quinta-feira, 28 de maio de 2009

LOTOCRACIA

A entrevista tinha sido marcada pelo próprio. Era a voz dele no telefone, inconfundível, concordando com a hora e o local, Rua Alegrete, porque ele tinha nascido em Alegrete, no Sul. Mas o interfone foi tocado com certa insistência, quatro vezes, duas mais longas, e nada do cara responder. Eis que chega outro morador do prédio, abre o portão eletrônico e os toques passam a ser na campainha da porta do apartamento. Dois, três, o terceiro duplo, e ouve-se a voz dele ao fundo, inconfundível.

Já vai.

Pereio vestia algo entre bermuda e pijama, havaianas das antigas e camisa social branca, de manga curta, aberta até o umbigo. Vinha de uma temporada de três anos em Olhos D’Água, pequena e pacata cidade do interior de Goiás. Foi pra lá, como disse na entrevista, para “atingir a temperança”. E disse isso com essa cara aí embaixo, à esquerda, de uma das quatro fotos que ilustraram a matéria

Aliás, o cara disse coisa à beça em uma hora de conversa, e como era para uma revista de celebridades – e o espaço dado a gente como Pereio nesse caso não é grande –, muita coisa acabou cortada. Ficou de lado, por exemplo, a sugestão dele para reformular radicalmente o sistema político-eleitoral do País. Na opinião do cara que traçava a Sônia Braga em Dama do Lotação – e falava pro Nuno Leal Maia, marido dela, que só tinha ele no mundo como amigo – a solução para o Brasil era a Lotocracia. A Presidência decidida por sorteio.

O sujeito dá uma cagada e vira presidente da República, resumiu, sucinto, sem se alongar sobre o tema, com a cara da foto aí em cima, à esquerda, e das outras duas ali embaixo, depois de atingir a temperança.

Com vocês, Paulo César Pereio.

Revista Istoé Gente, edição número 107, de 20 de agosto de 2001

"Atingi a temperança. Voltei a ser normal. Fui muito desmedido e, com a idade, o corpo não agüenta os exageros. Deixei de ser um adolescente senil".

Ator de 63 filmes e com 43 anos dedicados ao teatro, Paulo César Pereio, 60, nunca fez mais do que participações esporádicas na tevê. Sua última participação foi em 1997, em Hilda Furacão, na Rede Globo. De volta à emissora na minissérie Presença de Anita, Pereio quer mudar esta estatística. Depois de uma temporada de três anos em Goiás, para superar uma confessa tendência ao exagero, seja com drogas, álcool e até comida, o ator diz ter atingido o equilíbrio. Nada que o impeça, contudo, de reativar sua metralhadora giratória. Expulso em abril da peça Hamlet – que está em cartaz em São Paulo – sob a acusação de assediar uma atriz, o ator critica Diogo Vilela, protagonista e produtor do espetáculo. “Ele não quer que tenha um cara fazendo sombra a ele”, diz Pereio, pai de Lara, 28, Tomás, 22, João, 17, e Gabriel, sete.


A volta à tevê é definitiva?
Meu problema era mais com novela. Em alguns casos era quase como servir o Exército. Oito meses tendo de estar maquiado às 7h. Hoje há condições melhores. Mas prefiro fazer personagens de impacto com uma permanência não muito superlativa, como em Presença de Anita. Se o cara não está na “Grobo”, está morto. Duas vezes por semana passa filme meu no Canal Brasil, então eu estou no cinema. Picasso morreu, mas se fizerem uma exposição, a arte dele vai estar lá.

Você prefere fazer teatro?
Às vezes é uma lenha, como agora com o Diogo Vilela e o Marcus Alvisi (diretor de Hamlet), uma turma que não tem nada a ver. Vi opiniões da Bárbara Heliodora (crítica de O Globo), do José Celso Martinez Corrêa, dizendo que minha estatura artística era muito superior à deles. Isso incomodou os caras. Fui expulso da peça como tarado. Deixei gravada uma brincadeira na secretária eletrônica de uma atriz (Rita Elmor), falei: “Tara, você é minha tara”. Ela se queixou com o Diogo dizendo que tinha medo de mim. Isso serviu de pretexto para me chutarem. O Diogo não quer um cara que faça sombra a ele.

Mas o que acontecia?
Quando eu fazia o Fantasma, ele ficava um pouco chateado e reclamava que eu não olhava pra ele. Toda hora tinha piti. E aí teve esse episódio estranho. Queria convidar o pessoal para assistir a um filho meu, o João, numa peça. Telefonei para a menina. Há dois meses a gente convivia e nunca faltei com respeito. Ela trabalhava na Globo, tem filho, não é ingênua. Deixei gravada a brincadeira. Agora ela deve estar arrependida e sabe que foi usada. O Diogo não estava agüentando. E os caras não iam dizer: “Ô Pereio, você tá fazendo muito bem, piora aí”. Quando fui expulso não argumentei nada. Mas fiquei um pouco aliviado. Estava me sentindo um estranho no ninho.

Por que se isolou três anos em Goiás até voltar ao Rio para fazer Hamlet?
Morava em Olhos D’Água, uma cidade a 90 quilômetros de Brasília. Queria uma vida mais equilibrada. Se você quer evitar as drogas, álcool, continuar vivendo em situações que te seduzam para isso não é muito inteligente. Fui para lá atingir a temperança. Tenho tendência ao exagero. Sou uma pessoa extremada, até para comer.

Você parou de beber e de usar drogas?
Atingi a temperança. Voltei a ser normal. Fui muito desmedido e, com a idade, o corpo não agüenta os exageros. Deixei de ser um adolescente senil. Durante a peça, forcei a barra para ficar abstêmio. Exagerei no bom comportamento. Com a expulsão tive uma pequena crise alcóolica. Tirei um pouco a válvula da panela de pressão. Meu filho, João, ficou preocupado e procurou o Antônio Pedro (ator), o Hugo Carvana e o Tunga (artista plástico). O plano era me internar em São Paulo. Quer dizer, era seqüestro. Achei engraçado o Antônio Pedro dar uma dessa porque ele estava no elenco da peça e viu que eu não estava maluco. O Carvana estava começando um filme. Pô, se ele estava preocupado, tinha personagem à beça pra eu fazer no filme dele.

Como foi colocar um marcapasso?
Tive um bloqueio no coração. Botei o marcapasso e voltei a ser normal. Foi há dois anos e até agora nem examinei. Se por acaso começar a baquear eu vou lá e troco por outro. É um geradorzinho.

