quarta-feira, 14 de julho de 2010

O VELHO LOBO SE RETIRA

Zagallo marcou a entrevista no playground do prédio e na hora marcada estava lá, sentando numa cadeira de plástico, com algumas folhas de papel na mão. Era o currículo dele, disse, como se precisasse daquilo para se apresentar. Uns seis meses antes, o Brasil tinha conquistado sua quinta Copa do Mundo, na Coreia do Sul e no Japão. Foi a primeira e até agora única sem a participação de Zagallo, bicampeão em 1958 e 62 como jogador, tri como treinador em 70 e tetra como coordenador técnico em 1994, o que lhe valeu a honra de ser o único técnico da história da seleção brasileira a ganhar o direito de um jogo de despedida dirigindo o Brasil. A entrevista aconteceu menos de um mês depois desse jogo, quando o Velho Lobo já estava plenamente recuperado de uma embolia pulmonar adquirida nas quase 50 horas de voo para ir e voltar da Coreia do Sul, onde o Brasil venceu os anfitriões por 3 a 2. Bem ao seu estilo, Zagallo minimizou o problema de saúde. O importante, mesmo, foi a vitória na despedida definitiva dos gramados. Justa vitória.

Abaixo, a entrevista

Revista Istoé Gente, edição 176, de 16 de dezembro de 2002

"Estou com quatro conquistas nas costas e, se não fosse isso, o Brasil não seria penta. Me considero penta porque todo brasileiro é penta. Cada um de nós tem de botar banca, sim"

Nada melhor do que os números para apresentar Mário Jorge Lobo Zagallo. Aos 71 anos, único homem a ostentar quatro Copas do Mundo no currículo, o alagoano de Maceió que começou a jogar futebol aos 17, no América do Rio, não esconde uma preferência especial pelas estatísticas da sua passagem como técnico da Seleção. Em 154 partidas, Zagallo venceu 110, empatou 33 e perdeu apenas 11. “É difícil alcançar esses números”, diz, sem falsa modéstia. Campeão mundial como jogador em 1958 e 1962, como técnico em 1970 e como coordenador técnico em 1994, o velho Lobo, como é conhecido, deu adeus como técnico da Seleção no último dia 20, dirigindo o Brasil na vitória por 3 a 2 sobre a Coréia do Sul, em Seul. Largar o futebol, porém, ainda não está nos seus planos. “A paixão continua. O futebol é minha vida”, diz o marido da dona-de-casa Alcina de Castro Zagallo, pai de quatro filhos e avô quatro vezes.

Sentiu medo quando foi internado recentemente?
Não, porque tive uma embolia pulmonar em conseqüência do tempo em que fiquei sentado para ir e voltar de Seul. Um coágulo se deslocou da perna e se alojou no pulmão direito. Poderia ocorrer com qualquer um, de qualquer idade. Só senti uma dorzinha quando puxava o ar. Felizmente, tinha um check-up de rotina marcado logo depois e comentei essa dor com o médico. Ele disse que era normal, afinal foram quase 50 horas sentado, na ida, na volta e esperando nos aeroportos. Viajo desde 1950 e só foi acontecer isso agora. Graças a Deus foi tudo bem. Daqui a um mês estarei liberado para jogar meu tênis quatro vezes por semana.

O médico deu alguma outra recomendação?
Disseram-me que em viagem longa tem de andar no avião. Só que ali tem umas 400 pessoas. Já imaginou se todos resolvem andar, como o trânsito ia ficar interrompido? Tem que rir agora, porque o susto já foi embora.

Como foi se despedir da Seleção na Coréia?
O coração até que agüentou bem. Me sinto honrado porque nunca aconteceu uma despedida de técnico como essa no esporte brasileiro. Acabou sendo um evento mundial, porque foi na Coréia, passou no mundo inteiro e foi bom também o resultado positivo. Me despedi com uma vitória e é sempre importante, porque futebol brasileiro é sinônimo de vitória.

Teve medo de perder o jogo final?
Na palestra antes do jogo disse aos jogadores que festa é muito bonita, mas com vitória. Com derrota, não adiantava nada. Foi difícil porque viajamos direto para o jogo, sem tempo de nos acostumar com o fuso horário. Tivemos que correr contra tudo e ainda jogar na casa do adversário, quarto colocado na Copa. Felizmente as coisas não poderiam ter sido melhores. Comecei vencendo e terminei da mesma forma a carreira de técnico da seleção.

Como foi assistir ao Brasil ser campeão do mundo como torcedor?
Sempre disse que, quando ganhávamos a Copa, proporcionávamos um Carnaval em junho e julho aos brasileiros. Demorou mas acabei tendo a alegria de curtir cada vitória na Copa como torcedor, porque lá dentro é uma adrenalina só. Quando você está no comando a responsabilidade é tão grande que você só comemora alguma coisa quando tudo acaba.

O senhor se considera pentacampeão?
Estou com quatro conquistas nas costas e, se não fosse isso, o Brasil não seria penta. Me considero penta porque todo brasileiro é penta. Cada um de nós tem de botar banca, sim, porque quando estávamos mal nas eliminatórias a Argentina estava aí nos gozando. Tiveram de engolir, não é? Agora vamos para o hexa.

Como avalia o trabalho do técnico Luiz Felipe Scolari?
Ele ficou com um rabo de foguete tremendo nas eliminatórias e não podia ser diferente, porque pegou o time numa situação delicada. Mas classificou e depois prosseguiu. Fazia uma variação entre o 3-5-2 e o 4-4-2, escolheu o primeiro e foi feliz. Sempre disse que o técnico tem que escolher um esquema e ir com ele até o fim. Ficar variando de um para outro é querer mostrar que sabe mexer em sistema,
mas o futebol não é isso.

Acredita que os técnicos fazem isso por vaidade?
Acredito que sim. Não tem essa de variar de jogador dependendo do adversário, ou passar alguém da ponta para o meio. Você pode tentar tudo antes de montar o time,
como fiz em 1970, avançando o Tostão, recuando o Piazza e tirando o Rivelino e o Clodoaldo do banco. Mas fiquei dois meses trabalhando em cima da minha idéia antes da Copa. Depois que acertei, não mexi mais e fomos campeões. Futebol é simples. Se há craques no time, eles têm de saber desempenhar a função no esquema.

Hoje, quem é craque?
Temos jogadores que já mostraram que são craques e se firmaram com o tempo. O Roberto Carlos é o melhor na posição dele. O Ronaldinho Gaúcho também se firmou e se desenvolveu ainda mais indo para a França. Ronaldo é outro, um fenômeno.

A recuperação de Ronaldo o redime da decisão de ter confiado nele em 1998?
O meu problema, entre aspas, com o Ronaldo foi a doença dele, o estresse emocional, convulsão ou como queiram chamar. Depois do problema na concentração, ele não estava escalado. Quando voltou da clínica, disse que queria jogar. Não foi vetado pelos médicos e eu o coloquei para jogar. Esse ano o Felipão acreditou nele e eu, nas crônicas que escrevia, apoiei essa decisão. Felizmente, o Ronaldo chegou lá, mesmo sem estar 100%, porque é um artilheiro nato.

Arrepende-se de tê-lo escalado em 1998?
Em absoluto. A doença dele é que deixou a seleção apática. Se não jogasse, o time sentiria da mesma maneira. Se eu não o escalasse, seria o único culpado. Mas escalei
o melhor jogador do mundo, que não tinha sido vetado e disse que queria jogar.

Levaria Romário para a Copa de 2002?
Tenho uma ação na Justiça contra Romário porque, quando ele foi cortado em 1998, inaugurava o Café do Gol e me botou sentado na privada (uma das caricaturas pintadas nas portas dos banheiros da boate de Romário no Rio) e, do lado, o Zico com papel higiênico. Mas o chamaria para a Copa, porque não misturo vida pessoal com profissional. É meu ponto de vista e respeito o do Felipão. Deve ter havido problemas quando o Felipão estava no comando, mas quem tem de falar disso não sou eu.

Ficou magoado com Romário?
Sempre o convoquei, mas quando o cortei ele me detonou. Fiquei magoado porque ele quis desmoralizar a mim e ao Zico. Entrei com ação porque a imagem correu mundo, em jornal e televisão. Já estivemos juntos novamente, nos cumprimentamos, mas ele não me pediu desculpas.

É verdade que o senhor estava trabalhando no Maracanã na final da Copa de 1950?
Estava como soldado da Polícia do Exército. Não fui convocado só para a Seleção. Fui também para o Exército e para tirar madeira do Maracanã. Trabalhei uns três dias retirando as sobras da obra do estádio. Na final, vi o jogo da arquibancada, com a farda verde-oliva, fazendo a segurança. Mas ninguém me falou que tinha de ficar de costas para o campo, vigiando a torcida, e não fiquei. Não ia perder a final da Copa.

