quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

JORNALISMO LITERÁRIO


Há exatos sessenta e cinco anos, o Vasco fazia sua estreia no primeiro campeonato continental interclubes da história do futebol, vencendo o Litoral, da Bolívia, por 2 a 1, com dois gols de Lelé. O torneio foi promovido pelo Colo Colo, do Chile, e viria a inspirar não só a criação da Taça Libertadores da América, doze anos depois, como da Copa dos Campeões da Europa, hoje a multiglobalizada Champions League. Disputado ao pé da Cordilheira dos Andes, num Estádio Nacional de Santiago sempre abarrotado de gente (pelo menos é o que mostram as fotos da época), o Campeonato Sul-Americano de Clubes Campeões de 1948 foi reconhecido oficialmente em 1996 pela Conmebol. Além disso, inspirou uma série de quatro reportagens da revista O Cruzeiro, assinadas pelo mesmo Helio Fernandes da Tribuna de Imprensa, que deve ter se divertido um bocado durante um mês na capital chilena, cobrindo o campeonato junto com jornalistas de todo o continente e também da Europa, como Jacques Ferran, enviado especial do jornal francês L'Equipe.

Hélio Fernandes se divertiu, sem dúvida, e deixou um registro histórico de uma dessas conquistas que só o Vasco tem. Fez isso com um estilo que até se vê hoje em dia em jornais e revistas, mas sem a menor elegância; e como além de vascaíno de coração o Relatos é, também, fã desse estilo, não o de hoje, mas o de antigamente, onde a opinião era exposta, sim, mas com informação suficiente para abalizá-la, e com a fundamental ajuda do uso correto, preciso, do humor e da ironia, que nos dias atuais vêm sendo diuturnamente confundidos, o tempo todo, com grosseria e sensacionalismo, pedimos licença para reproduzir aqui, com a ajuda da Netvasco, que publicou essas matérias há uns anos, três das quatro reportagens, três porque a última contém apenas singelos agradecimentos do jornalista a quem o ajudou nos trinta dias flanando por Santiago. Quer dizer, contém agradecimentos e pelo menos uma informação relevante, a de que o presidente do Vasco na época, Cyro Aranha, recusou cachês maiores para amistosos em outras paragens e insistiu para que o Expresso da Vitória disputasse o Sul-Americano. Sujeito de visão.

Abaixo, a terceira das quatro matérias de Hélio Fernandes

Revista O Cruzeiro, edição 26, de 17 de abril de 1948
"Chegou a ponto de marcar impedimento de Chico depois do ponta vascaíno ter driblado os dois zagueiros. É preciso contar mais alguma coisa?"
Hélio Fernandes
Sete foram os juízes que atuaram no Torneio dos Campeões, sem contar naturalmente o quase desconhecido uruguaio Fernandes, que estreou precisamente no último jogo, depois de decidido o campeonato. 

Três chilenos, White, Lesson e Madrid. Um certo Sr. Paredes da Bolívia. Valentine do Uruguai. Fortes da Argentina e Malcher do Brasil. Cada um deles levou para Santiago, ao lado de excessivo ardor patriótico, manias e regras diferentes, interpretações as mais absurdas do regulamento internacional, transformando a pacata cidade chilena numa edição de bolso da famosa Torre de Babel.
White é a mais completa vocação de guarda-noturno que conhecemos. Mete o apito na boca e só fica satisfeito quando escuta o som estridente que seu próprio sopro arranca do aparelho inanimado. Narciso de nova espécie, entra em campo munido de pente, escova de unhas, leite de rosas para a pele, tesourinha para o bigode, esperando-se a cada momento que puxe de um dos bolsos o espelhinho que há de reproduzir a própria imagem, proporcionando-lhe uma satisfação inigualável.
Lesson, possuidor de milhões de pesos e de fazendas quilométricas, talvez deslumbrado com a vastidão da própria fortuna, não teve tempo de aprender regulamentos. Autodidata em matéria de arbitragens, criou regras particulares que aplica em espetáculos públicos, criando com isso enormes complicações.
Madrid é o melhorzinho dos três, havendo até quem assegure que sabe ler e escrever. Até lá não chegamos nós. Começou mal, e para melhorar precisou de um delicado estímulo de Diogo Rangel, que disse-lhe ao ouvido: a sua formidável cara de cachorro não está agradando aos brasileiros.
O Sr. Paredes, boliviano de nascimento e chileno por merecimento,  foi o mais estranho dos juízes que apareceram em Santiago. Desconhecido até de alguns membros da própria delegação, andou mendigando por muito tempo uma arbitragem, porque, chorava ele, “não posso voltar para a minha terra sem ter atuado pelo menos uma vez.” Rondava Diogo. Rondava Simon do Uruguai. Cercava Marin por todos os lados. Até que acabou premiado. Escolhido para atuar em Vasco x Colo Colo, foi visto no sábado antes do jogo em doce e idílico colóquio com o presidente do clube local, colóquio que durou algumas horas. Entremeado de instante a instante por abraços amistosos, risinhos e segredinhos ao ouvido.

