segunda-feira, 12 de maio de 2008

HONÓRIO, O GURGEL – O TÚNEL

O motor trabalhava redondo e a pista, àquela hora, estava quase vazia. Ao lado, o co-piloto vinha tranqüilo, ele que às vezes simulava enfartes, sempre que o teto-solar resolvia abrir sozinho, com o vento, ocasião em que o choque da escotilha quadrada com a capota do Gurgel provocava certo estrondo.

Nas reduzidas, nada daquelas explosões de fusca, ou kombi. O carro parecia num de seus melhores dias e assim adentramos no Túnel Santa Bárbara, em velocidade contínua, rodando macio. Lá dentro, na pista da esquerda, pé embaixo, o capô resolveu abrir. Veio de uma vez só, plaf, e colou no pára-brisa, deixando à mostra somente uns quatro centímetros de vidro transparente de cada lado.

O co-piloto dessa vez não simulou ataques do coração. Botou a cabeça pra fora da janela e me ajudou a passar pra pista da direita. Túnel vazio, retrovisor não bloqueado por uma chapa cinza quase do tamanho do pára-brisa, até que o procedimento foi relativamente tranqüilo. Aí foi só me guiar pelos quatro centímetros de vidro do meu lado e seguir as orientações do co-piloto pelo lado do carona até chegar ao fim do túnel, que por sorte é em linha reta.

Uma parada estratégica, na administração do Santa Bárbara, um barbante gentilmente cedido por funcionário de lá, amarra-se daqui, prende-se dali e pronto. Seguimos viagem, com o motor trabalhando redondo, o carro rodando macio, sem explosões nas reduzidas, o teto-solar firme e o capô a dar suas batidinhas de vez em quando, curtas, breves, limitadas por alguns nós bem dados.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

ROMÁRIO

Quando se tinha treze anos, ainda mais em 1985, poucos programas eram mais atraentes do que passar a tarde de sábado na casa do amigo que tinha alugado duas máquinas de fliperama. A não ser que, já na casa do amigo, no meio da segunda corrida de auto-pista – entre uma batida na traseira de um retardatário e algumas derrapadas no gelo –, aparecesse o primo mais velho dele, com duas cadeiras cativas do Maracanã, e perguntasse quem queria ver Vasco e Bangu.

Poucos minutos depois, mãe devidamente avisada pelo telefone, estávamos no vagão do metrô, eu e o primo do amigo, o magnânimo Guimba, rumo à linha dois.

O Bangu era time grande. Disputou até final do Brasileiro naquele ano e tinha no elenco, além de Mococa e Gilson Gênio, um sujeito chamado Mauro Galvão, que viria a gritar Casaca embaixo da Libertadores, no centenário. O Vasco não ganhava deles há três anos e nada mudou depois daquele 1 a 1. Tomamos 1 a 0 no início do segundo tempo, Vítor contra, se não me falha a memória, e empatamos uns quinze minutos depois, num gol que talvez seja o mais repetido na história do futebol mundial.

Roberto Dinamite, nosso artilheiro maior, veterano, cabelo branco, enfia com açúcar da meia-lua pra dentro da área, lado direito da defesa, e um garoto recém saído dos juniores, que despontava como artilheiro da Taça Guanabara na quarta ou quinta rodada, surge em diagonal da esquerda e... Bem, aí o goleiro sai, o cara toca de bico, de direita, a bola morre no canto, meio devagar, suave, aquela coisa toda que já virou banalidade há algum tempo.

Só no ano passado, quando o Romário estava para fazer o milésimo, é que percebi, examinando a listagem dos gols, que aquele contra o Bangu tinha sido o primeiro dele no Maracanã como profissional. E como sou dado a atitudes nada racionais quando o assunto é futebol, e estava satisfeito com o fato de vê-lo com a camisa do meu time de novo, no fim da linha, resolvi que teria de assistir também, in loco, o último gol dele no Maraca. Não porque o cara surgiu para o futebol na Colina Histórica, nem porque ele, além da Copa de 94, foi fundamental na conquista de outro tetra, esse restrito aos torcedores de um determinado time, que vem a ser também o primeiro campeão continental do planeta.

Depois de Pelé, Romário foi o único jogador que realmente transcendeu quaisquer paixões clubísticas. Dentro de campo, foi unanimidade, motivo de clamor popular pelo menos até os 36 anos de idade, como mostra a matéria lá embaixo. Ninguém implicou com seu peso, ninguém jamais colocou em dúvida sua capacidade em jogos decisivos, ninguém o chamou de foca de circo e, principalmente, ninguém tem guardada na memória uma falha capital dele que tenha decidido campeonato ou eliminação em Copa do Mundo. E mesmo quando começou a ser criticado não apenas por seu comportamento fora das quatro linhas, dos 37 em diante, o cara ainda calou a boca de muita gente.

Foi artilheiro do Campeonato Brasileiro aos 39 anos (depois de ter sido aos 35) e na busca pelo milésimo, aos 41, fez 13 gols em 13 jogos até chegar ao objetivo maior. E fez tudo isso com a camisa do Vasco, graças a Deus. Romário já reconheceu algumas vezes que São Januário é sua casa no futebol, beija a mão de Pai Santana e é chamado de filho pelo roupeiro Severino. Também cansou de enaltecer a tradição e a força da camisa vascaína em entrevistas antes e depois de jogos, mas jamais declarou amor à Cruz de Malta. Flertou com os inimigos algumas vezes – em passagens sem títulos significativos pelo carcomido gramado da Gávea e pelo extinto estádio das Laranjeiras – e de vez em quando, instado por perguntas capciosas de uma mídia parcial, enaltece a torcida de determinado time, tida como a maior do Brasil, só pra manter a popularidade em alta. Mas sempre afirmou torcer pelo América. Jogada de mestre. Com isso angariou a simpatia de uma cidade inteira e de todo o país, apesar de alguns jornalistas de determinado estado acharem, até 1994, que Müller era melhor que ele, assim como pleiteavam a entrada de Zetti no lugar de Taffarel. Opiniões bastante estranhas, que só o bairrismo exacerbado pode explicar.

Roberto era chamado de velho e botinudo (vejam que absurdo) por torcedores rivais. Zico era bichado. E amarelão, claro. Edmundo às vezes ouve o coro nada agradável de as-sas-si-no e Renato Gaúcho cansou de ser brindado com ofensas colocando em dúvida sua propalada masculinidade. Romário, que eu me lembre, jamais ouviu coros dessa natureza.

Iludidos pela competência marqueteira do cara, os flamenguistas realmente acreditam que ele é rubro-negro, e não o vaiaram nem quando tomaram de cinco do maior rival, com três gols dele, o que já aconteceu duas vezes, uma delas numa final. O cara até deve ter sido xingado num jogo ou outro, mas nunca com aquela vontade de chicotear alguém, que de vez em quando pinta na arquibancada do Maraca. As torcidas o respeitavam, todas o tratavam com deferência. Todas, menos uma.

