época. Ganhava para o cigarro e o ônibus.


Tinha apoio da família para cantar?
Achava legal. Eles diziam que eu era persistente e davam valor a isso. Só que meu pai falava que as músicas que eu cantava não agradavam a ninguém. Ficava me dando conselhos para mudar o repertório.

O Chicão segue tocando com você?
Ele tocou no Rock in Rio e não quis tocar mais esse ano. Espantou-se com o público, ficou nervoso antes de entrar no palco. A mão dele suava diante daquele mundo de gente. O lance dele é jogar futebol. Faz escolinha no colégio e é bom, viu? Faz gol todo jogo, isso é que é matador.

Quer que ele siga sua carreira?
Lógico. A gente sempre quer puxar a brasa pra nossa sardinha. Mas tenho certeza de que ele é muito sensível, que vai descobrir algo de que goste. O Chicão tem uma bateria, a gente costumava fazer um som de bobeira, mas agora ele não tá muito ligado nisso. Tem tocado cada vez menos. Até pensei em colocá-lo numa escola de música, mas já perguntei e ele não quer. Só quer jogar bola.

Como você é como mãe?
Não sou muito coerente. Às vezes sou muito rígida com o Chicão e, no outro dia, na mesma situação já sou mais tranqüila, relaxo mais. Mas ele também é meio doidinho, acho que entende isso. Presto atenção nessas coisas de fazer o dever de casa, arrumar o quarto, escovar os dentes. Coisas que menino não gosta, que precisa mandar mesmo, ficar em cima. Isso eu gosto de prestar atenção, porque só com a repetição ele vai aprender, não tem jeito. Tenho que encher o saco do cara até que um dia ele faça sozinho.

O fato de ter um filho criado numa relação não convencional atrapalha?
Ele leva na boa. A gente nunca parou um dia e contou pra ele. Vivemos nossa vida desde que o Chicão nasceu. Ele sabe de tudo da gente e convive bem com isso, não mentimos. Ele é respeitado na escola também. Eu já cansei de procurar saber. Muitas vezes neguinho faz piadinha e ele nem liga, balança os ombros e sai andando. Acho bacana porque ele se impõe. O Chicão adora a nossa relação, minha e da Eugênia. Fica feliz em ver nós duas juntas, dá para perceber isso. É muito legal.

Qual o segredo para manter uma união de 14 anos?
Tem que ter muita paciência, respeito. Claro que cobramos fidelidade uma da outra, pra caramba. E tem que ter vontade de estar junto! Não consigo me imaginar sem ela.

Vocês já sofreram preconceito?
Já, mas a gente nem liga. Com a família, por exemplo, foi bem difícil. O preconceito era velado, mas meu pai não aceitava minha opção sexual. Hoje tá superlegal, minha mãe aceita na boa, meu pai, meus irmãos. Meu pai diz que meu casamento é o melhor da família.

Você gosta de ser dona-de-casa?
Adoro cozinhar, principalmente nesses dias em que tenho viajado muito. Chego em casa e me dá uma vontade louca de fazer meu rango. Quando o Chicão era pequenininho eu cozinhava mais, também trabalhava menos. Agora tenho gostado de cozinhar de novo. Nada especial, só arroz com feijão, sopa, macarrão, frango com cebola.

Gal Costa disse certa vez que acha a geração dela, Bethânia e Elis imbatível. Você concorda?
Concordo. Acho difícil essas três aí. Tá fogo pra nós. A Bethânia marcou mais pela força da interpretação. Todas elas têm isso muito forte, mas a Bethânia tem uma força única. A Elis Regina nem se fala. É uma das maiores cantoras que já ouvi na vida. O jeito de cantar dela me impressiona até hoje. A Gal Costa foi a primeira cantora moderna do Brasil. Com certeza abriu um caminho que, se não fosse ela, a gente estaria meio atrasada na forma de cantar.

A apresentadora Soninha foi demitida da TV Cultura por admitir que já tinha fumado maconha. Qual sua opinião sobre isso?
Ainda existe esse tipo de hipocrisia quando o assunto é droga. Acho que a Soninha foi muito corajosa. Alguém tem que falar a verdade. Ela foi só a primeira a falar na posição dela. Daqui a pouco vai pipocar mais dois, três. Ela abriu o caminho, foi legal.

Mas você sempre falou abertamente sobre droga...
Mas sou cantora, não tenho patrão para me mandar embora.