Já imaginava o que faria no futebol naquela época?
Fico até arrepiado pensando nisso. Nunca podia imaginar, apesar de já estar jogando nos juvenis do Flamengo em 1950, que um dia seria o único a ser quatro vezes campeão do mundo e uma vez vice. Muitos acham que não, mas chegar à final de uma Copa do Mundo é coisa à beça.

Pensa em continuar no futebol?
Não vou dizer que dessa água não beberei. Como técnico da Seleção, me despedi. Toparia trabalhar como coordenador técnico de clube ou da Seleção. Não quero mais é ficar dentro das quatro linhas, mas pode ser que me dê uma coceirazinha e eu aceite algum convite de clube. No brasileiro desse ano recebi quatro convites, do Inter, do Botafogo, do Palmeiras e do Atlético Paranaense. Quase aceitei o do Atlético, mas achei que não era o momento.

Sua vocação de técnico se manifestou quando?
Comecei na meia-esquerda do América, com 17 anos. Já acompanhava bem o futebol e, naquela idade, tive a intuição de mudar para a ponta-esquerda para, num futuro, chegar à Seleção. Passei a jogar ali pra fugir da concorrência no meio, que tinha gente demais. Em 1958, fui convocado para a Copa, mas todos achavam que ia ser cortado. O Vicente Feola (técnico da seleção de 1958) percebeu que eu fazia a dupla função, jogando na ponta e fechando o meio-campo, e me confirmou como titular. Fui muito criticado, mas o tempo me deu razão. Hoje quem não faz isso não joga, tirando as exceções.

O início de carreira foi difícil?
Meu pai (Aroldo Cardoso Zagallo) era contra, apesar de gostar de futebol e ir aos estádios aos domingos. Na época todos achavam que jogador de futebol era vagabundo. Depois ele acabou deixando e ia sempre me ver jogar. Meu pai morreu em 1958. Até hoje acho que foi por causa das emoções que ele viveu ouvindo os jogos da Copa. Fomos campeões em junho e ele morreu em setembro.

Qual seu time de coração?
Meus dois clubes foram o Flamengo e o Botafogo, onde ganhei os principais títulos. Se disser que sou um ou outro, magoaria os torcedores de um dos dois. Então digo que sou América. Não magôo ninguém e ainda faço justiça com o meu primeiro clube.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O OUTONO DO CRAQUE

As pernas já não obedeciam como antigamente. O fôlego, já não era o mesmo há alguns anos, e as atuações antológicas, os golaços de voleio, as tabelas com o maior de todos os tempos dentro da área e aquele toque de chapa, mortal, preciso, ficaram no passado. Mas como abandonar tudo isso assim, de repente, de uma hora pra outra? Como deixar de ser tratado como ídolo, num clube de massa, depois de tantas glórias, de tantos gols?

A carreira de Bebeto estava prestes a acabar quando a matéria foi feita, na casa dele, arrumada por um assessor de imprensa que "vendeu" a pauta para a revista; e o sujeito que anos antes deveria lidar com uns vinte pedidos de entrevista por semana me recebeu sorridente, feliz da vida, porque estava voltando a um grande clube, no caso, o Vasco.

Dois anos depois de sua última passagem pelo Rio, no Botafogo, onde quase ganhou uma Copa do Brasil, Bebeto retornava de duas breves temporadas frustradas no exterior, uma no México, de onde saiu correndo com medo de ameaças veladas do presidente de um clube sem qualquer tradição, e outra no Japão, onde foi obrigado a treinar conclusões a gol exaustivamente como se fosse um iniciante, ele que formou com Romário a maior dupla de atacantes que uma geração inteira viu jogar com a camisa da seleção brasileira.

E foi o parceiro da Copa América de 1989, e depois do Tetra, em 94, quem levou de volta ao Vasco o artilheiro do Brasileiro de 92, o campeão do Brasileiro de 89. Bebeto agradecia muito ao Romário na entrevista, e sorria, feliz com a oportunidade. No tempo parado, sem clube, tinha treinado na quadra e na piscina do condomínio, com um personal trainer. Garantia que estava em forma, com um entusiasmo de início de carreira. O problema eram os 37 anos, porque é preciso ser muito acima da média, é preciso ser gênio, lendário, para jogar em alto nível depois dos 37.

Bebeto não virou lenda como o parceiro Romário, que aos 41 anos registrou média de um gol por jogo em 14 jogos de campeonato; mas Bebeto foi grande, enorme. Antes de sair para o All-Ittihad, da Arábia Saudita, onde encerrou a carreira sem pompa nem circunstância, fez apenas dois gols nessa última passagem pelo Vasco, em dois empates sem importância no Brasileiro de 2001. Tudo bem. O que fica na memória são as atuações antológicas, os golaços de voleio, as tabelas com o maior de todos os tempos dentro da área e aquele toque de chapa, mortal, preciso.

Abaixo, a matéria.

Revista Istoé Gente, edição número 109, de 1 de setembro de 2001

“O presidente deles prometeu que iria contratar mais três brasileiros, mas não fez nada disso. Ele disse que eu não sabia do que ele era capaz. Me mandei com meus filhos. Não sabia se ele era mafioso."

Desde janeiro, José Roberto Gama de Oliveira, 37 anos, ilustre morador do luxuoso condomínio Santa Marina, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, vinha cumprindo uma rotina árdua para manter a forma física. Diariamente, passava duas horas e meia com o preparador físico Ronaldo Torres exercitando-se na piscina, na academia de ginástica e no campo de futebol. Tudo sem sair do condomínio. A recompensa veio no início de agosto, quando José Roberto, ou Bebeto, o atacante tetracampeão mundial com a seleção brasileira em 1994, acertou sua volta ao Vasco da Gama, após uma negociação que incluiu declarações públicas de Romário pedindo sua contratação. No domingo 26, o craque não fez gol, mas entrou em campo no segundo tempo e ajudou o Vasco a golear o Atlético Paranaense por 4 a 0.
Foi o fim de oito meses de inatividade e de pesadelos como as temporadas frustrantes no México e no Japão. Artilheiro e ídolo de clubes como o Vitória, Vasco, Flamengo e La Coruña da Espanha, Bebeto começou seu calvário em 1999, quando deixou o Botafogo para assumir o desafio de transformar o desconhecido time mexicano do Toros Neza numa grande equipe. “O presidente deles (Juan Antonio Hernandez) prometeu que iria contratar mais três brasileiros, mas não fez nada disso.” Para piorar a situação, só Bebeto recebia salário na equipe. Ao entrar na briga pelo pagamento dos companheiros, acabou afastado do time, mas ganhou o respeito dos jogadores mexicanos. “Num jogo do Toros contra o Puma, os dois times exibiram camisas de apoio a mim na entrada em campo”, conta, orgulhoso.
O estopim para a saída do México foi uma ameaça velada do presidente do Toros, diante da insistência de Bebeto em brigar pelos salários. “Ele disse que eu não sabia do que ele era capaz.” Foi a senha para que o atacante deixasse o país com sua família. “Me mandei com meus filhos. Não sabia se ele era mafioso.”
Casado há 14 anos com a ex-jogadora de vôlei Denise, 32, e pai de três filhos – Roberto Nilton, 11, Stephannie, 10, e Matheus, 7 –, Bebeto tem fama de bom moço e dificilmente fala mal de alguém. Prova disso foi a passagem pelo Kashima Antlers do Japão, no ano passado. Obrigado a treinar chutes a gol durante duas horas, pelo técnico e ex-jogador da seleção brasileira Toninho Cerezo, sofreu uma lesão por estresse nos ligamentos do joelho. Nada que o fizesse ficar aborrecido com Cerezo. “Não guardei mágoa dele”, afirma.
O craque deixou o Japão e voltou para a casa no Rio, que divide com a família e sete cachorros, entre eles o yorkshire Campeão. “Em Kashima não tinha nem escola para meus filhos. Tinha que contratar professora particular.” Quarto artilheiro da história da seleção brasileira, com 50 gols, atrás apenas de Pelé, Romário e Zico, o atacante contou com a ajuda de dois companheiros dos bons tempos, os também tetracampeões mundiais e agora colegas no Vasco Romário e Jorginho.
Jorginho foi o primeiro a telefonar para o amigo. Romário fez ainda mais. Depois da estréia do Vasco no campeonato brasileiro contra o Gama, no dia 1º de agosto, deu entrevistas pedindo a contratação do antigo parceiro. A atitude dobrou até o presidente vascaíno Eurico Miranda, que fechara as portas do clube para Bebeto depois que, em 1996, o atacante preferira voltar da Espanha para o Flamengo. “Fiquei emocionado. Sempre tive carinho pelo Romário e juntos ganhamos tudo.” Agora, o artilheiro que fez mais de 500 gols desde 1983 só quer jogar futebol: “Parece que ele assinou seu primeiro contrato profissional. A garra dele é de um iniciante”, resume Ronaldo Torres, o preparador físico que ajudou o craque quando ele estava sem clube.