Romário virou unanimidade mundial em 1994, depois de despontar na Europa pelo PSV da Holanda e ser contratado pelo Barcelona. Antes disso, passou oito anos em São Januário, dos 14 aos 22. A torcida vascaína o conhece desde moleque. Na decisão de juniores de 84, ele meteu três em dois jogos contra o Flamengo e o Vasco foi campeão. No ano seguinte, entrou nos profissionais para só sair em 88, bicampeão carioca, em duas finais contra o Flamengo.

Nesse tempo foi tratado primeiro como promessa, depois como artilheiro dos mais competentes, mas nunca como intocável.Chegou a ser sacado do time no intervalo de uma final de campeonato, numa das maiores burrices da história do futebol. E quando voltou ao Brasil para defender as cores de Exu, foi tratado como deveria, mesmo que com a camisa rubro-negra tenha amargado dois vices no ano do centenário do clube, quando eles não ganharam nada (ou melhor, ganharam uma Taça Guanabara).

A torcida do Vasco, então, passou a ser a única que de vez em quando o xingava com aquela vontade de dar uns tapas. O coro “Ei! Romário! Vai tomar no ...” foi entoado algumas vezes em arquibancadas cruzmaltinas, inclusive quando ele vestia a camisa bicampeã sul-americana. Discordo disso, mas torcedor sabe como é, né? Geralmente não raciocina muito.

Romário é ele e mais ninguém. Pensa nele antes de tudo e escolhe suas declarações de acordo com seu interesse. Dentro do campo, foi o maior jogador de futebol brasileiro que a geração nascida de 68 pra cá viu atuar. Superou Pelé em número de gols marcados em jogos oficiais, o que o torna, oficialmente, o maior artilheiro de todos os tempos. E se Pelé virou Deus nos gramados e comete tantas estultices fora dele, porque Romário seria diferente?

Por isso não xingo o cara nem me importo muito com o que ele fala. Fico com os atos, no caso o que ele fez dentro do gramado com a camisa dos times em que atuou. Com a camisa do meu time, Romário conquistou um campeonato brasileiro, dois estaduais, três Taças Guanabara e duas Taças Rio. Foi também artilheiro em quase todas as competições e, pra arrematar, fez três gols na maior virada da história do futebol, na decisão da Mercosul de 2000.

Por tudo isso, vinte e dois anos depois daquele jogo contra o Bangu, tava lá no Maraca quando ele fez seu último gol no estádio, contra o Flamengo, num jogo em que a torcida adversária saiu celebrando seu goleiro após a derrota por 3 a 0. Fui também a São Januário, uns setenta dias depois, para testemunhar das sociais o último gol da carreira do cara.

Ele já tinha feito um, de pênalti, e o Vasco ganhava do Grêmio por 2 a 0. No finzinho do primeiro tempo, o meio-campo vascaíno puxa um contra-ataque e de pé em pé a bola sobra para Romário, desmarcado na marca do pênalti e de costas para o gol. Ele domina, gira o corpo e toca rasteiro, suave, na saída do goleiro Galato. Durante essa jogada, antes de a bola chegar aos pés de Romário, parte dos refletores de São Januário se apagou.

A matéria abaixo foi assinada também pelo Eduardo Minc, que apurou muita coisa. O Romário não quis dar entrevista na época. Tivemos de dar nosso jeito pra conseguir as aspas dele

Revista Istoé Gente, edição 145, de 13 de maio de 2002


“Já passou, vida que segue. Não tá nada perdido. Meu nome já tá na pedra.”
(Foto: Marcelo Theobald)

Na segunda-feira 6, o atacante Romário, 36 anos, acordou cedo na casa da mãe, Lita, em São Conrado, no Rio. Foi à praia, voltou meio-dia e dormiu um pouco mais. Antes de retornar ao quarto, tomou uma xícara de café e, reparando na ansiedade dela, disse: “Mãe, não fica muito entusiasmada que é certo que eu não vou estar nessa lista”. Duas horas depois, o anúncio dos 23 convocados pelo técnico Luís Felipe Scolari para disputar a Copa do Mundo confirmou a previsão do artilheiro vascaíno. Apesar do clamor popular que fez com que até o presidente Fernando Henrique Cardoso pedisse sua convocação, o segundo maior goleador da história do futebol mundial, atrás apenas de Pelé, ficou de fora da seleção brasileira.
Autor de 835 gols na carreira e campeão da Copa de 1994, quando foi considerado o melhor jogador do mundo, Romário deixou a casa da mãe e foi visitar o pai, Edevair, que ouviu do filho: “É, pai, não tem jeito, o homem (Felipão) tem bronca de mim”. À noite, foi à pelada no Clube Caça e Pesca, na Barra da Tijuca. O jogo, que começou às 21h e durou 40 minutos, terminou 7 a 6 para o time de Romário, que fez dois gols. Depois, passou na churrascaria Pampa Grill, também na Barra. Lá foi aplaudido ao chegar, jantou e ficou até meia-noite e meia. O atacante estava triste, mas tranqüilo. Na mesa com amigos como o fisioterapeuta Fernando Lima, o Zé Colméia, ele disse: “Não importa se estou fora dessa seleção do Felipão. O importante é que estou na seleção do povo”.
Calado, apenas concordou com a cabeça quando os amigos disseram que o erro foi terem dado todo o poder a uma pessoa só, referindo-se a Scolari. “Ele disse que não tem nada contra o Felipão e não entendia porque não era convocado, só queria fazer gols com a camisa da Seleção”, contou o economista Hélio Calvano, 54 anos, que estava na churrascaria.
A tristeza de Romário afetou os filhos. Para Moniquinha, 12, e Romarinho, 8, o clima é de velório. “ A Moniquinha falou com o pai na noite de segunda-feira, pelo telefone, e chorou depois que desligou. Ela só conseguia perguntar por que ele não tinha sido convocado”, contou Mônica Santoro, 31 anos, ex-mulher de Romário. Romarinho ficou calado quando soube. Mas depois mostrou que isso não abalou sua convicção. “Não tem importância. Meu pai ainda é o melhor do mundo”, disse à mãe.
Artilheiro e campeão por todos os clubes que passou – desde o início no Vasco, passando por PSV da Holanda, Barcelona, Flamengo e a volta ao clube que o projetou –, o goleador coleciona polêmicas. Na Copa de 1994 nos Estados Unidos, teve um caso com a modelo Andréia Oliveira, que detonou sua separação da primeira mulher, Mônica. Casado hoje com Danielle Favato, mãe da filha Danielinha, vive sob rumores de nova separação, nunca confirmada.
Oficialmente mora com a mulher na cobertura do condomínio Varandas da Barra. É um dos bens de seu patrimônio. Ele tem dois apartamentos no condomínio Golden Green, onde um imóvel vale até R$ 2 milhões, e um apartamento em frente à praia da Barra, em que mora a ex-mulher. Possui ainda um prédio de quatro andares na Vila da Penha. Dono de um Porsche vermelho, uma caminhonete Mercedes e um Audi A4, Romário emprestou R$ 9 milhões ao Vasco para cobrir dívidas. E o valor do contrato com a Coca-Cola é guardado a sete chaves.
A ausência na Copa não é a primeira decepção. Em 1996, ficou fora do time de Zagalo para as Olimpíadas de Atlanta. Dois anos depois, foi cortado, por contusão, dias antes da estréia na Copa da França. A última frustração foi em 2000, quando Vanderlei Luxemburgo não o chamou para as Olimpíadas de Sydney. Dessa vez, Felipão admitiu que deixou de chamar Romário não só por questões táticas. Segundo o técnico, contribuiu o fato de o atacante ter disputado amistosos do Vasco no México. Na época disse que faria uma cirurgia no olho para ser dispensado da seleção que jogaria a Copa América na Colômbia, em julho de 2001. "Romário não foi à Copa América porque o próprio Felipão o dispensou”, desmente o presidente do Vasco, Eurico Miranda.
Outro motivo para a decisão do técnico da Seleção teria sido uma indisciplina do artilheiro em Montevidéu, quando a seleção estava concentrada para o jogo contra o Uruguai pelas eliminatórias. Segundo um empresário ligado a Felipão, o treinador perdeu a confiança em Romário porque o craque, mesmo sem sair do hotel onde a seleção se hospedara, teria passado a noite com uma aeromoça na antevéspera do jogo, realizado no dia 1º de julho. A tripulação do avião que levou o time se hospedou no mesmo hotel. Na véspera da partida, Romário foi o único ausente da entrevista coletiva concedida pelos jogadores.
Amigos de Felipão, como o presidente de honra do Grêmio de Porto Alegre, Fábio Koff, acham que o craque não vai à Copa por opção tática. “O futebol do Felipe é coletivo, e o Romário não se ajusta a isso”, disse o cartola, que sempre almoça com o treinador. “Ele só me pedia para não falar do Romário nos almoços.” Mas não faltou quem tentasse mudar a opinião de Scolari. Um empresário ligado a Ricardo Teixeira garante que o presidente da CBF sugeriu que o craque fosse à Coréia ao
menos como reserva “para atender ao apelo popular”. Já Eurico Miranda tem certeza de que Antônio Lopes – técnico que lançou Romário como profissional do Vasco, em 1985, e hoje é coordenador da seleção – é a favor da convocação. “Não digo as sugestões que dei porque isso é uma questão interna. Fico com a decisão da comissão técnica”, disse Lopes. Romário já disse a amigos que agora só quer buscar o milésimo gol. A quem não conseguia controlar a revolta, como o empresário e amigo Luizinho Moraes, o craque deu seu recado. “Já passou, vida que segue. Não tá nada perdido. Meu nome já tá na pedra.”