Como anda sua relação com as drogas?
Eu cheirava muita cocaína. Parei total, graças a Deus. Fiquei um tempo sem beber também e isso me fez bem. Não foi nem exatamente por causa do Chicão que parei, meu corpo não estava mais agüentando. Durante a gravidez parei porque, milagrosamente, enjoei de cigarro, café, maconha, de tudo. Cocaína, então, lógico. Não ia fazer uma coisa dessas. Aí o Chicão nasceu, amamentei e depois caí de novo na farra.

Quando decidiu parar com a cocaína definitivamente?
Fiz um tratamento de desintoxicação no fim de 1998 e no início de 1999. Esqueci o absorvente lá dentro, vinte dias. É o fim da picada! Estava com um sangramento esquisito e fui ao ginecologista. Ele olhou e disse: “Tem alguma coisa aí”. O cara tirou meio com nojo. Isso é estado crítico total, não pode uma coisa dessas. Aí me lembrei do dia em que coloquei o absorvente e da situação. Estava cheirando numa festa. Eu embalava dois, três dias sem parar. Aí deu um clique, fiquei pirada com a história. O meu problema hoje é que eu bebo, entorno uma cana. Eu gosto de birita.

domingo, 31 de janeiro de 2010

MADRUGADA ADENTRO

O primeiro erro foi morar com a mãe aos 24 anos. O segundo, deixar que ela atendesse o telefone naquela noite de sexta-feira, você recém-chegado do trabalho, de banho tomado, jantando em frente ao vasto noticiário sobre a morte de Renato Russo no Jornal Nacional. A mãe atende, fala Um momento e chama pelo teu nome. Já era. Do outro lado da linha, o chefe de reportagem, com ares de âncora do Leão Camarada, diz que você acaba de ganhar duas folgas na semana seguinte, qualquer dia, é só escolher. Ao fundo, escutam-se risadas, de colegas que permanecem na redação àquela hora, no pescoção, e você já sabe que vem coisa aí.

A pauta era a melhor de todas, chegou a dizer o chefe de reportagem, e o pessoal atrás rindo. Consistia, a pauta, em passar a madrugada, de 1h às 7h, no Cemitério do Caju, lá no fundo dele, pertinho do Complexo da Maré, no crematório onde jazia, muito bem guardado, inacessível, o corpo de Renato Russo. A cerimônia de cremação estava marcada para a manhã seguinte, às 10h, e o carro do jornal nos deixou no local à 1h15, mais ou menos. Nos deixou e partiu. O combinado era que o motorista voltasse às 7h. Ficamos em frente ao crematório eu, o fotógrafo da madrugada e vinte ou trinta sujeitos, todos homens, que lá estavam por livre e espontânea vontade, no escuro, a pé, no cemitério colado ao Complexo da Maré.

Um deles não tinha uma das pernas. Dizia-se poeta, chegara de muletas, sozinho, tinha o nome da banda tatuado num dos braços e era dos mais falantes, porque o Renato era tudo, tudo pra ele. O cara era o cara, dizia o sujeito, que morava em favela, sim, e era poeta mas se virava mesmo vendendo uns negócios, e pra ele o Renato era tudo. E cantavam todos, ao som de um violão, É preciso amar ou Quando o sol nascer, e conversavam também, riam. O faxineiro contou que tinha errado o caminho, já de noite, e topou com traficantes da Maré, três deles, todos de pistola na mão. Teve que deixar o boné com eles, e ria, todo mundo ria no Cemitério do Caju, às três da manhã. O menino de lenço no pescoço, os braços finos, brancos, dizia que simplesmente não podia estar em outro lugar, não podia, não naquele momento, e também pegou três ônibus, também morava longe, também não tinha grana. O único que tinha dinheiro não varou a madrugada. Chegou de carro, lá pelas 4h30, parou em frente ao crematório e saiu, deixando a mulher no banco do carona, de braços cruzados. A gravata vinha abaixo dos três botões abertos da camisa, que estava pra fora da calça. Ele primeiro perguntou se era ali que o Renato Russo estava e depois só falou que tinha que ver o cara. Tinha que ver o cara, só isso, e falou duas ou três vezes até a mulher chamar, alto, e ele entrar no carro. E foi embora.

Depois não chegou mais ninguém até o dia clarear. Ficamos eu, o fotógrafo da madrugada e os vinte ou trinta sujeitos, que sumiram na multidão quando o velório começou a encher, às 7h, e o carro do jornal voltou, e dali para a redação, onde o tamanho da matéria, da melhor pauta, já estava estipulado. Era esse aí debaixo.

