segunda-feira, 3 de outubro de 2016

TEMPOS DIFÍCEIS

Ontem ele foi eleito como o vereador mais votado da cidade, com mais de cem mil votos. Na época da matéria abaixo, ele tinha acabado de ser eleito para seu primeiro mandato, aos 17 anos. As fotos são do André Durão.

Revista Istoé Gente, edição 65, de 30 de outubro de 2000

"Falarei com meu pai antes de tomar qualquer decisão importante".

O vereador mais jovem da história do Brasil defende a pena de morte, a tortura para traficantes de drogas, acha que os integrantes do Movimento dos Sem Terra não passam de vagabundos e faz piada da proposta de legalização da união civil entre homossexuais. Qualquer semelhança com a cartilha de idéias do polêmico deputado federal e ex-militar Jair Bolsonaro, do PPB, não é mera coincidência. Prestes a completar 18 anos, no próximo dia 7 de dezembro, Carlos Bolsonaro sabe que se elegeu às custas do pai e admite, sem qualquer constrangimento, que não terá autonomia na Câmara do Rio. “Falarei com meu pai antes de tomar qualquer decisão importante.”
Eleito com um total de 16.053 votos, Carlos desbancou figurões locais de seu partido como o cantor Agnaldo Timóteo, mas só vai dar expediente na Câmara na parte da tarde. As manhãs serão reservadas para a faculdade de direito, que o calouro na política espera freqüentar a partir do ano que vem. “Estou estudando para o vestibular.” As aulas, no entanto, não vão deixar o gabinete vazio. “Às segundas e sextas, darei expediente no Rio. Em Brasília, ficarei às terças, quartas e quintas”, revela Bolsonaro, o pai.
O deputado é o primeiro a reconhecer a imaturidade do filho e já tomou algumas providências para evitar desastres. Entrevistas de Carlos, por exemplo, só ao lado dele. "O garoto ainda é inexperiente. Pode ser induzido a falar alguma besteira", justifica. Antes da campanha foi o pai quem se desdobrou para conseguir o registro da candidatura do filho. Ele só relaxou ao constatar, numa consulta ao Tribunal Superior Eleitoral, que o candidato precisa ter 18 anos ou mais no dia da posse, mas não para se eleger.
Segundo dos quatro filhos de Jair Bolsonaro, Carlos aceitou de imediato o posto9 de representante do deputado na Câmara carioca. "Como um político que quer sempre evoluir, meu pai necessitava de alguém aqui no Rio", diz. O filho vai assumir o lugar que era da mãe, a vereadora Rogéria Bolsonaro. Eleita em 1996 com o apoio do então marido, Rogéria irritou o deputado ao deixar de consultá-lo para votar alguns projetos. O casal acabou se separando e, depois de muita briga pelo uso do sobrenome, Rogéria saiu candidata pelo PMDB. Sem o apoio do ex-marido, porém, não se reelegeu.
Além de Carlos, Bolsonaro é pai de Flávio, 19 anos, e Eduardo, 16 - ambos do casamento com Rogéria, 40 -, e de Renan, 2, seu filho com Ana Cristina Valle, 32 anos. Flávio e Eduardo moram com a mãe enquanto Carlos vive com o pai, a madrasta e o irmão caçula, num apartamento na Tijuca, Zona Norte do Rio.
O vereador eleito diz que a fama de autoritário e o jeito truculento do pai só aparecem fora de casa. "Ele sempre foi liberal com a gente. Totalmente brincalhão e atencioso." Carlos nunca apanhou, mas já recebeu alguns castigos tipicamente militares. "De vez em quando, mando ele fazer algumas flexões", conta o deputado, sem esconder o riso. O filho também ri. Para ele, o pai nunca está errado. "O que ele diz é sempre válido".
E o que Jair Bolsonaro diz quase sempre causa polêmica. Ele já defendeu, por exemplo, o fuzilamento do presidente Fernando Henrique Cardoso e é a favor da tortura para conseguir informações de traficantes. “Se pegam um cara com 500 quilos de cocaína, têm de saber de onde veio a droga e para onde vai, não importa como tirar essa informação".
Sobre a proposta de união civil entre homossexuais, o deputado reforça o preconceito. "Jamais iria admitir dar de cara com dois bigodudos se beijando", diz. Ao seu lado, o filho limita-se a cair na gargalhada. Tanta submissão, no entanto, não impede que Carlos tenha suas pretensões políticas. O mais jovem vereador do Brasil diz que pretende continuar na vida pública. “Está no sangue."
Sua primeira medida será manter, no gabinete, um advogado criminalista para defender policiais militares processados. Quem fala sobre isso, porém, é o pai. "Muitas vezes, o PM prende um vagabundo, mas o advogado do preso chega antes na delegacia. Aí o policial acaba sendo processado", diz Jair Bolsonaro. Graças a posições como essa, Carlos não pensa duas vezes antes de apontar seu ídolo na política. "É meu pai, não tem mais ninguém".

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

É PELÉ QUEM ESTÁ FALANDO...

A matéria já era capa, um furo, como dizem nas redações, e depois de mais de mês de apuração com algum grau de tensão (a possibilidade de perder a história ou a exclusividade dela, por exemplo, pra outra revista da casa mais velha, mais forte), o repórter enfim começava a escrever, a quatro, cinco horas do auge da insanidade mental de um fechamento semanal, sob a batuta de outra capital. Faltava a posição do mais famoso envolvido no caso, mas isso, dada a condição de atleta do século, ídolo mundial, eterno, do sujeito em questão, já se sabia difícil, quase impossível de conseguir. Na véspera, pela manhã, havia sido enviado o email a quem de direito com o relato do caso, o anúncio do fechamento na noite seguinte e o pedido, por favor, de entrevista. Só restava esperar e escrever a matéria com o aval do diretor de redação, a garantia dele de que tudo bem sem o cara, de que só a confirmação da história que ele tinha ouvido de um amigo e passou para o repórter já estava ótimo.

Então escrevia, o repórter, ou tentava, encasquetava com um monte de coisa logo na abertura e não avançava, quase nada, quando tocou o telefone na mesa da secretária, a primeira, em frente à porta, das seis espalhadas pelos quarenta, cinquenta metros quadrados da salinha da sucursal, que tinha ainda dentro dela dois cubículos ainda menores, um pra fotografia, outro pra chefe. Eram três os repórteres da redação, um se chamava Eduardo e do texto travado na tela do computador deu pra escutar claramente, como sempre, a secretária expansiva, baixinha sorridente ao telefone dizendo: "senhor, aqui nós temos Eduardo e Luís Edmundo. Luis Eduardo nós não temos". Passaram-se três, quatro segundos e tocou o ramal do repórter, que primeiro ouviu a brincadeira trivial, banal, com seu mome (não é o animal, não, né?) e depois a identificação na voz inconfundível, com a nitidez de uma imitação perfeita: "é Pelé quem está falando..."

Abaixo, a matéria.

Revista Istoé Gente, edição 141, de 15 de abril de 2002

"A Flávia é minha filha. Só não falava nada para preservar a privacidade dela”.



