quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

HONÓRIO, O GURGEL – A OFERTA

Como de praxe, os caronas não paravam de tripudiar do carro. Eram dois colegas de trabalho e uma amiga, bela amiga. Voltávamos todos do velho JB, hoje um esqueleto que, dizem, vai virar hospital, e desde o rock in rio – o estacionamento do jornal, cujo chão de terra, em dias de chuva, lembrava o charco do primeiro festival – os três só sacaneavam o bom e velho Honório.

Um falava do barulho de coisas pendentes, marca registrada do carro; outro reclamava de andar encurvado, da falta de espaço; e a outra ria do teto solar amarrado com barbante. Ficaram nisso o tempo todo, da Avenida Brasil a Laranjeiras, achando defeitos aqui e ali no valente Gurgel, até que no final da Pinheiro Machado, ao lado da pedreira, emparelha conosco um sujeito num Del Rey prateado.

Estávamos em 1997 e o Del Rey já havia saído de linha há quase tanto tempo quanto o Gurgel. A identificação entre os dois veículos já seria natural, mas o motorista do Del Rey, que trafegava sozinho e parecia o James Belushi, resolveu aproximar de vez os laços entre os dois carros. Com a cabeça pra fora da janela, nós dois a uns 50 por hora, gritou:

Muito maneiro esse teu carro, cara! Quer trocar?

O sujeito estava visivelmente transtornado e o problema devia ser no casamento dele, porque quando sua primeira oferta foi recusada, já entrando na Muniz Barreto, ele emendou com um lance maior, definitivo:

O carro e a minha mulher! Vai?

Nova recusa, ainda a 50 por hora, e o trânsito tratou de nos separar para toda a eternidade. Dentro do Gurgel, todos gargalhavam e ninguém mais falava mal do carro.

Esse texto é uma homenagem um tanto tardia a João do Amaral Gurgel, o sujeito que simplesmente inventou o Gurgel, essa maravilha da indústria automobilística nacional. João morreu no último dia 30 de janeiro. Fica aqui a homenagem do Relatos ao grande empreendedor.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O PALESTINO

O assunto já era complicado. O Oriente Médio. E pra dificultar ainda mais a entrevista seria em inglês, sem intérprete, com um cineasta palestino pouquíssimo conhecido por aqui, que mostrava o filme dele no Festival do Rio. Ver o filme, então, seria fundamental.

Mas aquela fila, na sala 2 do Espaço Unibanco, tava estranha à beça. Só pessoas do sexo masculino, algumas de mãos dadas, muitos cavanhaques e talvez até um quepe preto, se não for invenção da memória. Por isso a necessidade de cutucar o cara da frente e perguntar se aquele filme não era o do cineasta palestino, ao que o sujeito, dono de um dos cavanhaques da fila, respondeu, com expressão de espanto e a língua presa:

Nãããão, o filme é a biografia de um ator pornô.

Por sorte, os horários coincidiam e deu pra chegar na sala 2 do Estação Botafogo, a uns 200 metros dali, antes do início da sessão, o que salvou parte da entrevista do dia seguinte, no Copacabana Palace. O resto foi salvo pela paciência do entrevistado, principalmente com o inglês de índio do entrevistador.

A matéria tá aí embaixo, graças também ao gravador, aparelhinho às vezes dispensável, mas que é primordial em algumas situações. Pra entender melhor o que foi dito numa entrevista, então, com calma, voltando a fita várias vezes, é uma maravilha.

Revista Istoé Gente, edição 221, de 27 de outubro de 2003

"Os governos dos países árabes fazem uma lavagem cerebral nas pessoas, usando a causa palestina em prol do nacionalismo árabe. Mas nosso drama não os atinge"

O cineasta palestino Elia Suleiman, 42 anos, mora em Paris, viveu 14 anos em Nova York, onde iniciou a carreira, mas não se desliga dos problemas do Oriente Médio vividos desde a infância. Nascido em Nazaré, cidade de maioria palestina ocupada por Israel desde a criação do estado judeu, em 1948, ele tratou do tema em dois filmes premiados: Crônica de um Desaparecimento, eleito melhor filme do Festival de Veneza em 1996, e Intervenção Divina, que ganhou o prêmio internacional da crítica no último Festival de Cannes, foi exibido no Festival de Cinema do Rio de Janeiro e tem lançamento previsto para janeiro.

O que mudou entre os dois filmes?
Em Intervenção Divina, as coisas pioraram. Se mostrei uma situação extrema, mais violenta, é porque no primeiro filme tudo estava sob a superfície. Mas acho que esse filme tem até mais humor que o outro.

Já teve problemas por usar o humor para falar das tensões entre judeus e palestinos?
Com Crônica de um Desaparecimento, fui criticado no Chartage Film Festival, na Tunísia, por causa de uma cena irônica mostrando a bandeira israelense. Pensaram que eu estava vendendo minha alma ao diabo. Os governos dos países árabes fazem uma lavagem cerebral nas pessoas, usando a causa palestina em prol do nacionalismo árabe. Mas nosso drama não os atinge. O humor então não é permitido, como se não tivéssemos o direito de rir de nós mesmos.

Não acha que os países árabes ajudam a causa palestina?
Eles não conhecem o assunto. Muitos árabes não têm nem sequer o senso da geografia da Palestina. E por que os governos árabes iriam querer um verdadeiro estado democrático palestino? Seria contra o que eles são: monarquias com muito petróleo, onde poucos são ricos e todos em volta, pobres.