Jornal do Brasil, edição de domingo, 13 de outubro de 1996

“Sou fanático pela Legião, mas jamais vi um show deles, por falta de dinheiro. Prometi a meus amigos que ficaria perto do Renato, mesmo sabendo que seria difícil ver o corpo”

Nem mesmo a proibição de ver o corpo de Renato Russo, imposta pela família do compositor, foi suficiente para desanimar as 25 pessoas que passaram a noite no crematório do Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, Zona Portuária. Durante toda a madrugada de ontem, o pequeno mas fiel grupo de fãs do vocalista da Legião Urbana permaneceu em frente ao crematório, cantando e tocando no violão os maiores sucessos da banda brasiliense. No último adeus a Renato, seus admiradores mais fiéis acabaram sendo os jovens das classes sociais mais baixas, que não se incomodaram em pegar até três ônibus para passar a noite perto do corpo do ídolo.
Ao contrário da histeria característica dos enterros de artistas famosos e dos barulhentos shows da banda liderada por Renato Russo, o clima no cemitério durante a madrugada era tranqüilo. O grupo de fãs enfrentou a madrugada sem causar tumulto, sem se incomodar com a falta de conforto. “Praticamente ninguém trouxe comida ou bebida, mas a intenção de todos aqui é ficar ao lado do Renato. Ninguém vai abandona-lo”, afirmava o faxineiro Valdeir da Silva Fonseca Nunes, de 24 anos, que saiu de Piratininga, em Niterói, para se despedir do ídolo, e quase se complicou na ânsia de ficar perto de Renato Russo. O faxineiro errou o caminho para o crematório e acabou entrando na Favela da Chatuba, ao lado do cemitério, por volta das 23h. Abordado por traficantes, Valdeir foi liberado após deixar seu boné na favela.
Entre os admiradores do compositor que enfrentaram as maiores dificuldades para passar a madrugada no crematório, o mais determinado acabou sendo o poeta Émerson Gonçalves Leonardo, de 21 anos. Deficiente físico – ele não tem a perna esquerda –, Émerson saiu sozinho de Marica às 13h de anteontem para, quatro horas e três ônibus depois, chegar ao cemitério. “Sou fanático pela Legião, mas jamais vi um show deles, por falta de dinheiro. Prometi a meus amigos que ficaria perto do Renato, mesmo sabendo que seria difícil ver o corpo”, contou o fã, que tem o nome da banda tatuado no braço esquerdo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O SUCESSO

A Cidade do México tinha um quê de nostálgica com seus fuscas verde-e-branco, táxis sem o banco do carona e com a cordinha pra fechar a porta, que remetiam aos anos setenta, no máximo oitenta, na muy amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. No México, o espaço vazio, sem o banco do carona, era ótimo para colocar a bagagem dos turistas, geralmente mochilas enormes, e foi numa dessas que o alquimista de origem germânica pode constatar, in loco, todo o talento, a categoria e a manemolência do povo asteca.

Vinha acompanhado de duas amigas e deixou a mochila no espaço vazio do carona, com o bolso da frente, estufado pela máquina digital, virado para o painel do fusca. O taxista foi muito simpático, conversou, deu dicas sobre a cidade e até gorjeta ganhou, antes que o alquimista de origem germânica descobrisse, já no quarto do hotel, que não era mais sua máquina digital, ultra-moderna, que estufava o bolso da frente da mochila, ainda devidamente fechado, como no início da viagem. No lugar da máquina, caríssima na época, três pedras, de tamanho e forma variados, cumpriam a função de evitar suspeitas. Um prodígio, de fato, prova cabal do que um mexicano da capital é capaz de fazer quando desafiado pelo destino.

E era nessa Cidade do México, onde a cada três estações um cego adentrava no vagão do metrô, às vezes munido de uma sanfona, que Paulo Ricardo tentava reconquistar o sucesso, que veio enorme, gigantesco, logo no início da carreira, quando a banda de rock liderada por ele arrebanhava multidões a ginásios e estádios, e vendia milhões, eu disse milhões, de discos. No México não havia mais rock, nem banda. Paulo Ricardo virara cantor romântico e almejava seguir a trilha do Rei. Disputaria o mercado com ícones do pop romântico, entre eles um porto-riquenho, outro espanhol e outra, linda, espetacular, hispano-americana. Seria preciso muito trabalho, e Paulo Ricardo não fugiu à luta.

Passou dez dias na Cidade do México, onde o centro histórico tem muitas ruas parecidas com aquelas que, no Rio, são exclusivas para pedestres. A diferença é que, no México, as tais ruas, além de infestadas por camelôs de todo o tipo – dos donos de barracas aos que vendiam seus produtos no chão mesmo, em cima de um saco qualquer –, permitiam o tráfego de veículos, caminhões inclusive. Tudo isso ao lado de uma ruína asteca de mil trezentos e alguma coisa.