domingo, 9 de maio de 2010

COPA À VISTA

Pressão antes da Copa do Mundo? Com o Brasil sem título há oito anos, só? Mole. Tranquilíssimo. Duro era antes do Tetra, quando o jejum só aumentava a cada Copa. Doze anos em 82, dezesseis em 86 e vinte em 90, até um certo Romário, com o auxílio precioso de Bebeto, Mazinho, Taffarel, Dunga e cia, acabar com o jejum de 24 anos. E foi nos últimos dias desse martírio sem títulos – período ainda mais complicado para quem nasceu logo depois da Copa de 70, tipo assim, em 72 – que a matéria foi feita. Foi uma entrevista com um então titular da seleção de 94 e com um craque da tragédia de 50, tido e havido como maior do Brasil antes de Pelé, e que iniciou a linhagem de camisas 10 de um certo time, cujos nomes começam com Z, considerados os melhores do mundo, gênios espetaculares, e que na hora do “vamu vê” em Copas, naquele momento que separa os homens dos meninos, somem do jogo, perdem pênaltis bisonhos e amarelam bonito, sob o beneplácito da mídia amiga.

Zizinho e Leonardo não deram a entrevista juntos. Tava meio tumultuado o negócio no glorioso Clube Central de Icaraí e não dava pra juntar os dois numa mesa. Também não teve gravador na história. Leonardo deu entrevista em pé, no meio de um monte de criança pedindo autógrafo. Com Zizinho foi mais tranqüilo. Pelo menos pudemos sentar com calma numa mesa, apesar do burburinho de feijoada em volta. Leonardo foi bom moço como sempre, sem qualquer declaração bombástica, até porque não era o momento pra isso mesmo. As alfinetadas ficaram por conta de Zizinho, que também deu suas pixotadas. Errou, por exemplo, a zaga do Brasil na Copa de 90. Botou Mozer no lugar de Mauro Galvão. Mas tudo bem, foi um erro plenamente desculpável, ainda mais pra um sujeito de 72 anos, com história à beça no futebol. O resultado da matéria, com todas as características de um texto para o velho e bom O Fluminense, na abertura principalmente, está aí embaixo.

Jornal O Fluminense, edição de domingo, 15, e segunda-feira, 16 de maio de 1994

“O Brasil está aí para brigar e vai à Copa para ganhar, já que a cada Mundial perdido a cobrança sobre a seleção aumenta.”

“Uma conquista de Copa do Mundo sempre gera ídolos, não importa o momento.”

Zizinho, craque das décadas de 40 e 50, e Leonardo, atual titular da seleção brasileira e camisa 10 do São Paulo, têm muitas coisas em comum, apesar dos mais de 40 anos que os separam. Ambos jogaram no Flamengo e na seleção, e Zizinho também vestiu a camisa 10 do São Paulo. Além disso, os dois são de Niterói – Leonardo nasceu e foi criado na cidade, enquanto Zizinho, nascido em São Gonçalo, veio para a “terra de Araribóia” aos 17 anos. No último dia 7, houve uma homenagem a esses dois representantes de gerações tão diferentes do nosso futebol com a Feijoada da Copa, no Clube Central, em Icaraí. O idealizador do encontro inédito foi o irmão de Leonardo, Francisco Araújo Júnior, de 27 anos.
Thomaz Soares da Silva, 72 anos, o Zizinho, também conhecido como Mestre Ziza, iniciou sua carreira aos 15 anos, no Carioca Futebol Clube, de São Gonçalo, clube fundado por seu pai. Antes de começar a jogar profissionalmente, atuou ainda pelo Byron, de Niterói, aos 17 anos. No Flamengo, onde iniciou a carreira profissional, Zizinho participou do primeiro tricampeonato da história do clube (1942/43/44) e foi convocado para disputar a Copa de 1950. Depois disso, jogou seis anos pelo Bangu e, em 1957, aos 35 anos, foi campeão paulista pelo São Paulo. Após encerrar a carreira, no Audax Italiano, do Chile, Zizinho chegou a trabalhar como técnico. “Esse esquema do 4-4-2, que todo mundo usa hoje, foi criado por mim no América, em 71”, garante.
Leonardo Nascimento de Araújo, 24, começou no Flamengo e se transferiu para o São Paulo em 1990. Foi negociado com o Valencia, da Espanha, em 1991, mas voltou ao clube paulista, emprestado, em 93. Em entrevista a O Fluminense, Zizinho e Leonardo analisaram o atual momento do futebol brasileiro e se mostraram otimistas quanto às possibilidades do Brasil na Copa. Em relação aos nossos adversários na primeira fase, a Rússia foi apontada pelos dois como a seleção mais perigosa.

Como vocês estão vendo o atual estágio do futebol brasileiro?
Leonardo:
O momento é bom. O nível tem crescido muito ultimamente. Basta ver os campeonatos paulista e carioca, por exemplo, que estão levando um bom público aos estádios. Acho que, com a proximidade da Copa, o nosso futebol tinha mesmo de melhorar em relação aos últimos anos.
Zizinho: O futebol paulista é muito forte e, na minha opinião, ainda está melhor que o carioca. O Palmeiras, patrocinado pela Parmalat, conseguiu formar um timaço e o São Paulo é o clube mais organizado da América. O futebol do Rio só se arrumou às vésperas do campeonato. Mas, no geral, o momento é bom.

E quais as nossas chances na Copa?
Leonardo:
O Brasil está aí para brigar e vai à Copa para ganhar, já que a cada Mundial perdido a cobrança sobre a seleção aumenta. O importante é que o grupo está bem e está formado há muito tempo, o que já ajuda muito.
Zizinho: O Brasil só perde essa Copa se a direção atrapalhar. Apesar de alguns erros do Parreira, que já devia ter definido o time titular, nós ainda somos favoritos. Ninguém pode ganhar da gente, nós é que podemos perder.

O Parreira está no caminho certo, ou seu esquema tático ainda poderia ser modificado?
Leonardo:
O que tinha de ser feito já foi feito. Temos agora é que nos adaptar ao esquema com dois cabeças-de-área, parar de fazer amistosos com dois dias de intervalo e se preparar realmente para a Copa.
Zizinho: Essa história de dois volantes é um atraso. Temos que ter cuidado com a defesa, mas o importante é o ataque. Os outros times é que têm de ter medo da gente, pois a nossa tradição sempre foi de partir para cima do adversário. Outra coisa que ninguém percebeu é que esse esquema do 4-4-2, que a maioria das seleções usa, foi criado por mim no América, em 71, com Edu (irmão de Zico) jogando de ponta-de-lança e municiando os dois centroavantes. Mais tarde, eu utilizei o mesmo esquema na seleção de novos, campeã do Pré-Olímpico de 72.

O fato de países como a França e a Inglaterra estarem fora da Copa facilita ou as dificuldades serão as mesmas de sempre?
Leonardo:
Se eles estão eliminados é porque alguém eliminou. Não existe moleza em Copa do Mundo. A primeira fase ainda pode ser considerada leve, porque classificam-se dois de cada grupo, mas a partir das oitavas-de-final só tem jogo duro.
Zizinho: Acho que fica um pouco mais fácil, sim. A Inglaterra, por exemplo, sempre foi um adversário chato. Além disso, algumas seleções européias sem tradição certamente vão tremer contra a gente. Mesmo assim, o Zagalo ainda me preocupa. Ele conseguiu ser retranqueiro até com aquele timaço de 70, já que o único jogador que não voltava para marcar era o Tostão.

E quanto aos nossos adversários na primeira fase, qual será o mais perigoso?
Leonardo:
A estréia é sempre difícil. Por mais que a Rússia esteja com problemas (brigas entre o técnico e os principais jogadores), o primeiro jogo oficial nunca é fácil. Confesso que não sei direito como os russos estão, mas assisti ao último jogo deles, um empate de 1 a 1 com a Alemanha. A Suécia tem aquele estilo europeu já bastante conhecido, explorando os contra-ataques e os chuveirinhos na área. Já Camarões joga com aquela irreverência, sem responsabilidades. Acho que mesmo depois de 90, quando fizeram uma boa campanha e foram eliminados por pura inexperiência, eles vão continuar jogando da mesma forma, e vão aos EUA só para participar. Teoricamente, o jogo contra Camarões deve ser o melhor pra gente, porque eles jogam e deixam jogar.
Zizinho: Também acho que Camarões vai continuar na inocência e naquela correria de 90. Na Suécia eu não acredito, talvez porque eu meti 7 neles em 50 (Zizinho se refere aqui à goleada de 7 a 1 que o Brasil aplicou na Suécia no quadrangular final da Copa de 50). Sobra a Rússia, que apesar de tudo ainda é nosso adversário mais perigoso.