E que acertaram seus relógios nesse encontro noturno, basta ler a crônica dos próprios jornais chilenos, que afirmaram – Revista Hercília, La Nacion e Diário Ilustrado – que errar como o Sr. Paredes errou, só deliberadamente, de espírito preconcebido. Por uma coincidência espantosa, o Sr. Paredes errou durante  90 minutos, sempre contra o mesmo clube. Os ataques do Vasco eram paralisados à entrada da área, de qualquer maneira e sob qualquer pretexto. O Sr. Paredes primeiro apitava. Depois escolhia a punição. Chegou a ponto de marcar impedimento de Chico depois do ponta vascaíno ter driblado os dois zagueiros. É preciso contar mais alguma coisa?
O Sr. Fortes, muito conhecido de outras épocas, não teve oportunidade de exibir suas habilidades, atuando uma única vez, assim mesmo num jogo sem importância.
Ao Sr. Valentine, já por duas vezes – 1945 e 46 – protagonista em dramas dos quais nosso país também participava, coube o mesmo papel desta vez. Por eliminação, ficou como único candidato a dirigir Vasco x River Plate, o que efetivamente veio a suceder. Dias antes do jogo, garantiu a Diogo na presença de jornalistas que seu maior desejo era reabilitar-se dos fracassos dos anos anteriores, e que, disposto a encerrar sua carreira de juiz, muito satisfeito ficaria se isso acontecesse com uma vitória do Brasil.
E realmente fez nesse jogo sua maior arbitragem. Calmo, sereno, acompanhando bem as jogadas e marcando com precisão, foi de uma imparcialidade a toda prova. E mesmo no famoso gol de Chico, nenhuma acusação mais séria lhe pode ser feita. Errou sem dúvida nenhuma ao assinalar impedimento de Chico. Mas o fato passaria apenas como um erro, perfeitamente desculpável, se para infelicidade sua, concluindo ilegalmente a jogada – depois do claro e indiscutível apito – Chico não aninhasse a bola nas redes argentinas.
Descontrolando-se em face da atitude da torcida que queria o gol, e deixando-se levar pelo delírio dos jogadores vascaínos, tentou reformar a própria decisão, apontando timidamente para o centro do gramado. Mas o apito fora estridente demais, e os argentinos não se conformaram, passando a exigir, aos gritos e mesmo a socos, a cobrança do impedimento. Reagindo nobremente contra a fraqueza momentânea, o Sr. Valentine mandou bater o impedimento, conseguindo com essa decisão, mantida a despeito de tremenda vaia, levar o jogo até o final.
Finalmente, ao brasileiro Malcher, o último a estrear, coube a missão mais perigosa e delicada: contrariar os desígnios comercias do antiesportivo Robinson Álvares Marin.
Malcher deveria estrear dirigindo River x Nacional. Mas como os gênios da delegação acharam que o jogo era importante demais, resolveram que Malcher adoecesse, apesar dos protestos do rapaz que, realmente corajoso e confiante nas próprias qualidades, queria apitar de qualquer maneira. Não conseguiu. Foi então indicado para Colo Colo X Nacional. Mas no intervalo excursionou a Concepcion com o quadro uruguaio, onde foi pivô de incidentes desagradáveis, apenas porque não quis atuar de acordo com a toada muito em voga no país andino: favorecer sempre o time da casa, qualquer que seja o adversário.
Com essa demonstração de energia e desassombro do árbitro brasileiro, assustou-se Robinson Marin, que na primeira reunião propôs a sua troca por Fortes, argumentando que “o público talvez não compreendesse a indicação de um juiz que já havia provocado incidentes em um jogo amistoso”. Mas como o delegado uruguaio manteve-se intransigente, não houve outra saída e Malcher foi mesmo indicado.
Mas que ele seria sacrificado aos interesses inconfessáveis do presidente do Colo Colo, ninguém tinha dúvidas. Iniciado o jogo, viu-se que o ambiente estava bastante carregado contra Malcher e que tanto o técnico como os jogadores do Colo Colo estavam industriados para jogá-lo contra a multidão. Os bandeirinhas também tomaram parte na comédia, visando apenas criar confusão.
Sentado ao lado do pavilhão do Vasco, Robinson Marin era quem mais torcia. A cada marcação ordenada contra o Colo Colo, ele levantava-se e, virado para as tribunas, exclamava dramaticamente:  “com esse juiz é impossível ganhar”.
No lance que provocou a primeira interrupção, lance perfeitamente justo com um gol licitamente conquistado. Marin aproximou-se do bolo formado em volta do juiz e, em vez de acalmar os que desejavam linchá-lo, incitou-os com essa frase, que é um primor de indecência e falta de esportividade:  “este juiz é um ladrão e está vendido ao Nacional”. Daí em diante valeu tudo. 
Finalmente, quando os locais exigiam a marcação de um pênalti que não existiu, Malcher muito justamente suspendeu a partida, recusando-se a continuar por falta de garantias. Era a única decisão a tomar e ele só merece aplausos por isso. Começaram então as maquinações de bastidores, quando os dirigentes chilenos, na quase unanimidade, puseram as cartas na mesa e mostraram seu jogo escuso.  O Sr. Afonséa, presidente da Divisão de Honor, fez um comício contra Malcher declarando- o único culpado pelos acontecimentos. O chefe dos carabineiros, um senhor com muitos galões e pouca compostura, depois de conversar em segredo com Marin, transmitiu a Malcher a notícia definitiva: se não continuasse, não haveria garantias.
Diante disso, depois de confabular com os chefes da delegação e ouvir-lhe os conselhos, Malcher resolver voltar a campo e dar prosseguimento ao jogo. Mas o ambiente estava tão impregnado de terror, que o bispo de Santiago, presidente da Universidade Católica, presente ao vestiário, declarou-lhe:  “Que Deus o proteja, meu filho. Só Ele o salvará.” 

E realmente os dois gols que o Colo Colo conquistou em cinco minutos, perfeitamente lícitos, têm sabor de milagre, e só à influência divina podem ser atribuídos. Eles deram ao clube local a tão desejada vitória, e mais do que isso, evitaram uma catástrofe que já se desenhava nitidamente, e que na certa se consumaria se o Colo Colo tivesse perdido.
Mas de todos os incidentes quem saiu engrandecido, definitivamente glorificado, foi Malcher. Ele demonstrou uma honestidade a toda prova, uma energia fabulosa e uma coragem inescedível, além de um conhecimento precioso das regras internacionais e da maneira de aplicá-las. Ele foi o melhor juiz do campeonato. Disso ninguém tem dúvida.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

MOÇA DA CAPA - A LOUCA

Dizem que ela é mitômana, que adora mentir. Dizem também que é meio louca, no melhor dos sentidos. Já namorou bastante, mas, pelo que se sabe, está há um tempo razoável com o Roger, ex-jogador de futebol. Ou não, sei lá. Na época da entrevista, ela estava com outro, mas não quis falar o nome dele. De jeito nenhum.

A matéria abaixo foi assinada também pela Nina Arcoverde Mansur, e as fotos, menos a última, são do André Durão.

Revista Istoé Gente, edição 249, de 17 de maio de 2004

“Já escrevi um romance, dois policiais, umas 300 poesias e estou escrevendo um livro infantil”.