Paulo Ricardo percorreu estações de rádio, sedes de gravadores e participou de programas de televisão. Fez também um show para 400 convidados, quase todos executivos do meio musical, ocasião em que, antes do espetáculo, foi entrevistado por duas repórteres da TV mexicana que... Meu Deus do Céu. Repito... Meu Deus do Céu... Cumpriu à risca toda a agenda, com profissionalismo exemplar, e não reclamou de nada, muito menos da altitude da megalópole, ridícula, se comparada a La Paz.

Depois foi para Miami, para sentir aquele bafo quente muito parecido com o do verão carioca logo na saída do aeroporto, antes de entrar na limusine branca que o aguardava do lado de fora. Durante dois dias, circulou pela cidade em grande estilo, percorreu estações de rádio, sedes de gravadoras e programas de televisão, e voltou ao Brasil para esperar o sucesso, de novo, como há treze, catorze anos. Mas o sucesso não veio, pelo menos o esperado, porque dois anos depois Paulo Ricardo não era mais cantor romântico. Remontara a banda antiga, com o mesmo nome, e caíra na estrada novamente.

Revista Istoé Gente, edição número 4, de 30 de agosto de 1999

"Acho que posso ocupar o espaço criado pelo Roberto"

Na manhã do dia 19 de agosto, o radialista cubano Javier Romero, 34 anos, radicado em Miami, gastou 35 minutos de seu programa diário de quatro horas de duração para entrevistar o cantor brasileiro Paulo Ricardo Medeiros. O programa, na Rádio Amor, é o mais ouvido pela comunidade latina da cidade e a entrevista, ao vivo, faz parte da estratégia internacional do ex-roqueiro para se firmar como cantor romântico. A idéia é incluir o Brasil como país de exportação dos artistas que têm faturado alto com o recente boom latino no continente, principalmente nos Estados Unidos. Paulo Ricardo quer dividir os refletores com o porto-riquenho Ricky Martin, a hispano-americana Jennifer Lopez e o espanhol Enrique Iglesias.
Lançada no México há dois meses, a música Dos, do disco em espanhol de Paulo, La Cruz y la Espada, já ocupa o primeiro lugar entre as mais tocadas nas rádios de Monterrey, terceira maior cidade do país. Em Guadalajara, Paulo está em quinto. Só perde para Enrique Iglesias e os mexicanos Luís Miguel, Alejandro Fernandez e Moenia. Na Cidade do México, Dos está entre as dez mais tocadas. Em Miami, a situação não é diferente. Na Rádio Amor, que mantém uma audiência diária de 500 mil ouvintes, Dos está em quinto, atrás de canções de Ricky Martin, Jennifer Lopez, do grupo mexicano Mana e de Christian Castro. "Estão pedindo a música do Paulo mesmo sem conhecer seu rosto", conta Javier Romero. "Isso é um ótimo sinal".
Só no dia 17, Dos foi tocada 40 vezes em 17 rádios de Miami, Porto Rico, Nova Orleans e Atlanta, entre outras cidades. Somou uma audiência de 2.411.000 pessoas, número superior aos 2,2 milhões alcançados por Bailamos, de Enrique Iglesias, da mesma gravadora, no mesmo dia.
No México, o cantor brasileiro é prioridade da Universal. "Queremos começar vendendo 100 mil discos até o fim do ano", diz Marco Bissi, presidente da filial mexicana da gravadora. "Dinheiro não vai faltar para promovê-lo", garante. Para divulgar o disco, Paulo Ricardo ficou dez dias no país, entre 8 e 18 de agosto, cumprindo uma agenda com aparições em programas de rádio e televisão. Além de trabalhar quase 12 horas por dia, o cantor ainda fez um show no Hard Rock Café da Cidade do México, para cerca de 400 convidados.
A estratégia da gravadora é aproveitar o mercado aberto por Roberto Carlos, até hoje um sucesso com as versões em espanhol de suas músicas. "Acho que posso ocupar o espaço criado pelo Roberto", diz Paulo Ricardo. Nas entrevistas em solo mexicano e em Miami, por onde passou nos dias 18 e 19, o rei sempre foi lembrado. "Roberto Carlos é o grande nome da música brasileira", não se cansou de dizer aos jornalistas.
Além de exaltar os românticos, Paulo Ricardo despreza o passado de roqueiro no RPM, banda que vendeu mais de 5 milhões de cópias na década de 80. "Sempre fui romântico, desde a época do RPM", diz. A certeza do que queria só veio com o sucesso da balada A Cruz e a Espada, em seu terceiro disco solo, Rock Popular Nacional, em 1996. A música, que já tinha feito parte do repertório do RPM, estourou na voz de Paulo Ricardo e Renato Russo.
Depois de estudar a fundo Francisco Alves e Lupicínio Rodrigues - "não conhecia nada antes de Roberto Carlos"-, o cantor gravou mais dois discos, O Amor Me Escolheu e Amor de Verdade. Este último já vendeu 500 mil cópias no Brasil. A vida pessoal do cantor também mudou. Atualmente solteiro, o pai de Paola, 10 anos - filha de seu casamento com a produtora de vídeo Moira Lynch, 33 -, garante que as drogas, o fumo e o álcool fazem parte do passado. Sempre acompanhado do personal trainer André Andrade, Paulo Ricardo mantém uma dieta rigorosa e faz ginástica sempre que sua agenda permite. Tudo para manter os atuais 77 kg distribuídos em 1,81m de altura. O esforço é tanto que o cantor prefere não revelar seus 36 anos de idade nas entrevistas. Nas perguntas sobre sua intimidade, ele se esquiva com um velho chavão: "Minha vida é a música".
Para enfrentar a forte concorrência, Paulo Ricardo fez mini-shows ao vivo em todas as entrevistas que concedeu. Acompanhado dos guitarristas Felipe Eyer, 32, e Paulo Galvão, 31, o cantor chegou até a improvisar um versão ao vivo de Dos dentro da limusine alugada pela gravadora, durante uma entrevista pelo telefone celular. Tudo pelo sucesso.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