terça-feira, 15 de abril de 2008

COMUNICADO À MULTIDÃO DE LEITORES

Brasileiros e brasileiras,

Hoje o Relatos completa um ano. E para comemorar essa data tão importante, motivo de júbilo e celebração nos quatro cantos do planeta, a equipe do blog, num esforço hercúleo de reportagem, resolveu presentear vocês, nossos infinitos leitores, com um novo visual, só tornado possível graças a uma inovação tecnológica das mais modernas.

Fotos. Isso mesmo, o Relatos agora passa a exibir fotos. Graças ao sábio conselho de Gustavo de Almeida e à inestimável contribuição de Marlos Mendes, resolvi tomar vergonha na cara e aprender como se publica imagens nesse troço. E não é que é fácil? Gostei tanto que decidi ilustrar o blog todo, desde o primeiro texto. O resultado vocês conferem aí embaixo. Um Relatos mais leve, jovial, com fotos que, reparem bem, combinam direitinho com o texto. Coisa de louco.

Curtam, caros leitores, deleitem-se, apreciem o novo layout dos textos antigos, agora cheios de fotografias legais. Enquanto isso eu vou ali e só devo voltar em maio, ou junho. Não levem a mal, mas tive de reler esta josta de cabo a rabo pra botar as fotos. Preciso de um descanso. Mas quando voltar prometo tentar atualizar o blog pelo menos quinzenalmente, se é que alguém perguntou alguma coisa. Na verdade, até pensei em escrever algo hoje sobre o Romário, mas como ele só anunciou o fim da carreira ontem, é melhor esperar uns dias, pra não pagar o mesmo mico que certos figurões da imprensa "especializada". Então darei um tempo aqui, e deixarei com vocês esse belo blog ilustrado. Divirtam-se.

P.S. Também aprendi a fazer links. Agora tenho domínio total da máquina. Não sei onde vou parar. Quer dizer, sei sim. Não publicarei vídeos. O blog aqui é mídia impressa.

E como a novidade da vez são as imagens, abaixo vai a matéria sobre o inusitado que talvez, quem sabe, poderia ser previsto, o acaso que faz parte da profissão e que, nesse caso, fez a equipe de reportagem sair pra fazer a simulação e voltar com a realidade, mas tudo com uma foto bem sem graça, pra que o leitor desça logo e confira todas as ilustrações dos textos antigos.

Jornal do Brasil, edição de quinta-feira, 16 de janeiro de 1997


Em vez de resgatar o casal de atores que participaria da simulação, a equipe teve de socorrer, às pressas, o motorista de um dos carros; ele feriu o rosto por estar sem cinto de segurança.

O que seria apenas um treinamento de resgate da Med-Rio, responsável pelo socorro médico na rodovia BR-040 (Rio-Juiz de Fora), acabou ganhando contornos dramáticos na manhã de ontem. Momentos antes de uma simulação de salvamento que marcaria o início de uma campanha de respeito às regras de trânsito, a imprudência de um motorista causou um acidente entre quatro carros, exatamente onde seria realizado o treinamento, no quilômetro 116 da estrada, em Duque de Caxias (Baixada Fluminense). Em vez de resgatar o casal de atores que participaria da simulação, a equipe teve de socorrer, às pressas, o motorista de um dos carros; ele feriu o rosto por estar sem cinto de segurança.
O acidente foi às 10h22, quando um Monza cinza reduziu a velocidade ao passar pela simulação, para ver o que estava acontecendo. Um Santana cinza (placa BIK 1818), um Chevette branco (LJN 5677) e um Gol cinza (KQL 1339) não conseguiram frear e houve o engavetamento. Cláudio Santos Lourenço, de 27 anos, que dirigia o Chevette e não usava o cinto, foi socorrido e levado para o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Rio. Ele foi submetido a uma cirurgia plástica no rosto.
Para o chefe da equipe da Med-Rio, César Fontes, o acidente de ontem é um exemplo do descaso com a segurança no trânsito. "Primeiro, um motorista reduz a velocidade repentinamente. Depois, outro se machuca porque não usava o cinto. É por isso que em oito meses na estrada, já socorremos quase 2 mil vítimas, em cerca de mil acidentes", disse. Treze funcionários da Med-Rio e seis homens da Polícia Rodoviária Federal participavam da simulação.

domingo, 13 de abril de 2008

NO TOPO DO MUNDO

Os pulmões já estavam relativamente habituados ao ar rarefeito do Lago Titicaca e resolvemos explorar a esmo, como quem não quer nada, a bela Ilha do Sol, situada em área patrulhada pela valente marinha boliviana. Éramos eu, o repórter do Estadão e a repórter da Folha, muito bonita por sinal, e andamos uns dez minutos da pousada ao povoado.