Como se relaciona com sua ex-mulher, Cissa Guimarães, depois que passou oito dias preso por não pagar pensão, em 1994?
Foi uma declaração de amor dela. Foi ciúme. Eu tinha engravidado outra mulher. Me botar na cadeia foi uma manifestação. Foi só falar bem e ela abriu a cela logo, a chave estava com ela. Eu não ia pagar mesmo.

Pretende se casar de novo?
Não, não sou bom nisso. Há cinco anos namoro uma cientista da Fundação Oswaldo Cruz. Ela tem o filho dela, eu tenho os meus. Moramos no mesmo prédio, mas ela na casa dela, e eu na minha.

sábado, 18 de abril de 2009

TREM DAS CINCO

A matéria começou no início da noite anterior, no banheiro da redação, quando um gesto atolado levou o papel de enxugar rosto ao olho. No dia seguinte, às 4h45, o carro do jornal parava na frente de casa, com destino a Japeri. O olho estava vermelho, lacrimejava um pouco, e nem colírio nem lenço estavam resolvendo o negócio.

O jornal tinha feito pesquisa sobre os transportes públicos da cidade e a pior avaliação era dos trens, administrados na época pelo governo do estado. A pauta era conferir essa avaliação in loco. Escolher um dos ramais, no caso Japeri, achar alguém que fosse até o fim da linha, na Central, e pegar o primeiro trem ao lado do personagem. Fomos eu e o fotógrafo Marcelo Sayão, sujeito que, ao meio-dia no verão do Rio, já traçou uma feijoada completa antes de uma pauta em Bangu.

Em Japeri, às 5h10, foi fácil achar a personagem. Na primeira abordagem, apareceu dona Cirlene. O olho incomodava, ardia, e ela faria a viagem até a Central, num trajeto que repetia há 13 anos. Conversamos bastante até a terceira estação. Depois ela continuou sentada e eu fiquei em pé, com a batata da perna encostada na perna de outra senhora sentada, um dos braços colado na costela de um sujeito ao lado e o queixo a milímetros do couro cabeludo de uma dona baixinha, que se agarrava à barra onde eu também segurava.

Ninguém se movia, praticamente, e pro Sayão foi mais difícil; mas ele resolveu o problema enfiando meio corpo pra fora do trem e fazendo uma foto bem ilustrativa de mais um novo dia nessa nossa cidade maravilhosa. De um lado, imagens borradas de barracos na beira da ferrovia, efeito da velocidade nem tão alta assim do trem. Do outro, gente espremida numa janela, em primeiro plano o sujeito de olho fechado, tentando abstrair alguma coisa, e a senhora encarando a câmera com cara de zangada. Ao fundo, três metades de corpos pra fora da porta, de costas pra lente, a vislumbrar o horizonte onde os últimos vagões faziam a curva e, lá atrás, o sol começava a despontar. E o olho doía.

Hoje o sistema ferroviário do Grande Rio é privatizado. Não tive a oportunidade de voltar a andar de trem desde então, mas, pelo que aconteceu na quarta-feira, acho que não mudou muita coisa.

A matéria abaixo foi publicada dentro de uma arte que mostrava os trilhos e as estações. Cada estação era um quadradinho de texto acompanhando o trajeto do trem. Por isso essa estrutura. Quanto ao olho, só ficou bom após consulta médica, aplicação de pomada e dois dias de visão tapada, sem tirar o curativo, pra cicatrizar a ligeira lesão na córnea que o papel do banheiro da redação havia provocado, segundo o oftalmologista.

Jornal do Brasil, edição de domingo, 18 de agosto de 1996:

“Já teve homem que puxou o revólver só pra pegar o lugar do outro. Também já vi uma mulher pegar uma tesoura e ameaçar um cara que tava se esfregando nela. Esse tipo de coisa é normal aqui”

5h10, estação de Japeri. A empregada doméstica Cirlene Pereira, de 51 anos, espera uma amiga para entrar no trem que, se tudo correr bem, a levará até a Central em uma hora e meia de viagem. “Não dá pra confiar no trem porque a gente nunca sabe se ele vai quebrar”, diz, com a autoridade de quem segue a mesma rotina há 13 anos.

5h35. Cirlene já está sentada no trem, que parte com cinco minutos de atraso. Sentar, aliás, é um luxo restrito aos moradores de Japeri e aos mais rápidos de Engenheiro Pedreira, a segunda parada do percurso. “Depois disso, achar lugar é o mesmo que ganhar na loto”, compara Cirlene, que da Central ainda pega um ônibus em direção à Zona Sul, onde trabalha.

5h42, estação de Queimados. O trem chega à 3ª estação do ramal de Japeri e já está lotado. Espremida no banco, Cirlene estranha a tranqüilidade da viagem. “Já teve homem que puxou o revólver só pra pegar o lugar do outro. Também já vi uma mulher pegar uma tesoura e ameaçar um cara que tava se esfregando nela. Esse tipo de coisa é normal aqui”, conta. Medo mesmo ela só sente há pouco tempo, com a divulgação das suspeitas de sabotagem no sistema da Flumitrens. “Todos aqui estão preocupados”, afirma a doméstica.

5h57, estação de Nova Iguaçu. Depois de passar por Comendador Soares e Austin, o trem chega à sexta estação do ramal. De Nova Iguaçu, o carro segue viagem abarrotado e já com passageiros pendurados do lado de fora das portas, que não mais serão fechadas até o fim do trajeto. Apesar da superlotação, os passageiros garantem que o trem está vazio. “Hoje tá muito bom, dá até pra se mexer”, diz um deles, revelando o bom humor necessário para suportar a viagem.

6h30, estação de Cascadura. A situação começa a melhorar. Depois de quase uma hora de viagem e de passar por 16 estações, o trem já não está superlotado, e deve seguir assim pelas três estações restantes, até a Central. “Só é assim quando não tem atraso, ou o trem não quebra, o que é raro”, se apressa em alertar Cirlene.

7h, Central do Brasil. Após passar uma hora e meia espremida entre centenas de pessoas, a doméstica sai comemorando o que, segundo ela, foi uma das melhores viagens de trem da sua vida. Apesar da felicidade momentânea, Cirlene não pensa duas vezes antes de dar uma nota para os trens urbanos: “É zero”.

terça-feira, 14 de abril de 2009

TRAPALHÃO

O cara botou Novalgina e Sonrisal no nome de um personagem e deu certo; escreveu cenas que jamais saíram da memória de quem as viu; pulverizou, com a ajuda de Mussum e Zacarias, qualquer idéia que Chico Buarque tenha tentado passar pra quem escuta Teresinha; quintuplicou a popularidade de Amelinha com uma paródia; e ainda por cima é Vasco. Por que, então, esse cara não pode escrever um romance?