Como foi ter um filme (Crônica de um Desaparecimento) financiado pelo Fundo Israelense para Qualidade dos Filmes?
Foi uma luta. O roteiro foi premiado pelo júri deles, mas queriam me dar menos do que a verba prevista. Constituí advogado, fomos à Suprema Corte e provamos meu direito. Eles ainda queriam brigar para que o filme fosse classificado como israelense. Então eu disse não. Foi uma co-produção de Israel e França e assim foi classificado. Quase fomos à corte por isso também.

Esse também foi o problema no Oscar (em janeiro desse ano, a Academia retirou Intervenção Divina da disputa por não considerar a Palestina um país)?
Aquilo foi mais uma conseqüência de um problema maior
e mais antigo. Sempre quis que meus filmes fossem palestinos, mas para Israel e seus aliados a Palestina não existe. É insuportável para eles a noção da Palestina existindo dentro de Israel. Por isso nos deram esse nome político de árabe israelense, para negar o fato de que antes de 1948 havia uma história.

Como é ser um palestino em Israel?
É um completo apartheid. Eles olham para baixo diante dos palestinos. Nós nos sentimos inferiores em nossa própria terra, que foi tomada por outro país. Me lembro de quando era pequeno e ia com minha mãe a uma área judia comprar algo. Se eu falasse alto em árabe, ela logo me mandava fazer silêncio, porque, se percebessem nossa origem, iriam nos tratar de forma rude.

Por que escolheu fazer cinema?
Queria fazer filmes desde os 20 anos, mas não tinha condições. Até que, em 1991, um sujeito de origem libanesa que estava fazendo um vídeo em Nova York me contratou para traduzir do árabe para o inglês. Preparei um projeto sobre como os árabes eram vistos pela mídia ocidental e negociei para que, em vez de receber pagamento, meu material fosse aproveitado. Foi um sucesso e ganhei uma comissão para fazer um outro vídeo, que me deu recursos para um pequeno filme (Guerra do Golfo... E Depois?, de 1993).

Teve outros empregos?
Primeiro lavei louça em Londres, para onde fui aos 17 anos. Tocava bateria numa banda heavy metal em Nazaré e queria ver shows de rock em Londres. Deixei crescer uma barba porque não tinha idade para entrar no bar onde trabalhava. Também fui operador de fotocopiadora em Nova York. Eram 12 horas por dia na máquina, o que me deixou com trauma do barulho da folha indo e voltando. Os três primeiros anos em Nova York foram terríveis. Tinha 21 anos, tentava sobreviver e estava ilegal. Foi uma verdadeira experiência paranóica, imaginando a imigração na minha porta o tempo todo.

domingo, 14 de dezembro de 2008

SÉTIMO DIA

A esperança tinha acabado havia uns bons vinte minutos. Com 2 a 0 contra e nenhum dos resultados necessários acontecendo, a tragédia era inevitável. Mas sair do estádio era impossível. Um anjo exterminador qualquer o impedia, o mantinha de pé, em cima da cadeira social, como muitos que também não conseguiam deixar o local, já meio vazio.

Nos minutos finais, esqueceu o jogo e decidiu observar só o xará em campo. Queria ver a reação dele com o apito final. Uma espécie de homenagem, já que, sem vontade de gritar porra nenhuma, mal acompanhou o Ah! É Edmundo! entoado perto do fim da partida. O time estava rebaixado, mas a homenagem era válida, porque era o último jogo da carreira do cara e porque o que ele fez em 1997 é para ser reverenciado em qualquer circunstância, não importa um Mundial perdido, muito menos uma Copa do Brasil. E com o rebaixamento consumado, Edmundo cobriu o rosto com a camisa e, de cabeça baixa, começou a andar na direção do vestiário, para logo ser encoberto por um enxame de jornalistas, como na conquista daquele Brasileirão antológico.

E nem depois disso ele conseguiu sair do estádio. Ficou em pé nas cadeiras por uns cinco, dez minutos, observando colegas de sofrimento como o garoto de dezesseis anos, no máximo, que usava uma dessas camisas retrô, do time de 87, o que o fez lembrar que ele tinha uma camisa igual àquela no armário, com a diferença que a dele não era retrô.

O garoto fazia cara de dor e não chorava. Estava entre os abnegados que ainda conseguiam gritar o nome do time, que ainda tinham forças pra dar provas ostensivas de seu amor pelo Vasco. Mirrado, sozinho, chegou a berrar contra quatro sujeitos umas oito fileiras de cadeiras acima dele, que faziam parte de outra leva de torcedores, a dos que preferiam xingar o time inteiro.

Flamenguistas! Flamenguistas! Gritava o moleque mirrado, com a camisa de 87, e era tão improvável uma porrada entre ele e os quatro adultos revoltados que estes, mesmo ouvindo o garoto muito bem, preferiram nem olhar pra ele, que às vezes batia palmas ironicamente e falava, alto ainda: Isso mesmo! Xinga o Vasco mesmo! Flamenguistas! E nisso ele teve a impressão que o garoto já chorava, mas não ficou pra conferir.

Saiu de cima das cadeiras e passou a caminhar a esmo pelas sociais. A cabeça latejava ligeiramente. O time, bicampeão sul-americano, tetra brasileiro, único dos grandes do país a começar de baixo, voltava à segunda divisão 86 anos depois de subir pela primeira e única vez, quando conquistou o campeonato carioca em sua estréia na competição, com um time de negros, pobres e mulatos, que desbancou os principais adversários – os três repletos de filhinhos de papai bem nascidos em suas hostes –, o que garantiu ao Vasco, graças a Deus, três vitórias nos três primeiros confrontos da história com os outros grandes da cidade.

