terça-feira, 2 de junho de 2015

ESPERA

A modelo Fernanda Vogel tinha 20 anos e já começava a se destacar em capas de revistas e campanhas publicitárias quando morreu na queda do helicóptero em que viajava com o namorado João Paulo Diniz, do Grupo Pão de Açúcar. Fernanda, João Paulo, o piloto e o co-piloto da aeronave sobreviveram à queda no mar de Maresias, litoral paulista. Os quatro pularam no mar revolto, debaixo de chuva forte, pra tentar nadar até as luzinhas da praia vistas de muito, muito longe. João Paulo e o co-piloto, Luiz Roberto de Araújo Cintra, conseguiram. Fernanda e o piloto, Ronaldo Jorge Ribeiro, não. A entrevista com a mãe da Fernanda, que originou a matéria abaixo, foi feita pouco mais de dois anos depois do acidente. Os trechos em itálico e negrito faziam parte, na edição original da revista, de um box, à parte da matéria principal.

Revista Istoé Gente, edição 219, de 13 de outubro de 2003

“Minha irmã se autoflagelava, enfiando as unhas dos indicadores nos polegares. Ficava o tempo todo no sofá, em posição fetal e agarrada a um bicho de pelúcia da Fernanda”.


Durante o ano de 2001, o programa de televisão predileto da comissária de bordo Myrian Vogel, 47 anos, era a novela Porto dos Milagres. Sua personagem preferida na trama era a engraçada Amapola, vivida por Zezé Polessa. Se estivesse em casa, não perdia por nada as cenas com a atriz, mas na sexta-feira 27 de julho foi diferente. Diante da tevê, na hora da novela e com Zezé em cena, Myrian foi tomada por uma angústia que a fez mudar de canal. Em outra emissora, um plantão jornalístico informava sobre a queda do helicóptero em que a modelo Fernanda Vogel, sua filha, viajava ao lado do namorado João Paulo Diniz, herdeiro do Grupo Pão de Açúcar. “Antes de ouvir a notícia sabia que era o helicóptero da minha filha”, conta a comissária, no livro Fernanda Vogel na Passarela da Vida, da jornalista Tammy Luciano, que será lançado na terça-feira 21, no Rio de Janeiro. O episódio é uma das muitas coincidências intrigantes que permeiam o acidente e a morte, aos 20 anos, da modelo Fernanda Vogel.

Na madrugada do sábado 28 de julho de 2001, para o domingo 29, um amigo de Fernanda teve um sonho, no qual a modelo aparecia, envolta numa luz, pedindo para que ele tranqüilizasse sua família, e avisando que seu corpo apareceria no dia 3 de agosto, o que acabou acontecendo.

Entre mensagens da modelo, transmitidas por freqüentadores de centros espíritas após sua morte, e os eventos que pareciam anunciar a tragédia, Myrian juntou histórias que a ajudaram não só a colaborar com o livro de Tammy, como a se recuperar da perda da filha na queda do helicóptero. O casal iria comemorar os dois meses de namoro na casa da família Diniz em Maresias, litoral paulista, mas o mau tempo derrubou a aeronave. 
Na época, João Paulo chegou a ser acusado de induzir o piloto a voar apesar da má condição meteorológica. A suspeita é descartada pela própria Myrian. “O João foi uma vítima também. Ele estava no helicóptero e nunca se colocaria em risco”, diz a comissária, que nega ter havido qualquer desentendimento entre as famílias Vogel e Diniz. “Falo sempre com o João. O que existe é uma tragédia em comum, nenhuma divergência”, afirma.
A primeira conseqüência do choque pela morte da filha foi ficar sem comer. Nos três primeiros dias após o início das buscas pelo corpo de Fernanda, Myrian ingeriu somente café, além dos muitos cigarros que fumou. “Achava que se eu conseguisse ficar aquele tempo sem comer, minha filha também conseguiria, e estaria viva quando fosse encontrada.” A partir do terceiro dia, a família a convenceu a tomar sorvete e sucos, já que a lembrança de Fernanda no mar a impedia de ingerir qualquer alimento salgado. Mesmo assim, ela teve de tomar soro. “Dávamos de colher, na boca dela”, conta a irmã caçula de Myrian, Bebel Vogel.
Nas três primeiras semanas após o desaparecimento da filha, a comissária continuou tomando soro para suprir a alimentação insuficiente. Perdeu oito quilos em menos de um mês. “Minha irmã se autoflagelava, enfiando as unhas dos indicadores nos polegares. Ficava o tempo todo no sofá, em posição fetal e agarrada a um bicho de pelúcia da Fernanda”, lembra Bebel.