Só existe encosta na Ilha do Sol, então o povoado, de casas paupérrimas entre as vielas sempre em ladeira, a subir ou descer, tinha lá suas semelhanças com uma favela carioca. As diferenças, porém, eram bem maiores. A começar pela paisagem, muito mais bonita que a do Vidigal, por exemplo, e quem conhece a vista do alto do Vidigal pode até duvidar disso, mas sem razão, se bem que gosto não se discute.

O Vidigal tem uma vista linda mas é favela grande, em região metropolitana, e o povoado da Ilha do Sol é afastado até do principal posto da marinha da Bolívia, que por falta de mar no país só tem mesmo o Lago Titicaca para navegar. E naquele dia, sem ninguém nas ruas ou nas janelas, a não ser um tiozinho desolado numa venda às moscas, o povoado parecia ainda mais distante do resto do mundo.

Até que nos deparamos com o cemitério local (um terreno do tamanho de uma quadra poliesportiva, cercado por um muro de um metro e meio de altura) e entendemos melhor o vazio da “cidade”. Um grupo de sessenta pessoas, talvez a metade da população da ilha, participava de um sepultamento. Algumas estavam paramentadas com aquelas roupas típicas de peruano ou boliviano, poncho colorido, gorro ridículo, flauta de bambu etc etc etc.. E cantavam uns cânticos também, de vez em quando.

Imediatamente, nós três, infatigáveis na busca pela notícia, empunhamos nossas máquinas fotográficas, de longe, mas o suficiente para chamar a atenção de pelo menos um sujeito entre os que acompanhavam o enterro. O cara era um dos que estavam vestidos com roupas típicas, e partiu na nossa direção a fazer gestos com o braço erguido, para que saíssemos dali, e a gritar impropérios em língua de índio.

Achamos melhor seguir o sábio conselho daquele boliviano místico. Desistimos de fotografar a interessante expressão da cultura andina e, quando já estávamos a uma distância segura do cemitério maldito, ele apareceu. Tinha um metro e vinte de altura, se tanto, e antes que disséssemos qualquer coisa mandou direto, na lata:

Vocês querem conhecer o topo do mundo?

Ao perguntar isso, ergueu o indicador, ficou na ponta dos pés e acentuou a segunda sílaba do el-TÔ-po-del-mun-do. Falou em espanhol, claro, língua que na verdade é um estado de espírito, como costuma dizer o Nobre Guevarista. E foi um alívio escutar algo diferente vindo de uma criança da região, depois de alguns dias ouvindo somente a palavra “propina” da boca de menininhos muito fofinhos, que viviam fantasiados com poncho e gorro, às vezes até com filhotes de lhama no colo, e que cobravam para se deixarem fotografar pelos turistas, incentivados por pais certamente muito zelosos.

O garoto da Ilha do Sol não estava fantasiado. Vestia calça e camisa normais e um chapéu de pano, item obrigatório a três mil e oitocentos metros de altitude, o que só fui perceber quando meu nariz já estava bem mais vermelho do que o desejável. Ele também não pediu propina. Em vez disso, nos fez a tal oferta irrecusável.

Atrás do moleque de seis anos, partimos no trajeto até o ponto culminante da ilha, coisa pouca, nada a ver com a Cordilheira dos Andes. O ponto mais alto da Ilha do Sol é só um morro um pouco maior que os demais, chão de terra, sem neve. Pra subir foi tranqüilo, ainda mais aos vinte e sete anos. Paramos um pouco pra respirar durante a subida, umas duas ou três vezes, e chegamos ao topo sem maiores dramas, a não ser um ligeiro cansaço, óbvio.

E lá em cima, a poucos metros do garotinho sorridente, contemplei talvez a paisagem mais bonita que eu já vi. Descrever aqui, não dá. Só dá pra dizer que tinha o Lago Titicaca com água límpida, da cor da camisa da Itália de 82, tinha um céu liso, azul toda vida, e tinha a Cordilheira dos Andes, que em determinados pontos parecia pairar sobre umas nuvens rebaixadas, tipo um Olimpo do terceiro mundo. Num lugar daquele, acho que até Lênin pensaria em Deus.

Ficamos lá em cima por quase uma hora, até voltarmos atrás do pequeno boliviano, que, claro, queria alguma grana pelo serviço. Não tava ali à toa. Mas ao contrário de seus contemporâneos de Cusco e adjacências, o garoto da Ilha do Sol não nos abordou com o pedido imediato, e nem repetiu chorosamente a palavra “propina” dezenas de vezes sem parar. Ofereceu primeiro um serviço, no caso uma vista deslumbrante, inigualável, e depois foi pago.

Nos despedimos deixando com ele duas moedas de 1 Boliviano – o que na época deveria dar pra duas barras de chocolate, das grandes – e ainda conhecemos a irmã caçula dele, menina de uns quatro anos, também sorridente e também de chapéu.

E o moleque, que já tinha ganhado nossa simpatia de cara, só pelo contraste com o inca ameaçador do cemitério, subiu mais ainda no conceito quando, mal a irmã chegou ao lado dele, estendeu a ela uma das moedas. E a menininha saiu correndo, feliz, na direção da venda do tiozinho desolado.


Abaixo, o texto de abertura da matéria para o caderno Viagem, do JB. E a coordenada do Lago Titicaca:

Jornal do Brasil, edição de domingo, 16 de maio de 1999

Enquanto os astecas e maias se instalaram em regiões de vegetação plana do México e da América Central, os incas preferiram começar a viver às margens do Titicaca, na fronteira entre o Peru e a Bolívia. Com seus 8.300 quilômetros quadrados e situado a 3.810 metros de altitude, o Titicaca é o lago navegável mais alto do mundo. O ar rarefeito mantém a temperatura da água entre os 4 e 16 graus, o que impede o congelamento mesmo no inverno.