Em novembro de 1991, Édson Arantes do Nascimento, o Pelé, arrumou uma brecha em sua agenda lotada de compromissos para um encontro especial em Santos. Durante cerca de uma hora, o maior jogador de futebol de todos os tempos conversou com a então estudante de fisioterapia Flávia Christina Kurtz V. de Carvalho, na época com 24 anos. Logo que viu a moça, o Atleta do Século 20 desconfiou daquilo que confirmaria mais tarde: era sua filha. Flávia, que ligara dias antes para o escritório do pai querendo marcar um encontro, tinha sido fruto de um relacionamento relâmpago que Pelé teve em Porto Alegre, em 1968, quando esteve lá para um jogo do Santos. “Quando ela começou a falar quem era e contou sua história, comecei a reparar em seu rosto e vi que ela era da família”, assumiu Pelé, ao ser procurado por Gente por telefone, da Flórida, para onde viajou a negócios. Por telefone, Flávia não quis se manifestar e, após falar com o pai, marcou entrevista coletiva para quarta-feira.
Mesmo tendo o pressentimento de que estava falando com uma filha, o ex-craque diz ter esperado o resultado de um outro encontro para ter certeza do que estava pensando. “Mulher sempre tem mais sensibilidade para essas coisas, então quis saber qual seria a reação de minha mãe”, contou. Na conversa com o pai, a própria Flávia manifestara o desejo de conhecer a avó Celeste. O Atleta do Século 20 consentiu e forneceu o endereço para que ela procurasse a mãe dele, em Santos. Como viajou um dia depois de ter visto a filha, não participou do encontro entre avó e neta. Mas, por telefone, quis saber a opinião de Dona Celeste depois que as duas se falaram. “Minha mãe me disse: ‘Filho, não precisa nem fazer exame para comprovar. Ela é tua filha’. Aí que tive certeza.”
O ex-craque acabou seguindo o conselho da mãe, tanto que nunca fez o exame de DNA que comprovaria que a estudante era sua filha. Hoje com 32 anos e já formada, Flávia trabalha como fisioterapeuta em uma clínica de ortopedia de São Paulo e não está registrada no nome do pai. Pelé não revelou quem é a mulher com quem se relacionou em Porto Alegre. “Prefiro manter em sigilo, porque a mãe dela é casada e criou a filha junto com o ex-marido, que registrou a criança em seu nome. Digo apenas que ela era estudante de jornalismo e hoje deve trabalhar como jornalista”, disse.
Flávia não entrou na Justiça contra o Rei do Futebol como optou a vendedora Sandra Regina Machado, 37 anos – fruto de um relacionamento de Pelé com a empregada doméstica Anisia Machado e reconhecida como sua filha pela Justiça, após entrar com processo de reconhecimento de paternidade contra o pai, também em 1991. “Tive um sentimento legal quando a conheci exatamente porque ela não veio me pedir nada. Ela veio contar a história dela e queria me conhecer. Como não exigiu nada, acabou ganhando tudo o que quis”, revelou Pelé.
De dezembro de 1994 a março de 2000, Flávia recebeu do pai uma pensão mensal equivalente a cerca de US$ 1 mil. O dinheiro era depositado em sua conta 9311419, da agência 2400 do Bradesco, em Porto Alegre, e ajudou Flávia a pagar a faculdade de Fisioterapia, que cursou na capital gaúcha. Depois de formada, a filha de Pelé foi morar em São Paulo. Hoje, ela trabalha numa clínica na capital paulista e mora com o marido, executivo de uma multinacional, num apartamento de dois quartos no bairro do Morumbi. “Ela é uma pessoa discreta e nunca quis aparecer. Sempre quis preservar a privacidade dela, por isso essa história nunca foi tornada pública", afirmou o Atleta do Século.
De relações cortadas com Pelé desde que foi acusado de se apropriar de US$ 700 mil recebidos pela Pelé Sports & Marketing – referentes a um evento que a empresa prometera realizar de graça para o Unicef, em 1995, na Argentina –, o empresário Hélio Viana foi quem revelou a Gente a existência da filha de Pelé, durante entrevista concedida na segunda-feira 1º. Ele tem uma outra versão para justificar o tempo em que Flávia permaneceu incógnita. “O certo seria o Pelé fazer o exame de DNA, reconhecer e pronto, mas ele preferiu o caminho da esperteza. Cooptou a moça e dava cerca de US$ 1 mil por mês para ela não entrar com processo. Fez isso pra dizer, na medida em que a Sandra começasse a incomodá-lo, ‘olha, tenho outra filha, que reconheço, ajudo, porque não entrou na Justiça contra mim’.”
Segundo Pelé, toda a sua família sempre soube da existência da filha gaúcha de Édson Arantes do Nascimento. “Ela é de casa e já conheceu todo mundo, o Edinho, a Kelly e a Jennifer. O Joshua, a Celeste e a Assíria também”, disse, referindo-se a seus outros filhos e à atual mulher. Hélio não crê no carinho que Pelé diz ter pela filha. “Acredito que o sentimento do Pelé pela Flávia seja o mesmo com relação à Sandra. Ele ignora as duas”, diz.
Se hoje não esconde as críticas ao antigo sócio, Hélio Viana viveu uma situação bem diferente nos últimos 18 anos. Apresentado a Pelé em 1984 – quando ocupava um cargo no governo de Leonel Brizola no Rio e foi procurado para conseguir o apoio da Polícia Militar às filmagens de Pedro Mico, filme de Ipojuca Pontes protagonizado por Pelé –, o advogado que nunca exerceu a profissão consolidou-se como empresário ao trabalhar a marca Pelé de 1986 até o rompimento dos dois, em novembro.
Casado há sete anos com a ex-miss Brasil Leila Schuster, 29, e pai de Klaus, 6, e Lucas, 7 – este último filho de um relacionamento fora de seu casamento –, Hélio admite que ganhou muito dinheiro trabalhando com Pelé. “Deus nos colocou juntos para que um ajudasse o outro. O Pelé era uma marca adormecida que permitiu que eu executasse toda a minha capacidade”, afirma.
No início de seu trabalho, o sócio de Pelé procurou a ajuda de Mário Amato, na época presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), que o conhecia desde que o advogado tinha sido um dos coordenadores da campanha das Diretas Já, em 1984. “Ele botou toda uma estrutura à minha disposição e começamos a trabalhar”, lembra. Uma pesquisa encomendada mostrou que, se a popularidade do nome continuava em alta, as opiniões sobre o maior jogador de futebol de todos os tempos estavam longe da unanimidade conquistada nos gramados. “Mostramos entrevistas num telão em que as pessoas diziam que o Pelé já era, que não ligava para o povo e que só dizia besteira, como na vez em que disse que brasileiro não sabia votar”, lembra Hélio. 
A situação se reverteu, segundo o empresário, com o contrato com a Mastercard, assinado em 1991. A idéia era fazer Pelé viajar pelo mundo, falando sobre futebol, tudo patrocinado pelo Mastercard. “Foi isso que consolidou internacionalmente a imagem de Pelé como formador de opinião”, afirma. Em vigor até hoje, o contrato rende ao Atleta do Século cerca de US$ 5 milhões a cada quatro anos de compromisso. Como empresário, Hélio ficava com 20% dos contratos de Pelé. Em 16 anos, o filho de um caldeireiro da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) nascido em Volta Redonda, no Sul Fluminense, único homem entre cinco irmãs, saiu de um apartamento alugado de três quartos em Ipanema para uma mansão em São Conrado, no Rio, de 2,5 mil metros quadrados. A casa serviu de cenário para a residência da personagem de Marieta Severo na novela Laços de Família.
O empresário só não gostava quando tinha de lidar com assuntos particulares do antigo sócio, como as filhas fora dos casamentos. “Tinha que fazer negócio e o comportamento do Pelé, querendo esconder essas coisas, atrapalhava a marca.” No caso de Flávia Christina Kurtz, o Rei do Futebol discorda: “Não há nada de errado nessa história. A Flávia é minha filha. Só não falava nada para preservar a privacidade dela”.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

POWERPOINT

O acusador já havia pregado em templo religioso, clamando aos céus que aceitassem suas denúncias sem provas, e de novo convocava a imprensa amiga para a entrevista coletiva no hotel de luxo, dessa vez com a expectativa de juízo final, da denúncia que todos esperavam, contra o inimigo número um. Viriam bombas, provas, enfim, alguma consistência além de pedalinhos e barquinhos de lata, pensavam todos, certamente, quando o acusador adentrou o salão royale finamente decorado, anunciado pelo mestre-de-cerimônias com nome, sobrenome e cargo, como, aliás, todos os demais ocupantes da mesa, todos, como ele, acusadores.