Na sala de sua casa no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, Deborah Secco parece determinada. Aceita dar entrevista, posa para fotos, mas avisa: falar sobre o atual namorado, Marcelo Falcão, vocalista da banda O Rappa, nem pensar. E foi sem tocar no nome de Falcão que, na quinta-feira 6, recebeu da secretária a última edição de uma revista masculina. Folheou uma entrevista do namorado, chamou-o de lindo enquanto acariciava sua foto, sussurrou um singelo “eu te amo”, beijou a imagem de Falcão na revista sobre a mesa de jantar e voltou saltitando para a sessão de fotos. Tudo sem pronunciar seu nome.
Tem sido assim, contraditória, a nova fase da atriz de 24 anos. Ao mesmo tempo em que evita falar sobre o tórrido romance iniciado há três meses, não consegue esconder a paixão que a tem feito ir atrás de Falcão até nos shows internacionais do Rappa, como a turnê nos Estados Unidos em abril. “Tenho pela primeira vez uma pessoa que eu admiro 100%, que quero 100%, tudo 100%. Não tem aspecto que deixe a desejar”, afirma a atriz, que para acompanhar o músico aos EUA faltou ao lançamento de sua boneca em São Paulo e mudou seu roteiro de gravação na novela.
Da disposição em evitar declarações sobre a relação que a fez tatuar, com um mês de namoro, a frase ‘Falcão, amor verdadeiro, amor eterno’ no pé direito, a atriz só consegue manter a determinação em não falar no nome do namorado. De resto, entrega tudo. “Como mulher, sou feliz como nunca fui. Pela primeira vez sinto ter um homem ao meu lado”, diz. Com delicadeza, a atriz, ex-mulher do diretor da Globo Rogério Gomes, atenua o impacto dos romances com Maurício Mattar, Marcelo Faustini, e os recentes Dado Dolabella e Marcelo Faria.
A nova relação parece ter o poder de fazer Deborah revelar características que até hoje ninguém conhecia. Primeiro, ela garante: nunca foi namoradeira. “Sou recatada para a minha idade. Sou incapaz de passar a noite com um cara sem saber se no dia seguinte vou poder ligar pra ele. Isso não existe”, afirma. Outra novidade: Deborah Secco, alvo de fotógrafos onde quer que vá, principalmente nos shows do Rappa, odeia aparecer. “Nunca quis ser famosa, sempre quis ser atriz”, garante a intérprete da espevitada Darlene na novela Celebridade. Pela carreira, faz concessões como pintar o cabelo de uma cor que tanto a associa com a imagem de sexy. Um equívoco, segundo ela. “Odeio ser loura, mas se a maioria das meninas como a Darlene pinta o cabelo de louro, ok, vamos pintar.” Jogar por terra a idéia de que gosta de roupas sensuais, de grife, é outro de seus objetivos. “De dia, uso bermuda do meu irmão e chinelo”, diz a dona de um closet exclusivo para calçados organizados por cor e estilo.
Para os amigos, a atriz está mais madura desde o fim de seu namoro com Dado, em outubro do ano passado. “Vejo a Deborah mais forte, diferente até na escolha do namorado. O Falcão não é ligado a esse mundo de fama e aparências”, diz a produtora de eventos Joana Braga, melhor amiga da atriz. A colega de elenco Juliana Paes faz coro. “Ela está mais segura de quem é e do poder que tem para influenciar as pessoas”, diz ela, a Jaqueline Joy de Celebridade.
Longe de uma possível rivalidade alimentada até no desfile das escolas de samba do Rio, quando as duas foram consideradas musas do Carnaval, as amigas compartilham uma coincidência. Ambas começaram a namorar no mesmo dia: 13 de fevereiro, num evento musical no Rio. “Nem vi a Deborah lá, mas foi o dia que conheci meu namorado (o empresário Carlos Eduardo Batista) e ela encontrou o Falcão”, lembra Juliana. A amiga só se preocupa um pouco com o jeito impulsivo da namorada do líder do Rappa. “Vejo ela falando que quer casar, ter filhos. Tenho medo por ela, digo para esperar um pouco.”
Deborah pode até tentar, mas não consegue deixar de repetir os planos que já fez durante antigos e recentes relacionamentos. “Não vou desistir de ter uma pessoa para envelhecer comigo”, conta. O maior sonho da atriz, portanto, permanece intacto, e não é diferente do da maioria das mulheres. “Quero muito casar na igreja, ser eternamente fiel ao meu marido, cozinhar, lavar, ter filhos”, diz. Enquanto isso não acontece, ela curte os momentos em que está sozinha em seu home theater incrementado com um tapete felpudo, ou na banheira de ofurô ao lado da piscina da casa que decorou pessoalmente, após se separar de Rogério, em 2001.
É sozinha que a atriz exercita um outro lado desconhecido: o de escritora. “Já escrevi um romance, dois policiais, umas 300 poesias e estou escrevendo um livro infantil”, informa. Mas a produção, que em termos de quantidade causaria inveja a qualquer escritor, deve permanecer desconhecida do público. “Não vou publicar. O Brasil não gosta de quem faz mais de uma arte”, justifica a atriz, que, após estrear no cinema em A Cartomante, fará o próximo filme de Jorge Furtado, Meu Tio Matou um Cara.
Realizada na vida profissional, a filha de Silvia Secco tem seguido os ensinamentos que aprendeu com a mãe graças a uma tragédia familiar. Quando Deborah tinha 1 ano, sua irmã Ana Luiza, na época com 5, morreu de complicações decorrentes de um choque anafilático. O trauma acabou dando à família uma nova filosofia de vida. “A vida é curta. Sempre preferi que meus filhos fizessem tudo”, diz a mãe de Deborah, Bárbara, 23, e Ricardo, 31. A filha mais famosa concorda. “Sou mais uma menina de 24 anos tentando viver uma vida comum”, diz ela. 
E na vida comum a atriz garante que já está realizada, graças, sobretudo, ao namorado. “Não quero desmerecer quem passou pela minha vida, mas independente do futuro, só por ter achado essa pessoa especial já valeu. No quesito amor, já me dou por satisfeita. Podia morrer amanhã que morreria feliz”, diz ela, sem citar o nome de Falcão, lógico.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

MOÇA DA CAPA - A NEGRA


 A novela está sendo reprisada agora, no Vale a Pena Ver de Novo da Globo. Na época, foi o primeiro sucesso depois de uma leva de, digamos, fracassos no complicado horário das sete da noite. Além disso, fez história na tevê com a primeira protagonista negra de uma novela brasileira.

A matéria com essa protagonista, que teve colaboração do Jonas Furtado, está aí embaixo. As fotos são do Piti Reali.

Revista Istoé Gente, edição 236, de 16 de fevereiro de 2004

“Acho isso besteira. Ninguém chama a Gisele Bündchen de germano-brasileira, né?”