Mergulhar na cultura dos povos pré-colombianos sempre é uma viagem interessante, seja pelo aspecto histórico ou pelo esoterismo ligado a incas, astecas, maias, seus ancestrais e descendentes. Quando a tudo isso se une paisagens naturais deslumbrantes, a viagem se torna ainda mais irresistível. Nesse quesito, os maias e astecas que nos perdoem, mas os incas tiveram um bom gosto insuperável ao escolher os lugares onde viver.
Nada melhor para comprovar essa tese do que percorrer os centros arqueológicos do Peru e da Bolívia, passando por Cusco (a capital do Império Inca) e a badalada Machu Picchu, além das ilhas do Sol e da Lua, no lado boliviano do Lago Titicaca, considerado o berço da civilização que dominou a América do Sul durante 300 anos, até a chegada dos espanhóis.
Enquanto os astecas e maias se instalaram em regiões de vegetação plana do México e da América Central, os incas preferiram começar a viver às margens do Titicaca, na fronteira entre o Peru e a Bolívia. Com seus 8.300 quilômetros quadrados e situado a 3.810 metros de altitude, o Titicaca é o lago navegável mais alto do mundo. O ar rarefeito mantém a temperatura da água entre os 4 e 16 graus, o que impede o congelamento mesmo no inverno.
Não satisfeitos com a beleza do lago sagrado, os incas ocuparam ainda as regiões montanhosas do Peru. Em Cusco, a 3.399 metros de altitude, fundaram sua capital e, seguindo o fluxo do Rio Vilcanota – que serpenteia as montanhas da região até se transformar em Urubamba, para desaguar no Ucayuli, primeiro nome do nosso Amazonas –, chegaram ao local onde hoje se encontra Machu Picchu, a 2.350 metros de altitude. Complementando a paisagem deslumbrante, a Cordilheira dos Andes é o cenário de fundo perfeito, tanto na Bolívia quanto no Peru.
Para evitar problemas com a altitude, o mais aconselhável é que a ordem cronológica da criação do Império Inca seja deixada de lado, e que a viagem comece pelo Peru. Mesmo com seus quase 3.400 metros de altitude de altitude, Cusco é bem mais suportável do que La Paz, a capital e principal porta de entrada da Bolívia, cujo aeroporto (El Alto) fica a 4.100 metros acima do nível do mar. O modo mais fácil de iniciar a viagem é chegando de avião em La Paz. O melhor a fazer, porém, é seguir para Cusco no dia seguinte, também de avião, depois de uma noite regada a goles de chá de coca para diminuir a dor de cabeça, a tonteira e a falta de ar.
Ninguém precisa se assustar com o remédio usado contra a altitude. A única coisa em comum entre o chá e a cocaína é a polivalente folha de coca, que na Bolívia e no Peru é usada até para se ler a sorte, pelos bruxos locais. O chá de coca não é droga e, pelo menos na Bolívia, é quase tão presente quanto o nosso cafezinho.
Na chegada a Cusco, a tendência é que os efeitos da altitude não causem mais tanto mal-estar. Sem dor de cabeça e menos tonto, o turista pode aproveitar melhor os encantos da cidade que mistura a cultura inca com o estilo colonial de algumas de suas construções, erguidas pelos espanhóis. Perto dali, uma grande variedade de ruínas satisfaz os mais famintos por cultura e esoterismo.
Além de todo o valor histórico e cultural dos locais visitados, a paisagem é inesquecível. O trajeto que liga os centros arqueológicos passa por uma estrada à beira do Vale Sagrado dos Incas, o Ccorao. O cenário é composto por uma seqüência interminável de montanhas, inacreditavelmente verdes, que têm o Rio Urubamba a seus pés.
Na volta à Bolívia, o roteiro inclui passeios pelo Lago Titicaca, com direito a pernoite na Ilha do Sol, e uma passagem por Copacabana, uma minúscula cidade na margem do lago que se orgulha de ter dado origem ao nome do bairro da zona sul carioca.

O Lago. A altitude pode até atrapalhar um pouco, mas os encantos da parte boliviana do Lago Titicaca compensam qualquer mal-estar. Brindados com as ilhas do Sol e da Lua, os bolivianos souberam muito bem explorar turisticamente os 45% que lhes cabem do lago (os outros 55% pertencem ao Peru). Um bom exemplo disso é o Inca Utama Hotel, que montou uma estrutura incluindo museus, as inevitáveis lhamas e até personagens reais da história local.
A beleza do Titicaca – com a Cordilheira dos Andes ao fundo –, por si só já seria suficiente para satisfazer qualquer um. As belas paisagens, porém, podem ser esquecidas por alguns instantes, pelo menos para breves mergulhos na cultura e na história locais. O Museu do Altiplano, no Inca Utama, resume a história dos povos da região, desde os Tiwanakus, que começaram a viver em 1.580 A. C., até os incas. Por ali mesmo, outro museu mostra todo o mundo místico dos kallawayas, povo andino especialista em medicina natural.
O museu também abriga os irmãos Demétrio e José Limachi, especialistas na construção das balsas de totora (a palha local). Os dois moram por ali e ganham a vida posando para turistas e vendendo miniaturas dos barcos que fabricam em tamanho natural. Foram esses barcos que serviram para expedições como a Ra II, de 1970, quando pesquisadores cruzaram o Oceano Atlântico, de Marrocos até Barbados, para provar que os polinésios eram capazes de viagens desse tipo há muito mais tempo que os europeus.
Legítimo representante dos Urus, povo que vive em ilhas flutuantes feitas de totora, no Titicaca, Demétrio Limachi se orgulha de seu feito. “Isso é bom para manter nossa cultura”, afirma. Além da Ra II, os irmãos Limachi construíram embarcações para outras três expedições..
Mas o melhor da Bolívia é mesmo o Titicaca, a Ilha da Lua e a Ilha do Sol. Saindo de Huatajata, a viagem pelo lago sagrado dura cerca de uma hora e meia. Habitada atualmente por cerca de 80 pessoas, a Ilha da Lua conserva ainda parte das ruínas de Aljjawasi, construída entre 1.300 e 1.400 D.C.
O lugar servia de claustro para jovens virgens incas, trazidas de diversas regiões para aprenderem as atividades femininas da época. Ao contrário de outras ruínas, esta não foi destruída pelos espanhóis, mas sim pelos próprios bolivianos, que em 1949 começaram a construir prisões (já desativadas) para presos políticos com as pedras incas.
Famosa por ser o local de nascimento da Civilização Inca, a Ilha do Sol também conserva ruínas, como a de Pilkokaina, conhecido popularmente como Palácio dos Incas. Segundo pesquisadores, o palácio era um lugar de trabalho e de moradia, acessível a poucos escolhidos. A Porta do Sol, na entrada da ilha, é outra atração local.
Tanto na Ilha do Sol quanto na da Lua, a população mantém uma prática que também é comum no Peru: em qualquer local de concentração de turistas, adultos e crianças desfilam vestidos a caráter, com todos os ponchos e gorros andinos a que têm direito, e cobram uma gorjeta para posar nas fotos.

quinta-feira, 20 de março de 2008

PARAÍSO



Eu e o Grego costumávamos voltar da rua mais ou menos na mesma hora. Pegávamos às oito e saíamos, salvo raras tragédias, às quinze. Ao meio-dia, já estávamos na redação com a apuração do dia, cada um na frente de sua Remington, ou Olivetti, às vezes na companhia do Maçom, cujo horário coincidia com o nosso.

Nesse dia, feriado de Corpus Christi, o relógio apontava treze e tantas e nada do Grego. O cara tinha ido a São Gonçalo, cobrir o tradicional costume da população local de, nessa data festiva, enfeitar as ruas da cidade com gigantescos tapetes de serragem. Mas tinha também a incumbência de abordar o prefeito sobre outro assunto, e para isso foi obrigado a se embrenhar na multidão diante do palanque das autoridades, naquele que foi o maior evento da cidade pelas comemorações do dia do corpo de Jesus Cristo. Além de tudo fazia calor. Muito calor.