No que diz respeito ao grupo de jogadores, vale a pena chamar a mesma defesa da Copa de 90, quatro anos mais velha? E o Branco, por exemplo, ainda tem lugar no time titular?
Leonardo:
Esse grupo está sendo testado há muito tempo e o Parreira confia nos jogadores. Quanto à lateral-esquerda, eu vou brigar pra ser titular.
Zizinho: A defesa de 90 tinha três zagueiros de esquerda, Ricardo Gomes, Mozer e Ricardo Rocha, e o Caniggia fez o gol da nossa eliminação entrando pela direita. Agora vem o Parreira e chama os mesmos zagueiros. Na lateral-esquerda, o meu titular é o Leonardo.

O que ainda está faltando para a seleção chegar aos 100%?
Leonardo:
Juntar o grupo e treinar, para chegar à Copa no melhor momento.
Zizinho: Falta definição do time e do esquema. Acho ainda que o Parreira poderia fazer com o Cafu o mesmo que eu fiz com o Rosemiro na seleção de novos. O Rosemiro era lateral, mas eu coloquei ele jogando como ponta-direita, junto com o Mauro, que era o verdadeiro lateral. O resultado é que eles ficaram no dois contra um o jogo inteiro, em cima do lateral-esquerdo adversário. O Parreira poderia fazer a mesma coisa com Cafu e Jorginho.

O Brasil vive uma crise de ídolos. A conquista do Tetra atenuaria esse problema?
Leonardo:
A conquista do Tetra, se acontecer, certamente vai contribuir para que o futebol brasileiro volte a ser o que sempre foi. O bicampeonato mundial do São Paulo já ajudou bastante, e a conquista da Copa seria perfeita para levantar de vez o nosso futebol.
Zizinho: Uma conquista de Copa do Mundo sempre gera ídolos, não importa o momento.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

HONÓRIO, EL GURGEL, Y EL DIABLO RUBLO

Qui se passo és que El Diablo Rublo siempre, em toda su vida, fuera perseguido por los policiales rodoviários. Su pelos longos, rojos, y la tez blanca, como la Patagônia, llamaban de tal manera la atencion de los tiras qui bastava qui estiviesse em um coche para que este fuesse víctima de una ación rápida, precisa, de la Policía.

Asi si sucedeo em la jornada hasta Saquarema, quando fue parado a la saída de la gran puente Rio-Niterói, la mayor del mundo, portento de la genialidad humana. El coche, de su suegra, no tenía más qui el documento de transferência, y si siequer el nombre de la duena assinado. Em el hogar de la firma, lo espacio estaba em blanco.

Si escribo mi nombre a cá, le dijo el guarda, el coche és mio.

Com El Diablo Rublo viajava Don Chevalier, el mejor apertador de marijuana de todo el planeta, que empezava a se quedar vierde, aunque su compañero de viaje mantenia-se tranquilo y hablaba com lo policía que sí, como no, puede abrir todo el coche, puede nos revistar, sí, no tenemos nada.

Y el guarda llegó a abrir la mala, y Don Chevalier vierde como las montañas de Macchu Picchu... Pero no se importo com las valises. Se quedo satisfecho com la plata para la cerveza y asi no descobrió las cierca de vinte gramas de marijuana que llevaba Don Chevalier em su mojila, si que lo supiesse El Diablo Rublo, que despues ha seguido su sina, parado siempre por los policiales del tráfego, hasta lo gran dia de su redención, a bordo de Honório, El Gurgel.

Trafegávamos por región de muy rasa energia, una encruzillada desdicha, y el cabron hijo de puta nos cerro em lo cruzamiento. Apareció a frente de Honório, si colocar la sieta tampoco, y el choque fue inevitable. Una tonteria de lás más grandes del cabron hijo de puta, qui guiaba el coche de su mujer, qui, por su vez, era la dona del coche y se quedo sentada em el banco del carona, los brazos cruzados, enquanto el hombre, cabron hijo de puta, salió para, hijo de puta, tirar satisfación.

La razón se quedaba totalmente com nosostros, pero los documientos... No los habia, nadie. Y habia, para desgracia nuestra, uno de los representantes de nuestra valorosa Policía Militar, devidamente uniformizado. Si el policía requisitasse los documientos de los coches, seria malo, muy malo; pero, em tal situación, era necessário un poco de representación, y por esto jo fue de encuentro a lo policía, junto de mi oponente, y nos quedamos, los dos, a hablar a lo miesmo tiempo, a disparar argumentos, hasta que la voz del sábio PM nos calo a nosostros, para escuchar su sentença.

Ustedes, qui son hombres, qui si entiendam.

Dije, y salió, el salomônico guarda, polícia de los mejores, y así el cabron hijo de puta fue escuchar el espuerro de la mujer, y El Diablo Rublo, com su pelos rojos, por primera vez em su vida escapo de los policiales rodoviarios.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O MÉDICO

O plantão estava calmo no Hospital Municipal de Mangaratiba, e o médico fumava. Cara de cansado, a camisa branca pra fora da calça, de manga curta, falava dentro da sala onde tudo acontecera, um espaço menor que o pior conjugado de Copacabana, cercado por ladrilhos brancos de todos os lados, inclusive na bancada do centro, pouco maior do que uma cama de solteiro. A bancada, com mármore no alto, era o único “móvel” do recinto. Não havia mais nada ali além das paredes de ladrilho e do médico, que contava a história do paciente de dois dias atrás, à beira da morte, depois de cair de avião numa praia.

A missão ali, naquela sala sem nada, era manter vivo o paciente, que deu entrada no hospital com sérias dificuldades para respirar, traumatismo crânio-encefálico e provável hemorragia intracraniana, e ninguém precisa ser médico pra saber que um quadro desses não é nada simples. Manter ele vivo, repetiu o médico, fumando ainda, era só o que podia ser feito naquela sala vazia, o paciente deitado no mármore.

Durante cerca de 15 minutos, o médico e mais nove colegas, outros médicos e enfermeiros, mantiveram o paciente com vida, dentro daquela sala sem nada, e com vida o entregaram ao helicóptero que o transportou para o Copa D’Or, onde novos médicos, renomados, consagrados na profissão, conseguiram, com a ajuda de tudo de mais moderno disponível na medicina, salvar definitivamente a vida de Herbert Vianna. Um trabalho de fato espetacular, que mostra como a inteligência humana é capaz de salvar uma vida que se esvai. De um fiapo de reação do organismo, quase último sopro, os grandes médicos, renomados, conseguem trazer o sujeito de volta, como no caso do Herbert Vianna. Só precisam do fiapo de vida. E o médico, a camisa social e a calça ligeiramente amarrotadas, fumava naquela sala sem nada, com a cara de cansado e um certo ar de consciência tranqüila.

O resto da história do acidente e da recuperação de Herbert Vianna está nas duas matérias abaixo. A primeira delas foi assinada também pela Márcia Montojos e pela Vivianne Cohen. A segunda foi mais uma parceria com a Vivianne Cohen.