Era maio do ano passado, Taís Araújo estava no Chile, no meio do set de filmagens de uma produção para a televisão local, quando recebeu um telefonema do pai, Ademir Mathias. O recado era sobre a diretora da Globo Denise Saraceni, que queria falar com a atriz. Ansiosa, ela ligou para a diretora tão logo pôde, mas Denise queria apenas marcar uma reunião, sem adiantar o assunto. Insistente, a atriz tentou uma última pergunta:
– Denise, é sobre aquilo que eu estou lendo no jornal?
– É, limitou-se a dizer a diretora.
O que estava nos jornais eram as notícias informando que, pela primeira vez, uma novela da Globo teria uma negra como protagonista. E a resposta de Denise confirmava que, aos 25 anos, Taís Araújo teria esse papel. “Ainda tinha uns 15 dias de filmagem no Chile. Fiquei tão nervosa que nem sei como agüentei esperar”, lembra a atriz que, aos 17 anos, protagonizou a novela Xica da Silva, na extinta TV Manchete, no papel da personagem histórica, inserida no contexto da escravidão.
Agora, a história é outra. Preta, a jovem interpretada por Taís em Da Cor do Pecado, novela que estreou dia 26 de janeiro e cravou nos 12 primeiros capítulos 35 pontos no Ibope em São Paulo – ótima marca para o horário –, é bem diferente dos personagens que costumavam ser destinados aos atores negros no Brasil. “Ela é, na verdade, como a grande maioria dos brasileiros. Tem uma vida digna”, diz a atriz, que sabe bem o que quer com a personagem: “É essa representatividade, de mostrar uma família negra com uma vida bacana, que acho importante para nós, negros”.
Segundo o autor João Emanuel Carneiro, a questão racial não é preponderante na trama. Sua intenção é deixar claro o abismo social entre os atores principais. “Não escolhi uma protagonista negra para abordar o preconceito de maneira sistemática. O abismo entre as classes sociais é maior que o preconceito racial. Na novela, Paco (Reynaldo Gianecchini) se apaixona por uma mulher pobre. Achei que essa mulher poderia ser negra para marcar a diferença de mundos”, explica.
Remanescente da época dos papéis estereotipados, Zezé Motta se lembra de um caso que ilustra bem o espaço que era reservado aos negros na tevê. De volta dos Estados Unidos, em 1969, onde ficou três meses com o teatro de Arena, a atriz foi procurar emprego na extinta TV Tupi. “Um diretor me disse: ‘Você chegou tarde, os dois papéis de empregada já estão preenchidos’”, conta Zezé.
Por causa de histórias como essa, Taís Araújo cresceu sem referências na profissão, por mais que admirasse Zezé Motta e outros negros pioneiros na tevê, como Milton Gonçalves, Ruth de Souza e Léa Garcia. “Eles eram muito mais velhos que eu. Meu ídolo era a Xuxa, mas nunca poderia ter o cabelo igual ao dela nem o olho azul”, diz ela. Ser a referência que não teve é, para Taís, o grande objetivo de sua participação na novela. “Ficaria feliz se pudesse gerar essa identificação nas meninas e meninos negros”, afirma a atriz, que é exceção num País dominado por uma elite branca: no Brasil, 45% da população são negros mas eles detêm apenas 26% da renda nacional.
Filha do economista Ademir com a pedagoga aposentada Mercedes, Taís cresceu numa típica família de classe média: sempre estudou em escola particular, morava num apartamento de quatro quartos em um condomínio da Barra da Tijuca e, na adolescência, foi duas vezes à Disney. O que não impediu que sofresse preconceitos desde o início da carreira. Aos 13 anos, quando começava na profissão de modelo, teve uma decepção logo no primeiro teste para um comercial de sorvete. “Me disseram que eu nem precisava tentar porque não queriam atores negros”, lembra Taís.
É na publicidade, a exemplo desse episódio, que a atriz vê a maior necessidade de mudanças para atender a raça. Ela cita o exemplo dos Estados Unidos, onde os produtos costumam ter anúncios específicos para os negros, para mostrar o que quer. “Lá, se o anunciante não põe um negro consumindo seu produto, os negros não compram. A gente tinha que começar a ter uma atitude assim”, afirma Taís, que, no entanto, enxerga avanços nos últimos anos. “Na verdade, as coisas estão mudando agora, e a iniciativa da Globo contribui para isso”, completa.
Provas dessa mudança recente, citadas pela própria atriz, foram os filmes protagonizados por Lázaro Ramos (O Homem Que Copiava e Madame Satã) e Luciana, a médica vivida por Camila Pitanga em Mulheres Apaixonadas. “A dramaturgia brasileira está contribuindo para termos uma referência”, diz Taís. O filósofo Renato Janine Ribeiro cita ainda os cantores de pagode, axé e rap, além dos jogadores de futebol, como exemplos de uma elite negra influente. “A mudança de vida dessa minoria mexe com o imaginário de muita gente, dos brancos que começam a aceitar a ascensão social dos negros, e dos negros que se miram nesses exemplos e dizem ‘eu também posso’.”
Isso, porém, não significa dizer que o preconceito é página virada no Brasil. Com toda a projeção nacional alcançada no cinema e na tevê no seriado Sexo Frágil, o ator Lázaro Ramos conta que ainda sofre com o racismo. “Sou parado por policiais em blitz”, diz ele. “Em dezembro, quando cheguei de Nova York, dos oito passageiros separados para averiguação, cinco eram negros e um deles era eu”, conta o ator.
Foi também o preconceito que impediu que a Globo tivesse uma protagonista negra numa novela 35 anos antes de Taís Araújo assumir esse posto. Escalada para viver a Tia Cloé, principal personagem feminina em A Cabana do Pai Tomás, Ruth de Sousa era a primeira atriz a aparecer nos créditos, mas só nos primeiros capítulos. “Meu nome passou para segundo lugar porque outras atrizes não estavam gostando”, lembra ela.
Pioneira no teatro entre as atrizes negras,Ruth terá sua vida contada no cinema no filme Filhas do Vento. Ruth, na juventude, será vivida por Taís Araújo, e gravou sua participação no filme, que deve ser lançado esse ano, em janeiro de 2003. Em breve, Taís também estará nas telas no filme Garrincha, a Estrela Solitária, na pele de outra artista negra, a cantora Elza Soares. “A Elza é aquela loba insaciável, um furacão de mulher. A dona Ruth é um furacão dentro de uma casa, é contida mas tem uma força incrível”, analisa a atriz.
Requisitada no cinema e protagonista na televisão, Taís tem deixado um pouco de lado os planos pessoais, mas pensa em se casar depois de Da Cor do Pecado com o empresário e lutador de jiu-jítsu Márcio Feitosa, 27 anos, seu namorado há 2 anos e 8 meses. Só assim, ela deixará a casa onde mora com os pais. “Pode parecer meio cafona, mas só vou sair de casa para casar”, afirma a atriz, que nunca pensou em morar sozinha. “Meu nome é família”, completa.
O sonho de ser mãe está programado para mais tarde. “Quero muito, mas daqui a cinco anos, no mínimo. Depois de casar, vou querer curtir minha casa e meu marido”, diz Taís, que tem driblado o instinto materno com os sobrinhos João Pedro e Lucas, gêmeos de 3 meses, filhos da irmã mais velha, a médica Cláudia.
Com a decisão de deixar a maternidade para daqui a alguns anos, Taís tem todo o tempo para se dedicar à profissão e realizar o desejo de se firmar como uma referência para as jovens atrizes negras. Ciente do papel importante que desempenha no momento, ela recusa o rótulo de afro-brasileira. “Acho isso besteira. Ninguém chama a Gisele Bündchen de germano-brasileira, né?”, diz a atriz, antes de responder, convicta, qual a melhor maneira de chamá-la. “Sou brasileira, nasci aqui e meus pais são daqui. Se tiver de ser marcada por uma denominação qualquer, quero ser marcada com um ‘b’ de brasileira.”