HONÓRIO, O GURGEL, E O PARALELEPÍPEDO MOLHADO

A situação seria bem estranha se não tivesse partido do Palhoça, sujeito polivalente, que já trabalhou como segurança em show do Oswaldo Montenegro e baixista de banda de pagode, de calça branca e camisa cintilante azul bebê, ele que nem gosta de samba. Dessa vez, o caso envolvia uma máscara de mergulho especialíssima, cujo visor era uma lente para alguns graus de miopia.

Animado com as aulas de um curso de mergulho, onde mostrou desenvoltura nos exercícios da piscina e aprendeu todas as técnicas necessárias para admirar as maravilhas do fundo do mar, Palhoça mandou fazer a máscara. E já tinha pagado tudo, as aulas do curso e a máscara, quando o médico de sempre lhe disse que, se ele insistisse com essa história de mergulho, poderia deixar o convívio dos amigos com rapidez impressionante, talvez na primeira incursão aos domínios de Netuno.

Diante daquele sábio doutor, do outro lado da mesa do consultório, a máscara virou artefato inútil, lembrança de uma vontade não saciada. Só que não tinha custado barato e, pior, não tinha sido nem entregue. Questão de honra, portanto, pegar aquele material precioso, caríssimo, nem que fosse apenas para assistir ao Discovery Channel com ele. E como Honório nunca deixava um amigo na mão, lá fomos eu, o Palhoça e a Pequena Espevitada, moça cheia de charme, muito próxima na época, atrás do “especialista” em construir máscaras de mergulho para míopes, que já tinha parado de atender telefonema há uns bons quinze dias.

Tudo o que tínhamos era o endereço da casa do sujeito, em Petrópolis, num bairro chamado Samambaia, do qual eu nunca ouvira falar, mesmo tendo freqüentado a aconchegante cidade serrana desde muito pequeno até os 20 anos. A viagem de ida foi tranquila. Honório teve atuação espetacular, desde a saída do Rio, passando pela subida da Serra, pela parada obrigatória do croquete do alemão, por vielas nunca antes visitadas da terra de Dom Pedro II, perguntando aqui e ali, até chegar na frente da casa do “especialista”.

Ficava no alto de uma ladeira com duas fileiras de pedras e grama em volta, por onde deveria entrar e sair, todo dia, o carro do dono da casa. Chamamos, batemos palmas, buzinamos, e eis que assoma, no alto da ladeira, um sujeito calvo, de cabelos amarelos e ligeiramente mais baixo que um urso polar.

Goleiro de handebol nos tempos de estudante, e de futebol até os dias de hoje – desde a glória maior nas olimpíadas do colégio, quando pegou, sim, pulando num canto mas deixando a perna esticada, o pênalti do craque da turma, do bonitinho da escola –, Palhoça subiu sozinho. Eu e a Pequena Espevitada ficamos ao lado do carro, eu de braços cruzados, apoiado no Gurgel e fazendo cara de peça de Gerald Thomas.