Lá pelas catorze horas, depois de passar quase duzentos minutos espremido entre fiéis gonçalenses, debaixo de um sol escaldante, adentra o Grego na redação. Apesar do traje padrão – calça jeans e camisa social de mangas curtas, pra fora da calça –, o cara parecia que voltava de um trio elétrico baiano, daqueles que os bombeiros ficam jogando jatos de mangueira em cima.

A camisa, bem mais escura do que o azul original, estava colada ao corpo, e o suor também grudara um pedaço de franja na lateral da testa. Com a fisionomia de quem acabara de escapar de um naufrágio, veio até a minha mesa e pediu, implorou, para fazer uma pergunta. Eu aquiesci e ele, num questionamento sucinto e com uma ligeira pitada de revolta, expôs a dúvida dilacerante que o assaltava desde o primeiro tapete de serragem.

Como alguém que mora em São Gonçalo pode acreditar em Deus?

Na época ri e até concordei com o cara, mas hoje discordo veementemente dele. Do alto de minha experiência na segunda cidade mais populosa do estado entre os anos de 1992 e 1996, quando por lá circulei toda semana, em busca de boletins de ocorrências, valões, corpos no meio do mato e outros assuntos palpitantes, digo que nenhum lugar é mais propício à crença no divino do que São Gonçalo.

Posso até estar sendo injusto, porque, como disse, freqüentei São Gonçalo entre 1992 e 1996, com outras duas ou três incursões até 2001. Não sei se a cidade mudou muito. Acredito que não. Suas ruas de terra batida, com esgoto a céu aberto nas duas margens, suas favelas, com barracos menores até que uma mesa de jantar, e suas praias fedorentas no fundo da Baía, formadas basicamente de lodo, lixo e merda (como mostra a imagem dessa fotógrafa), são cenários que só podem remeter à existência de um paraíso fora da Terra, de um éden onde tudo é bonito, agradável, e nada é feio ou malcheiroso. E digo isso sem ter conhecido os dois piores bairros de lá, na opinião de sujeito nascido e criado na área.

Foi num papo com o grande Alvarenga, fotógrafo de qualidade ímpar, que eu descobri a existência das duas localidades. Estávamos no carro de reportagem, percorrendo alguma rua esburacada, e eu, com toda a sinceridade do meu coração, resolvi dizer que aquele bairro (não lembro qual) era dos piores que eu já tinha visto no castigado município à beira da BR-101, ao que o nobre retratista, gonçalense convicto, retrucou de imediato:

Isso é porque você não conhece o Calaboca. Nem o Meia-Noite.

Me calei, e tentei evitar ao máximo imaginar como poderia ser um lugar chamado Calaboca, ou outro com a alcunha de Meia-Noite. Se bem que há nomes bonitos também em São Gonçalo. Temos lá o Lindo Parque, o Rio do Ouro e até um Paraíso, mas este, infelizmente, não é tão idílico.

O texto abaixo é típico de início de carreira. Você está no carro de reportagem, se depara com uma situação estranha, até para São Gonçalo, e resolve levar mais uma matéria para a redação. É também uma homenagem a essa brava gente gonçalense, antes de tudo forte. Porque São Gonçalo pode ser uma cidade feia, com o perdão da sinceridade, mas seus moradores são o que há de melhor ali, povo sofrido, batalhador, que enfrenta as infinitas dificuldades da vida com bom humor e resignação. E se isso tá parecendo uma tentativa descarada de aliviar minha barra com algum habitante do nobre município que possa, por acaso, aparecer por aqui, só pode ser mera coincidência.

Jornal O Fluminense, edição de quarta-feira, 5 de outubro de 1994



“Quero fazer um avião movido a pedal para voar sobre São Gonçalo. Como eu vou fazer isso não posso contar, mas disposição é o que não falta. Afinal de contas, se o avião cair não vai passar do chão”

Não são só os cavalos e charretes que disputam o espaço das ruas de São Gonçalo com os carros. Há mais de 20 anos, o funcionário público aposentado Gérson Carvalho Belmonte, de 59 anos, circula pela cidade com seu velho e possante “Chevrolet 27”- na verdade um minicaminhão movido a pedal e feito de madeira e lata. O exótico veículo já é bastante conhecido no município e Gérson garante que o carro ainda é útil para transportá-lo aonde for necessário, até a Icaraí, em Niterói, por exemplo.
Gérson mora no Mutondo, na Rua Manoel Martins, e costuma utilizar seu carro para o transporte de carga. O minicaminhão tem capacidade para carregar até três sacos de cimento, já que suas rodas finas, iguais às das bicicletas, não permitem mais que isso. Segundo o aposentado, o veículo tem duas trações de correntes (atrás e na frente), o que o torna mais leve e fácil de dirigir. Mas não é por causa dessa facilidade que Gérson afirma que, no que depender dele, seu “Chevrolet 27” ainda vai rodar por um bom tempo. “Estou com 59 anos mas tenho agilidade para levar esse carro aonde eu quiser”, garante.
O minicaminhão foi construído na própria casa de Gérson, que utilizou madeira e folhas de aço (usadas para fabricar outdoors) na sua fabricação. Na época, o aposentado, que também se diz inventor, fez o carro para usá-lo na campanha de um candidato a prefeito, mas parece que ele condena esse passado. “Quando estive em Niterói, alguns políticos quiseram se aproveitar do meu carrinho colocando cartazes e outras propagandas, mas eu não deixei”, conta.
Apesar do sucesso e da eficácia comprovada do “Chevrolet 27”, Gérson não quer parar por aí. Ele tem um projeto no mínimo pretensioso. “Quero fazer um avião movido a pedal para voar sobre São Gonçalo. Como eu vou fazer isso não posso contar, mas disposição é o que não falta. Afinal de contas, se o avião cair não vai passar do chão”, diz o aposentado, com o tom suicida característico a todo inventor que se preza. Ao que parece, São Gonçalo tem o seu Santos Dumont e não sabe.

quarta-feira, 5 de março de 2008

NIEMEYER NA DIREITA

A matéria era a segunda de uma nova série da revista, que tinha por objetivo resumir a biografia de celebridades de peso em até quatro capítulos, um em cada edição. A recomendação era para conseguir fatos novos, inusitados, da vida dessas pessoas. A mim coube a tarefa de tentar descobrir curiosidades ainda desconhecidas na trajetória desse cidadão aí do lado (na foto do Leandro Pimentel), que na época, aos 95 anos, já tinha sido tema de centenas de reportagens e dezenas de livros.

Era a minha segunda entrevista com ele. Na primeira, uns dois anos antes, tudo correra bem, apesar de um momento tenso, quando resolvi citar uma frase anterior dele, a respeito da importância das mulheres, para tentar conseguir as tais declarações diferentes.