Mas nada disso consolava naquele momento. Apoiado na grade entre a social e o gramado, ele ainda acompanhou o resgate de um idiota que fingiu que tentava se matar, sem noção de que poderia ter morrido mesmo com aquela brincadeira estúpida, de ficar pendurado na marquise do estádio, e que chegou rindo no hospital, andando, depois de ser salvo pelos bombeiros. E ele andava também, de um lado para o outro. Chegou perto do portão principal mas não conseguiu sair. Voltou às cadeiras e de lá retornou ao portão principal, ele que nunca sequer cogitou a possibilidade de ser um daqueles malucos que xinga dirigente, que berra no meio de todo mundo, que saiu calado do estádio até quando viu o time tomar de 4 do Figueirense, outro rebaixado.

Mas o time tinha acabado de cair pra segunda divisão, a cabeça latejava e, entre a porta trancada da sala de troféus e o bar aberto, ele gritou o primeiro Cadê a Diretoria?, dando voz ao pensamento que veio à mente assim que avistou a tribuna de honra do estádio completamente vazia. Seguiu-se então um grito mais alto, inimaginável na infância.

Cadê o banana do Dinamite?

Daí vieram uns Filhos da Puta berrados a esmo, entre outros ditos não menos raivosos, até que um segurança o abordou, ao lado do busto do Almirante. A cabeça ainda latejava, mas a visão daquele sujeito de 1,90 m e pescoço parecido com o do Mike Tyson rendeu um segundo de raciocínio lógico, suficiente para ele continuar com os gritos, mas dessa vez com um objetivo específico: livre do anjo exterminador, precisava sair do estádio, mas sem afinar.

Então continuou berrando, olho no olho do segurança gigantesco, e disse que era sócio do clube e que falaria o que quisesse, e que tava indo embora, porra! E nisso finalmente saiu do estádio, para se deparar com um grupo de PMs usando máscaras de oxigênio e com mais torcedores na mesma situação que ele, como o sujeito que tinha o rosto do Bill Murray, a calva do Phil Collins e os cabelos longos do Robertinho do Recife.

O cara também protestava contra a diretoria, e enquanto falava, de cinco em cinco segundos, que o Vasco estava na segunda divisão, que não era Série B porra nenhuma, que era segunda divisão, mostrava as três ou quatro camisas que vestia, todas do Vasco, uma por cima da outra. E tirou do bolso o ingresso do jogo, bem bolado, com a foto do Expresso da Vitória, campeão sul-americano, cinco vezes campeão carioca em sete anos, e disse que sempre guardava os ingressos, e nisso jogou aquele fora. Guardar pra quê, porra? Agora já era, e se despediu. Deixou com ele uma das duas latas de cerveja que tinha acabado de comprar e disse Vou pra lá agora, apontando pro lado da Barreira do Vasco.

Ele ainda hesitou, sem saber direito pra onde ir, até que seguiu o fluxo silencioso na direção contrária. Andou alguns segundos ao lado de outros dois sujeitos, um mais velho, outro mais ou menos da idade dele. O mais moço lembrava ao mais velho algo que tinha acontecido na semana anterior, quando o outro, ao que parece, enchera a cara sem condições físicas pra isso. E o sujeito, cabeça e bigode brancos, nem dava ouvidos. De cabeça baixa, como o Edmundo, respondeu com uma frase apenas: Hoje é uma situação especial. E o outro ficou calado.

Ele também entrou no bar perto da social. Pediu uma bohêmia, sentou numa mesa improvisada do lado de fora e bebeu até escurecer, coisa de uns vinte minutos. Depois saiu andando até os bares próximos à arquibancada, mas os dois botecos estavam fechados. Sobravam apenas três isopores no meio da rua e uns oito sujeitos bebendo latinhas em pé, observados por seis PMs, que conversavam tranqüilamente apoiados em seus porretes de borracha.

Só então decidiu procurar um táxi. Andou quase até o Pavilhão de São Cristóvão quando encontrou um, de um coroa que ouvia um programa de esporte qualquer no rádio, com alguém dando pitaco sobre o rebaixamento do Vasco. Consciente, o taxista viu a camisa do passageiro e trocou rapidamente para uma estação FM. Antes de deixá-lo no bar perto de casa, se revelou torcedor do América e disse que entendia perfeitamente o que o outro sentia.

Ele acreditou, aceitou as palavras solidárias do taxista e entrou no bar. Comprou quatro Originais e foi pra casa. Preparou um cigarro artesanal, abriu a primeira cerveja e, ainda com a camisa do Vasco, iniciou a sessão de DVDs. Começou com a Libertadores de 98 e botou depois a Mercosul, o jogo inteiro da final. Bebendo e fumando, começou a cambalear de sono no primeiro gol do Romário e antes de adormecer no sofá, com os olhos já fechados, ouviu a narração do gol da vitória, do Romário também, e ao fundo, na saída de som da televisão, a torcida gritava que o Vasco é o time da virada, que o Vasco é o time do amor.

A matéria abaixo não tem absolutamente nada demais. Nem entrevista teve. Foi só um apanhado da semana, depois de mais uma briga entre Romário e Edmundo. Mas, nesse momento difícil, resolvi botar o texto aqui, ao menos para relembrar um tempo não tão distante, em que o Vasco, mais uma vez, dominava o futebol brasileiro. Hoje a situação é outra, mas daqui a pouco volta a ser como era antes, não importa a torcida de nossa "mídia" esportiva, ou as arbitragens da CBF, ou as intervenções de governadores num clube, ou os ex-ídolos que viraram deputados. O Vasco vai voltar ao topo, porque o Vasco sempre volta. É só esperar.