Lado a lado, e vistos de baixo da ladeira, Palhoça e o “especialista” tinham um quê de Danny De Vitto e Arnold Schwazenegger naquele filme em que os dois interpretaram irmãos gêmeos. A conversa foi rápida, de poucos gestos e fala mansa, e logo o Palhoça desceu, ainda sem a máscara mas de posse de uma garantia escrita de próprio punho pelo “especialista”, num papel de pão em que se lia, apenas e tão somente, o endereço da casa onde estávamos.

Concordamos, os três, que a garantia tinha valido a viagem, até porque quem escrevera aquele endereço, no papel de pão, poderia muito bem ter um rifle em cima da lareira, quem sabe embaixo de uma cabeça de alce ou, por que não, de urso polar. Que a vida seguisse, que fosse feita a distribuição de renda involuntária, se assim era a vontade do destino.

Imbuídos desse sentimento nobre, de profundo desapego, decidimos relaxar e aproveitar as maravilhas da joia do Império, o palácio das pantufas, os passeios de charrete, o lanche na Colombo, a carne da churrascaria Maloca, com seu teto de palha, a casa de Santos Dumont e muito mais, até a volta ao Rio, de início pela estradinha de paralelepípedos com um canal no meio, os paralelepípedos molhados, todos, pela garoa fina que quase não caía.

Honório vinha devagar, cauteloso, com todo o respeito devido ao paralelepípedo molhado, mas a época era de salário ridículo e os pneus não estavam lá muito confiáveis. Numa das curvas, e contra a vontade própria (tenho certeza), Honório decidiu se livrar do meu comando. Rodou completamente descontrolado, seguramente mais de 180 graus, e só parou na beira do canal, graças ao meio-fio, alto, sólido, exemplo digno da competência dos pedreiros nacionais, construído talvez durante o governo de nosso melhor imperador, que segurou as duas rodas traseiras do Gurgel, interrompendo o descontrole. Do banco de trás, Palhoça repetia esporadicamente: Eu vi o canal. Eu vi o canal. Falou isso ainda algumas vezes no bar, enquanto bebíamos a cerveja de emergência, antes de pegar a estrada de volta, e aqui que a Lei Seca me perdoe, porque foi uma cerveja só e sem ela não haveria a menor condição de descer uma serra cheia de curvas depois de ficar tão perto das águas fétidas daquele canal.

A viagem foi tensa, lógico, mas chegamos sãos e salvos, a Pequena Espevitada dormindo no banco do carona, eu com dor no pescoço, pelo receio de cada curva, e o Palhoça com o endereço do “especialista” no bolso, no papel de pão. Todos nós muito felizes, bem longe daquele canal.

sábado, 28 de novembro de 2009

O POETA

O poeta brasileiro concorre ao Nobel. Nas horas que antecedem o resultado, ninguém sai da frente da televisão ou do rádio, de Aquidauana a Bagé. A bandeira verde e amarela toma conta das janelas e as cornetas insuportáveis dão o ar de sua chatice a todo momento, no meio da rua ou no alto de um prédio. É o Brasil de novo na Suécia, abençoada terra gelada, para mostrar dessa vez a arte de sua literatura; e os publicitários, claro, não perdem essa oportunidade. Em quase todos os comerciais, daqueles com música de exaltação aos mais pretensamente sérios, com algum ator declamando um texto metido a literário, uma expressão se faz presente: O Nobel é nosso. O País vive em função da disputa na Suécia. De novo, a Suécia.

Ainda bem que nada disso aconteceu quando resolveram oficilizar a candidatura do Ferreira Gullar ao Nobel, mas pelo menos o poeta se divertiu. Entre uma caminhada e outra pelas calçadas de Copacabana, o autor de Poema Sujo recebeu o apoio de copacabanenses bem informados e pôde sentir um discreto clima de Copa do Mundo, por mais contraditório que seja botar as palavras discreto e Copa do Mundo na mesma frase. Não levou o Nobel, ainda, mas isso também não tem tanta importância assim.

Abaixo, a matéria:

Revista Istoé Gente, edição 141, de 15 de abril de 2002

"São as mesmas pessoas escrevendo há anos. Não há imaginação que agüente. Graciliano Ramos escreveu uns cinco romances, Flaubert fez quatro. Balzac escreveu muitos, mas nem ele daria conta do que a tevê pede para os autores."