Virei para o renomado arquiteto e lembrei que uma vez, sei lá quando, ele dissera que nada no mundo era mais importante que a mulher, ou algo parecido. Pensei, na minha ingenuidade, que o cara pudesse sair filosofando sobre a mulher e que dali poderia sair algo bom, talvez até um título, mas ele apenas ficou olhando para a minha cara, com a mão na boca, e soltou uma pergunta rápida, seca.

E não é?

Sorri amarelo, concordando, e mudei rapidamente de assunto. Devo ter falado do Fidel Castro (ou do Brizola) e a entrevista seguiu até o fim. Na segunda vez, calejado, não cometi quase nenhuma bobagem, que eu me lembre. Consegui até ouvir de Niemeyer que ele, aos 17 anos, atuou num Fla-Flu com a camisa do Fluminense. Jogou de meia-direita, com a 8 (se na época existissem os números nas camisas), e brincou com a posição, dizendo que deveria ter jogado na esquerda.

Era uma história aparentemente inédita. Pelo menos não tinha visto referência àquilo em lugar algum da pesquisa que fizera antes da entrevista. Depois recorri a um amigo tricolor, meio enciclopédia de futebol, e ele também não sabia nada disso.

No mais, a matéria não teve muitas outras novidades, como era de se esperar. Mas Niemeyer, além de toda a reverência necessária pela carreira, as obras, Brasília, o prestígio internacional etc etc etc, deu a impressão de ser um sujeito boa praça. Elogia o Stálin de vez em quando, mas parece ser um cara legal e ainda contou outra história interessante, essa talvez já conhecida na época.

Foi quando Fidel o visitou na cobertura da Avenida Atlântica, em Copacabana. Por uma dessas extravagâncias da arquitetura, só um dos dois elevadores do prédio dava acesso ao estúdio de Niemeyer, Lá pela meia-noite, quando El comandante resolveu ir embora, o elevador estava parado, desligado. O jeito foi tocar a campainha da cozinha do vizinho, para atravessar o apartamento dele até o outro elevador.

Agora fico imaginando o vizinho, à meia-noite, pijamão, em frente à tevê, pronto pra dormir, quando toca a campainha da cozinha. O cara vai atender achando que é engano ou tragédia e se depara com Fidel Castro, pedindo gentilmente para atravessar o apartamento dele até o outro elevador. Como dizem, Copacabana tem de tudo mesmo.


A matéria abaixo é o primeiro capítulo dos quatro sobre o Niemeyer. Não tem a história do Fidel, que ficou no quarto capítulo, mas também ela acabou de ser contada.

Revista Istoé Gente, edição 216, de 22 de setembro de 2003



Aos 95 anos, o arquiteto guarda na memória o placar daquele Fla-Flu da sua juventude (1 a 1) e a convicção de que, apesar de não ter feito gol, não decepcionou os colegas de time. “Era razoável”, afirma Niemeyer.

A rua Passos Manuel, em Laranjeiras, na zona sul carioca, era íngreme, mas o menino que nela nascera, em 1907, na casa do avô materno, situada no número 26, não se importava. Durante toda a infância e boa parte da adolescência, subia e descia correndo a ladeira de paralelepípedos em animadas partidas de futebol com amigos do bairro. A paixão pelo esporte chegava a livrar o aluno do Colégio dos Barnabistas Santo Antônio Maria Zaccaria da punição tradicional por se comportar mal na classe. Em vez de escrever 500 vezes no quadro negro “não devo falar na aula”, seu castigo era outro. “O professor me proibia de jogar futebol. Era mais eficiente”, lembra o antigo aspirante a craque, que teve seu momento maior no esporte numa tarde de 1925, aos 17 anos.
Convidado por amigos do bairro, envergou a camisa tricolor do Fluminense e, no time juvenil, jogou a preliminar de um Fla-Flu pelo campeonato carioca no estádio das Laranjeiras, próximo à sua casa e então considerado o mais importante do País. Seguir a carreira de jogador, no entanto, jamais passou pela cabeça do rapaz que chegou a recusar um convite do então goleiro titular do Flamengo, Amado Benigno, para ingressar na equipe rubro-negra. Eram tempos de amadorismo no futebol, quando quase todos os atletas eram filhos de famílias abastadas e atuavam por amor aos clubes, sem ganhar um tostão sequer. Seguindo o costume da época, Oscar Niemeyer manteve o futebol como diversão ocasional e optou pela arquitetura, a atividade que o tornaria famoso em todo o mundo.
Aos 95 anos, o arquiteto guarda na memória o placar daquele Fla-Flu da sua juventude (1 a 1) e a convicção de que, apesar de não ter feito gol, não decepcionou os colegas de time. “Era razoável”, afirma Niemeyer, que brinca com a posição em que atuava. “Devia estar na esquerda, mas era meia-direita”, diz, em alusão à conhecida adesão ao comunismo que até hoje faz questão de manter intacta.
Das influências adquiridas na infância, a mais forte foi a do avô materno, Antônio Augusto Ribeiro de Almeida, que hoje batiza a antiga rua Passos Manuel. Ministro do Supremo Tribunal Federal, Ribeiro de Almeida tinha prestígio e condições financeiras suficientes para dar uma vida confortável às doze pessoas da família que viviam sob seu teto. A característica mais admirada pelo neto Oscar, no entanto, era o desapego ao dinheiro, que fez com que a residência de Laranjeiras estivesse hipotecada na época de sua morte, em 1919, quando Niemeyer tinha 12 anos. “Ele morreu pobre. Não era uma pessoa ligada a dinheiro, o que me fez guardar uma boa lembrança dele”, conta o arquiteto, que morou na antiga rua Passos Manuel até dez anos após a morte do avô e sempre fez constar, no fim de seus livros, o nome Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares embaixo da assinatura pela qual é conhecido internacionalmente. Na certa numa tentativa de preservar as origens portuguesa (Ribeiro e Soares), alemã (Niemeyer) e a mais distante, árabe (Almeida).
A rotina na casa de Laranjeiras era típica de uma família burguesa da época. No sobrado de dois andares, Niemeyer vivia sob as asas dos avós, Ribeiro de Almeida e Mariquinhas, e morando com os pais, Delfina e Oscar de Niemeyer Soares, no andar de cima. Ele e os cinco irmãos (Lília, Carlos Augusto, Leonor, Judite e Paulo) conviviam ainda com os tios Nhonhô e Ziza e a prima Milota. Já na adolescência, Niemeyer mostrava o pouco interesse por assuntos religiosos, que o faria tornar-se ateu convicto, e não ligava muito para as missas celebradas aos domingos na espaçosa sala da casa, organizadas pela religiosa Ziza e onde ressoavam as salve-rainhas rezadas pela avó.
Um pouco mais tarde veio a época em que o jovem Oscar não dispensava as diversões da vida noturna no Rio antigo. Se a influência maior vinha do avô, era o tio Nhonhô, na época diretor do Fluminense Futebol Clube, que o levava a locais como o extinto bar Americano, no centro da cidade, o bar Lamas – até hoje tradicional reduto da boêmia, na zona sul carioca – e a Lapa. O bairro do centro da cidade, com seus cabarés, também era ponto de encontro dos amigos do então estudante do ensino médio, acostumados a passar por lá para tomar uma bebida nos bares. “Ficamos familiares, tanto que íamos durante o dia também, para jogar carta com as moças”, lembra Niemeyer.
Mantido até hoje num canto do escritório do arquiteto, em Copacabana, o cavaquinho é testemunha dos tempos de boêmia. Era nele que Niemeyer tocava os sambas da época, na companhia de um grupo de amigos que se reunia no Clube de Regatas Guanabara, na Praia de Botafogo, e permanece em sua memória. “Éramos eu, Gastão Vida de Cão, Siri e o Barqueiro”, lembra ele, como se estivesse recitando a escalação de uma seleção de futebol e garantindo não ter sido brindado com qualquer apelido na época.
A vida despreocupada durou até o casamento, aos 21 anos, com Annita Baldo, filha de imigrantes italianos de Pádua, perto de Veneza. Sem pompa, nem circunstância, a cerimônia do matrimônio atendeu aos desejos da religiosa noiva, que conseguiu convencer o noivo ateu a casar numa igreja do bairro. “Casei por formalidade. Mais católica do que minha esposa é impossível, então não me incomodei em casar dessa forma”. O casamento foi no mesmo ano da formatura no ensino médio, que marcou o início da vida profissional do futuro arquiteto. Casado, o estudante assumiu a responsabilidade que passou a ter e trocou a boêmia pelo trabalho na tipografia do pai.
Um ano depois, em 1929, ainda ajudava o pai na tipografia quando matriculou-se na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, onde se formaria como engenheiro arquiteto, em 1934. A partir do terceiro ano do curso, o jovem estudante passou a ter duas opções para seguir em frente na carreira escolhida: ganhar um salário qualquer como estagiário de firmas construtoras, como a maioria de seus colegas, ou trabalhar de graça e aprender “o lado bom da arquitetura”, como ele mesmo diz, no escritório de algum renomado arquiteto. Alguém que tinha a admiração de Niemeyer. Alguém com quem ele iria mudar a história do Brasil.