Quando Renato Aragão resolveu estrear na literatura e publicou Amizade Sem Fim, um romance com cenas de sexo e violência, a crítica caiu de pau, com direito a resenha irônica em revista de circulação nacional. O livro foi um dos ganchos da entrevista, feita na casa dele, enquanto uns gatos circulavam entre os sofás da sala que dava pra uma piscina. O outro gancho era a proximidade dos 70 anos do cara que escreveu, entre dezenas de roteiros, Saltimbancos Trapalhões, O Cangaceiro Trapalhão e Os Trapalhões e o Mágico de Oroz. E que escreveu também – por que não? – Amizade Sem Fim, se bem que o romance dele eu não li ainda.

Revista Istoé Gente, edição número 276, de 22 de novembro de 2004:

"Sou um palhaço, vou morrer fazendo humor infantil, circense, primário, humor de palhaço. Para isso não como carne, gordura, fritura, bebo só socialmente. Para conservar o meu físico, poder pular, saltar janela, porque o meu humor é visual. O dia que eu não puder fazer tudo isso, vou parar."

Os fãs de Didi Mocó que aguardem. Renato Aragão, que completará 70 anos em janeiro, lança na quarta-feira 17 seu primeiro romance, Amizade sem Fim, pela editora Mondrian. A história, que aborda temas religiosos, mostra a violência carioca e cenas de sexo, desconstrói a imagem do humorista cultivada há décadas. Há dois anos ele escreveu um livro de pensamentos, Meus Caminhos. Dessa vez se propôs um desafio maior. Pai de cinco filhos (Paulo, 43, Ricardo, 41, Renato Jr., 38, Juliana, 26, e Lívian, 5) e avô de oito netos, Renato garante: essa é mais uma de suas facetas. Casado há 13 anos, com Lílian Taranto, 37, mãe da filha caçula, ele não pensa em abandonar o humor circense que o tornou famoso. Só não gosta de rever seus filmes antigos, por um único motivo. “Tenho muita saudade”, resume, referindo-se aos companheiros Mussum e Zacarias, já falecidos.

Por que decidiu escrever um romance?
A idéia surgiu da minha prática com roteiros. Escrevi 37 dos mais de 40 filmes que fiz. Nos últimos, surgiam idéias que não eram para temas infantis, não tinha como encaixar o Didi nelas. Comecei a perceber que aquilo daria um livro. O tempo foi passando e fui criando mais coragem. Por que não podia fazer um livro? Não era uma coisa errada. Tenho projeção nacional como palhaço, mas tinha também a pretensão de escrever pelo menos um romance.

Não tem receio da crítica?
Tenho medo de se aproveitarem do Didi. Eles já vêm pra cima de mim como se fosse um livro do Didi Mocó, mas estou calejado. Nos meus filmes, estou acostumado a levar porrada. Quanto mais eu levava porrada mais bilheteria dava. O que tenho a dizer é que fiz um livro com seriedade e com minha experiência de redação nos roteiros. Se você entra na praia dos outros, acham que é um invasor. Mas me sinto um convidado, e garanto que não vou jogar papel nem garrafa na praia dos outros.

O livro tem cenas de violência e sexo. Não teme chocar seu público infantil?
Quem escreveu o livro foi o Renato Aragão. Meu público vê o Didi Mocó. Essa é a minha saída. Não quero deixar meu público infantil, mas o romance é outra faceta minha que não queria deixar guardada num canto. Tenho o direito de fazer alguma coisa diferente.

Nunca pensou em mudar de profissão?
Sou um palhaço, vou morrer fazendo humor infantil, circense, primário, humor de palhaço. Para isso não como carne, gordura, fritura, bebo só socialmente. Para conservar o meu físico, poder pular, saltar janela, porque o meu humor é visual. O dia que eu não puder fazer tudo isso, vou parar.

A chegada dos 70 anos o incomoda?
Não fala disso, não. É tanta idade que eu até nem sei mais. Minha mulher quer comemorar essa data, mas eu não gosto disso, não. Sei lá, principalmente esse número. Não sei o que vou fazer com esse número. Pula isso aí.

Alguma crise?
Não, eu sou como cabrito. Vou até o último berro. A idade cronológica não me interessa. Me interessa a idade física, o que eu posso fazer no momento. Faço ginástica, passo fome, sempre fiz dieta, passei minha vida toda me policiando. Afinal, uso o corpo para fazer as crianças rirem, é minha ferramenta de trabalho.

Como mantém a forma?
Jogo futebol uma vez por semana e caminho sempre que posso, de 30 a 40 minutos. Aliás, eu dou conselho a qualquer um: troque seus remédios, seus comprimidos por um par de tênis, porque ele resolve todos os seus problemas físicos, mexe com tudo, seu corpo, sua cabeça. Aquela insônia, aquela depressão que às vezes você tem, tudo passa.

Em algum momento de sua vida se achou velho?
Tive a crise do vovô. Foi terrível. Me senti velho mesmo, foi a única coisa que me derrubou. A enfermeira chegou com minha neta dizendo “olha aí o vovô”, e eu disse “que que é isso?”. Queria já sair na porrada com a enfermeira. Foi difícil na época, mas hoje em dia já esculhambou tudo, tenho oito netos. Me acostumei. A tudo você se acostuma, né? (a neta mais velha de Renato é Inara, 22 anos, filha de Ricardo).

Ser pai aos 64 anos rejuvenesce?
Isso é verdade. Quando pensei que tinha encostado a chuteira vi que iria começar tudo de novo. Na verdade é isso. A liberdade que você tinha acaba. É o único problema. No resto, é maravilhoso, parece que você revive, renasce. Vou ter que viver o suficiente para dar uma boa educação a Lívian. Isso é a única coisa com a qual me preocupo.

É um pai presente?
Vou buscar no colégio sempre que posso e já fui até a festa de criança na escola. Foi uma festa caipira. Para mim é complicado ir a essas festas. A criançada cai em cima, fica aquele tumulto. Adoro, mas quando a coisa aperta eu saio fora. Dessa vez não podia decepcionar, todos os pais estavam lá. Eram mais de mil pessoas. Ainda bem que tinha gente do colégio que compreendeu a situação. Cheguei lá, dei um tchau pra Lívian, ela piscou pra mim, e quando a garotada veio eu atendi rapidamente e saí logo depois. Cumpri minha missão.