Revista Istoé Gente, edição número 80, de 12 de fevereiro de 2001

“O quadro dele era gravíssimo. Nosso trabalho foi o de estabilizar o paciente na gravidade para ser socorrido numa unidade com mais recursos”

Na noite do sábado, 3, o cantor Leoni, ex-integrante da banda Kid Abelha, e sua mulher, Luciana Fregolente, receberam em casa seus novos vizinhos: o músico Herbert Vianna, líder do conjunto Paralamas do Sucesso, e a mulher, a jornalista inglesa Lucy Needham.
Velho amigo do casal, Leoni havia completado naquela semana a mudança para a nova casa de Vargem Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde Herbert e Lucy residiam havia mais de seis anos. “Nos divertimos como amigos de 20 anos que se encontram e se gostam”, conta Luciana. O jantar se estendeu pela madrugada. Herbert confidenciou à mesa que estava de férias e pronto para investir na boa forma física praticando natação e corrida diariamente.
Lucy chegou a comentar que no dia seguinte ela iria voar pela primeira vez no novo ultraleve do marido — um modelo Fascination, de dois lugares, fabricado na Alemanha e capaz de atingir 280 km/h, o mais avançado dos três ultraleves que Herbert Vianna adquiriu nos últimos quatro anos.
“Só perguntei se ela queria deixar a Hope na minha casa, mas a Lucy disse que as crianças iriam a uma festa”, conta Luciana, referindo-se à filha do meio do casal de amigos. No fim da comemoração, ficou acertado que a primeira saída dos quatro juntos como vizinhos de bairro seria um pulo ao cinema, na quarta-feira, 8, para assistir às agruras de Tom Hanks em O Náufrago.
Às duas horas da tarde do domingo, 4, Herbert chegou acompanhado de Lucy à sede do Clube Esportivo de Ultraleve em Jacarepaguá, próximo à sua casa. Foi direto à secretaria para fazer sua notificação de vôo. Os dois seguiriam para Mangaratiba, no litoral Sul do Rio de Janeiro, onde o músico Dado Villa-Lobos, ex-integrante da Legião Urbana e amigo de Herbert desde a época da adolescência, em Brasília, preparava um churrasco de comemoração do aniversário de sua mulher, Fernanda. Antes de embarcar Herbert inspecionou a aeronave de prefixo U 5210 durante meia hora. Verificou o óleo do motor, as asas e os comandos. Pegou no seu armário o headphone e pediu para que colocassem o avião na pista. Por fim, abasteceu o tanque de gasolina.
Eram duas e meia da tarde e estava tudo pronto para a decolagem quando ele teve uma última conversa com Valdir Lacerda, 51 anos, seu mecânico desde o primeiro ultraleve, adquirido há quatro anos.
– Você está indo para onde? — perguntou Valdir.
– Para Mangaratiba, no aniversário de uma amiga — respondeu Herbert.
– Vai com calma, porque vai ter formação de chuva para o lado de lá.
– Tá tudo bem – disse Herbert, levantando o polegar em sinal de positivo.
A nova aeronave tinha apenas 42 horas de vôo. Havia sido comprada há dois meses em Fortaleza, por US$ 80 mil. Quando chegou ao hangar do clube de ultraleve, foi saudada na oficina com champanhe francês. “Ele só passou a usar a máquina quando instalou os pára-quedas”, afirma Valdir.
Coube ao irmão de Herbert, Hermano, e a sua mãe, Maria Teresa, a missão de reunir as crianças para dar a notícia da tragédia na presença de uma psicóloga. Assim que souberam da morte da mãe, Luca, 8 anos e Hope, 5, começaram a chorar. Phoebe, de um ano e meio, deu brinquedos para os irmãos. “Se eu estivesse lá, abria a porta e salvava a mamãe”, disse Luca. “Eu sei abrir a porta do avião.”
Hermano, que dormiu no quarto de Luca, contou que o menino passou a noite perguntando sobre os pais. “Ele pegou a foto de um painel e me falou. “Esta é a foto mais preciosa que eu tenho: a minha família toda reunida”, disse o menino, grudando-a no computador. Emocionado, Hermano contou que Luca pediu a mãe de volta. “Eu disse que todos nós queríamos, mas que isso era impossível. Aí ele falou: “Mas tem a máquina do tempo”.
Uma hora depois da rápida conversa com o mecânico, o cantor e Lucy já estavam na Enseada de Mangaratiba. Herbert, como piloto da aeronave, chegou a passar três vezes na frente da casa de Dado, no condomínio Portobello. Quando tentava outra manobra, o músico perdeu o controle da aeronave. Ela caiu no mar, a cerca de 20 metros da praia particular do condomínio. “Parecia que ele queria dar um vôo rasante”, conta o comerciante Guilherme Ribeiro, 36, que velejava na enseada na hora do acidente.
A parte da frente da aeronave ficou submersa, mas uma lancha que passava pelo local facilitou o resgate, empurrando o ultraleve para terra firme. O resgate do casal até a areia durou entre três e cinco minutos. Guilherme foi o primeiro a socorrer o líder dos Paralamas. “Saltei do meu barco e ajudei a empurrá-los para a areia. Entrei no ultraleve, retirei o cinto de segurança do Herbert e o tirei de lá.” Outros cinco velejadores que estavam no local ajudaram a retirar Lucy da aeronave. Aos 36 anos, ela deixou o ultraleve já morta.
A equipe de paramédicos da Defesa Civil de Mangaratiba chegou ao local cinco minutos mais tarde. Quando viram o acidente, Dado e Paula Toller, vocalista do Kid Abelha, correram para a praia e entraram em desespero com o que presenciaram. “O Dado estava fazendo muita força para segurar a cabeça do Herbert, porque se ela caísse, poderia fechar a traquéia e prender a respiração dele”, contou Antônio Carlos Aniceto, coordenador da Defesa Civil. “O Dado não parava de gritar ‘Reage Herbert!’. Foi aí que nós assumimos e imobilizamos ele na prancha.”
As condições gerais de Herbert não pareciam boas. Ele tinha um corte de 15 centímetros na cabeça, um hematoma no peito e estava expelindo água do mar e sangue pela boca. “A pupila de um dos olhos estava dilatada e a outra, não. Isso nos fez suspeitar logo de lesão cerebral”, disse o chefe dos paramédicos.
Em 10 minutos, Herbert foi levado da praia para o Hospital Municipal de Mangaratiba. Lá, o cantor deu entrada na Sala de Parada, reservada a pacientes graves, com sérias dificuldades de respiração, traumatismo crânio-encefálico e provável hemorragia intracraniana. Na avaliação do médico Paulo Roberto Roseli, que chefiava a equipe de plantão, o corte na cabeça provocou perda de parte do couro cabeludo. Herbert mobilizou 10 pessoas da equipe do hospital — entre médicos e enfermeiros — nos 15 minutos em que permaneceu naquele local. “O quadro dele era gravíssimo. Nosso trabalho foi o de estabilizar o paciente na gravidade para ser socorrido numa unidade com mais recursos”, disse Paulo Roberto.
O momento mais crítico aconteceu no trajeto de helicóptero de Mangaratiba até o Hospital Copa D’Or, em Copacabana, na Zona Sul do Rio. O músico teve uma convulsão e quase morreu. Uma hora depois de ter sofrido o acidente, Herbert dava entrada no Hospital Copa D’Or. Para comandar a equipe médica, formada por 20 profissionais, foi chamado o médico da família, o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho.
O pai de Herbert, Hermano, e os irmãos Hermano e Hélder foram os primeiros a chegar ao hospital. A mãe do cantor, Maria Teresa, passava férias em João Pessoa, na Paraíba, mas chegou ao Rio na noite de domingo.
As manobras que Herbert teria feito foram o estopim de uma polêmica. Enquanto testemunhas como Guilherme Ribeiro afirmam que o avião fez dois loopings e caiu quando o músico tentava o terceiro, amigos do roqueiro descartam essa hipótese. “Ele nunca faria isso”, diz o compositor Paulo Sérgio Valle, que também é piloto de ultraleve. “O perigo é a mudança repentina dos ventos naquele local”, diz Antônio Carlos Aniceto.
A primeira experiência de Herbert Vianna como piloto foi a bordo de um helicóptero há alguns anos, que ele largou devido ao alto custo para mantê-lo. O músico cresceu vendo o pai, Hermano, hoje major brigadeiro da reserva, pilotando aviões. Ainda na escola primária, quis prestar exame para ingressar na Academia da Força Aérea de Barbacena, mas foi reprovado porque era míope.
Nos últimos tempos, Herbert se dedicava cada vez mais à aviação. As horas vagas eram preenchidas com vôos diários de, no mínimo, 40 minutos. Muitas vezes, Lucy e os três filhos assistiam a suas manobras da piscina do clube. Além da mulher, Herbert também costumava levar Luca, para voar com ele.
Quando adquiriu a nova aeronave, ele teve que passar por um período de adaptação e tirar uma nova carteira de habilitação, o Certificado de Piloto Desportivo Avançado. “Ele foi um ótimo aluno. Chegou aqui já sabendo tudo”, afirma Jesus Domingues, seu primeiro professor de ultraleve.
A compensação para o fracasso na Aeronáutica veio na música. Em 1982, o jovem de 20 anos que tocava de brincadeira com o amigo Bi Ribeiro conheceu o baterista João Barone. Estavam formados os Paralamas do Sucesso, uma das bandas de rock mais respeitadas do País, que já vendeu mais de 4 milhões de cópias de seus 14 discos lançados desde 1983.
Herbert e Lucy se conheceram em 1989, quando a jornalista inglesa veio ao Brasil fazer um documentário para a BBC londrina sobre a música jovem produzida no Brasil. Um ano depois, ela e Herbert se casaram.
Presente em quase todas as viagens do marido, a jornalista inglesa usou a experiência de levar os filhos nas excursões para escrever Viajando com as Crianças – Um Guia para Pais de Primeira Viagem, em 1997. Durante as 100 páginas, Lucy conta suas experiências de viagens com a família completa. O casal conheceu a Grécia, o Marrocos, a Espanha, a França e os Estados Unidos com seus filhos a tira-colo. “Nosso filho Luca chegou a dormir na mochila, enquanto nós perambulávamos pelas vielas de Marrakesh”, conta, na página 41 do seu guia.
“Eu tive o tempo de me dedicar a uma mulher que é excepcional como esposa, como mãe, como profissional. Para mim, o grande afrodisíaco da vida é admiração. Isso eu tenho muito por ela”, disse Herbert recentemente, em entrevista à revista Marie Claire.