Revista Istoé Gente, edição 28, de 14 de fevereiro de 2000:

"Ele é falso e me tirou tudo o que conquistei no Vasco (...) Uma pessoa que acabou de chegar não pode ocupar a posição de capitão"



"A braçadeira veio para o meu braço porque eu tenho braço. Se não tivesse, não haveria esse problema"


Durou pouco a tentativa de reconciliação entre Romário e Edmundo, as duas estrelas do Vasco da Gama e os dois maiores salários do futebol brasileiro: R$ 450 mil mensais para cada um. O pomo da discórdia entre os ex-amigos e atuais desafetos foi a disputa pela braçadeira de capitão do time. Escalado para o jogo contra o Palmeiras, no sábado 5, Edmundo deixou o estádio do Parque Antártica meia hora antes do jogo, alegando estar indisposto. No dia seguinte, já no Rio, o craque confessou que não gostou de ver Romário, que o substituíra como capitão durante as férias, efetivado no posto.
"Ele é falso e me tirou tudo o que conquistei no Vasco", disse Edmundo. "Uma pessoa que acabou de chegar não pode ocupar a posição de capitão", protesta. Romário não respondeu diretamente, mas foi irônico. "A braçadeira veio para o meu braço porque eu tenho braço. Se não tivesse, não haveria esse problema", disse, depois do treino da última segunda-feira. O bom humor de Romário não é à toa. Desde que está no Vasco, marcou 13 gols em apenas 11 partidas. Seis dos sete gols que a equipe fez na Copa Rio-São Paulo saíram dos pés do baixinho.
O presidente do clube, Antônio Soares Calçada, suspendeu Edmundo por dez dias, porque o jogador abandonou o estádio minutos antes da partida contra o Palmeiras. O presidente confirmou que a decisão de efetivar Romário como capitão do time foi tomada na véspera do jogo contra o Palmeiras. "Edmundo precisa de paz, mas ele não tem equilíbrio emocional para ser capitão", disse Calçada. "Se eu não tenho controle emocional, eles não deveriam ter me deixado ser capitão do time por tanto tempo", retruca Edmundo.
Romário, que havia jogado no Vasco no início da carreira e em dezembro voltou ao clube que o formou para o futebol, depois de ser afastado do Flamengo, evitou o conflito com o companheiro de time. Tudo mudou depois das últimas declarações de Edmundo, chamando Romário de falso. O baixinho não respondeu diretamente, mas não ficou calado. "Basta observar o dia-a-dia do time para tirar as conclusões e perceber quem é o quê", disse o craque. "Sei que todos esperam que eu fale algo sobre tudo isso, mas minha cabeça agora é outra", emendou.
Apesar da estratégia atual de evitar o confronto, foi Romário quem começou a dar motivos para a briga. Logo após a decisão da Copa do Mundo de 1998, o atacante divulgou as caricaturas pintadas nas portas dos banheiros de sua boate, o Café do Gol, na Barra da Tijuca. Em uma delas, Edmundo aparecia sentado numa bola murcha, ao lado da modelo Cristina Mortágua, com quem ele teve um filho, Alexandre, hoje com 5 anos, fruto de uma relação extraconjugal. Romário acabou recuando dias depois. Retirou as charges diante da reação de Zagallo, que inspirou outro painel. O ex- técnico da seleção brasileira - que foi estampado numa privada, enquanto Zico segurava um rolo de papel higiênico para ele - ingressou na Justiça contra o baixinho para vetar o uso de sua imagem.
A polêmica esfriou depois que Edmundo foi para a Fiorentina, da Itália, mas voltou a esquentar no retorno do atacante para o Vasco. Em julho, na véspera da decisão do campeonato carioca de 1999 entre o Vasco de Edmundo e o Flamengo de Romário, o craque vascaíno provocou os rubro-negros dizendo que seu time ganharia de dez a zero. No centro do gramado, antes do início do jogo, os dois capitães mal se cumprimentaram e sequer se olharam. Após a vitória do Flamengo por um a zero, Romário afirmou que os que o provocaram tinham de fazer muita coisa para chegar aonde ele chegou.
A trégua entre os dois veio três meses depois da decisão do campeonato carioca, quando Edmundo passou uma noite na prisão, condenado pela morte de três pessoas num acidente de carro em 1995. Em 6 de outubro, na noite da prisão, Romário fez um gol pelo Flamengo e exibiu uma camiseta com mensagem de apoio ao antigo amigo. Fora da cadeia, Edmundo retribuiu a gentileza, após marcar um gol contra o Botafogo de Ribeirão Preto, pelo campeonato brasileiro, numa camiseta com a inscrição "Valeu pela força".
A solidariedade não foi suficiente para evitar novas brigas, mesmo quando Romário foi contratado pelo Vasco. Nos cinco primeiros dias treinando juntos, os dois craques trocaram apenas um tímido aperto de mão. Nos jogos pelo Campeonato Mundial de Clubes, realizado em janeiro, renasceu a esperança de reconciliação. Na partida entre o Vasco e o Manchester United, da Inglaterra, o time brasileiro venceu com um gol de Edmundo e dois de Romário, o primeiro deles depois de um passe do Animal. Os jornais exibiram a foto dos dois craques abraçados, comemorando o gol, mas tudo não passou de um ato isolado. Um mês depois do jogo, Romário e Edmundo estão mais distantes um do outro do que nunca.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

BAIXO ASTRAL

A matéria teve fotos de 16 personagens e histórias de 31. Duas com destaque de manchete, sete também com certo espaço, de umas vinte linhas, e o resto resumido em até cinco, no máximo. Em perfis mais ou menos detalhados, estavam lá, entre outros, o estudante de 13 anos, a costureira de 52, o auxiliar de escritório de 23, o aposentado de 61 e a professora de 42. Todos mortos pelas chamadas balas perdidas, aquelas que pipocam de um tiroteio qualquer e atingem quem não tem nada a ver com a história.