Restringe os programas que a Lívian assiste na televisão?
Nem eu nem a Lílian deixamos ela ver violência ou programas impróprios. Você hoje assiste um desenho animado japonês e o cara desmancha a cabeça do outro com uma pistola do futuro, o futuro dela. Se você for ver todos os canais, tevê aberta e a cabo, vai ter uns 80 assassinatos por dia, um mau exemplo danado. Mas a gente também não diz “sai daí”, não, porque o proibido atrai. Quando começa a passar algo que achamos ruim falamos “Lívian, dá licença um instantinho, vamos ver o que tem ali no outro canal?”.

Como se sentiu ao ser acusado pelo Grupo Gay da Bahia (em julho passado) de insultar os homossexuais com suas piadas?
Quem faz humor tem que ser irreverente. Não se pode, em lugar nenhum, ser 100% politicamente correto num veículo de comunicação. Mas eu policio tudo, procuro não sacanear muito as pessoas gordas, nem as feias ou os homossexuais. Mas, enfim, o humor vive disso, então temos de dar uma pincelada sem agredir ninguém. Agora, quem de vez em quando não dá um escorregão? Às vezes, você acha que não atingiu ninguém com uma piada e atingiu. Há muitos anos, ainda na Tupi, fiz um super-homem que bebia óleo e tomava sopa de prego, era o homem de ferro. Não percebi nada, nem o diretor do meu programa, mas alguém viu e lembrou que as crianças em casa podiam, de repente, pegar um bocado de prego ao alcance da mão e botar na água para tomar. Olha o problema criado. Temos que ter muito cuidado com isso.

Acha que a cobrança em ser politicamente correto está maior hoje em dia?
Hoje não poderia metade das piadas dos Trapalhões. O Mussum, por exemplo, tomava umas e assumia. Isso era verdadeiro e era ótimo. Ele dizia: “Vim do morro, posso tomar pinga e não vou esconder, que é pior”. Mas o Mussum tinha uma cumplicidade com os espectadores que mostrava que só ele podia fazer aquilo, o resto, não, porque só quem se estrepava na piada era ele. Hoje nem comentar isso em televisão você pode, e eu sou o maior fiscal disso. Vejo nas novelas o ator chegar em casa e pegar um copo de uísque. Os amigos vão a um bar conversar e já tem cerveja. Não pode fazer isso. Você tá induzindo inconscientemente o adolescente que tá começando na vida a chamar o amigo para ir a um bar, está fabricando alcoólatras.

Você concorda com quem diz que A Turma do Didi está parecida com os antigos Trapalhões?
Foi coincidência isso. Decidi montar uma curriola exatamente para não ficar parecido, porque na época que começamos A Turma a Globo estava reprisando os Trapalhões. Aí o Jacaré e o Tadeu Mello se identificaram com Mussum e Zacarias. Só faltava trazer o Dedé Santana, se bem que o Marcelo Augusto também ficou um pouco parecido com ele. A garotada gostou deles, mas é o pessoal que não conheceu os Trapalhões e não compara, porque o duro é a comparação. Ninguém iria aceitar se fosse uma substituição. Tem substituto para o Mussum? Para o Zacarias? Para o Dedé? Não, eles são eles.

quarta-feira, 4 de março de 2009

MIMA

A voz do outro lado do telefone estava revoltada, porque uma macaca, dizia ela, mordera a criança de seis anos, filho dela; e a bicha era uma fera, enchia o saco de todo mundo no Alto Leblon, entrava nas casas pra roubar comida, infernizava os cachorros etc etc etc. Problema sério, talvez o maior do bairro no momento.

Três telefonemas depois, a macaca já tinha nome, Mima, história e sentença. Apesar de alimentada por moradores da área, era culpada. De roubo, invasão de domicílio e agressão a uma criança de seis anos. A arte da matéria retratou a bicha com dentes de vampiro e olhar diabólico e assim ela saiu no jornal, o que motivou outro telefonema, mais revoltado do que o primeiro.

Porque aquilo era uma injustiça, a macaca era ótima, dizia a senhora de idade, que dava ovo, banana, amendoim e milho pra Mima, todo dia. E ela era mansa, só tinha mordido o garoto porque aqueles meninos, uns demônios, ficavam atirando pedras na coitada; e se o Ibama aparecesse pra levar ela embora, iam ver só. Ia descer todo mundo na rua pra impedir.

Em nova leva de telefonemas, surge a origem da macaca no Leblon, novos nomes para ela e uma denúncia grave. Um roubo, de uma arma branca. Mas a segunda matéria é totalmente favorável à Mima, um libelo pela liberdade dos animais silvestres, pela convivência pacífica entre as espécies, apenas com um aviso sutil no fim. Afinal de contas, alguém denunciara um roubo, de uma arma branca.

Abaixo, as duas matérias.

Jornal do Brasil, edição de quinta-feira, 12 de setembro de 1996

“Meu filho aproximou-se da macaca porque ela estava na calçada e, sem ter feito nada, foi atacado. Ela arranhou e mordeu a perna dele”.

Uma macaca-prego, com menos de 60 centímetros de altura, vem acabando com a paz num dos locais mais tranqüilos do Rio. “Moradora” do Alto Leblon e conhecida pelos “vizinhos” das ruas Sambaíba e Timóteo da Costa, a macaca já atacou um menino de 6 anos e tem o hábito de invadir casas da região para roubar comida. Apesar dos transtornos que costuma causar, conquistou a simpatia de alguns moradores, que a alimentam com frutas e biscoitos.
Apelidado de “Mima”, o animal pertencia a uma antiga moradora da Rua Sambaíba, que se mudou há cerca de três anos e não o levou. “Mima” continuou na Sambaíba, sem incomodar ninguém, até ser expulsa por uma obra no terreno da casa onde costumava se esconder. Desde então, tem sido vista com mais freqüência no Leblon, nas redondezas do número 149 da Rua Timóteo da Costa.
No último dia 30, a macaca atacou Ricardo, de 6 anos, quando o menino voltava da escola. “Meu filho aproximou-se da macaca porque ela estava na calçada e, sem ter feito nada, foi atacado. Ela arranhou e mordeu a perna dele”, conta a comerciante Patricia Marcondes, de 36 anos, moradora do número 215 da Timóteo da Costa. Patricia chegou a pedir que o Ibama tomasse alguma providência em relação ao animal, mas não obteve resposta. “Tenho ligado diariamente pra lá, mas eles não fazem nada”, protesta.
Sem ser incomodada, “Mima” continua exercitando sua ousadia pelas casas do Leblon. Um de seus passatempos prediletos é invadir o apartamento do diretor de fotografia Luís Paulo Peixoto, no quarto andar do número 91 da Sambaíba. “Ela aparece de vez em quando na varanda, para roubar a comida do meu cachorro, e causa um tumulto enorme. Fica a macaca gritando de um lado e o cachorro latindo do outro”, conta Luís Paulo.
De acordo com o biólogo Valdir Ramos Júnior, da Fundação Rio Zôo, o macaco-prego é uma espécie comum na Mata Atlântica e costuma alimentar-se de frutas. “Chega a ser comum a criação dessa espécie em residências. Mas seus dentes são muito grandes e uma mordida certamente causa problemas sérios”, explica o biólogo.
A atual casa da macaca-prego do Leblon fica ao lado de uma produtora de vídeo, onde “Mima” já é mais do que conhecida. “Trabalho aqui há um ano e sempre vi essa macaca. Quem está há mais tempo no bairro diz que ela é antiga na área. Muita gente a alimenta, mas ninguém é dono dela”, diz a secretária da produtora, Lúcia Cosenza, de 31 anos.
Alimentada por uns e odiada por outros, o certo é que “Mima” não deverá desfrutar da vida de moradora de um dos bairros mais valorizados do Rio por muito tempo. “Na sexta-feira (amanhã) vamos deslocar um carro para recolher a macaca”, garantiu, ontem, o chefe de Fiscalização do Ibama, Luís Antônio Ferreira.