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Revista Istoé Gente, edição número 158, de 12 de agosto de 2002

“A cabeça do malandro aqui voltou a ter um mínimo operacional.” E a platéia chorou, vibrou e aplaudiu a volta dos Paralamas.

Quem se emocionou ao assistir à volta dos Paralamas do Sucesso ao palco, numa participação especial no show da banda Reggae B, na terça-feira, 30, no Rio, pode se preparar para ver a cena cada vez com mais freqüência. Um ano e meio após o acidente de ultraleve que matou sua mulher, Lucy Needham, e o deixou entre a vida e a morte, o cantor e compositor Herbert Vianna, 40 anos, vem mostrando uma recuperação acima das expectativas dos médicos. Apesar de persistir a dúvida sobre a possibilidade de o cantor se recuperar totalmente do traumatismo na medula que o deixou paralítico, ele já consegue mexer a perna direita, e não há dúvidas sobre a plena recuperação do líder dos Paralamas em relação às lesões cerebrais. “Herbert está pronto para retomar a vida normalmente. Meus encontros com ele hoje são quase sociais”, diz o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, que acompanha o tratamento do líder dos Paralamas e, hoje, só precisa ver o paciente de três em três meses.
Motivado pela recuperação e sem esconder o ânimo com a retomada da carreira, Herbert aumentou as aparições nos últimos dois meses. No dia 11 de junho, tocou em público pela primeira vez, durante o show do colega argentino Fito Paez, no Canecão, no Rio. Duas semanas antes do reencontro com os parceiros de banda Bi Ribeiro e João Barone, no Ballroom, o guitarrista dos Paralamas subiu no mesmo palco, para uma participação especial no show da banda Reggae B, do companheiro Bi, que contou ainda com a canja de Lulu Santos. Em meio a tudo isso, gravou o novo disco dos Paralamas do Sucesso e fez viagens a São Paulo, nas últimas quatro semanas, para acompanhar a mixagem do CD, que terá o nome de Longo Caminho e será lançado em outubro, pela EMI. Aos parentes e amigos, tem repetido uma frase que marca a nova fase de sua vida: “Estou me reconstruindo”.
Para completar a reconstrução almejada, o cantor não tem medido esforços. Diariamente, faz duas horas de exercícios pela manhã, alternando-se em três tipos de fisioterapia: a hidroterapia, feita na piscina aquecida de um clube, onde é estimulado a caminhar com pesos nas pernas; a terapia ocupacional, realizada em casa, onde Herbert se acostuma a fazer todas as atividades da rotina diária, desde trocar de roupa a passar da cadeira de rodas para a cama, por exemplo; e a cinesioterapia, num miniginásio montado dentro de sua casa, em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio, onde o músico se exercita num aparelho semelhante às barras paralelas da ginástica olímpica. Ele caminha apoiado nas mãos e impulsiona as pernas com o quadril.
Acompanhado por um fisioterapeuta em cada exercício, Herbert já dispensa os enfermeiros e toda a estrutura hospitalar montada em sua casa logo após o acidente. No dia-a-dia, tem a ajuda de apenas um acompanhante. A boa performance na fisioterapia, porém, não é uma garantia de que o cantor conseguirá voltar a andar. “Os exercícios servem para que ele retome o equilíbrio e possa se reacostumar a andar rapidamente, caso se recupere da lesão da medula”, explica o médico fisiatra Luiz Alexandre Catanhede, que coordena a equipe de fisioterapeutas responsável pelo tratamento de Herbert.
Segundo Alexandre, quanto mais tempo passar do acidente, menores serão as chances de o músico voltar a caminhar. “O prazo para saber se um paciente com a medula lesionada poderá andar costuma ser de até três anos após a lesão. Se ele não se recuperar nesse tempo, dificilmente conseguirá depois”, explica o médico. O último grande avanço de Herbert foi há cerca de dois meses, quando o cantor, deitado na cama, conseguiu dobrar a perna direita num ângulo de 30 graus. Catanhede não arrisca prognósticos, mas garante que seu paciente está preparado para o que acontecer. “Ele tem esperança de andar novamente, mas sabe que pode continuar a levar uma vida normal se isso não acontecer”, resume o médico.
A dúvida sobre as chances de voltar a andar não tira de Herbert a alegria que a música vem lhe proporcionando. A família e os médicos, aliás, acreditam que a vontade de tocar guitarra, violão e até o piano de sua casa tem sido fundamental na recuperação do líder dos Paralamas. “Quando meu filho está travestido de músico, ganha outra energia, tem atitudes seguras. É muito importante que ele retome a carreira”, diz o brigadeiro Hermano Vianna, pai do compositor. Com a experiência de quem acompanhou o parceiro na gravação do novo CD dos Paralamas, o baterista João Barone já avisou a amigos que quem quiser saber como o guitarrista da banda está ficará muito surpreso ao vê-lo em ação.
Outro amigo de Herbert, o músico Leoni, faz coro. “Ele está eufórico em constatar que se lembra de todo o repertório que compôs antes do acidente. Quando fala de música, a memória dele funciona perfeitamente”, conta o ex-integrante do Kid Abelha. O último contato com o amigo foi há um mês, quando Herbert telefonou de São Paulo para felicitar Leoni pelo lançamento de seu disco solo.
Segundo Hermano Vianna, a memória do filho está praticamente recuperada, resta apenas um lapso referente a cerca de dois meses antes e depois do acidente ocorrido no dia 4 de fevereiro, em Mangaratiba, no litoral sul do Rio de Janeiro. Além da retomada da carreira, o compositor tem se dedicado a atividades de rotina, como buscar no colégio os filhos Luca, 9, Hope, 6, e Phoebe, 3. Antes avesso a computadores, Herbert agora gasta um tempo de seu dia navegando na internet e trocando e-mails com amigos. Apesar de todo o entusiasmo com a nova fase, o músico ainda não superou a tristeza pela perda da mulher. “Ele sempre diz que está de luto pela morte da Lucy”, conta Hermano.
Além de ver o filho recuperado, o pai de Herbert também sonha em vê-lo voando de ultraleve novamente. Embora o assunto não seja freqüente nas conversas entre eles, Hermano diz que a possibilidade já foi cogitada pelos dois. “Seria ótimo, porque foi por causa dos vôos que me tornei mais próximo do meu filho.” Se depender do mecânico que sempre cuidou dos ultraleves do líder dos Paralamas, o sonho tem tudo para se realizar. “Vamos tentar fazer uma adaptação no avião para que o Herbert possa pilotar. Ele sente muita saudade disso”, disse Valdir Lacerda, que esteve com o cliente mais famoso há dois meses.
Antes de voltar a voar, porém, o músico terá muito trabalho pela frente. Além do lançamento do novo disco dos Paralamas em outubro, a banda deverá fazer alguns shows em novembro ou dezembro. Empresário do grupo, José Fortes já começou a se reunir com representantes da gravadora para traçar a estratégia de marketing para o primeiro CD gravado por Herbert e seus parceiros após o acidente. “Estamos avaliando a possibilidade de um pequeno show para convidados quando lançarmos o disco”, diz o empresário. Ainda este mês, a música Calibre, que o líder dos Paralamas começou a compor antes da tragédia e concluiu depois, começará a ser tocada nas rádios. Já os ensaios para os shows terão início na próxima semana, primeiro na casa de Herbert e depois num estúdio maior, a ser escolhido.
Provavelmente, o clima dos ensaios será parecido com o que foi visto no Ballroom, no reencontro dos Paralamas. Animado com seu retorno, Herbert mostrou a disposição do início de carreira. Totalmente à vontade, o cantor cumpriu o ritual de aquecimento antes do show e abusou do bom humor puxando o coro de músicas repletas de palavrões. “Ele está com ótimo astral. Durante sua apresentação, olhava para seus amigos como se dissesse: ‘Estou de volta’”, conta George Israel, integrante do Kid Abelha que estava no show. Levado ao palco na cadeira de rodas pelo músico Dado Villa-Lobos, o líder da banda emocionou a platéia cantando sucessos como A Novidade e Meu Erro. Herbert admitiu ter sentido pequenas tonturas no palco, mas disse que se achava pronto para tocar. Lá, no palco, diante de fãs emocionados e ao lado dos amigos, resumiu o que sentia ao apresentar a música Calibre durante a apresentação: “A cabeça do malandro aqui voltou a ter um mínimo operacional.” E a platéia chorou, vibrou e aplaudiu a volta dos Paralamas.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A ÚLTIMA ENTREVISTA