O gancho da matéria partiu de uma história absurda, de uma menina linda de 14 anos, filha única, de classe média, superprotegida pelos pais, que por isso vibrou de alegria quando, por telefone, a mãe deixou que ela pegasse o metrô sozinha numa estação e saltasse na seguinte para encontrá-la, tudo no bairro onde morava. E graças ao retardamento psicológico de quem resolve assaltar uma estação de metrô e à estupidez de dois policiais trapalhões, que resolveram reagir sem condição mental para isso, a menina, Gabriela, foi atingida por um tiro quando descia a escada do metrô. Morreu a caminho do hospital.

A idéia era reunir os casos fatais de bala perdida no estado e chegou-se ao número de 45 mortos entre maio de 2002 e maio de 2003, 31 deles na mui amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A estatística era da Secretaria de Segurança e só tinha isso mesmo: números de casos divididos por meses. Nada de nomes, nem endereços.

Foi preciso uma pesquisa daquelas bem chatas, em jornais populares, para conseguir identificar as 31 vítimas, e como também tinha que marcar entrevista, foto, ir entrevistar, tirar foto de pelo menos sete personagens, a matéria demorou um pouco pra ficar pronta. Tanto que o gancho mudou.

Quarenta e um dias depois da morte de Gabriela no metrô, outra menina, essa de 19 anos, conversava com colegas no pátio da faculdade onde estudava, num intervalo entre as aulas. Sentada num banco, a menina, Luciana, estava encostada na parede, e assim foi atingida por um tiro na altura da mandíbula que a deixou tetraplégica. Não morreu, e por isso não constou das estatísticas da Secretaria de Segurança, que naquela época só contava as mortes, sem nomes, a maioria aqui na nossa cidade maravilhosa, do balconista de lanchonete de 24 anos, da dona-de-casa de 64, do subgerente de supermercado de 40, da vendedora de 25, do motorista de 27...

Essa matéria ficou bem grande, dois textos principais, da Luciana e da Gabriela, e seis coordenadas com mortos e feridos, além de 27 microtextos das outras vítimas fatais. Botar tudo aqui seria desnecessário. Vai abaixo só uma das coordenadas, que é mais do que o suficiente.

Revista Istoé Gente, edição 198, de 19 de maio de 2003

No dia seguinte, a menina brincava no pátio da escola quando foi baleada na cabeça. Segundo o depoimento de uma colega, Jéssica ainda disse que a cabeça doía e pediu socorro antes de desmaiar.

Na véspera da festa de amigo oculto que seria realizada na sexta-feira 6 de dezembro, na Escola Municipal Pernambuco, próxima à favela do Jacarezinho, na zona norte, a aluna da 1a série do ensino fundamental, Jéssica de Jesus Teixeira, de 8 anos, conseguiu R$ 0,50 do pai, o entregador Hélio de Jesus Teixeira. Com o dinheiro, comprou um pacote de elásticos para cabelo, embrulhou-o com o papel arrancado de um livro de figuras e mostrou ao pai, orgulhosa do presente que não chegou a ser dado.
No dia seguinte, a menina brincava no pátio da escola quando foi baleada na cabeça. Segundo o depoimento de uma colega, Jéssica ainda disse que a cabeça doía e pediu socorro antes de desmaiar. Levada para o Hospital Salgado Filho, morreu dois dias depois.
Atualmente desempregado, O pai vive com a mulher, Cláudia Maria de Paula, e os outros quatro filhos – Paulo Sérgio, 10, Jennifer, 4, Joice, 3, e Pablo, 8 meses – em uma casa de três cômodos no Jacarezinho. Ele ainda procura entender o que aconteceu. “A perícia diz que o tiro partiu de dentro da escola, mas ninguém ouviu nem viu nada, O município diz que bala perdida é de responsabilidade do estado, e o estado diz que não é com ele porque aconteceu numa escola do município”, conta Hélio, que processa a Prefeitura e tirou o filho mais velho da mesma escola.
Nada que reduza a dor pela perda da filha que sonhava em ser bailarina. “Ela tinha passado num teste para fazer aula de dança e queria que eu a levasse ao curso da Vila Olímpica da Mangueira”, lembra o entregador, que ainda tem de arranjar forças para combater a depressão da mulher e a tristeza dos filhos, principalmente de Jennifer, que tem tido febre quase toda noite. “Prefiro acreditar que a Jéssica não morreu. Ela está viva em algum lugar”, diz.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O TEXTO

O que importava era o texto. Na correria do fechamento, jornal diário, tinha pouco mais de uma hora pra escrever a matéria, fruto de uma boa idéia do editor, que já tinha o título pronto: O Vale das Balas Perdidas. Era um texto grande de abertura e outro menor, sobre um colégio de freiras, fora alguma apuração de última hora, por telefone. E tava concentrado em tentar fazer tudo a tempo quando alguém me avisou que a matéria ia ter arte.