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A QUATRO MÃOS

A entrevista até que correu bem, mas não foi fácil. O entrevistado tinha mais de noventa anos de idade e não falava lá muito alto. Mesmo com a cadeira bem perto da dele, com o gravador o mais próximo da boca dele que a boa educação permitia, algumas falas escaparam na hora, e mesmo no gravador foi trabalhoso recuperá-las. Sorte que a entrevista rendeu o suficiente, e mais sorte ainda que no fim dela, depois de quase uma hora de conversa naquele gabinete colado ao salão branco cercado pelo mar de Copacabana, onde um cavaquinho se recostava atrás da porta, ele pediu pra ver o texto antes da publicação. Queria que o repórter, se fosse possível, por obséquio, enviasse por fax a matéria pronta, e o repórter aceitou de imediato. Só pediu, se fosse possível, por obséquio, que a resposta fosse rápida, no máximo um dia depois do envio, para evitar problemas com o horário de fechamento. O prazo foi cumprido e o que era dúvida, um ou outro trecho meio nebuloso, prejudicado pela dificuldade de ouvir o que tinha sido dito, voltou melhor, claro, nítido, bem mais condizente com um raciocínio que, viu-se depois, manteve-se na ativa por mais de cem anos.

Um ano depois, em nova entrevista no mesmo gabinete, com o mesmo cavaquinho atrás da porta, o método foi repetido. A matéria era uma biografia resumida do entrevistado dividida em quatro capítulos, um por semana. O primeiro texto voltou com um bilhete dele bem sucinto: "Diante dos inúmeros erros em seu texto, favor anotar essas correções, grato". Devia estar de mau humor, porque as correções apontadas, ainda que importantes, eram só três. No segundo e no terceiro textos ele apontou um ou outro detalhe, mas não mandou bilhete. No último, não fez correções e voltou a mandar um bilhete pelo fax. "Gostei muito da matéria. Grato". E claro que o repórter perdeu esse fax.

Oscar Niemeyer morreu ontem, aos 105 anos, a matéria da qual ele disse ter gostado, embora sem qualquer prova disso, é esta aí embaixo.

Revista Istoé Gente, edição 219, de 13 de outubro de 2003

“Não imaginava que minha vida iria dar samba”.


Brasília já tinha sido inaugurada havia três anos quando, antes de partir para uma temporada no exterior, Oscar Niemeyer se encontrou com o amigo Darcy Ribeiro. Na despedida, foi saudado com otimismo pelo antropólogo, que não escondia a euforia com a linha de esquerda adotada pelo então presidente João Goulart. “Estamos no poder, Oscar”, saudou Darcy. O ânimo durou pouco. O arquiteto ainda estava na Europa quando estourou o golpe militar que instaurou a ditadura no Brasil. Depois de passar um mês em Paris, Niemeyer recebeu em Lisboa a notícia do golpe, dias antes de partir para Israel, onde ficaria seis meses.
Hospedado no Hotel Victória, o arquiteto passou os últimos três dias na capital portuguesa com o ouvido colado ao rádio, na expectativa por qualquer boa notícia. Com a confirmação da queda de Jango, foi para Israel. Durante os seis meses em que trabalhou em Tel Aviv, recusou qualquer convite para festas. “Parecia-me que, aceitando os convites, estaria traindo aqueles que no Brasil enfrentavam a opressão e a violência”, justifica.
O escritório do arquiteto no Rio de Janeiro foi invadido e a revista Módulo, que Oscar fundara em 1955, deixou de circular. “Quebraram tudo. Quando voltei tive de prestar contas”, diz ele, que não chegou a ser preso, mas foi interrogado algumas vezes pelas forças da repressão. Em uma delas, numa pequena sala acolchoada e na companhia de um escrivão e um policial encarregado do interrogatório, Niemeyer não dispensou a ironia nas respostas.
– Senhor Niemeyer, o que vocês comunistas querem? Mudar a sociedade? – perguntou o policial.
– Escreve aí, mudar a sociedade – respondeu o arquiteto, virando-se para o escrivão e provocando uma reação desanimada dos policiais.
– Vai ser difícil – disse o escrivão, com ar de desalento, ao policial que fazia as perguntas.
O interrogatório não passou disso, mas não devolveu a paz que o arquiteto precisava para trabalhar no Brasil. A solução foi aumentar o número de projetos no exterior, como o da Universidade de Constantine, na Argélia, em 1969, onde Niemeyer manteve o hábito de levar os amigos misturados com colegas de trabalho. “Tivemos de recrutar às pressas profissionais disponíveis para acompanhá-lo e montar um escritório lá, e todos, de preferência, tinham de ser amigos do Oscar”, diz João Filgueiras, que na época trabalhava com Niemeyer. Darcy Ribeiro apareceu e ficou uns meses por lá, junto com Luiz Hildebrando Pereira da Silva, médico do Instituto Pasteur (na França), que também nada tinha a ver com arquitetura. “Foi um tempo bom”, resume Niemeyer.
Feliz durante a estadia na África, Niemeyer pôde elaborar um de seus projetos prediletos. Sem a importância histórica de obras como Brasília e a sede da ONU, em Nova York, a Universidade de Constantine tem até hoje lugar reservado na memória do arquiteto. “O projeto não é bom porque é monumental, mas porque nele estabelecemos uma série de princípios. Ali reduzimos o número de prédios de vinte para sete, facilitando a circulação dos alunos e tornando a universidade mais versátil”, lembra.
Instalado em Paris a partir de 1967, onde abriu seu escritório na Champs Elysées cinco anos depois, o arquiteto passou a ganhar cada vez mais projeção internacional. Além de projetos como o da sede da editora Mondadori, na Itália, fez novas amizades. Uma delas foi Jean-Paul Sartre. Convidado para a casa do filósofo francês e para reuniões políticas com ele na rua, Oscar dava preferência aos encontros privados, pois o partido comunista não via com bons olhos os eventos políticos. “Sartre não era alinhado ao partido, mas apoiava os movimentos de esquerda. Dizia que gostava de ter dinheiro para dar esmola, e dava com prazer. Era um grande sujeito”, conta Niemeyer.
Não foi qualquer restrição do partido, mas sim o medo de avião que o impediu de conhecer na época outra figura histórica. Temeroso de pegar um avião soviético na Espanha, único meio de chegar a Cuba nos anos 70, não realizou a vontade de visitar Fidel Castro. Adiado em cerca de 20 anos, o encontro acabou acontecendo no escritório de Niemeyer em Copacabana, durante a Rio 92, a conferência que reuniu os principais líderes mundiais para discutir assuntos ligados ao meio ambiente.
Não bastasse o caráter histórico, a reunião foi marcada por uma cena insólita. Na hora de Fidel ir embora, por volta da meia-noite, o único elevador que dava acesso à cobertura de Oscar quebrou. Para pegar o outro, os convidados tinham de passar por dentro do apartamento vizinho, e foi o que aconteceu, Um atônito morador, provavelmente de pijama, abriu a porta de sua casa para que ela passasse o presidente de Cuba e um dos maiores ícones do socialismo mundial. Único comunista do prédio, Niemeyer se orgulhou ao ver, na saída do amigo e companheiro de ideologia, todas as luzes do edifício acesas e seus vizinhos aplaudindo o convidado ilustre.
Dez anos depois, em 2002, aos 94 anos, o motivo de aplausos voltou a ser o arquiteto. De inusitado dessa vez, só o lugar da homenagem. Escolhido como enredo da escola de samba Unidos de Vila Isabel, Niemeyer foi à festa de inauguração da quadra que ele mesmo projetara, na zona norte carioca. Na recepção, o compositor Martinho da Vila, uma das principais figuras da escola, impediu sua progressão na direção do portão fechado. A surpresa durou poucos segundos, tempo necessário para que o sambista abrisse a porta e, com um movimento de braço, desse o sinal para a bateria começar a tocar em homenagem ao homem que inspirara o Carnaval da escola.
O arquiteto não saiu com a escola no desfile pelo grupo de acesso do Carnaval carioca, no Sambódromo da Avenida Marquês de Sapucaí, também projetado por ele. Daquele dia da inauguração da quadra, porém, Niemeyer guarda até hoje a lembrança da bateria tocando em sua homenagem. “Não imaginava que minha vida iria dar samba”.