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Jornal do Brasil, edição de sábado, 14 de setembro de 1996

“Toda a rua está de sobreaviso. Se o Ibama chegar, vamos descer e impedir que levem a macaca. Ela é mansa e só mordeu o garoto porque os meninos costumam jogar pedras nela”.

Uma campanha de moradores do Alto Leblon pode fazer com que o Instituto Brasileiros de Recursos Naturais e Renováveis (Ibama) desista de recolher a macaca-prego que há sete anos habita um dos bairros mais prestigiados do Rio. Denunciada pela comerciante Patricia Marcondes – que teve o filho arranhado pelo animal –, a macaca seria recolhida pelo Ibama ontem, mas os técnicos do instituto preferiram reavaliar a situação.
Enquanto o Ibama decide se recolhe ou não o animal, os ecologistas de ocasião do Alto Leblon se mobilizam para defender a “vizinha” contra os moradores que não agüentam mais a ousadia da macaca, também acusada de invadir casas para roubar comida e objetos. “Toda a rua está de sobreaviso. Se o Ibama chegar, vamos descer e impedir que levem a macaca. Ela é mansa e só mordeu o garoto porque os meninos costumam jogar pedras nela”, diz Lia Machado Portela, 73 anos, moradora do número 179 da Cortes Sigaud, que alimenta a macaca diariamente com ovos, banana, milho e amendoim.
Além de colecionar simpatizantes e desafetos, a macaca-prego do Leblon é pródiga em nomes. Mima, Chiquinha e Monkey são apenas alguns dos apelidos que ganhou ao longo dos sete anos de convivência com os “vizinhos”. A primeira moradora da área a batizar o polêmico animal foi a psicoterapeuta Márcia Gruber, de 54 anos, dona da primeira casa da macaca no Leblon, no número 68 da Rua Sambaíba. “Nós a chamávamos de Monkey (macaco em inglês). Ela ficava no forro do sótão da casa e convivia perfeitamente conosco e com nossos cachorros. Depois, mudamos para um apartamento e ela ficou sem ter para onde ir”, conta.
Apesar da simpatia que angariou junto a moradores como Lia, Monkey não é acusada apenas por perturbar a ordem no Alto Leblon. “Ela já invadiu meu apartamento várias vezes e roubou um canivete do meu filho, que até hoje não consegui recuperar”, denuncia a empresária Márcia França Gomes, de 46 anos, moradora do número 215 da Timóteo da Costa. A assessoria de imprensa do Ibama informou ontem que o instituto ainda está estudando o que fazer com a macaca-prego mais famosa da zona sul carioca. Enquanto isso, ela continua a circular pelo Leblon, e agora pode estar armada.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

HONÓRIO, O GURGEL – A OFERTA

Como de praxe, os caronas não paravam de tripudiar do carro. Eram dois colegas de trabalho e uma amiga, bela amiga. Voltávamos todos do velho JB, hoje um esqueleto que, dizem, vai virar hospital, e desde o rock in rio – o estacionamento do jornal, cujo chão de terra, em dias de chuva, lembrava o charco do primeiro festival – os três só sacaneavam o bom e velho Honório.

Um falava do barulho de coisas pendentes, marca registrada do carro; outro reclamava de andar encurvado, da falta de espaço; e a outra ria do teto solar amarrado com barbante. Ficaram nisso o tempo todo, da Avenida Brasil a Laranjeiras, achando defeitos aqui e ali no valente Gurgel, até que no final da Pinheiro Machado, ao lado da pedreira, emparelha conosco um sujeito num Del Rey prateado.

Estávamos em 1997 e o Del Rey já havia saído de linha há quase tanto tempo quanto o Gurgel. A identificação entre os dois veículos já seria natural, mas o motorista do Del Rey, que trafegava sozinho e parecia o James Belushi, resolveu aproximar de vez os laços entre os dois carros. Com a cabeça pra fora da janela, nós dois a uns 50 por hora, gritou:

Muito maneiro esse teu carro, cara! Quer trocar?

O sujeito estava visivelmente transtornado e o problema devia ser no casamento dele, porque quando sua primeira oferta foi recusada, já entrando na Muniz Barreto, ele emendou com um lance maior, definitivo:

O carro e a minha mulher! Vai?

Nova recusa, ainda a 50 por hora, e o trânsito tratou de nos separar para toda a eternidade. Dentro do Gurgel, todos gargalhavam e ninguém mais falava mal do carro.

Esse texto é uma homenagem um tanto tardia a João do Amaral Gurgel, o sujeito que simplesmente inventou o Gurgel, essa maravilha da indústria automobilística nacional. João morreu no último dia 30 de janeiro. Fica aqui a homenagem do Relatos ao grande empreendedor.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O PALESTINO

O assunto já era complicado. O Oriente Médio. E pra dificultar ainda mais a entrevista seria em inglês, sem intérprete, com um cineasta palestino pouquíssimo conhecido por aqui, que mostrava o filme dele no Festival do Rio. Ver o filme, então, seria fundamental.