Tinha pouco mais de três meses de jornal, vindo de outro onde o departamento de arte limitava-se à mesa do legendário Pamé, um dos maiores cartunistas de Niterói e adjacências. Quando alguém me disse que a matéria ia ter arte, fiz aquela cara de Que bom! E continuei concentrado no texto. Não percebi que também era responsável pela arte nem quando o cara de lá veio me pedir pra dar um confere no que ele tinha feito.

Faltavam uns quinze minutos pro deadline e eu finalizava o texto de abertura, ainda. Fui lá bem rápido, olhei o mapa de relance, aprovei e voltei ao meu computador. A arte era responsabilidade da arte, o que importava pra mim era o texto, que consegui entregar a tempo.

No dia seguinte, me chama o editor, em pé, no meio da redação. Tinha língua presa, e tinha feito teatro na juventude. O esporro foi daqueles histriônicos, bem alto, porque no mapa da arte o Morro do Zinco ficava no Morro da Coroa, a Mineira ficava a léguas de distância da Rua Itapiru e o Morro dos Prazeres, de Santa Teresa, pairava atrás do cemitério do Catumbi, entre outros absurdos. Percebi ali o que ninguém tinha me dito antes, que o mapa era comigo, também. Na hora, achei melhor fingir que sabia disso do que confessar minha completa ignorância com relação a mais essa responsabilidade do repórter. Fiquei quieto e absorvi o esporro, porque, até então, o que importava era o texto, esse aí debaixo.

Jornal do Brasil, edição de 7 de novembro de 1996:

No Educandário Nossa Senhora de Nazaré, a diretora Eliete Fernandes da Silva diz que é comum a escola virar alvo dos traficantes durante a madrugada. "Já guardamos 80 cápsulas de balas que atingiram a escola nos últimos seis meses", conta.

O que o Sambódromo, o Centro Administrativo da Prefeitura, o edifício Balança Mas Não Cai e os circos que costumam se instalar na Praça Onze têm em comum? Para quem não sabe, ou ainda não percebeu, todos ficam na área mais atingida pelas balas perdidas, que ultimamente têm tirado o sono dos cariocas. Nas noites de ontem e anteontem, mais três pessoas foram baleadas no Catumbi, situado no vale das balas perdidas, aumentando para 62 o número de pessoas atingidas esse ano no Rio. Desse total, 14 estavam nos bairros do Catumbi, Estácio, Cidade Nova e Rio Comprido, que compreendem a Região Administrativa de Rio Comprido.
De acordo com a polícia, a guerra entre traficantes nos morros da área, que já dura mais de dois meses, tornou o local um dos pontos críticos da cidade, onde o tráfico não respeita nem as escolas. No Educandário Nossa Senhora de Nazaré, a diretora Eliete Fernandes da Silva diz que é comum a escola virar alvo dos traficantes durante a madrugada. "Já guardamos 80 cápsulas de balas que atingiram a escola nos últimos seis meses", conta.
Para piorar ainda mais a situação, a região do Rio Comprido é cercada por 15 favelas, que, de acordo com os dados do Instituto Municipal de Informática e Planejamento (Iplan) - baseados no censo de 1991 -, abrigam 25.699 do total de 82.344moradores dos 6,11 quilômetros quadrados da área.
Segundo o comandante do Primeiro Batalhão de Polícia Militar, coronel Jorge Siqueira, os constantes tiroteios entre traficantes nos morros de São Carlos, da Mineira, do Zinco, Querosene, Falet, Coroa e Fogueteiro - que formam o Complexo do Estácio - fazem com que os bairros do Estácio e, principalmente, do Catumbi, sejam os principais alvos das balas perdidas. "Sempre fizemos operações de rotina nesses locais, independente desse crescimento de casos de balas perdidas. Nos últimos meses, apreendemos quatro fuzis e uma grande quantidade de revólveres e pistolas na região", disse o coronel.
A guerra nos morros citados pelo comandante do 1o BPM envolve três quadrilhas. A primeira delas controla o Morro do Zinco e era liderada por Rogerinho, preso no último domingo por policiais da 6a Delegacia Policial (Catumbi). O bando de Rogerinho faz parte do Comando Vermelho e tem como aliada a quadrilha de Nélson Gabino, o Português, e Claudinho, que controla o tráfico no Morro da Mineira. Os dois grupos estão em luta aberta contra os rivais do Morro de São Carlos, chefiados por Adílson dos Santos Balbino e seu gerente, conhecido como Gangan. A proximidade entre os morros da área, praticamente colados uns nos outros, envolve todos na guerra.
Na noite de anteontem, o apontador do jogo do bicho Carlos Alberto Cardoso de Mendonça, de 52 anos, engrossou as estatísticas da violência na cidade ao ser baleado na perna direita quando voltava para casa, no Morro do Zinco. A 60a vítima de bala perdida no Rio este ano foi atendida no Hospital Souza Aguiar e liberada ainda na mesma noite. Em seu depoimento na 6a Delegacia, Carlos Alberto contou que foi atingido durante um tiroteio entre traficantes da favela.
Os meninos Rafael de Siqueira Silva, de 5 anos, e Clécio José Faria, 6, foram as últimas vítimas das balas na cidade. No fim da tarde de ontem, os dois brincavam na calçada da Rua Itapiru, no Catumbi, em frente ao número 1045, quando marginais passaram pelo local em dois carros, trocando tiros. Rafael foi atingido na região lombar e levado para o Souza Aguiar, onde está fora de perigo. Clécio foi baleado na perna direita e está internado, também fora de perigo, no Hospital da Amiu, em Botafogo.

domingo, 16 de novembro de 2008

HONÓRIO, O GURGEL - O EIXO

Ladeira de paralelepípedo em Santa Tereza, na saída do Goiabeira, se é que ele ainda existe. Carro em ponto morto, controlando no freio, porque assim é mais legal. Até que na última curva, já avistando o batalhão de choque, um barulho estranho, tipo Clock, avisa que algo aconteceu, e você sente isso imediatamente, porque o gurgel aderna ligeiramente para a direita.