sábado, 20 de outubro de 2012

MOÇA DA CAPA - A MOCINHA

Depois do último capítulo, ontem, Avenida Brasil já pode ser considerada, talvez, quem sabe, a melhor novela da história da tevê. E a mocinha da história já era capa da revista na época da entrevista. Chegou pontualmente à salinha de imprensa do Projac e, no fim, depois de uns quarenta, no máximo cinquenta minutos, deu até o número do celular para tirar qualquer dúvida. E claro que, três dias depois, o repórter ligou com alguma dúvida besta. E claro que ela não atendeu.

Abaixo, a matéria. As fotos são do Edu Lopes.

Revista Istoé Gente, edição 277, de 29 de novembro de 2004

“Tinha preguiça e achava que tinha medo de dirigir. Mas decidi tirar carteira depois de dois anos de táxi e carona”

Nas ruas, ela quase nunca ouve o próprio nome quando é abordada. Alguns a chamam de Maria Eduarda, a romântica menina rica de Senhora do Destino. Outros lembram da Mel, a sofrida viciada de O Clone. Mas são poucos os que identificam a atriz Débora Falabella como intérprete desses personagens. E ela adora que seja assim. “Não tenho interesse em que saibam que sou a Débora Falabella”, diz a atriz, antes de revelar que talvez mude de idéia quando estiver “com uns 70 e tantos anos”. Hoje, aos 25, protagonista de filmes como Lisbela e o Prisioneiro e A Dona da História – que juntos levaram mais de 4 milhões espectadores aos cinemas – prefere ser reconhecida por seus personagens.
A atitude combina com o discreto charme de Débora. Figura rara na noite, ela preserva ao máximo sua privacidade. Conseguiu, por exemplo, manter longe dos holofotes o início, o meio e o fim do namoro de três anos com o ator Daniel Oliveira, que acabou no ano passado. “Falamos da maneira mais simples: acabou e pronto. Foi tudo muito tranqüilo, sem brigas, e hoje continuamos amigos”, resume.
Do novo namorado, o músico paulista Eduardo Hipólito, 26, Débora revela o mínimo. Eles estão juntos há quatro meses e, além de fazer parte da banda de rock Forgotten Boys, Eduardo estuda gastronomia. “Deixo ele cozinhar pra mim”, diverte-se a atriz.
Outra curiosidade: Débora adora “passear numa farmácia” e não dispensa um remedinho para curar qualquer mal-estar. “Sempre fui um pouquinho hipocondríaca. Não sou dessas naturebas que não tomam remédio”, revela ela, que não deixa faltar nada em sua caixinha de medicamentos. Os cuidados com a saúde foram reforçados após a meningite que a deixou uma semana no hospital, quando fazia a Mel em O Clone, há dois anos. Não foi o tipo bacteriano da doença, considerado mais grave, mas assustou a atriz. Hoje, ela cuida melhor da alimentação e pega mais leve. “Ficava gravando o dia inteiro, cenas fortes, e às vezes esquecia de comer. Agora levo comida de casa e me alimento nas horas certas”, diz ela. Na época, foi substituída em cena por sua irmã Cíntia, 31 anos, que também é atriz. “Nosso pai (Rogério Falabella) é ator. Acho que ele foi a grande inspiração”, diz ela. A mãe, Maria Olímpia, é cantora lírica.  
Débora é a filha temporã – Maria Olímpia engravidou, sem querer, aos 39 anos. Era um bebê inquieto, custava a dormir, chorava muito. Ela sempre foi a mais tímida das três irmãs (Júnia, 35, é publicitária) e na infância criou um elo forte com Cíntia. “Quando a Débora tinha uns 11, 12 anos, elas brincavam de teatro com uma câmera de vídeo, tenho esses filmes até hoje”, diz Maria Olímpia. Em família, é extrovertida e criou um personagem, o Nojinho, que fala engraçado, como um menino meio alienado. “De vez em quando ela faz esse personagem, a Cíntia faz outro e é uma palhaçada. É engraçado, o pai delas adora, morre de rir.”   Mineira, há quatro anos no Rio, a atriz tirou carteira de motorista recentemente. Em Belo Horizonte, tinha um inexplicável medo de dirigir. Após dois anos no Rio, rendeu-se à necessidade de um carro. “Tinha preguiça e achava que tinha medo de dirigir. Mas decidi tirar carteira depois de dois anos de táxi e carona”, conta.
Hoje em dia, Débora não passa sem carro, mesmo que seu trajeto não saia muito do trivial casa–trabalho, talvez porque a atriz não tenha muitos amigos na cidade onde mora. “Não sei se é porque nas novelas a gente acaba não fazendo amizades duradouras. É difícil, as pessoas se tornam colegas de trabalho e depois vai cada um para o seu lado”, especula a atriz, cujo círculo de amigos próximos permanece quase o mesmo da época em que começou no teatro, há 9 anos, em Belo Horizonte. É lá que Débora costuma badalar um pouco mais à noite. Deixa o lado caseiro do Rio de lado, mas sem exageros. “Saio muito com as amigas para jantar e para ir na casa delas”, diz.
A única grande amizade que Débora fez no Rio, quando atuava em Agora É Que São Elas, no ano passado, é de São Paulo, onde também mora boa parte de sua turma mineira. Colega da atriz na antiga novela das seis, Francisca Queiróz, 25, confirma o jeito quieto da amiga. “A gente costuma se encontrar na minha casa ou na dela, para conversar e assistir filmes. É um estilo de vida que compartilhamos”, diz Francisca.
No trabalho, porém, Débora adota uma postura bem menos reservada. Para produzir Noites Brancas, peça baseada no texto de Dostoiévski, em cartaz em São Paulo, ela bateu de porta em porta nas empresas atrás de patrocínio. No início de 2003, em plena virada de governo, ouviu “não” várias vezes, quase desistiu, mas conseguiu levar a história ao palco com dinheiro do próprio bolso. “Tinha feito um comercial e juntei esse dinheiro com uma parte do que já estava economizando para comprar uma apartamento no Rio. Já estávamos ensaiando há um bom tempo. Ia ser muito frustrante parar”, explica ela, que acabou de comprar um apartamento, mas não revela quanto investiu no espetáculo.
Para produzir a peça em que atua, Débora se associou ao seu empresário, Roberto Monteiro, e à Odeon, uma companhia de Belo Horizonte. Foi a maneira que a atriz encontrou para fazer um personagem da sua escolha, embora pareça que ela tenha selecionado a dedo seus últimos papéis. No cinema, além de Lisbela e de Paco, que lhe rendeu elogios por sua atuação em Dois Perdidos numa Noite Suja, de José Joffily, Débora realizou o sonho de contracenar com Marieta Severo em A Dona da História. “É até engraçado falar, mas ela era minha referência mesmo. Toda vez que alguém me pedia para citar uma atriz eu falava Marieta Severo”, conta.
Para viverem a mesma personagem, elas ensaiaram juntas durante dois meses. No início, Débora ficou nervosa, a ponto de gaguejar de vez em quando e não ficar tão à vontade como deveria. Mas isso foi só na primeira semana de trabalho e, pelo visto, Marieta nem percebeu. “Não vi nada disso. Só não sabia se encontraria uma jovem preguiçosa ou disposta. Tive a grata surpresa de ver que a Débora trabalha com bom humor e encara a profissão com seriedade”, afirma Marieta. Está aí a receita do sucesso da jovem atriz.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O MOCINHO