O acusador procurou desde o início de tudo ao lado de seus colegas incensados pela mídia corporativa, com direito a capa a remeter aos intocáveis com ele no centro da equipe, a posar de Eliot Ness. Procurou com a ajuda estrangeira, do Norte, pra onde a equipe intocável viajou levando informações confidenciais de estatais daqui, trazendo de lá um manancial de dados, denúncias de um esquema antigo, de muito antes de Paulo Francis, que serviram para, com a ajuda de um juiz de primeira instância igualmente inacreditável, inaceitável, bombardear a economia nacional dizimando as maiores empresas de infra-estrutura e deixando quietas, lógico, as instituições financeiras. O acusador procurou e ajudou a derrubar, com a cronologia pensada, com as datas marcadas dos vazamentos ilegais, jamais com alguma prova sequer além da delação obtida com a prisão, também sem provas, um governo eleito pelo povo, pra botar outro no lugar que às pressas começou a abrir para o Norte a economia estatal, vendendo o pré-sal.

O acusador procurou tanto, com tanto afinco, há tanto tempo que só podia ter algo sério a mostrar, pensavam os que por ele torciam, e ainda torcem, tinha de ter algum dado cabal a revelar, com toda a pompa e circunstância, de maneira espetacular, quando do alto do púlpito, com a garrafinha de água mineral ao lado, o copo de cristal, ligou o powerpoint digno de reunião da Amway, com o grande círculo no meio e o nome: Lu-la, envolto por outros círculos menores onde estavam todas as mazelas do País, com termos novos também, pra uso da mídia parceira, e de novo, mais uma vez, sem provas, só convicção, convicção e prisão, sem provas, prisão e delação.

Antes dessa denúncia constrangedora, na base do powerpoint de curso motivacional, a matéria abaixo mostrou até onde podem chegar o acusador e sua equipe, ao lado do tal juiz de primeira instância, se não houver reação.

Jornal do Commercio, edição de sábado, domingo e segunda-feira, 5, 6 e 7 de março de 2016


"Um ex-presidente da República, sem ter oposto resistência física, ser conduzido coercitivamente revela em que ponto nós estamos. A coisa chegou ao extremo".


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi levado de sua casa em São Bernardo do Campo (SP) na manhã desta sexta-feira, por volta das 7h, sob um mandado de condução coercitiva para prestar depoimento no âmbito da 24a fase da operação Lava-Jato, que mobilizou cerca de 200 policiais federais e 30 auditores da Receita Federal para cumprir 34 mandados de busca e apreensão, e 11 de condução coercitiva, incluindo o de Lula. O depoimento durou cerca de três horas, no escritório da Polícia Federal no Aeroporto de Congonhas. Ao voltar pra casa, às 17 horas, Lula desceu do carro e caminhou a pé junto a centenas de apoiadores que cantavam: "Lula, guerreiro, do povo brasileiro". "Não precisaria levar uma coerção à minha casa, dos meus filhos. Não precisava, era só ter me comunicado. Lamentavelmente preferiram usar a prepotência, a arrogância, o show de pirotecnia. É lamentável que uma parte do Judiciário esteja trabalhando com a imprensa", disse o ex-presidente.
Em uma crítica à decisão do juiz titular das investigações da operação Lava-Jato na primeira instância, Sérgio Moro, da Justiça Federal de Curitiba, o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), demonstrou preocupação com a condução coercitiva do ex-presidente Lula. "Me preocupa um ex-presidente da República ser conduzido debaixo de vara", disse. De acordo com o ministro, a Polícia Federal deveria ter "observado os parâmetros normais" e intimado Lula a prestar depoimento em vez de levá-lo contra sua vontade. "Um ex-presidente da República, sem ter oposto resistência física, ser conduzido coercitivamente revela em que ponto nós estamos. A coisa chegou ao extremo", afirmou Mello. Apesar disso, o ministro disse que a condução coercitiva de Lula não prejudicava a legitimidade das investigações. O Ministério Público Federal (MPF) argumentou que o mandado de condução coercitiva contra Lula foi necessário por questões de segurança, já que um depoimento agendado do ex-presidente implicaria em maior chance de tumulto.
Mais tarde, a ministra do STF Rosa Weber negou liminar à defesa do ex-presidente, que pedia a anulação da operação desta sexta por conflito de atribuição entre o MPF e o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), já que ambos investigam os mesmos fatos sobre os mesmos imóveis, um sítio em Atibaia (SP) e um apartamento no Guarujá. "Os próprios órgãos investigadores não reconhecem a existência do conflito de atribuição, e o entendimento do STF é no sentido de que não cabe à eventual parte interessada provocar a competência da Corte para que decida sobre suposto conflito suscitado arbitrariamente", disse a ministra.
O ex-presidente depôs durante toda a manhã e após ser liberado, antes de voltar para casa, seguiu para a sede do diretório nacional do PT em São Paulo. À tarde, Lula fez um pronunciamento dizendo estar indignado e que se sentiu como um "prisioneiro", mas que está disposto a percorrer o País para defender o projeto petista de governo. "Hoje, na minha vida, é o dia da indignação, é o dia da falta do respeito democrático, o dia do autoritarismo. Tentaram matar a jararaca, mas não acertaram na cabeça, acertaram no rabo. A jararaca tá viva, como sempre esteve. Agora vão ter que me enfrentar nas ruas".
Lula reiterou que o sítio Santa Bárbara, em Atibaia, sob suspeita de ser sua propriedade, não é dele. "Agora eu não posso usar a chácara porque é crime". Segundo Lula, o País é "vítima do espetáculo midiático que coloca como corrupção um barco de R$ 4 mil da Dona Marisa". Ele se referia ao barco usado pela ex-primeira-dama no lago do sítio. Lula criticou a divulgação da compra de dois pedalinhos também usados no sítio. "...se preocupando com pedalinho de R$ 2 mil que ela (Marisa) comprou para os netos, se preocupando porque eu estou utilizando chácara de um amigo. Eu uso a do amigo porque os inimigos não me oferecem. Os Marinhos não me oferecem o triplex deles em Paraty", afirmou, citando casa construída em área de proteção ao meio ambiente na Costa Verde do estado do Rio de Janeiro, que é motivo de investigações por denúncias de crime ambiental e que pertenceria à família proprietária das organizações Globo.
O ex-presidente criticou a imprensa pelo que considera um "espetáculo midiático" e disse que "hoje quem condena as pessoas são as manchetes". "A minha indignação é pelo fato de seis horas da manhã terem chegado na minha casa vários delegados, aliás, muito gentis, pedindo desculpas, que estavam cumprindo uma decisão judicial e a decisão era do juiz (Sérgio) Moro", disse Lula. "Não devo e não temo", completou.
Em relação às palestras realizadas pelo ex-presidente e negociadas por meio do Instituto Lula - a instituição também foi alvo de mandado de busca e apreensão nesta sexta -, Lula comentou: "sou, sim, um dos palestrantes mais caros do mundo. Só fico atrás do Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos). Cobro US$ 200 mil, sim, porque sei o que fiz para este país".
Embora o Palácio do Planalto já esperasse alguma ação da Lava Jato contra Lula esta semana, foi surpreendido com o mandado de condução coercitiva contra o ex-presidente e os de busca e apreensão envolvendo membros da sua família e pessoas próximas. A presidenta Dilma Rousseff manifestou em nota seu "integral inconformismo" com a condução coercitiva de Lula e classificou a medida como "desnecessária", lembrando que Lula já foi "por várias vezes" prestar esclarecimentos às autoridades de forma espontânea. A presidenta defendeu que o respeito aos direitos individuais pressupõe a adoção de medidas proporcionais "que jamis impliquem em providências mais gravosas do que as necessárias para o esclarecimento de fatos". O presidente do PT, Rui Falcão, pediu que todos os diretórios estaduais entrem em vigília e disse que o momento é de mobilização dos militantes.