O barulho seguinte é de maçarico, quando você faz a curva para a esquerda e atravessa o viaduto por baixo, e o som já parece de aparelho de dentista quando você percebe como é difícil manter o gurgel em linha reta, e como é quase impossível virar pra direita, pra onde ele tá adernado. Pára, sai, deita no asfalto e descobre que o eixo, aquele ferro que liga o pneu ao resto do carro, não tá ligado à roda. Tá balançando perto dela, tocando o pneu de vez em quando, mas ligado à roda, não tá não. O que a segura é, de um lado, o próprio eixo, que não deixa ela cair pra trás; e do outro o pára-lama rebaixado, que tira faísca do chão nas pontas.

Você está parado às três e pouca da matina numa área da cidade que um jornal já chamou um dia de vale das balas perdidas. E como conseguiu andar uns cinqüenta metros naquelas condições, pensa mui sensatamente: por que não sair de lá, atravessar o Santa Bárbara e deixar o gurgel são e salvo em frente à oficina do lado de casa?

Os amigos vão na frente em outro carro, devagar, para o caso de uma desistência no caminho, mas curva pra direita, em todo o trajeto, só tem duas. E a primeira, de acesso ao túnel, é ultrapassada sem problemas, graças à pista vazia em frente ao Frei Caneca, que permite uma linha reta em diagonal, pra dar as melhores condições à roda boa, da esquerda, de fazer a curva sozinha.

Depois linha reta no túnel, como o gurgel já sabia, e o barulho de aparelho de dentista começa a ser entremeado por alguns clocks, isso em frente ao Palácio Guanabara. A segunda curva pra direita, de acesso à Praia de Botafogo, é mais complicada, porque a rua é mais estreita, não permite a diagonal. Sinal aberto, o volante pesa barbaridade, quase não se mexe pra direita, mas o gurgel consegue completar a curva, de uns 120 graus, e finalmente embica o pára-choque na reta do viaduto que, mais quatro curvas pra esquerda e outro túnel, o deixará na porta da oficina de Seu Raimundo, em frente ao Rocha Maia, pertinho do Pinel.

Na manhã seguinte, a glória. Seu Raimundo coça os cabelos brancos, ajeita os óculos, olha a roda com cara de tragédia e, do alto da experiência de anos e anos consertando carro velho, pergunta, sem acreditar:

Você trouxe esse carro assim?

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

NOTURNO DO ESTÁCIO

Não tinha outro começo pra matéria. Chego no apê onde Luiz Melodia dava um tempo (enquanto a casa dele em São Conrado era reformada) pronto pra entrevistar o cara. Pesquisa feita e aquela tensão ligeira, que sempre bate quando o entrevistado vale a pena. Aí ele chega na sala, cumprimenta o fotógrafo, olha pra mim e manda:

Ué, tem entrevista?

Tinha passado meio mal na véspera, tava com uma cara de cansado, e por algum motivo achou que faria apenas uma sessão de fotos, em dois pontos da cidade que ele freqüentava. Aí também fiz minha cara de ué e respondi, timidamente: Tem, né?

O cara aceitou na boa. Só pediu pra gente fazer a entrevista durante as fotos, sem essa de parar, sentar num canto, ligar o gravador... Concordei, mas a conversa começou bem antes de qualquer coisa, porque Melodia sugeriu um chope no bar embaixo do prédio dele, em frente à Globo, no Jardim Botânico.

Aliás, a entrevista começou antes, no elevador, quando o cara jogou por terra a propalada invencibilidade do Politheama, time de pelada do Chico Buarque. Disse que tinha levado um pessoal do Estácio pra jogar no campo do Chico e que Melodia e cia não tomaram conhecimento dos adversários. Acabamos com eles, garantiu o cantor, com certo ar de desdém. Meses depois, falando pra outra matéria com um titular absoluto do Politheama, Carlinhos Vergueiro, a versão foi outra. No sofá de sua casa, com aquela cara de goleiro argentino dos anos 70, o pai de Dora Vergueiro disse, entre risos, que Melodia só podia estar maluco, e pra ratificar sua declaração informou o placar da partida contra a galera do Estácio, algo entre 7 a 2 e 8 a 3, a favor dos donos da casa. Não há documentos que provem qualquer das duas versões.

Mas do chope passamos à sinuca do Humaitá, que o cara dizia freqüentar, embora garantisse que não jogava bem, ao contrário do futebol. E se um dia alguém quiser apostar dinheiro com um cara que freqüenta uma sinuca mas diz que não joga bem, que aposte.