Prestes a terminar, Avenida Brasil já é uma das melhores novelas da história da tevê. E o galã da história, hoje mais que consolidado como bom ator, tava só começando na época da entrevista. Atuava em sua primeira novela. Tranquilo, despreocupado, com uma namorada linda dormindo logo ali, no quarto ao lado, ele contou coisa à beça debaixo do sol da manhã, no pátio de uma cobertura do Recreio. O resultado tá aí embaixo.

Revista Istoé Gente, edição 237, de 23 de fevereiro de 2004

“Dormimos sentados, um encostado no outro, pra ninguém tocar na gente.”

Antes de estrear na Globo, no início de 2002, como o Mau-Mau de Malhação, Cauã Reymond, 23 anos, até fez um curso de interpretação em tevê. E pronto. Acaba aí qualquer semelhança na trajetória do namorado de Alinne Moraes com o caminho percorrido pela maioria de seus colegas. De campeão de jiu-jítsu, passou a modelo internacional aos 18 anos. Morou em Milão, Paris e Nova York, onde decidiu trocar de profissão. Enquanto enfrentava as dificuldades comuns aos latinos na maior cidade americana, incluindo aí dois dias passados na cela de uma cadeia, ao lado de criminosos, começou a estudar para ser ator. Hoje, interpretando o personagem Thor em Da Cor do Pecado, sua primeira novela, e após estrear no cinema em Odiquê, de Felipe Joffily, ele se diverte ao lembrar de tudo o que passou para se firmar na nova carreira.
O atual papel lhe reservou um ponto em comum com o início de tudo: Thor é um lutador profissional. A diferença é que, ao contrário do jiu-jítsu praticado pelo ator desde os 13 anos, as lutas da novela são mais parecidas com o kung fu. Para se adaptar, Cauã fez aulas da arte marcial durante um mês, o que não evitou algumas escoriações decorrentes dos treinos e gravações. “Já machuquei as duas mãos dando socos no saco de boxe”, conta o catarinense de Camboriú.
Bicampeão brasileiro de jiu-jítsu, aos 17 e 18 anos, Cauã entrou na carreira artística através do esporte. Em 1997, a Company, loja que o patrocinava, contratou a então modelo iniciante Ana Hickmann para estrelar uma campanha publicitária à frente de atletas financiados pela marca. Aprovado num teste, o lutador estreou como modelo. O problema era disfarçar as marcas adquiridas nas competições que continuou a disputar. “Lutar me mantinha com o pé no chão”, afirma.
O jiu-jítsu só foi abandonado em 1999, quando o modelo morou seis meses em Milão. A carreira ia bem e, após uma rápida volta ao Brasil, passou mais seis meses na Europa, dessa vez em Paris. Em 2000, mudou-se para Nova York e foi lá que começou a se sentir desconfortável na profissão. “O mercado passou a preferir aqueles tipos ingleses com cabelinho chanel, em vez dos caras mais sarados. Não estava pra mim”, recorda.
O jeito foi tentar ser ator. Para isso, Cauã contou com a sorte de, logo no primeiro teste, agradar à atriz Susan Batson, famosa por treinar Nicole Kidman e Tom Cruise. “A Susan me deu um monólogo e me mandou ler para a parede. Nem sei direito o que falei, mas ela amou. Disse que eu era um Marlon Brandon latino”, conta o ator, que arrumou ali um motivo a mais para freqüentar o curso. “Tinha acabado de terminar um namoro. Precisava ouvir elogios”, brinca.
Dois meses depois, a falta de dinheiro o fez voltar ao Brasil, mas uma conversa com o pai, o psicólogo José Marques, o ajudou a mudar de idéia. “Senti que Nova York seria bom para o Cauã. Ele estava progredindo lá”, diz Marques. Com US$ 600, o ator voltou, e de imediato participou de um workshop com o cineasta Spike Lee, que lhe fez um elogio e um alerta. “Ele disse que eu tinha energia sexual, mas era muito teatral”, diz.
A experiência mais marcante do ator nos EUA, porém, seria a mesma de milhões de pessoas. “Estava entrando num ônibus quando vi o segundo avião atingir a torre do World Trade Center. Acho que foi a cena mais impressionante que vi na vida, mas não sei descrever o que senti, até porque naquele momento não estava entendendo nada do que estava acontecendo”, conta ele. Na época, a falta de dinheiro tinha levado Cauã a dividir um apartamento com um árabe no bairro Spanish Harlem, o que o deixou ainda mais apreensivo após o atentado de 11 de setembro. “Dormia com uma faca embaixo do travesseiro”, lembra.
Mas foi ao lado de um amigo brasileiro que a dificuldade de ser estrangeiro em Nova York ficou mais evidente. Numa farmácia, o ator tentou convencer o amigo a não roubar uma barra de proteína. Descobertos pela segurança, os dois acabaram detidos porque estavam sem passaporte. Passaram dois dias numa cela com 20 presos até resolverem a situação pagando uma fiança de US$ 100 cada. “Dormimos sentados, um encostado no outro, pra ninguém tocar na gente.”
As dificuldades continuaram até a volta definitiva ao Brasil, no fim de 2001. Mesmo elogiado por professores como o cubano Carlos Leon, ex-marido de Madonna, ele não quis esperar a chance de iniciar a carreira no exterior. “O mercado estava mais para os americanos, e já tinha o Antonio Banderas”, diz.
Há um ano e meio no Rio de Janeiro, Cauã mora com Alinne Moraes no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste da cidade. A afinidade entre o casal é o segredo para lidar com o assédio que a beleza de ambos provoca. “Gosto de ver minha mulher o mais bonita possível. A Alinne tem noção do ridículo. Não vai sair com os peitos pulando para fora da roupa e sabe lidar com cantadas. Por isso ela é minha mulher”, afirma. Assim, brigas sérias por causa de ciúme passam longe do casal. “Tenho o ciúme normal, que existe em qualquer relacionamento, mas nunca precisei brigar com ninguém porque o Cauã se dá ao respeito”, diz Alinne. “Adoro que ele seja admirado, mesmo porque estou com ele não só porque o amo, mas porque ele é inteligente e desejado.”