A mais recente fase da Lava Jato ocorreu nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Foram alvo de mandados de busca cumpridos pela PF nesta sexta, além do ex-presidente, a empresa de palestras de Lula, a LILS, o Instituto Lula, a ex-primeira-dama Marisa Letícia e os filhos do ex-presidente Fabio Luis, Sandro Luis, Luis Cláudio e Marcos Claudio, que têm participação em empresas investigadas. Além deles, a PF também fez buscas em endereços ligados a Paulo Okamoto, atual presidente do Instituto Lula, e ao ex-presidente do instituto José de Filippi Júnior, assim como a uma secretária de confiança de Lula. O MPF chegou a pedir a prisão temporária de Okamoto e José de Filippi, assim como a de um executivo da empreiteira OAS, mas Sergio Moro rejeitou. Em vez disso, os três foram levados pela PF para prestar depoimento. Segundo o MPF, estão sendo investigados pagamentos feitos por construtoras beneficiadas no esquema Petrobras em favor do Instituto Lula e da LILS Palestras, em razão de suspeitas levantadas pelos ingressos e saídas dos valores.
A Receita Federal, que colabora na Lava Jato, disse haver uma possível "confusão operacional financeira" entre o Instituto Lula e a LILS Palestras, a primeira isenta de impostos e a segunda com receitas tributadas. No último sábado, durante comemorações pelo aniversário do PT, Lula disse que tinha sido informado de que teria seus sigilos bancário, telefônico e fiscal quebrados. "A partir de segunda-feira vão quebrar meus sigilos fiscal, telefônico, tudo, meu, da Marisa, da minha netinha e até da minha mãe. Esse é o preço? Eu pago", disse Lula. "Mas eu duvido que tenha um mais honesto do que eu".
Procuradas, Odebrecht, OAS e Queiroz Galvão disseram que não se pronunciariam sobre o assunto. Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez ainda não tinham respondido a pedidos de comentários até o fechamento desta edição. A UTC disse que a LILS Palestras foi contratada para uma conferência de Lula, em dezembro de 2012, na sede da empresa em São Paulo. A companhia afirmou ter repassado ao MPF a documentação relacionada ao evento.

domingo, 11 de setembro de 2016

A ENTREVISTA ATRAPALHADA

A revista tinha entrado de vez em sua fase ágil, dinâmica, colorida, alegre e com textos cada vez mais curtos, toda a importância, quase, pra foto, de preferência de gente bonita, sensual, sobretudo famosa, condições fundamentais pra que a matéria, no crivo implacável da chefia da outra capital, ganhasse mais do que as habituais duas páginas. Nesses casos, em alguns deles na verdade, vinha o e-mail estimulador do comandante maior, acima da redação, o elogio monossilábico, no ponto, numa palavra só e com o indispensável ponto de exclamação: “show!”. Ou então a sagacidade dele,  garotão de menos de quarenta bem arrumado, sempre de terno, que lembrava do título de uma música conhecida pra definir, sucinto, esperando talvez urros da chefia da sucursal e dos repórteres à sua volta: “simply the best!” 

O entrevistado até tinha alguma fama, mas não nos índices medidos pelo ibope, que realmente contavam pra chefia da outra capital, da redação e acima dela, do garotão. Beleza e sensualidade também não eram lá seus principais atributos e pra completar a pauta não poderia ser o tradicional pingue-pongue de três páginas, por algum motivo que hoje foge à memória, se já havia sido feita alguma entrevista com ele antes ou não, não se sabe ao certo. Sabe-se é que, além do nervosismo inevitável, dado o tamanho do personagem, o repórter não estava muito à vontade, nem sabia direito o que fazer, como entrevistar o sujeito que abriu a porta do apartamento dele no Leblon com a cara risonha, conhecida do autor do Sargento Getúlio e de Viva o Povo Brasileiro.

O resultado da entrevista, na linha editorial da revista, tá aí embaixo.

Revista Istoé Gente, edição 142, de 22 de abril de 2002

“Não estou sem beber álcool, só não estou enfiando o pé na jaca”.

Ele voltou a fumar um ou outro cigarro por dia. Toma uma dose de uísque de vez em quando, apesar de o guaraná ser a bebida mais consumida ultimamente. “Não estou sem beber álcool, só não estou enfiando o pé na jaca”, afirma. Baiano de Itaparica radicado no Rio de Janeiro, João Ubaldo Ribeiro não consegue se livrar totalmente de alguns vícios. O da escrita é um deles. Aos 61 anos, ele está em primeiro na lista de Gente com Diário do Farol, o 18º livro da carreira. Com o livro concluído, o tempo livre aumenta. Ubaldo costuma acordar cedo, lá pelas 7h, 8h. Duas horas mais tarde vai até o calçadão do Leblon, onde caminha por 20 minutos. “Detesto andar. Faço isso todos os dias porque sou chantageado por médicos e pela família”, diz. “Dizem que vou ter morte horrorosa se não andar e que terei uma qualidade de vida terrível no ápice da velhice, se é que existe tal coisa.”
Precavido, ele já tomou uma providência para diminuir o sofrimento da via crucis diária que vem encarando: comprou um relógio com o qual marca os 20 minutos que é obrigado a caminhar. “Não passo um segundo disso”, diz ele, que reconhece a falta de condição atlética e nem se importa mais em ser ultrapassado na rua por senhoras gordas.
Depois de se exercitar, o escritor trabalha um pouco, almoça e dorme entre as 14h30 e 18h. Ao acordar, volta a escrever até as 2h da madrugada. As visitas ao botequim Flor do Leblon não têm hora certa, mas elas acontecem pelo menos uma vez ao dia. Apesar do aparente bom humor, Ubaldo confessa a dificuldade em conviver com a velhice e cita o amigo Jorge Amado para explicar o que sente. “O Jorge dizia que já tinham lhe falado muito das alegrias da velhice, mas não lhe apresentaram nenhuma. Comigo é a mesma coisa. Só conheço a preguiça de me abaixar, me cansar para botar sapato”, diz.
Testemunha da amizade entre Ubaldo e Jorge Amado, a escritora Zélia Gattai lembra de uma história ocorrida em Lisboa, nos anos 80, quando Ubaldo morava em Portugal. Os três amigos foram às compras e, numa loja, Zélia notou que a vendedora olhava fixamente para o autor de Gabriela eCapitães de Areia e perguntou no ouvido de Ubaldo se aquele não era Jorge Amado, escritor das novelas brasileiras. Na época, a novela Gabriela, baseada no romance de Jorge, era sucesso em Portugal. “João Ubaldo não só confirmou como disse que às vezes o Jorge escrevia com o pseudônimo de Janete Clair (novelista autora de sucessos como Irmãos Coragem e Selva de Pedra)”, contou Zélia. “A moça achou que o Jorge escrevia as novelas brasileiras e, graças ao João Ubaldo, deve estar achando até hoje.”
Membro da Academia Brasileira de Letras desde 1993, o imortal que, por preguiça, raramente vai à ABL não opina sobre a possível entrada de Paulo Coelho na academia. Quanto às eleições presidenciais, pensa em Lula, mas não declara voto. O novo livro é o que ocupa seus pensamentos. Para Ubaldo, a história do padre que chega às raias da crueldade, sem qualquer senso moral, não é tão inverossímil quanto possa parecer. Tanto que compara o personagem que pensa em cortar o pai em pedacinhos com um dos crimes cometidos pelo traficante Fernandinho Beira-Mar, no Rio. “Ele dizia no telefone aos comparsas: ‘Corta um pedaço da orelha, agora um dedo’. Então não é uma coisa tão incomum.”