As caminhadas pelas ruas de Copacabana nunca mais foram as mesmas para o poeta Ferreira Gullar, 71 anos. O maranhense que revolucionou a poesia brasileira com o concretismo de A Luta Corporal, em 1954, tem vivido experiências dignas dos maiores ídolos do esporte nacional. Parado pelos vizinhos do bairro, ouve incentivos e recebe apoio como se fosse disputar uma Copa do Mundo. O motivo é a candidatura do poeta ao Prêmio Nobel de Literatura, oficializada em janeiro, quando o catedrático de Literatura Brasileira Antônio Carlos Secchin foi à Suécia para entregar, na centenária Academia de Estocolmo, a defesa de Gullar.
Depois das tentativas de lançar os nomes de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Mello Neto e Jorge Amado, essa foi a primeira vez em que as exigências burocráticas foram seguidas à risca para a candidatura de um brasileiro. “No caso do Jorge, foi enviado apenas um telegrama à academia sueca, assinado pela União Brasileira de Escritores. Quanto ao Drummond e Cabral, parece que a indicação nunca chegou a Estocolmo”, conta Secchin, representante do grupo de intelectuais que apóia Gullar.
Sem querer pensar muito no Nobel, cujo resultado sairá em outubro, o pai de três filhos e avô de oito netos prefere gastar o tempo livre curtindo as estripulias do único bisneto, Pedro, 5 anos. Viúvo da atriz Thereza Aragão, o ex-integrante do Partido Comunista vive hoje com a poetisa Cláudia Ahimsa, mas não mora com a mulher. Em casa, sua única companhia é o gato Gatinho, que inspirou um livro de poemas infantis. “A casa foi esvaziando e ficamos eu e o gato”, resume Gullar.

Como recebeu a candidatura para o Prêmio Nobel?
A princípio, tentei dissuadir o grupo que apresentou minha candidatura. Os prêmios Nobel são escritores por quem eu tenho muita admiração. Jamais imaginei ser um deles, seria petulância. Mas não vou brigar com quem quer me indicar, não sou maluco. Acho bastante difícil. Nunca fez parte do meu projeto de vida, mas se vier, será bem-vindo.

Sua rotina mudou depois disso?
As pessoas me encontram na rua e falam: “É o Brasil, vamos ganhar!”. Digo que só não quero que me transformem no Guga, porque quando ele perde querem acabar com ele. Não sou o primeiro do ranking, nem pretendo. Porque depois vão dizer “esse filho da mãe não correspondeu à nossa expectativa”. Mas tem um lado simpático.

Que lado é esse?
Tenho muito o sentido de herdeiro da cultura brasileira e me orgulho disso. Sou um poeta brasileiro, nasci da poesia brasileira. Costumo dizer que o sentido da vida são os outros e incluem, em primeiro plano, seu próprio país, língua, gente e cultura. Se o Nobel acontecer, o maior significado será esse. De ser a literatura brasileira. A senhora que me encontra na rua e diz “vamos lá, é o Brasil!” se sente representada e torce.

Acha que é a hora de um brasileiro levar o Nobel?
O prêmio do Saramago (o português José Saramago foi o primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o Nobel, em 1998) teve um significado enorme e chamou a atenção para a literatura de língua portuguesa. Era um escândalo que nenhum escritor da nossa língua, um Fernando Pessoa, um Drummond, tivesse ganho. O João Cabral, sem dúvida, mereceria também. O Jorge Amado idem, é um nome mundial, traduzido em todas as línguas e com um prestígio maior fora do Brasil do que aqui.

O que pensa da intenção de Paulo Coelho de entrar para a Academia Brasileira de Letras?
É um escritor e qualidades ele tem, porque não existe mágica. Se não tivesse algo especial, que atraísse o interesse das pessoas, Paulo Coelho não teria esse êxito. Não é a literatura que me interessa, mas isso não quer dizer nada. Essa coisa do valor literário é relativa. Não existe um critério que estabeleça o que é literatura.

A crítica não gosta de quem vira best-seller?
Há essa tendência. Mas é claro que existe um tipo de arte, em todos os gêneros, que por ser menos inovadora ou inquietante atinge uma faixa muito maior de pessoas. Uma literatura mais crítica, profunda, não oferece solução fácil para os problemas e não atinge tanta gente. Como a novela de televisão. Do ponto de vista estético, é a linguagem fácil, aceita sem inquietação. Quase tudo ali são falsas soluções, muitas vezes falsos sentimentos. Mas você não vai pretender fazer uma literatura televisiva para atingir milhões de pessoas se não for assim.

Como vê a qualidade das novelas hoje?
Está mais baixa, e não é culpa dos autores. São as mesmas pessoas escrevendo há anos. Não há imaginação que agüente. Graciliano Ramos escreveu uns cinco romances, Flaubert fez quatro. Balzac escreveu muitos, mas nem ele daria conta do que a tevê pede para os autores. Então esgota. O cara não tem mais o que contar.