Mas aquela fila, na sala 2 do Espaço Unibanco, tava estranha à beça. Só pessoas do sexo masculino, algumas de mãos dadas, muitos cavanhaques e talvez até um quepe preto, se não for invenção da memória. Por isso a necessidade de cutucar o cara da frente e perguntar se aquele filme não era o do cineasta palestino, ao que o sujeito, dono de um dos cavanhaques da fila, respondeu, com expressão de espanto e a língua presa:

Nãããão, o filme é a biografia de um ator pornô.

Por sorte, os horários coincidiam e deu pra chegar na sala 2 do Estação Botafogo, a uns 200 metros dali, antes do início da sessão, o que salvou parte da entrevista do dia seguinte, no Copacabana Palace. O resto foi salvo pela paciência do entrevistado, principalmente com o inglês de índio do entrevistador.

A matéria tá aí embaixo, graças também ao gravador, aparelhinho às vezes dispensável, mas que é primordial em algumas situações. Pra entender melhor o que foi dito numa entrevista, então, com calma, voltando a fita várias vezes, é uma maravilha.

Revista Istoé Gente, edição 221, de 27 de outubro de 2003

"Os governos dos países árabes fazem uma lavagem cerebral nas pessoas, usando a causa palestina em prol do nacionalismo árabe. Mas nosso drama não os atinge"

O cineasta palestino Elia Suleiman, 42 anos, mora em Paris, viveu 14 anos em Nova York, onde iniciou a carreira, mas não se desliga dos problemas do Oriente Médio vividos desde a infância. Nascido em Nazaré, cidade de maioria palestina ocupada por Israel desde a criação do estado judeu, em 1948, ele tratou do tema em dois filmes premiados: Crônica de um Desaparecimento, eleito melhor filme do Festival de Veneza em 1996, e Intervenção Divina, que ganhou o prêmio internacional da crítica no último Festival de Cannes, foi exibido no Festival de Cinema do Rio de Janeiro e tem lançamento previsto para janeiro.

O que mudou entre os dois filmes?
Em Intervenção Divina, as coisas pioraram. Se mostrei uma situação extrema, mais violenta, é porque no primeiro filme tudo estava sob a superfície. Mas acho que esse filme tem até mais humor que o outro.

Já teve problemas por usar o humor para falar das tensões entre judeus e palestinos?
Com Crônica de um Desaparecimento, fui criticado no Chartage Film Festival, na Tunísia, por causa de uma cena irônica mostrando a bandeira israelense. Pensaram que eu estava vendendo minha alma ao diabo. Os governos dos países árabes fazem uma lavagem cerebral nas pessoas, usando a causa palestina em prol do nacionalismo árabe. Mas nosso drama não os atinge. O humor então não é permitido, como se não tivéssemos o direito de rir de nós mesmos.

Não acha que os países árabes ajudam a causa palestina?
Eles não conhecem o assunto. Muitos árabes não têm nem sequer o senso da geografia da Palestina. E por que os governos árabes iriam querer um verdadeiro estado democrático palestino? Seria contra o que eles são: monarquias com muito petróleo, onde poucos são ricos e todos em volta, pobres.

Como foi ter um filme (Crônica de um Desaparecimento) financiado pelo Fundo Israelense para Qualidade dos Filmes?
Foi uma luta. O roteiro foi premiado pelo júri deles, mas queriam me dar menos do que a verba prevista. Constituí advogado, fomos à Suprema Corte e provamos meu direito. Eles ainda queriam brigar para que o filme fosse classificado como israelense. Então eu disse não. Foi uma co-produção de Israel e França e assim foi classificado. Quase fomos à corte por isso também.

Esse também foi o problema no Oscar (em janeiro desse ano, a Academia retirou Intervenção Divina da disputa por não considerar a Palestina um país)?
Aquilo foi mais uma conseqüência de um problema maior
e mais antigo. Sempre quis que meus filmes fossem palestinos, mas para Israel e seus aliados a Palestina não existe. É insuportável para eles a noção da Palestina existindo dentro de Israel. Por isso nos deram esse nome político de árabe israelense, para negar o fato de que antes de 1948 havia uma história.

Como é ser um palestino em Israel?
É um completo apartheid. Eles olham para baixo diante dos palestinos. Nós nos sentimos inferiores em nossa própria terra, que foi tomada por outro país. Me lembro de quando era pequeno e ia com minha mãe a uma área judia comprar algo. Se eu falasse alto em árabe, ela logo me mandava fazer silêncio, porque, se percebessem nossa origem, iriam nos tratar de forma rude.

Por que escolheu fazer cinema?
Queria fazer filmes desde os 20 anos, mas não tinha condições. Até que, em 1991, um sujeito de origem libanesa que estava fazendo um vídeo em Nova York me contratou para traduzir do árabe para o inglês. Preparei um projeto sobre como os árabes eram vistos pela mídia ocidental e negociei para que, em vez de receber pagamento, meu material fosse aproveitado. Foi um sucesso e ganhei uma comissão para fazer um outro vídeo, que me deu recursos para um pequeno filme (Guerra do Golfo... E Depois?, de 1993).

Teve outros empregos?
Primeiro lavei louça em Londres, para onde fui aos 17 anos. Tocava bateria numa banda heavy metal em Nazaré e queria ver shows de rock em Londres. Deixei crescer uma barba porque não tinha idade para entrar no bar onde trabalhava. Também fui operador de fotocopiadora em Nova York. Eram 12 horas por dia na máquina, o que me deixou com trauma do barulho da folha indo e voltando. Os três primeiros anos em Nova York foram terríveis. Tinha 21 anos, tentava sobreviver e estava ilegal. Foi uma verdadeira experiência paranóica, imaginando a imigração na minha porta o tempo todo.

domingo, 14 de dezembro de 2008

SÉTIMO DIA

A esperança tinha acabado havia uns bons vinte minutos. Com 2 a 0 contra e nenhum dos resultados necessários acontecendo, a tragédia era inevitável. Mas sair do estádio era impossível. Um anjo exterminador qualquer o impedia, o mantinha de pé, em cima da cadeira social, como muitos que também não conseguiam deixar o local, já meio vazio.

Nos minutos finais, esqueceu o jogo e decidiu observar só o xará em campo. Queria ver a reação dele com o apito final. Uma espécie de homenagem, já que, sem vontade de gritar porra nenhuma, mal acompanhou o Ah! É Edmundo! entoado perto do fim da partida. O time estava rebaixado, mas a homenagem era válida, porque era o último jogo da carreira do cara e porque o que ele fez em 1997 é para ser reverenciado em qualquer circunstância, não importa um Mundial perdido, muito menos uma Copa do Brasil. E com o rebaixamento consumado, Edmundo cobriu o rosto com a camisa e, de cabeça baixa, começou a andar na direção do vestiário, para logo ser encoberto por um enxame de jornalistas, como na conquista daquele Brasileirão antológico.