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

GOLPE

Por mais que já fosse esperado, há que se postar alguma coisa na data de hoje, só pra registro.

A matéria abaixo saiu assinada no alto da página, ao lado da palavra 'editor'. A foto de abertura é do Ricardo Stuckert.


Jornal do Commercio, edição de sexta-feira, primeiro de abril de 2016


"Eu lamento que o vice eleito na nossa chapa, com o nosso programa, participe agora de um impeachment sem base legal. Isso tem nome. É golpe".


Centenas de milhares de pessoas contrárias ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff realizaram ontem, em todo o País e no exterior, manifestações em favor da democracia e contra o que classificam de golpe dos opositores contra o resultado das eleições presidenciais de 2014. O protesto principal, convocado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), reuniu cerca de 200 mil pessoas em Brasília, segundo os organizadores, para uma marcha do estádio Mané Garrincha até o Congresso Nacional. Também houve manifestações no Rio de Janeiro, em São Paulo, Porto Alegre, São Luís, Fortaleza, Recife, Maceió e Aracaju, entre outras cidades, incluindo todas as capitais dos 26 estados do País.
No maior ato pró-Dilma já realizado em Brasília, o Partido dos Trabalhadores, apoiado pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, por entidades sindicais e movimentos sociais, reuniu milhares na Esplanada dos Ministérios, especialmente em frente ao Congresso. A data coincidiu com os 52 anos do Golpe de 1964, quando o regime militar destituiu o então presidente João Goulart, dando início à ditadura no Brasil. Políticos do PT e de legendas contrárias à destituição de Dilma do poder participaram do ato. A expectativa da Jornada Nacional em Defesa da Democracia era reunir 150 mil pessoas. De acordo com os organizadores, esse número teria chegado a 200 mil - cinco vezes mais que o registrado pela PM, que mantece 870 policiais e 206 bombeiros na região central da cidade. Na alameda dos estados, em frente ao Congresso, se concetrou um carro de som onde lideranças e políticos discursavam contra o "golpe à democracia, contra o povo e a Constituição".
Entoando canções de artistas nacionais, como Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, manifestantes se emocionavam e gritavam palavras de ordem pró-Dilma, pela democracia e contra o "golpe". Apresentações musicais e o estouro de fogos de artifício marcaram alguns momentos do evento. A todo momento, o processo de impeachment da presidenta da República, em análise na Câmara dos Deputados, era tratado como uma ação golpista de tomada do poder por grupos de direita. No trajeto rumo à Esplanada, os manifestantes eram recebidos com aplausos e o apoio de hóspedes do Setor Hoteleiro Sul.
Artistas que estiveram no Palácio do Planalto mais cedo em uma solenidade com a presidenta Dilma, como a atriz Letícia Sabatella e o cartunista Ziraldo, discursaram contra o impeachment. Ainda no estádio, entidades como a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB), Movimento dos Sem Terra (MST), Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura e sindicatos filiados à CUT foram identificadas. O clima era de harmonia e muitas crianças acabaram levadas à manifestação. Por volta das 21h30, o grupo já começava a se dispersar.
Esperado no evento, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cancelou sua participação, mas enviou uma gravação veiculada pelos organizadores. No áudio, Lula criticou o processo de impeachment contra Dilma e voltou a dizer que impedimento sem base legal é golpe. O ex-presidente afirmou que o brasileiro "não fecha os olhos" para os problemas do País, mas também não aceita "andar pra trás". Mesmo sem citar o vice-presidente Michel Temer ou o PMDB diretamente, Lula segue na estratégia alinhada com o Planalto de evidenciar o risco de regressão de direitos sociais num eventual governo Temer.
Lula também reforçou o argumento petista de que Dilma não cometeu crime de responsabilidade e que, portanto, seu impeachment seria golpe. "A sociedade brasileira sabe o quanto custou recuperar a liberdade e a legalidade, quanta luta, quanto sacrifício, quantos mártires. E nessas três décadas de vida democrática, aprendemos que um grande país se constrói caminhando sempre adiante, consolidando e conquistando novos direitos coletivos e individuais", afirmou Lula no vídeo postado à tarde nas redes sociais.
Em São Paulo, além do repúdio ao impedimento da presidenta, o vice-presidente Michel Temer foi um dos principais alvos do protesto pró-governo. A Frente Brasil Popular, grupo que reúne entidades sociais e partidos de esquerda contra o impeachment, reuniu milhares de pessoas na Praça da Sé, em um ato marcado também por críticas ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Segundo os organizadores, foram 50 mil manifestantes. Já a Polícia Militar calculou 18 mil participantes. Escalado para falar em nome do PT, o presidente do diretório estadual do partido em São Paulo, Emidio de Souza, chamou o vice-presidente de golpista. "Temer poderia passar para a história do Brasil como constitucionalista, mas junto com o (Eduardo) Cunha vai passar para a história como golpista".
Depois de chamar Cunha de "ladrão do erário público", Emidio usou as acusações contra o presidente da Câmara para desqualificar o processo de impeachment contra Dilma. "Eles falam muito em ética, mas se gostassem de ética não botavam um ladrão como Eduardo Cunha para cuidar do processo de impeachment". Emidio também ironizou o desembarque do PMDB do governo. "O Brasil está vivendo o terceiro dia sem o PMDB no governo desde a Nova República".
O presidente nacional do PT, Rui Falcão, adotou um tom mais brando mas também não poupou Temer. "Eu lamento que o vice eleito na nossa chapa, com o nosso programa, participe agora de um impeachment sem base legal. Isso tem nome. É golpe", disse Falcão. Segundo ele, os ministros peemedebistas que se recusam a seguir a decisão da direção partidária de desembarcar do governo "não coadunam com aquele ato que alguns chamaram de farsa".
No Rio, o ato contra o impeachment da presidenta Dilma, realizado no Largo da Carioca, no Centro, reuniu cerca de 50 mil, contou com a participação de artistas e, além da defesa da democracia, lembrou as vítimas da ditadura militar. O cantor e compositor Chico Buarque esteve na manifestação e falou brevemente ao público. O artista afirmou que havia no ato quem votou no PT e em outros partidos, mas, sobretudo, pessoas que não colocam em dúvida a integridade da presidenta Dilma Rousseff. Chico lembrou do golpe de 1964 e pediu o fortalecimento da democracia. "Estamos aqui em defesa intransigente da democracia", disse. O compositor fez uma selfie acompanhado de lideranças do PT, inclusive Lurian Cordeiro Lula da Silva, filha do ex-presidente Lula.
Na manifestação, houve muitas críticas ao PMDB, à mídia, principalmente a Rede Globo, e a Eduardo Cunha. O juiz Sergio Moro, responsável pelo processo da operação Lava Jato na primeira instância, também não foi poupado. Os participantes gritaram palavras de ordem, como "não vai ter golpe, vai ter luta". Em repetidas vezes, os manifestantes cantaram a música Vou festejar, sucesso de Beth Carvalho, cujo refrão diz: "você pagou com traição a quem sempre te deu a mão". Os militantes pediram a renúncia de Temer, junto com a saída do PMDB do governo. Houve um minuto de silêncio para lembrar as vítimas da ditadura militar no Brasil. O ato foi organizado pelos movimentos sociais Frente Brasil Popular e Povo Sem Medo, composto por sindicatos, associações de trabalhadores, estudantes e camponeses.
Em Belo Horizonte, a manifestação contra o impeachment, na Praça da Estação, no Centro, foi conduzida basicamente por artistas locais e reuniu 35 mil, nas contas de organizadores. Poucos políticos participaram do ato, organizado pela Frente Brasil Popular. "Existe um movimento golpista no Brasil que precisa acabar. Caso isso não aconteça, o MST vai se manifestar diariamente em todo o País", disse o coordenador do MST em Minas Gerais, Silvio Neto. Em Salvador, de acordo com os organizadores, 20 mil pessoas participaram da manifestação. No Recife, o cálculo era de 90 mil na Praça do Derby, na região central da cidade. Também houve atos em outras capitais, como Campo Grande, João Pessoa, Florianópolis, Curitiba e Natal.
O PMDB comandado por Temer apresentou, ainda no ano passado, o programa do partido chamado "Uma ponte para o futuro". De teor liberal, o texto é considerado um plano para a possível gestão Temer, se o impeachment vingar. O plano traz propostas como reduzir o tamanho do Estado, desburocratizar licenciamentos ambientais, ampliar o espaço de atuação da iniciativa privada e, o que gera mais polêmica com centrais sindicais e movimentos sociais, uma 'flexibilização' de regras trabalhistas, dando mais poder à negociação direta entre patrões e empregados ou entidades de classe e menos à legislação. Centrais veem a proposta como um perigoso enfraquecimento da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Os organizadores do protesto a favor do governo da presidenta Dilma Rousseff em Porto Alegre afirmaram que 80 mil pessoas participaram do ato desta quinta-feira, que começou às 17 horas com uma concentração na Esquina Democrática, histórico reduto de manifestações populares da cidade. Diversas lideranças sociais e políticas discursaram do alto de um carro de som, entre elas o ministro Miguel Rossetto. Em uma breve fala, ele pediu que os militantes convençam os deputados a votar contra o processo de impeachment da presidenta.
Rossetto também falou sobre o lançamento da fase três do Minha Casa Minha Vida e disse que "os golpistas" vão acabar com o programa, uma das principais bandeiras da administração petista. Assim como nos outros estados brasileiros, a defesa do mandato de Dilma foi o mote central do protesto, organizado por grupos sindicais e sociais ligados ao PT. Os cartazes e os gritos dos manifestantes no chão reforçavam o discurso das lideranças que subiam no carro de som. As principais críticas se dirigiram ao processo de impeachment. "Não vai ter golpe" foi a frase mais entoada pelos participantes. Também houve críticas ao vice-presidente da República e ao presidente da Câmara dos Deputados. Em vários momentos os manifestantes cantaram: "ô, Cunha, pode esperar, a tua hora vai chegar".
O protesto transcorreu de forma pacífica. Após o discurso de Rossetto, pouco depois das 20 horas, a multidão deixou a concentração e fez uma passeata saindo da Avenida Borges de Medeiros até o Largo Zumbi dos Palmares, na zona central da cidade. Lá, a mobilização seguia no decorrer da noite, com apresentações culturais.
O ato de apoio ao governo se repetiu em algumas cidades no exterior, como Berlim, Lisboa, Londres e Paris. Em Buenos Aires, cerca de 150 argentinos e brasileiros marcharam pelo centro da capital argentina. O ponto de encontro do ato foi a Embaixada do Brasil e os manifestantes seguiram em passeata até o tradicional Obelisco.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