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

AGONIA E ÊXTASE

O jornal agoniza mas não morre, ainda. Ainda se divide o corredor de entrada com os rolos enormes de papel, ainda está lá a rotativa, apitando, trabalhando sem parar, fazendo todo tipo de panfleto e jornalzinho alternativo pra faturar mais algum por fora, e ainda existe a redação, a dois lances de escada da rotativa, de onde se vislumbra a rotativa por trás de vidros embaçados e de onde se escuta os apitos e as engrenagens da rotativa parindo o jornal aos milhares, poucos milhares, porque o jornal não morre mas agoniza, agoniza e vai deixar o prédio histórico, da grande revista, a maior do país durante décadas, de onde repórteres e fotógrafos viajavam para qualquer parte do planeta, pra qualquer grotão do país, sempre em busca da grande matéria.

Hoje não se busca mais a grande matéria. Texto? Pra quê? Busca-se o grande cargo, o poder de mandar em cada vez mais gente, a capacidade de gerar dinheiro, de manter lucrativa a super empresa, o super jornal, que distribui às centenas de milhares, às vezes milhões, as vontades de seus donos, o pensamento único salpicado nas mais diversas editorias, na política, na economia, no esporte. Vende-se muito, anuncia-se mais ainda e o dinheiro jorra, mas nem um pingo pro jornal que agoniza, não morre e noticia com todo o otimismo o vislumbre de muitos investimentos, de muita grana rondando por aí, ainda que a única consequência disso, para o velho jornal, seja a necessidade de se mudar, de deixar o prédio histórico da grande revista sem nem saber para onde vai. Que os rolos gigantes de papel continuem ocupando metade do corredor de entrada, e que a redação continue em volta da rotativa, perto de seus apitos e ruídos, ainda que este seja um sonho praticamente impossível.

O texto abaixo não foi assinado. Saiu com um discreto Da Redação em cima, e um mais discreto ainda Com agências entre parentêses, lá no pé.

Jornal do Commercio, edição de segunda-feira, 5 de outubro de 2009.


"É o marco de um processo de transformação que vai se materializar por grandes investimentos".

A festa pela escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016 não foi apenas pelo valor histórico dessa vitória, que fará do Rio a primeira cidade da América do Sul a receber uma Olimpíada. A comemoração que começou em Copenhague, na Dinamarca, na sexta-feira, e se estendeu por todo o Brasil também diz respeito aos investimentos que o País receberá por conta dos Jogos.
A princípio, a previsão é de que o Rio receba R$ 28,8 bilhões para organizar sua Olimpíada. Além disso, a expectativa é de que sejam gerados dois milhões de empregos no País até 2027: 120 mil postos de trabalho por ano até a realização dos Jogos e 130 mil anuais a partir de 2016. Em Copenhague, a alegria levou às lágrimas o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e o prefeito da cidade, Eduardo Paes, além do presidente do Comitê da candidatura Rio 2016, Carlos Arthur Nuzman.Dentro dos investimentos previstos para os Jogos estão os US$ 13,92 bilhões (R$ 24,76 bilhões) do projeto apresentado pela candidatura brasileira no Comitê Olímpico Internacional (COI). Desse total, 72% correspondem ao orçamento destinado a obras de infraestrutura, incluindo as reformas do aeroporto internacional da cidade e do metrô, e R$ 7 bilhões já estão em execução no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Outros R$ 7 bilhões serão investidos até 2014 e o restante até 2016, também em áreas como transportes, meio ambiente e segurança.
Entre os projetos para o sistema de transportes da cidade, que receberá R$ 1,4 bilhão, estão a criação de um sistema de ônibus articulado chamado BRT (Bus Rapid Transit), as obras para o Corredor T5, que ligará a Penha até a Barra da Tijuca, além de uma ligação que unirá o bairro de Deodoro à Barra da Tijuca. Ainda está previsto um projeto ligando o metrô da Barra da Tijuca ao Recreio dos Bandeirantes.
A revitalização da zona portuária deve receber R$ 200 milhões. O investimento na área de meio ambiente será de R$ 1 bilhão, com melhorias previstas para as lagoas da Zona Oeste e a Rodrigo de Freitas, além da recuperação dos parques naturais e do monitoramento da qualidade do ar e das praias. Para o setor hoteleiro, a candidatura do Rio prevê a construção de 48,2 mil quartos, sendo 13 mil leitos em hotéis, 25 mil em vilas, 1,7 mil em apart-hotéis e 8,5 mil em navios.
A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, afirmou que a vitória da cidade do Rio de Janeiro é uma demonstração de que o País está sendo reconhecido internacionalmente e atingiu um novo patamar no cenário mundial. “O Brasil está hoje em outro patamar. Acima dos nossos problemas, passaram a ver nossas realizações e nosso potencial”. Dilma creditou a vitórias brasileira à liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à união entre as três esferas de governo.
“Temos que reconhecer também que temos a sorte de ter uma cidade como o Rio de Janeiro”, completou a ministra, que pretendeu fortalecer a Advocacia Geral da União (AGU) para garantir a transparência do uso dos recursos públicos na preparação para os Jogos.
Integrante da delegação que representou o Brasil na reunião do COI na Dinamarca, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, também comemorou a vitória do País. “O Bradesco parabeniza o Rio de Janeiro e o Brasil. Sou de uma geração de brasileiros que vivenciou o preconceito de que o futuro nunca chegaria por aqui. Rasgamos essa crença tola. A partir de agora, temos orgulho de pertencer ao mundo, com um projeto claro e definido de futuro”. O senador Francisco Dornelles (PP-RJ) também comemorou a escolha do Rio. “É o marco de um processo de transformação que vai se materializar por grandes investimentos e maior inserção do Rio de Janeiro no contexto internacional. O Brasil ganhou com o Rio.”