E nem depois disso ele conseguiu sair do estádio. Ficou em pé nas cadeiras por uns cinco, dez minutos, observando colegas de sofrimento como o garoto de dezesseis anos, no máximo, que usava uma dessas camisas retrô, do time de 87, o que o fez lembrar que ele tinha uma camisa igual àquela no armário, com a diferença que a dele não era retrô.

O garoto fazia cara de dor e não chorava. Estava entre os abnegados que ainda conseguiam gritar o nome do time, que ainda tinham forças pra dar provas ostensivas de seu amor pelo Vasco. Mirrado, sozinho, chegou a berrar contra quatro sujeitos umas oito fileiras de cadeiras acima dele, que faziam parte de outra leva de torcedores, a dos que preferiam xingar o time inteiro.

Flamenguistas! Flamenguistas! Gritava o moleque mirrado, com a camisa de 87, e era tão improvável uma porrada entre ele e os quatro adultos revoltados que estes, mesmo ouvindo o garoto muito bem, preferiram nem olhar pra ele, que às vezes batia palmas ironicamente e falava, alto ainda: Isso mesmo! Xinga o Vasco mesmo! Flamenguistas! E nisso ele teve a impressão que o garoto já chorava, mas não ficou pra conferir.

Saiu de cima das cadeiras e passou a caminhar a esmo pelas sociais. A cabeça latejava ligeiramente. O time, bicampeão sul-americano, tetra brasileiro, único dos grandes do país a começar de baixo, voltava à segunda divisão 86 anos depois de subir pela primeira e única vez, quando conquistou o campeonato carioca em sua estréia na competição, com um time de negros, pobres e mulatos, que desbancou os principais adversários – os três repletos de filhinhos de papai bem nascidos em suas hostes –, o que garantiu ao Vasco, graças a Deus, três vitórias nos três primeiros confrontos da história com os outros grandes da cidade.

Mas nada disso consolava naquele momento. Apoiado na grade entre a social e o gramado, ele ainda acompanhou o resgate de um idiota que fingiu que tentava se matar, sem noção de que poderia ter morrido mesmo com aquela brincadeira estúpida, de ficar pendurado na marquise do estádio, e que chegou rindo no hospital, andando, depois de ser salvo pelos bombeiros. E ele andava também, de um lado para o outro. Chegou perto do portão principal mas não conseguiu sair. Voltou às cadeiras e de lá retornou ao portão principal, ele que nunca sequer cogitou a possibilidade de ser um daqueles malucos que xinga dirigente, que berra no meio de todo mundo, que saiu calado do estádio até quando viu o time tomar de 4 do Figueirense, outro rebaixado.

Mas o time tinha acabado de cair pra segunda divisão, a cabeça latejava e, entre a porta trancada da sala de troféus e o bar aberto, ele gritou o primeiro Cadê a Diretoria?, dando voz ao pensamento que veio à mente assim que avistou a tribuna de honra do estádio completamente vazia. Seguiu-se então um grito mais alto, inimaginável na infância.

Cadê o banana do Dinamite?

Daí vieram uns Filhos da Puta berrados a esmo, entre outros ditos não menos raivosos, até que um segurança o abordou, ao lado do busto do Almirante. A cabeça ainda latejava, mas a visão daquele sujeito de 1,90 m e pescoço parecido com o do Mike Tyson rendeu um segundo de raciocínio lógico, suficiente para ele continuar com os gritos, mas dessa vez com um objetivo específico: livre do anjo exterminador, precisava sair do estádio, mas sem afinar.

Então continuou berrando, olho no olho do segurança gigantesco, e disse que era sócio do clube e que falaria o que quisesse, e que tava indo embora, porra! E nisso finalmente saiu do estádio, para se deparar com um grupo de PMs usando máscaras de oxigênio e com mais torcedores na mesma situação que ele, como o sujeito que tinha o rosto do Bill Murray, a calva do Phil Collins e os cabelos longos do Robertinho do Recife.

O cara também protestava contra a diretoria, e enquanto falava, de cinco em cinco segundos, que o Vasco estava na segunda divisão, que não era Série B porra nenhuma, que era segunda divisão, mostrava as três ou quatro camisas que vestia, todas do Vasco, uma por cima da outra. E tirou do bolso o ingresso do jogo, bem bolado, com a foto do Expresso da Vitória, campeão sul-americano, cinco vezes campeão carioca em sete anos, e disse que sempre guardava os ingressos, e nisso jogou aquele fora. Guardar pra quê, porra? Agora já era, e se despediu. Deixou com ele uma das duas latas de cerveja que tinha acabado de comprar e disse Vou pra lá agora, apontando pro lado da Barreira do Vasco.

Ele ainda hesitou, sem saber direito pra onde ir, até que seguiu o fluxo silencioso na direção contrária. Andou alguns segundos ao lado de outros dois sujeitos, um mais velho, outro mais ou menos da idade dele. O mais moço lembrava ao mais velho algo que tinha acontecido na semana anterior, quando o outro, ao que parece, enchera a cara sem condições físicas pra isso. E o sujeito, cabeça e bigode brancos, nem dava ouvidos. De cabeça baixa, como o Edmundo, respondeu com uma frase apenas: Hoje é uma situação especial. E o outro ficou calado.

Ele também entrou no bar perto da social. Pediu uma bohêmia, sentou numa mesa improvisada do lado de fora e bebeu até escurecer, coisa de uns vinte minutos. Depois saiu andando até os bares próximos à arquibancada, mas os dois botecos estavam fechados. Sobravam apenas três isopores no meio da rua e uns oito sujeitos bebendo latinhas em pé, observados por seis PMs, que conversavam tranqüilamente apoiados em seus porretes de borracha.

Só então decidiu procurar um táxi. Andou quase até o Pavilhão de São Cristóvão quando encontrou um, de um coroa que ouvia um programa de esporte qualquer no rádio, com alguém dando pitaco sobre o rebaixamento do Vasco. Consciente, o taxista viu a camisa do passageiro e trocou rapidamente para uma estação FM. Antes de deixá-lo no bar perto de casa, se revelou torcedor do América e disse que entendia perfeitamente o que o outro sentia.