Qual a solução?
Como a novela é a espinha dorsal da tevê, está criado um conluio estranho. A tevê não pode dispensar a novela e o autor está cansado mas não pode deixar de escrever, porque também ganha um belo salário. A televisão bota no ar o que é escrito, e o cara escreve sabendo que não está tão bom. Não sei como sair disso.

O que acha das adaptações da literatura para a televisão?
Acho válido, sabendo que é outra coisa. Por exemplo, Dona Flor e Seus Dois Maridos tem umas 500 páginas, mas deu um filme de uma hora e meia. E está tudo lá. Quando a Globo encomendou, para o Dias Gomes e para mim, a adaptação de Dona Flor para uma minissérie de 36 capítulos eu disse, tô fora. A história é muito curta e a tevê tem de fazer muitos capítulos para compensar os custos.

O que aconteceu então?
Dos 36 capítulos iniciais passamos para 24. No capítulo 15 Dona Flor se encontrava com Vadinho. Como se conta uma história em que os protagonistas só se encontram no capítulo 15? Quando chamaram o Guel Arraes para dirigir, ele leu e falou que daquele jeito não dava. Eu disse: “Então vai lá e diz pro Boni, porque já conseguimos passar de 36 pra 24”. Negociamos e foi ao ar com 12 capítulos.

Como avalia sua experiência na Globo?
Fiquei 22 anos. Comecei em 1978, convidado pelo Dias Gomes, e fiquei até 2000. Tinha voltado do exílio em 1977, desempregado, e só tinha feito teatro. O Dias me deu as dicas e fiquei trabalhando, mas não queria me transformar em autor de novela. Não estou subestimando, é que não é a minha. Não tenho vocação para isso.

Como o poeta de vanguarda se adaptou à tevê?
Sempre separei as coisas. A televisão era algo profissional. Até porque só um louco diz “agora vou escrever uma novela de 180 capítulos” sem ninguém pedir. Na tevê só se faz o que é encomendado. Tive sorte de trabalhar 90% do tempo com o Dias, que tinha uma qualidade excepcional. Trabalhar com ele me protegia, porque o Dias tinha prestígio na Globo, não precisava seguir as mesmas exigências, que obrigam muitas vezes o autor a se submeter a determinadas coisas.

Voltaria a trabalhar em televisão?
Jamais. A melhor coisa que me aconteceu foi sair da Globo. Não tenho queixa de lá, mas há algo angustiante, que é essa coisa do público e da própria emissora. O contrato em suspenso como uma espada na cabeça do cara, que não sabe se vai ser contratado. Um clima terrorífico, que leva todo o pessoal para a ponte de safena. O dia em que saí de lá fui jantar com minha mulher para comemorar, junto com meus 70 anos.

Como vê o cenário político atual?
Foi dado um passo para um país mais organizado com o Fernando Henrique, temos de reconhecer isso. Quero saber quem vai dar o passo adiante sem destruir o que foi feito, quem vai começar a governar para os 50 milhões que não têm nada.

Que candidato tem condições de fazer isso?
Ainda não sei. Estou observando. O quadro está aí, as pedras estão sendo lançadas ainda.

O que acha de Roseana Sarney, sua conterrânea?
Ela pelo menos não dizia que ia para trás, dizia que ia continuar as coisas. O governo dela no Maranhão não é pra trás. Ela acabou com as secretarias e criou gerências. Fez isso porque cada secretário criava um pequeno governo e gastava à toa. Agora o cara é gerente, não faz mais isso. Parece que tem uma série de coisas que ela fez que são certas.

O escândalo envolvendo o marido de Roseana atrapalha a candidatura dela?
É um golpe forte. Acho difícil que ela consiga ir adiante. Não estou a par dos bastidores da política, mas até agora a responsabilidade pessoal dela no caso ainda não foi apurada. Lamento porque de fato tenho carinho por Roseana, mas é um caso grave e tem de ser apurado. Não acho que aquilo tudo foi fruto de conspiração.

Ainda acredita no socialismo?
É evidente que o socialismo acabou, o que não significa que o capitalismo é bom. É fecundo, cruel e injusto como a natureza, porque a natureza não tem sentido de Justiça. Ela cria milhões de bichos, depois inunda e mata tudo. Como o capitalismo é injusto, tem de ser mudado, se não for com o socialismo será de outra forma. As pessoas não continuam brigando, protestando? Então, a luta continua.