sábado, 1 de março de 2008

PELADA

O primeiro lance é um passe para o lado, no campo de defesa. Você não joga há quase um ano e é melhor não arriscar. O passe sai certo, mas não demora muito para os momentos ridículos começarem a aparecer. Um pique destrambelhado e a bola não é alcançada; um domínio errado e ela sai pela lateral; um chute pífio e vai na direção do escanteio, bem devagar; um lançamento completamente desproporcional e a bola quase vai parar no segundo andar da quadra.

Até que vem o primeiro gol, de direita! Bom começo, mas só porque o goleiro não era goleiro de verdade e a bola sobrou ali, na pequena área, com o gol escancarado. A essa altura a dor ao lado da barriga tá gritando, o fôlego tá curto e o joelho esquerdo já dá sinal de alerta. Ainda rola uma boa jogada, costurando pelo meio (porque o outro time também tá meio cansado) e deixando na cara do gol, mas o outro chuta pra fora.

Já o passe de calcanhar sai cheio de estilo, no vazio da defesa. Pena que não tem ninguém do time por ali. Seguem-se as tabelas frustradas, as enfiadas pra ninguém e alguns dribles levados, até que vem o segundo gol.

Você tá na esquerda do ataque, um pouco à frente do marcador, e ela vem reta, quase junto à linha lateral. O gol tá ali no meio, na diagonal, e a posição favorece a canhota, graças a Deus. Você deixa a bola passar, pára ela com um toque do lado externo do pé esquerdo e, com o próprio, solta o chute, de três dedos.

Tá certo que só deu pra fazer isso tudo porque o marcador não é lá essas coisas e já tá morto, mas a bola sai rodando, cruzada, rápida, e morre no ângulo, lá do outro lado. Pronto, a pelada já cumpriu sua função.

Depois voltam os erros patéticos. Com o talento que Deus lhe deu, você erra mais passes que o Léo Lima, marca como o Júlio Santos e finaliza como o Jean. Mas tudo bem. O segundo gol já tá guardado na memória.

A matéria abaixo foi apurada toda por telefone, com base numa foto apenas, de um sujeito completamente pelado, andando acelerado como numa maratona de marcha atlética, pelo acostamento da maior ponte do país em seu lugar mais alto. "Escreve uma matéria disso aí", disse o chefe de reportagem jogando a foto ao lado da Remington das mais antigas, sobre uma das quatro mesas de tia da escola primária que formava um dos três "mesões" da redação onde do alto, no mezanino, Seu Remilton arrastava suas sandálias franciscanas, com a meia cinza, e sorvia a água de seu copo de geleia embaçado, etiquetado, enquanto cuidava, ao lado do bravo Tico, do embaralhado arquivo fotográfico aonde foi parar a imagem que pode ser, quem sabe, o registro da aparição de um desses sujeitos surgidos do nada como nos filmes, vindos de outro mundo ou de outra época. Por que não?

Jornal O Fluminense, edição de sábado, 7 de janeiro de 1995

A Polícia Rodoviária Federal informou que ele tinha sido capturado pelos soldados do Corpo de Bombeiros, mas no quartel da corporação em Niterói ninguém tinha notícias do maluco misterioso. O nudista da Ponte é moreno, com cabelos e barba pretos, e aparenta cerca de 35 anos.

Dessa vez não foram o excesso de veículos, a imprudência dos motoristas ou a falta de condições de alguns carros que provocaram acidentes e o conseqüente engarrafamento na Ponte Rio-Niterói. Já sobrecarregada com todos os problemas rotineiros, a Polícia Rodoviária Federal teve trabalho, na manhã de ontem, com uma das situações mais pitorescas da história da maior ponte do Brasil. Um homem, completamente nu, apareceu na altura do vão central e acabou provocando um acidente. O carro de bombeiros chamado para recolher o homem parou para pegá-lo e chocou-se com uma Brasília, que não conseguiu frear a tempo.
O acidente ocorreu por volta das 6h30min e gerou um congestionamento que se estendeu até a praça do pedágio. Ninguém soube informar de onde surgiu o louco despudorado nem para onde ele foi. A Polícia Rodoviária Federal informou que ele tinha sido capturado pelos soldados do Corpo de Bombeiros, mas no quartel da corporação em Niterói ninguém tinha notícias do maluco misterioso. O nudista da Ponte é moreno, com cabelos e barba pretos, e aparenta cerca de 35 anos.
O carro dos bombeiros mobilizado para recolher o homem nu foi uma Caravan, que foi atingida por trás pela Brasília marrom, placa LA-1158. Dois ocupantes da Brasília ficaram levemente feridos e foram levados para o Hospital Universitário Antônio Pedro (Huap). Cleuza Maria Gomes, 39 anos, e Gisele, 12, receberam alta ainda ontem. O trânsito ficou lento durante toda a manhã e o engarrafamento provocou retenções nas ruas Jansen de Mello, Feliciano Sodré e na Alameda São Boaventura, no Fonseca.