Ele acreditou, aceitou as palavras solidárias do taxista e entrou no bar. Comprou quatro Originais e foi pra casa. Preparou um cigarro artesanal, abriu a primeira cerveja e, ainda com a camisa do Vasco, iniciou a sessão de DVDs. Começou com a Libertadores de 98 e botou depois a Mercosul, o jogo inteiro da final. Bebendo e fumando, começou a cambalear de sono no primeiro gol do Romário e antes de adormecer no sofá, com os olhos já fechados, ouviu a narração do gol da vitória, do Romário também, e ao fundo, na saída de som da televisão, a torcida gritava que o Vasco é o time da virada, que o Vasco é o time do amor.

A matéria abaixo não tem absolutamente nada demais. Nem entrevista teve. Foi só um apanhado da semana, depois de mais uma briga entre Romário e Edmundo. Mas, nesse momento difícil, resolvi botar o texto aqui, ao menos para relembrar um tempo não tão distante, em que o Vasco, mais uma vez, dominava o futebol brasileiro. Hoje a situação é outra, mas daqui a pouco volta a ser como era antes, não importa a torcida de nossa "mídia" esportiva, ou as arbitragens da CBF, ou as intervenções de governadores num clube, ou os ex-ídolos que viraram deputados. O Vasco vai voltar ao topo, porque o Vasco sempre volta. É só esperar.

Revista Istoé Gente, edição 28, de 14 de fevereiro de 2000:

"Ele é falso e me tirou tudo o que conquistei no Vasco (...) Uma pessoa que acabou de chegar não pode ocupar a posição de capitão"



"A braçadeira veio para o meu braço porque eu tenho braço. Se não tivesse, não haveria esse problema"


Durou pouco a tentativa de reconciliação entre Romário e Edmundo, as duas estrelas do Vasco da Gama e os dois maiores salários do futebol brasileiro: R$ 450 mil mensais para cada um. O pomo da discórdia entre os ex-amigos e atuais desafetos foi a disputa pela braçadeira de capitão do time. Escalado para o jogo contra o Palmeiras, no sábado 5, Edmundo deixou o estádio do Parque Antártica meia hora antes do jogo, alegando estar indisposto. No dia seguinte, já no Rio, o craque confessou que não gostou de ver Romário, que o substituíra como capitão durante as férias, efetivado no posto.
"Ele é falso e me tirou tudo o que conquistei no Vasco", disse Edmundo. "Uma pessoa que acabou de chegar não pode ocupar a posição de capitão", protesta. Romário não respondeu diretamente, mas foi irônico. "A braçadeira veio para o meu braço porque eu tenho braço. Se não tivesse, não haveria esse problema", disse, depois do treino da última segunda-feira. O bom humor de Romário não é à toa. Desde que está no Vasco, marcou 13 gols em apenas 11 partidas. Seis dos sete gols que a equipe fez na Copa Rio-São Paulo saíram dos pés do baixinho.
O presidente do clube, Antônio Soares Calçada, suspendeu Edmundo por dez dias, porque o jogador abandonou o estádio minutos antes da partida contra o Palmeiras. O presidente confirmou que a decisão de efetivar Romário como capitão do time foi tomada na véspera do jogo contra o Palmeiras. "Edmundo precisa de paz, mas ele não tem equilíbrio emocional para ser capitão", disse Calçada. "Se eu não tenho controle emocional, eles não deveriam ter me deixado ser capitão do time por tanto tempo", retruca Edmundo.
Romário, que havia jogado no Vasco no início da carreira e em dezembro voltou ao clube que o formou para o futebol, depois de ser afastado do Flamengo, evitou o conflito com o companheiro de time. Tudo mudou depois das últimas declarações de Edmundo, chamando Romário de falso. O baixinho não respondeu diretamente, mas não ficou calado. "Basta observar o dia-a-dia do time para tirar as conclusões e perceber quem é o quê", disse o craque. "Sei que todos esperam que eu fale algo sobre tudo isso, mas minha cabeça agora é outra", emendou.
Apesar da estratégia atual de evitar o confronto, foi Romário quem começou a dar motivos para a briga. Logo após a decisão da Copa do Mundo de 1998, o atacante divulgou as caricaturas pintadas nas portas dos banheiros de sua boate, o Café do Gol, na Barra da Tijuca. Em uma delas, Edmundo aparecia sentado numa bola murcha, ao lado da modelo Cristina Mortágua, com quem ele teve um filho, Alexandre, hoje com 5 anos, fruto de uma relação extraconjugal. Romário acabou recuando dias depois. Retirou as charges diante da reação de Zagallo, que inspirou outro painel. O ex- técnico da seleção brasileira - que foi estampado numa privada, enquanto Zico segurava um rolo de papel higiênico para ele - ingressou na Justiça contra o baixinho para vetar o uso de sua imagem.
A polêmica esfriou depois que Edmundo foi para a Fiorentina, da Itália, mas voltou a esquentar no retorno do atacante para o Vasco. Em julho, na véspera da decisão do campeonato carioca de 1999 entre o Vasco de Edmundo e o Flamengo de Romário, o craque vascaíno provocou os rubro-negros dizendo que seu time ganharia de dez a zero. No centro do gramado, antes do início do jogo, os dois capitães mal se cumprimentaram e sequer se olharam. Após a vitória do Flamengo por um a zero, Romário afirmou que os que o provocaram tinham de fazer muita coisa para chegar aonde ele chegou.
A trégua entre os dois veio três meses depois da decisão do campeonato carioca, quando Edmundo passou uma noite na prisão, condenado pela morte de três pessoas num acidente de carro em 1995. Em 6 de outubro, na noite da prisão, Romário fez um gol pelo Flamengo e exibiu uma camiseta com mensagem de apoio ao antigo amigo. Fora da cadeia, Edmundo retribuiu a gentileza, após marcar um gol contra o Botafogo de Ribeirão Preto, pelo campeonato brasileiro, numa camiseta com a inscrição "Valeu pela força".
A solidariedade não foi suficiente para evitar novas brigas, mesmo quando Romário foi contratado pelo Vasco. Nos cinco primeiros dias treinando juntos, os dois craques trocaram apenas um tímido aperto de mão. Nos jogos pelo Campeonato Mundial de Clubes, realizado em janeiro, renasceu a esperança de reconciliação. Na partida entre o Vasco e o Manchester United, da Inglaterra, o time brasileiro venceu com um gol de Edmundo e dois de Romário, o primeiro deles depois de um passe do Animal. Os jornais exibiram a foto dos dois craques abraçados, comemorando o gol, mas tudo não passou de um ato isolado. Um mês depois do jogo, Romário e Edmundo estão mais distantes um do outro do que nunca.