As recomendações da chefe antes da entrevista beiravam o terrorismo. A Cássia Eller era muito difícil, tinha acabado de derrubar um daqueles pingue-pongues gigantescos da Playboy, contava a chefe, porque não gostou de uma pergunta da repórter. Ouviu a pergunta e encerrou a entrevista, no começo dela, deixando a repórter plantada. Além disso, continuava a chefe, a Cássia era ruim de falar, tímida em entrevistas simplesmente porque não gostava daquilo, e a cantora confessava isso sempre que perguntada. Pra arrematar, o horário da revista com ela seria o último de uma série marcada na sede da gravadora. Cássia Eller passaria a tarde inteira no mesmo lugar, fora de casa, fazendo algo que não gostava; e quando ela já estivesse mais do que saturada disso, haveria ainda mais um repórter, no caso eu, para fazer a última entrevista do dia.

O interesse de tantos jornais e revistas era mais do que justificado. Cássia Eller vivia o melhor momento de sua carreira. Depois de anos de marginalidade bem criticada, a cantora conhecia o sucesso, de vendas e de público, no nono disco, e por isso estava visivelmente cansada quando nos encontramos, ainda no pátio da gravadora, eu chegando e ela saindo da sala de entrevistas, achando, sinceramente, que seu suplício já tinha terminado. Quando a assessora disse que haveria ainda mais uma entrevista, a última, Cássia jogou a cabeça pra trás e deu um desses suspiros de quem se prepara para sofrer um pouco mais, antes do alívio final. Talvez tenha chegado a dobrar os joelhos no gesto, mas a reclamação ficou apenas no corporal. A cantora voltou resignada à sala de entrevistas e, durante pouco mais de uma hora, revelou uma despreocupação com as próprias respostas rara em entrevistados. Parecia bem à vontade.

A matéria abaixo foi publicada doze dias antes de Cássia Eller partir dessa

Revista Istoé Gente, edição número 124, de 17 de dezembro de 2001

"Sempre acreditava que iria me tornar uma artista popular, mas cada disco que fazia quase nunca ficava um ano em turnê. Já tinha desistido. Me conformei em ser meio maldita"

Cássia Eller virou cantora popular. Depois de 11 anos de uma carreira sempre elogiada pela crítica, mas com um quê de marginal, a cantora de 38 anos acaba de atingir a marca de 400 mil cópias vendidas com seu nono CD, Acústico MTV. Tudo bem diferente de quando a filha do sargento pára-quedista do Exército Altair Eller e da dona-de-casa Nanci começou a cantar pelos bares de Brasília músicas de Cazuza, Beatles e da vanguarda paulista. A nova fase só não fez com que a carioca criada em Minas perdesse por completo a timidez, que confunde quem assiste às apresentações da artista escrachada e sempre à vontade no palco. Companheira de Eugênia há 14 anos e mãe de Francisco Ribeiro Eller, o Chicão, oito anos – seu filho com o percussionista Jorge Felipe, que morreu antes do menino nascer –, Cássia admite que até recentemente ficava apavorada com a idéia de dar entrevistas. “Tenho tentado melhorar, ficar mais civilizada, e acho que estou conseguindo.”

Você esperava todo esse sucesso?
Sonhei com isso há muitos anos. Sempre acreditava que iria me tornar uma artista popular, mas cada disco que fazia quase nunca ficava um ano em turnê. Já tinha desistido. Me conformei em ser meio maldita. Tinha respeito do público, da crítica e dos outros artistas. Estava mais do que satisfeita. Ainda estou meio na onda do susto, não me acostumei. Lógico que é bom, mas até hoje me assusto quando vou a um lugar aberto e tem 30 mil pessoas me vendo. Não era assim até o ano passado comigo. Suava para botar mil pessoas num lugar.

Teve problemas com gravadoras?
O terceiro disco (Cássia Eller) foi feito na base da troca. Eu queria gravar uma coisa e eles falavam “só se você gravar tal coisa”. Tive que trocar. Metade do disco era meu, metade deles. Agora estou no meu melhor período de relação com a gravadora. Temos mais diálogo, mais condição de conversa. Briguei para nunca mudar meu estilo por causa das tendências do mercado. Valeu a pena.

Sempre quis ser cantora?
Na minha casa se ouvia muita música. Minha avó materna tocava bandolim, todos na família da minha mãe tocavam instrumento e ela cantava. Cresci ouvindo minha mãe cantando enquanto arrumava a casa e comecei a cantar com ela. Aprendi a tocar violão com primos. Mas ninguém na família quis ser profissional.

Quando virou profissional?
Com 18 anos, em Brasília, fiz um teste para um espetáculo do Oswaldo Montenegro. Passei e trabalhei com ele um ano. Depois cantei num trio elétrico, fiz dois anos de ópera e tinha um grupo de samba com os músicos da guarda presidencial. Com eles, cantava, tocava surdo e fazia o carnaval dos bailes. Tinha 19 anos e só queria saber de cantar. Em 1986, formei uma banda e cantava em bar, com repertório de quem eu gostava, Beatles, Caetano, Luís Melodia, Gil, Barão Vermelho e Cazuza, principalmente. Também cantava o som dos caras de São Paulo, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé.

Trabalhou no Ministério da Agricultura?
Tentei, né? Fui despedida com dois dias, acho. Substituí uma amiga minha que pediu licença para fazer uma cirurgia no olho. Só que demorei horas para escrever uma carta na máquina elétrica. Aí o chefe falou: “Pega seu violão, minha filha, e vai embora”. Tinha uns 21 anos e já estava na música. Fiz o bico pela grana. Também fui garçonete nessa época. Ganhava para o cigarro e o ônibus.


Tinha apoio da família para cantar?
Achava legal. Eles diziam que eu era persistente e davam valor a isso. Só que meu pai falava que as músicas que eu cantava não agradavam a ninguém. Ficava me dando conselhos para mudar o repertório.

O Chicão segue tocando com você?
Ele tocou no Rock in Rio e não quis tocar mais esse ano. Espantou-se com o público, ficou nervoso antes de entrar no palco. A mão dele suava diante daquele mundo de gente. O lance dele é jogar futebol. Faz escolinha no colégio e é bom, viu? Faz gol todo jogo, isso é que é matador.

Quer que ele siga sua carreira?
Lógico. A gente sempre quer puxar a brasa pra nossa sardinha. Mas tenho certeza de que ele é muito sensível, que vai descobrir algo de que goste. O Chicão tem uma bateria, a gente costumava fazer um som de bobeira, mas agora ele não tá muito ligado nisso. Tem tocado cada vez menos. Até pensei em colocá-lo numa escola de música, mas já perguntei e ele não quer. Só quer jogar bola.

Como você é como mãe?
Não sou muito coerente. Às vezes sou muito rígida com o Chicão e, no outro dia, na mesma situação já sou mais tranqüila, relaxo mais. Mas ele também é meio doidinho, acho que entende isso. Presto atenção nessas coisas de fazer o dever de casa, arrumar o quarto, escovar os dentes. Coisas que menino não gosta, que precisa mandar mesmo, ficar em cima. Isso eu gosto de prestar atenção, porque só com a repetição ele vai aprender, não tem jeito. Tenho que encher o saco do cara até que um dia ele faça sozinho.

O fato de ter um filho criado numa relação não convencional atrapalha?
Ele leva na boa. A gente nunca parou um dia e contou pra ele. Vivemos nossa vida desde que o Chicão nasceu. Ele sabe de tudo da gente e convive bem com isso, não mentimos. Ele é respeitado na escola também. Eu já cansei de procurar saber. Muitas vezes neguinho faz piadinha e ele nem liga, balança os ombros e sai andando. Acho bacana porque ele se impõe. O Chicão adora a nossa relação, minha e da Eugênia. Fica feliz em ver nós duas juntas, dá para perceber isso. É muito legal.

Qual o segredo para manter uma união de 14 anos?
Tem que ter muita paciência, respeito. Claro que cobramos fidelidade uma da outra, pra caramba. E tem que ter vontade de estar junto! Não consigo me imaginar sem ela.