A última parada foi num restaurante japonês, um que tem um pequeno lago com peixes dentro. Mas antes disso, no carro, Melodia me disse o que seria o abre da matéria se ela não fosse publicada numa revista de celebridades. O cara não ia ao Morro do Estácio, onde nasceu e foi criado, há algum tempo. E o pior: o cara tinha um enorme receio de ir lá. Tinha que avisar antes à família, pra saber se dava pra subir ou não. Em suma, pedir autorização. E quando Luiz Melodia precisa de autorização pra subir o Morro do Estácio, sei não, fica difícil à beça ser otimista.

Abaixo, a matéria.

Revista Istoé Gente, edição 206, de 14 de julho de 2003

“Quando o bicho pega vai tudo pra minha casa. Outro dia uma sobrinha não podia subir o morro por causa de tiroteio. (...) É muito deprimente ver o lugar onde cresci daquele jeito. Me dá tristeza de chorar.”

“Vai ter entrevista?” A pergunta de Luiz Melodia, enquanto se preparava para as fotos, dava o tom do humor do cantor na quinta-feira 3, após uma exaustiva viagem para um show em Belém. Visivelmente cansado, livrando-se dos resquícios de uma forte dor de dente na véspera, Melodia não transparecia qualquer vontade de conversar. Puro engano. Num passeio por alguns dos pontos mais freqüentados pelo músico na zona sul carioca, o filho do falecido sambista Oswaldo Melodia falou da infância no Morro de São Carlos, no Estácio, centro do Rio, ao show marcado para a quarta-feira 9, no Canecão, em comemoração aos 30 anos de carreira.
No roteiro de Melodia, 52 anos, a primeira parada é na lanchonete ao lado do prédio no bairro do Jardim Botânico, onde está morando nos últimos meses, enquanto sua casa em São Conrado continua em obras. Chega o primeiro chope e começa o balanço da carreira. “Nunca abaixei a cabeça diante de propostas indecentes, de tentarem me levar para o lado comercial”, diz o compositor. “Negão como eu, saído do morro, tinha que fazer só samba. Cortei isso de imediato”, afirma, lembrando da fama de maldito que teima em persegui-lo. “Me rotularam assim porque nunca fui de abrir perna pra gravadora. Foi até melhor. Se não fosse o marginal e tivesse feito o que eles queriam, talvez não estivesse trabalhando até hoje.”
O autor de “Pérola Negra” não nega as origens. Em casa, no morro considerado o berço do samba – por ter abrigado a Deixa Falar, primeira escola de samba, fundada por Ismael Silva –, Melodia arriscou os primeiros acordes. Foi na viola de quatro cordas que atiçava o ciúme do pai. Quando Oswaldo não estava em casa, o único homem entre seus quatro filhos roubava a viola, até o dia em que o instrumento quebrou. “Meu pai chegou e escondi a viola num vão na parede, mas ela caiu”, lembra o compositor, que na época tinha 12 anos e não escapou da surra.
Do morro, ele conserva lembranças como o coral em que cantava com as irmãs, Marise, Vânia e Raquel, na igreja presbiteriana freqüentada pelos pais. “Lá percebi que cantava direito, mas preferia soltar pipa atrás da igreja”, confessa o compositor, que morou no São Carlos até 1973, quando lançou seu primeiro disco, Pérola Negra.
A vida tranqüila na favela faz parte de um passado distante. Para visitar as irmãs no lugar onde nasceu, Melodia tem de esquecer letras de sucessos seus, como “Estácio Holly Estácio”, e telefonar antes para saber se pode subir o morro ou se há tiroteio. “Hoje há rodízio no tráfico. Do pessoal que vende drogas no Estácio, só um ou dois são de lá”, conta ele, saudoso da época em que o poder bélico dos traficantes não era ostentado diante dos moradores. “Só os mais velhos andavam armados. Quando tinha tiroteio, era mais a polícia matando os caras, não tinha essa coisa de guerra entre eles.” O músico ainda sonha em conseguir dinheiro para tirar a família da favela. “Quando o bicho pega vai tudo pra minha casa. Outro dia uma sobrinha não podia subir o morro por causa de tiroteio”, diz ele, que reduziu as idas ao São Carlos. “É muito deprimente ver o lugar onde cresci daquele jeito. Me dá tristeza de chorar.”
Outro motivo de tristeza foram as mortes recentes de amigos como o produtor musical Almir Chediak, o compositor Itamar Assumpção e o poeta Wally Salomão. Freqüentador do Morro de São Carlos nos anos 70, Wally dirigia o show de Gal Costa em 1972. Incluiu “Pérola Negra” no repertório e deu o impulso definitivo para a carreira do cantor. Foi morando no antigo apartamento do poeta, em Copacabana, que Melodia começou a ter hábitos na Zona Sul, como o de freqüentar uma sinuca próxima ao estúdio Mega, onde grava e ensaia, no Humaitá. “Não jogo nada, mas freqüento”, diz. A relação com os restaurantes japoneses, outro de seus points prediletos, é mais próxima. O cantor tem até hashis (os tradicionais pauzinhos) próprios em dois restaurantes de São Paulo, mas não conseguiu convencer a mulher, Jane, dos benefícios da culinária japonesa. “Não como nada cru”, afirma Jane.
Da relação que dura 26 anos, nasceu Mahal, único filho do casal, de 24 anos, que passa os dias compondo raps e parece ter herdado a originalidade que fez do pai um músico difícil de ser rotulado. “As letras dele são sofisticadas”, analisa Melodia. Preocupado com a ansiedade do filho em mostrar a própria produção, o autor de “Magrelinha” ao menos tem experiência de sobra para dar conselhos. “Digo a ele pra ficar calmo, porque o pai demorou anos pra aparecer. E até hoje é difícil pra mim.”