OLÍMPICO.

Anteontem, ele encerrou os Jogos Olímpicos de 2016, aqui no Rio de Janeiro. E na entrevista abaixo, treze anos mais novo, ele trabalhava pela segunda vez para trazer a Olimpíada para o Brasil, seis anos antes da terceira e enfim vitoriosa tentativa.

Revista Istoé Gente, edição 208, de 28 de julho de 2003

"Saímos de Paris, onde jogamos uma partida e fizemos quatro escalas até Tóquio. Na última delas, no Camboja, permanecemos horas dentro do avião por causa da guerra do Vietnã".

Ele já disputou uma Olimpíada como atleta, foi o principal responsável pela evolução do voleibol brasileiro – durante os 21 anos em que presidiu a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), de 1975 a 1996 – e trouxe para o País os Jogos Panamericanos de 2007, quando o Rio de Janeiro venceu San Antonio na primeira derrota de uma cidade americana. Agora, o desafio do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, 61 anos, é maior: trazer para o Brasil os Jogos Olímpicos de 2012, numa disputa com outras oito cidades (Havana, Istambul, Leipzig, Londres, Madri, Moscou, Nova York e Paris), cujo resultado será divulgado em julho de 2005. Lembrando que o esporte o ajudou a superar a morte da mãe, quando tinha 10 anos, Nuzman promete se empenhar ao máximo na briga pela Olimpíada. “Os Jogos abrem as possibilidades de crescimento de um país, e o Brasil precisa disso”, diz o pai de Larissa, 20, filha de seu casamento com Patrícia Nuzman, e padrasto de Ana Rita, 22, e Ana Clara, 20, filhas da atual mulher, a jornalista Márcia Peltier, com quem está casado há 5 anos.

Após a tentativa frustrada de trazer a Olimpíada de 2004 para o Rio, acha que agora a cidade tem chances?
A Rio 2004 foi uma candidatura política. O próprio Comitê Olímpico Internacional mudou o sistema depois, obrigando os comitês olímpicos nacionais a estarem na linha de frente das candidaturas. Naquela ocasião, o COB meramente emprestou o nome e deu apoio. Não acreditava na vitória naquela época.

E agora, acredita na vitória do Rio?
Apesar de ser a candidatura mais difícil de todas, porque as cidades envolvidas são as principais do mundo, o Rio, como São Paulo também faria se fosse escolhida, parte de um processo mais pé no chão. Temos um dossiê feito em nível internacional e as garantias políticas e financeiras dos governos federal, estadual e municipal.

Na condição de carioca, como manteve a imparcialidade na escolha do COB entre Rio e São Paulo?
Segui o que o COI exige como termos de candidatura. Foi instituída a comissão de avaliação, o colégio eleitoral, e eu me abstive de votar. Também não participei das visitas e nem das reuniões da comissão, que era formada quase que só por pessoas de fora do Rio e de São Paulo. A partir do momento que me coloquei dessa maneira, fiquei à vontade para dirigir o processo.

Torceu pelo Rio?
Não. Torci pela decisão que melhor repercutiria internacionalmente. Nessa disputa o Rio teve a vantagem de ter sido escolhida para sediar o Pan de 2007, porque, graças a isso, a cidade já tinha um dossiê aprovado pela Organização Desportiva Panamericana (Odepa). Lógico que o orçamento de um Pan é de US$ 225 milhões e, numa Olimpíada, falamos em alguns bilhões de dólares, mas a vitória no Pan 2007 não deixou de ajudar.

Acha que a violência na cidade pode atrapalhar a candidatura?
Existe essa questão, só que aqui você sabe quem é o inimigo. Quando há terrorismo não se sabe, e isso não passa pelo Rio. Se a violência é um problema para nossa candidatura, o terrorismo é um problema muito maior para nossas principais adversárias, e não é só Nova York. A Inglaterra e a França também convivem com isso, a Rússia, enfim, todas as cidades têm problemas ou de segurança, como nós, ou de terrorismo. É inevitável, só que aqui temos como identificar o inimigo e combatê-lo.

Como seria esse combate?
A linha do COI é que o projeto de segurança de uma cidade olímpica apresente um comando único nessa área, que deve ser exercido por um general, até por questão hierárquica. Todas as polícias e, se preciso, as Forças Armadas, devem estar subordinadas a esse general, que trabalharia em conjunto com uma assessoria de segurança internacional.


A poluição de lugares como a Baía de Guanabara, onde seriam as provas de iatismo, preocupa?
É uma questão importante e não poderá ser apresentada da forma que está. O meio ambiente hoje é um dos pilares no movimento olímpico. Tem de haver uma apresentação de solução, sim. Dou o exemplo de Pequim, que tem um nível de poluição maior que o Rio e, para sediar a Olimpíada de 2008 está executando um trabalho magnífico.