Vocês já sofreram preconceito?
Já, mas a gente nem liga. Com a família, por exemplo, foi bem difícil. O preconceito era velado, mas meu pai não aceitava minha opção sexual. Hoje tá superlegal, minha mãe aceita na boa, meu pai, meus irmãos. Meu pai diz que meu casamento é o melhor da família.

Você gosta de ser dona-de-casa?
Adoro cozinhar, principalmente nesses dias em que tenho viajado muito. Chego em casa e me dá uma vontade louca de fazer meu rango. Quando o Chicão era pequenininho eu cozinhava mais, também trabalhava menos. Agora tenho gostado de cozinhar de novo. Nada especial, só arroz com feijão, sopa, macarrão, frango com cebola.

Gal Costa disse certa vez que acha a geração dela, Bethânia e Elis imbatível. Você concorda?
Concordo. Acho difícil essas três aí. Tá fogo pra nós. A Bethânia marcou mais pela força da interpretação. Todas elas têm isso muito forte, mas a Bethânia tem uma força única. A Elis Regina nem se fala. É uma das maiores cantoras que já ouvi na vida. O jeito de cantar dela me impressiona até hoje. A Gal Costa foi a primeira cantora moderna do Brasil. Com certeza abriu um caminho que, se não fosse ela, a gente estaria meio atrasada na forma de cantar.

A apresentadora Soninha foi demitida da TV Cultura por admitir que já tinha fumado maconha. Qual sua opinião sobre isso?
Ainda existe esse tipo de hipocrisia quando o assunto é droga. Acho que a Soninha foi muito corajosa. Alguém tem que falar a verdade. Ela foi só a primeira a falar na posição dela. Daqui a pouco vai pipocar mais dois, três. Ela abriu o caminho, foi legal.

Mas você sempre falou abertamente sobre droga...
Mas sou cantora, não tenho patrão para me mandar embora.

Como anda sua relação com as drogas?
Eu cheirava muita cocaína. Parei total, graças a Deus. Fiquei um tempo sem beber também e isso me fez bem. Não foi nem exatamente por causa do Chicão que parei, meu corpo não estava mais agüentando. Durante a gravidez parei porque, milagrosamente, enjoei de cigarro, café, maconha, de tudo. Cocaína, então, lógico. Não ia fazer uma coisa dessas. Aí o Chicão nasceu, amamentei e depois caí de novo na farra.

Quando decidiu parar com a cocaína definitivamente?
Fiz um tratamento de desintoxicação no fim de 1998 e no início de 1999. Esqueci o absorvente lá dentro, vinte dias. É o fim da picada! Estava com um sangramento esquisito e fui ao ginecologista. Ele olhou e disse: “Tem alguma coisa aí”. O cara tirou meio com nojo. Isso é estado crítico total, não pode uma coisa dessas. Aí me lembrei do dia em que coloquei o absorvente e da situação. Estava cheirando numa festa. Eu embalava dois, três dias sem parar. Aí deu um clique, fiquei pirada com a história. O meu problema hoje é que eu bebo, entorno uma cana. Eu gosto de birita.

domingo, 31 de janeiro de 2010

MADRUGADA ADENTRO

O primeiro erro foi morar com a mãe aos 24 anos. O segundo, deixar que ela atendesse o telefone naquela noite de sexta-feira, você recém-chegado do trabalho, de banho tomado, jantando em frente ao vasto noticiário sobre a morte de Renato Russo no Jornal Nacional. A mãe atende, fala Um momento e chama pelo teu nome. Já era. Do outro lado da linha, o chefe de reportagem, com ares de âncora do Leão Camarada, diz que você acaba de ganhar duas folgas na semana seguinte, qualquer dia, é só escolher. Ao fundo, escutam-se risadas, de colegas que permanecem na redação àquela hora, no pescoção, e você já sabe que vem coisa aí.

A pauta era a melhor de todas, chegou a dizer o chefe de reportagem, e o pessoal atrás rindo. Consistia, a pauta, em passar a madrugada, de 1h às 7h, no Cemitério do Caju, lá no fundo dele, pertinho do Complexo da Maré, no crematório onde jazia, muito bem guardado, inacessível, o corpo de Renato Russo. A cerimônia de cremação estava marcada para a manhã seguinte, às 10h, e o carro do jornal nos deixou no local à 1h15, mais ou menos. Nos deixou e partiu. O combinado era que o motorista voltasse às 7h. Ficamos em frente ao crematório eu, o fotógrafo da madrugada e vinte ou trinta sujeitos, todos homens, que lá estavam por livre e espontânea vontade, no escuro, a pé, no cemitério colado ao Complexo da Maré.

Um deles não tinha uma das pernas. Dizia-se poeta, chegara de muletas, sozinho, tinha o nome da banda tatuado num dos braços e era dos mais falantes, porque o Renato era tudo, tudo pra ele. O cara era o cara, dizia o sujeito, que morava em favela, sim, e era poeta mas se virava mesmo vendendo uns negócios, e pra ele o Renato era tudo. E cantavam todos, ao som de um violão, É preciso amar ou Quando o sol nascer, e conversavam também, riam. O faxineiro contou que tinha errado o caminho, já de noite, e topou com traficantes da Maré, três deles, todos de pistola na mão. Teve que deixar o boné com eles, e ria, todo mundo ria no Cemitério do Caju, às três da manhã. O menino de lenço no pescoço, os braços finos, brancos, dizia que simplesmente não podia estar em outro lugar, não podia, não naquele momento, e também pegou três ônibus, também morava longe, também não tinha grana. O único que tinha dinheiro não varou a madrugada. Chegou de carro, lá pelas 4h30, parou em frente ao crematório e saiu, deixando a mulher no banco do carona, de braços cruzados. A gravata vinha abaixo dos três botões abertos da camisa, que estava pra fora da calça. Ele primeiro perguntou se era ali que o Renato Russo estava e depois só falou que tinha que ver o cara. Tinha que ver o cara, só isso, e falou duas ou três vezes até a mulher chamar, alto, e ele entrar no carro. E foi embora.

Depois não chegou mais ninguém até o dia clarear. Ficamos eu, o fotógrafo da madrugada e os vinte ou trinta sujeitos, que sumiram na multidão quando o velório começou a encher, às 7h, e o carro do jornal voltou, e dali para a redação, onde o tamanho da matéria, da melhor pauta, já estava estipulado. Era esse aí debaixo.

Jornal do Brasil, edição de domingo, 13 de outubro de 1996

“Sou fanático pela Legião, mas jamais vi um show deles, por falta de dinheiro. Prometi a meus amigos que ficaria perto do Renato, mesmo sabendo que seria difícil ver o corpo”

Nem mesmo a proibição de ver o corpo de Renato Russo, imposta pela família do compositor, foi suficiente para desanimar as 25 pessoas que passaram a noite no crematório do Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, Zona Portuária. Durante toda a madrugada de ontem, o pequeno mas fiel grupo de fãs do vocalista da Legião Urbana permaneceu em frente ao crematório, cantando e tocando no violão os maiores sucessos da banda brasiliense. No último adeus a Renato, seus admiradores mais fiéis acabaram sendo os jovens das classes sociais mais baixas, que não se incomodaram em pegar até três ônibus para passar a noite perto do corpo do ídolo.
Ao contrário da histeria característica dos enterros de artistas famosos e dos barulhentos shows da banda liderada por Renato Russo, o clima no cemitério durante a madrugada era tranqüilo. O grupo de fãs enfrentou a madrugada sem causar tumulto, sem se incomodar com a falta de conforto. “Praticamente ninguém trouxe comida ou bebida, mas a intenção de todos aqui é ficar ao lado do Renato. Ninguém vai abandona-lo”, afirmava o faxineiro Valdeir da Silva Fonseca Nunes, de 24 anos, que saiu de Piratininga, em Niterói, para se despedir do ídolo, e quase se complicou na ânsia de ficar perto de Renato Russo. O faxineiro errou o caminho para o crematório e acabou entrando na Favela da Chatuba, ao lado do cemitério, por volta das 23h. Abordado por traficantes, Valdeir foi liberado após deixar seu boné na favela.
Entre os admiradores do compositor que enfrentaram as maiores dificuldades para passar a madrugada no crematório, o mais determinado acabou sendo o poeta Émerson Gonçalves Leonardo, de 21 anos. Deficiente físico – ele não tem a perna esquerda –, Émerson saiu sozinho de Marica às 13h de anteontem para, quatro horas e três ônibus depois, chegar ao cemitério. “Sou fanático pela Legião, mas jamais vi um show deles, por falta de dinheiro. Prometi a meus amigos que ficaria perto do Renato, mesmo sabendo que seria difícil ver o corpo”, contou o fã, que tem o nome da banda tatuado no braço esquerdo.