Pensa em usar estrelas do esporte, como Ronaldinho, na campanha?
É importante porque são pessoas com repercussão internacional e que trazem o apoio da população, porque você tem de apresentar ao COI índices de pesquisas mostrando que a população da cidade apoia os jogos. Mas essas estrelas não influem na votação. O próprio presidente do COI (o belga Jacques Rogge) ironizou o estardalhaço que Londres fez com o David Beckham, dizendo que seria uma honra ter o jogador e a mulher dele (a ex-spice girl Victoria Beckham) na campanha, mas que isso não renderia votos aos ingleses. Mas penso em usar essas estrelas, inclusive o Ronaldinho. Seria interessante, porque ele é carioca e trabalha em Madri, outra cidade candidata. Aliás, é engraçada a situação do Real Madri, um time que tem representantes da Inglaterra (Beckham), França (Zidane) e Brasil nessa disputa.


Trazer uma Olimpíada ao Brasil seria o ápice de sua carreira?
É um grande desafio e um desejo de retribuir ao Brasil e ao esporte o que fizeram por mim. Perdi minha mãe (Esther Nuzman) com 10 anos de idade e foi o esporte que me levantou. Aprendi muita coisa fora de casa, praticando esporte, porque não tinha quem me ensinasse. O esporte foi a alavanca que me ajudou a passar por grandes encruzilhadas, aqueles momentos em que você escolhe o caminho do bem ou do mal. Naquele momento em que estava fragilizado, com 10 anos, meu pai e meus avós me levaram para o esporte. Fui nadar e jogar tênis no Fluminense, depois é que o vôlei entrou na minha vida.


Como foi a morte de sua mãe?
Ela morreu queimada, dentro de casa, num acidente com o aquecedor do banheiro. Riscou um fósforo que caiu num vidro de álcool que estava aberto. Uma fatalidade. Ficou o trauma. Só comecei a falar sobre isso depois de disputar o mundial de vôlei de 1962, pela Seleção Brasileira. Aliás, não assisti ao casamento de minha única irmã (Elisa, falecida em 1993, de câncer) para viajar com a seleção. Daquela fragilidade inicial passei a ter a personalidade de saber o que representava ir a um mundial. Isso foi o esporte que me deu, e sei que ele pode dar aos outros, até para melhorar a questão social do Brasil.


O senhor também passou por outra tragédia familiar, com a morte de sua primeira mulher, Patrícia...
Prefiro não falar sobre isso, até pelas circunstâncias. (Patrícia morreu em 1996 ao cair de um prédio, na zona sul carioca.)


Que experiências guarda da época em que jogava vôlei?
Joguei até os 30 anos e participei dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964. Ficamos em sétimo entre 10 equipes. Era tudo diferente. Os uniformes eram os mesmos de uma competição para outra, cada um comprava seu tênis e levava a própria bolsa com material para os treinos. Me lembro que saímos de Paris, onde jogamos uma partida e fizemos quatro escalas até Tóquio. Na última delas, no Camboja, permanecemos horas dentro do avião por causa da guerra do Vietnã. No Japão, ficamos em casas que tinham sido construídas para os soldados americanos que lutaram na guerra da Coréia (entre 1950 e 1953).


Foi sua única Olimpíada?
Foi. Em 1968 fui convocado para os jogos do México, mas trabalhava como advogado no escritório do meu pai (o advogado Izaac Nuzman, falecido em 1988), que não me deu colher de chá. Naquela época tinha esse problema ainda. Jogador de vôlei tinha de trabalhar fora do esporte para se sustentar. Mas como já tinha disputado uma Olimpíada, já tinha entrado no grupo dos atletas olímpicos, e o Brasil não ia brigar por medalha mesmo, não me chateei tanto.


É verdade que tentou ser técnico de vôlei?
Tentei, mas não tive paciência. Fiquei dois meses treinando o time da Hebraica, no Rio, mas achava que a garotada não aprendia tão rápido quanto eu achava que devia. A paciência que não tinha como técnico fui ter quando me tornei dirigente.

Como assim?
O marco de minha experiência política foram os conselhos do presidente João Havelange (ex-presidente da Fifa) depois que perdi a eleição para o COB em 1979. Ele me disse, quando voltávamos da Olimpíada de Moscou (1980), que no esporte a gente tem de aprender a ter paciência. Essa lição aprendi bem. Costumo dizer que a derrota em 1979 virou vitória, porque pude fazer meu trabalho no vôlei, vendo o esporte ser campeão olímpico e mundial de várias gerações. Presidi o Conselho Mundial de Vôlei de Praia e introduzi o esporte
nos jogos olímpicos, vendo o Brasil ser campeão em 1996 (medalha de ouro da dupla Sandra e Jaqueline). Depois disso tudo é que vim a presidir o COB.


Como concilia a vida profissional, com tantas viagens, com a vida privada?
A Márcia me ajuda muito. É extremamente compreensiva, amiga, me apóia como eu a apóio no trabalho dela no jornal e na televisão. Quando ela pode, acompanha nas viagens. É uma relação madura, adulta e de muito amor. Nosso entendimento é muito grande, acho até que somos um exemplo.


Como vocês se conheceram?
Tinha ficado viúvo e a Márcia tinha se separado. Nos conhecíamos socialmente e de entrevistas que ela já tinha feito comigo, apesar de ela dizer que nas entrevistas eu não dizia tudo. Convidei-a para sair depois de um almoço na casa de amigos em comum e desse dia em diante ficamos juntos, e vamos estar juntos até morrer. Que demore muito.


Alguma entrevista feita por ela com você foi mais marcante?
Fiz uma, antes dos jogos de Atlanta, que ela não deve ter gostado porque não respondi quase nada. Eram aquelas perguntas sobre chance de medalhas e nunca falei sobre isso, para não prestigiar um esporte em detrimento de outros. Depois, revendo a entrevista, a Márcia reconheceu que tinha perdido o tempo dela.

domingo, 7 de agosto de 2016

PITANGUY

Anteontem, numa cadeira de rodas, ele carregou a tocha olímpica. Ontem, morreu em casa, à tarde, aos 93 anos, de parada cardíaca. A entrevista abaixo foi feita na clínica dele, em Botafogo. A foto dele é do Leandro Pimentel.

Revista Istoé Gente, edição 113, de primeiro de outubro de 2001

"Tudo muito iluminado, e no meio dessa confusão toda me veio um pensamento que dizia mais ou menos assim: 'esteja preparado para morrer hoje, mas se possível procure viver uma eternidade'. O interessante é que não houve angústia. Senti que o difícil é viver. Morrer não é tão complicado".


O que um profissional pode esperar da vida aos 75 anos, depois de conquistar o reconhecimento internacional, de formar 500 discípulos na escola que criou há 40 anos e de ter seu nome citado como referência no mundo quando o assunto é sua especialidade? O único desejo do cirurgião plástico Ivo Pitanguy é fazer o que sempre fez. Seja mantendo a beleza de mulheres e mitos como Sophia Loren, salvando vidas como a do piloto Niki Lauda ou operando de graça pacientes sem recursos da 38ª Enfermaria da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro. Três meses depois de sofrer complicações na cirurgia para a retirada de um aneurisma no abdômen, o cirurgião que já foi enredo da escola de samba carioca Caprichosos de Pilares, em 1999, retomou seu cotidiano.
O mineiro de Belo Horizonte e membro da Academia Brasileira de Letras é casado há 40 anos com Marilu, pai de quatro filhos e cinco vezes avô. Nas horas vagas, se divide entre sua ilha em Angra dos Reis, onde mantém uma reserva com cerca de 400 espécies da Mata Atlântica, e a casa de Itaipava, na Região Serrana do Rio. Apesar de recusar o rótulo de bon vivant, o cirurgião que trabalha 10 horas por dia na sua clínica em Botafogo, zona sul carioca, onde recebeu Gente, reconhece que sabe curtir a vida. “Aproveito a vida porque tenho sorte de fazer o que gosto”, diz ele, considerado na França uma das personalidades do século, ao lado de Freud e Einstein no Livro do Milênio, lançado em junho.

Qual o segredo de chegar aos 75 anos com o mesmo vigor para o trabalho?


Criei minha clínica e a Santa Casa, e sinto satisfação de ter formado uma equipe que me permite trabalhar com prazer. Tenho ainda a satisfação de ter criado uma parte dela com atendimento para a população mais carente. O ser humano é o mesmo, independente da condição social. Diante do médico, qualquer um tem a mesma postura, está precisando de alguém. E o médico diante do outro sente que seu trabalho é mais uma questão de meios do que de fins. Se fôssemos de fins seríamos deuses. Mas, sendo de meios, podemos apenas completar o trabalho do criador. Temos sempre um aprendizado de nossa humildade.

Como manter a humildade sendo uma das personalidades do século, ao lado de Freud e Einstein no Livro do Milênio, lançado em junho na França sobre as pessoas que mudaram o mundo?
Sou uma pessoa como as outras. No momento que eu não me considerar, realmente não estarei sendo humilde. Mas o fato de me considerar igual não impede que eu valorize aquilo que faço. Não que eu faça melhor que outro, mas procuro fazer o melhor que posso em relação à minha pessoa.

Qual a sensação de retocar um rosto como o de Sophia Loren?
Todo paciente que opero, cumpro meu objetivo, que é o de torná-lo feliz, não importa quem seja.

Há febre para se aumentar os seios. O silicone é modismo?

Há o senso comum de uma cultura que valoriza os seios mais volumosos como padrão de beleza. Não tenho nada contra, mas é preciso ter cuidado com o exagero. Se uma paciente me procurar querendo seios maiores do que os que eu ache compatíveis com sua estética, não serei eu o cirurgião que fará essa cirurgia.

O senhor faz muitos implantes de silicone?

Fazemos todos os procedimentos da cirurgia plástica na clínica, e os implantes de silicone estão incluídos nesses procedimentos.

O silicone tem riscos?

Dos materiais que costumam ser colocados no corpo humano, o silicone é o mais tolerável. Não há problemas com as próteses para tornar os seios proporcionais ao corpo da mulher. A única coisa que não é interessante, e eu fui um dos primeiros a alertar sobre isso, é utilizar o silicone injetável. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica condena esse procedimento, que ainda é usado por pessoas que não são cirurgiões. Quando se injeta o silicone para corrigir rugas ou aumentar as mamas, o material pode parar em outros lugares do corpo. Esse é o perigo.

O que acha do crescimento do culto ao corpo no Brasil?

Isso aumentou no mundo todo, mas tem fatores geográficos nesse culto. No Brasil, a pessoa está exposta ao sol. O corpo deve ser visto. Faz parte da cultura. Mas existe o fato de a mídia utilizar a juventude em excesso para vender. Não há nada mais belo que a juventude, mas acho que essa utilização é um pouco pecaminosa, porque os jovens de hoje não são iguais aos velhos de amanhã. Não podemos deixar de cultuar o belo, mas o fato é que hoje existe um exagero.

Qual o papel do cirurgião plástico nessa questão?

Ele não pode jamais ir pelo modismo. Tem que ir pelo próprio julgamento, porque a moda passa e a cirurgia fica.

É comum pessoas com problemas aparentemente insignificantes?

Pelo menos de 5% a 10% dos pacientes têm algum problema além do orgânico. Há pessoas que nos procuram que estão muito bem, mas que não se vêem bem. Você pode sentar diante de mim e transportar um outro problema, que vem do fundo da sua parte orgânica, modificada pelo comportamento psíquico. Aquilo o influencia de tal maneira que você acha que a correção de uma dobrinha qualquer, que para mim é inexistente mas para você é real, seria a solução.

O que fazer nesses casos?

Cabe ao médico não fazer certas cirurgias, porque ele não vai conseguir o resultado que o outro espera. Digo, então, que na verdade o suposto defeito dele não me parece tão mau e aconselho que ele procure uma outra opinião, de outra área mais psíquica.

Já operou alguém que não precisava da cirurgia?
Às vezes cometemos enganos. Agora, alguém pode entrar no meu consultório com um nariz enorme que não digo uma palavra. Quero que diga porque veio. O ser humano tem o direito de tolerar e conviver com suas deformidades, não é obrigado a corrigi-las. Mas quando a correção é possível é extraordinário, porque ela reintegra o indivíduo ao seu meio. O conceito de saúde hoje passa muito pelo bem-estar da mente. O cirurgião hoje é como um psicólogo com um bisturi na mão.

Sua cirurgia para a retirada de um aneurisma no abdômen teve problemas. Teve medo de morrer?

Descobri o aneurisma numa ressonância magnética que fiz após um tombo na Suíça, quando estava esquiando. Desci junto com uma nuvem e fiquei sem ver nada. Aí, sim, tive medo de morrer. Não vi um monte de neve e tive uma queda violenta. Fui muito bem operado pelo doutor Adib Jatene. O problema é que, com a queda, tive uma pequena hérnia que rompeu um pouco o músculo. Ele não resistiu e rompeu os pontos. Tive de operar de urgência no Rio, em condições mais precárias, mas correu tudo bem. Já até voltei a mergulhar.


Foi mergulhando, aliás, que o senhor esteve perto da morte...
Isso foi na década de 70, na África do Sul. Desci com um guia para procurar um navio que estava afundado no Cabo da Boa Esperança, no encontro dos oceanos Índico e Atlântico. Encontramos o navio e, quando fui pegar um torso de madeira de uma mulher, fiquei preso nas ferragens e perdi o respirador. Não sei quanto tempo se passou até o guia me achar, mas vi um caleidoscópio com várias coisas da minha vida. Tudo muito iluminado, e no meio dessa confusão toda me veio um pensamento que dizia mais ou menos assim: “Esteja preparado para morrer hoje, mas se possível procure viver uma eternidade”. O interessante é que não houve angústia. Senti que o difícil é viver. Morrer não é tão complicado.


Depois da cirurgia, mantém o mesmo ritmo de trabalho?
Na minha vida, já operei a população de uma cidade pequena, algo em torno de 60 mil, 70 mil pessoas. Depois da cirurgia continuei operando muito. Não tenho idéia de números, mas meu ritmo de trabalho é quase o mesmo. Hoje montei uma equipe que me dá condições de trabalhar com menos desgaste, principalmente nas cirurgias longas.

Como é a sua rotina?
Acordo às 7h, caminho com meus quatro cachorros, faço ginástica, nado e vou trabalhar entre 8 e meia e 9 horas. Quando não vou à Santa Casa, fico na clínica até umas 19 ou 20 horas. Inclusive sou o personal trainer do meu segurança. Ele um dia me disse que emagreceu 10 quilos me acompanhando. Minha paixão pelos esportes começou na infância, em Belo Horizonte. Comecei com a natação, passei pelo vôlei e depois para o tênis, minha maior paixão.

Considera-se um bon vivant?
O bon vivant aproveita tanto a vida que faz disso a sua arte. Nesse caso eu seria o anti-bon vivant, porque trabalho excessivamente. Por outro lado, do que eu faço no meu trabalho, eu gosto. O que tiro muito é o fim de semana e também as viagens que faço a trabalho. Se dou uma conferência em Florença, por exemplo, posso aprender um pouco mais sobre a cidade.

O senhor se submeteria a uma cirurgia plástica?


Sim, mas não tive tempo ainda.