Um mês antes do acidente, João Paulo Diniz estava com Fernanda no Carlton Arts, em São Paulo, quando foi abordado por um garçom. Ele disse a João Paulo que o empresário estava muito afastado da religião e o aconselhou a ler um determinado texto da Bíblia. Em casa, o casal leu o trecho onde estava escrito que viria a tormenta, quatro pessoas estariam no moinho, duas seriam levadas e duas seriam poupadas. Sem dar muita atenção na ocasião, João Paulo voltou a ler o trecho após o acidente. Só aí identificou as pás do moinho como a hélice do helicóptero, a tormenta como a chuva que causou a queda da aeronave, e as duas pessoas levadas como Fernanda e o piloto Ronaldo Jorge Ribeiro, também morto no acidente, enquanto João Paulo e o co-piloto Luiz Roberto de Araújo Cintra sobreviveram.

Prova de que não há problemas no relacionamento da mãe de Fernanda com o herdeiro do grupo Pão de Açúcar será o lançamento do livro em São Paulo, marcado para o dia 4 de novembro, na Revistaria D’Amauri, novo empreendimento de João Paulo, com inauguração prevista para os próximos dias. Para o empresário, o apoio de Myrian foi fundamental nos primeiros momentos após o acidente. “Ela me abraçou logo que me viu, ainda em Maresias. Vinda da mãe da Fernanda, a ajuda foi a melhor que eu poderia ter recebido naquele momento”, disse João Paulo.
Pela morte de sua filha, Myrian recebeu o montante coberto pelo seguro do helicóptero. Ela prefere não revelar os valores, mas garante que, apesar das notícias veiculadas nos primeiros meses após a tragédia, não houve qualquer disputa judicial por uma indenização maior. “Preferi não desmentir o que saía nos jornais porque não estava em condições. Se fizesse isso ia mexer ainda mais com o assunto que me machucava tanto”, lembra a comissária.
Profissionalmente, a primeira conseqüência da tragédia foi a licença da função que exerceu durante 23 anos. Myrian não voa desde a morte da filha e deve tirar o seguro pela perda definitiva da carteira de aeronauta. “Cada vôo é uma tripulação, são amigos diferentes. A emoção é complicada e como chefe de equipe tenho que ter o vôo na mão. Emocionalmente instável, não posso assumir a responsabilidade”, explica. Também mudou de endereço. Deixou o sítio de Itaboraí, no interior do Rio de Janeiro, onde morou desde que Fernanda tinha 12 anos, e se instalou num apartamento na zona sul carioca. “Lá tinha a distância da família, as recordações e os problemas de cidade pequena. Em qualquer supermercado que entrava tinha um silêncio, depois um falatório baixo e as cabeças se virando na minha direção. Era complicado”, diz.

Na bolsa de Fernanda foi encontrada uma folha de papel cujas bordas estavam destruídas, mas o texto no interior permanecia intacto. O título do texto era “Sobrevivência”.

Quando começou a se recuperar, Myrian adquiriu o hábito de navegar pela internet em busca de notícias antigas da filha, numa forma de reviver os melhores momentos da modelo e de suprir a própria carência. Foi assim que encontrou, em março do ano passado, um texto sobre Fernanda que lhe chamou atenção. Da correspondência com a autora, Tammy Luciano, surgiu a idéia do livro, do qual Myrian participou ativamente. “Isso me deu forças para enfrentar minha perda”, conta a mãe da modelo. Apesar da recobrar o ânimo, só um ano após começar a trabalhar no livro conseguiu interromper um hábito adquirido com a morte da filha: o de ligar para o celular de Fernanda para escutar o recado da caixa postal que permanecia gravado com a voz da modelo. “Era absurdo, mas eu tinha a necessidade de ouvir a voz dela”, justifica.
Outro alento veio das oito mensagens recebidas de dois centros espíritas no Rio. Em todas elas, algumas enviadas por uma professora de Fernanda na época do primário, a modelo dizia estar bem e conformada com seu destino. A comissária tem absoluta certeza da veracidade de pelo menos um dos recados, em que a filha se refere às violetas e margaridas plantadas pela mãe no peitoril da janela de seu apartamento. “Ninguém do centro tinha ido à minha casa”, afirma Myrian.

Também na bolsa de Fernanda encontrada no helicóptero, seis meses após o acidente, estava a agenda dela. Um modelo simples, com as folhas presas numa encadernação normal, e não soltas como num fichário, a agenda só ia até o fim do mês de julho de 2001. Depois dessa data, não tinha mais nada, nem qualquer sinal de que folhas tivessem sido arrancadas.

Católica, a mãe de Fernanda diz não ter coragem de presenciar as manifestações nos centros, mas as considera reconfortantes. “É um remédio para a alma. Um alívio para outros pais que perderam seus filhos, porque mostra que existe a continuidade”, afirma a comissária. É no livro, portanto, que Myrian espera passar a idéia de que a filha está bem. E para escrever a história de Fernanda, contou com a ajuda dos amigos, colegas e das pessoas mais importantes da vida da modelo.
Uma delas, o empresário Ike Cruz, que foi casado com Fernanda, é quase um filho para a ex-sogra. Desde a morte da ex-mulher, manteve o hábito de passar todo Natal na casa da família Vogel. “Me ajuda a superar a perda, saber que fiz, e ainda faço, parte de uma família. A Fernanda foi importante pra mim no campo pessoal e profissional. Saí da casa dos meus pais pra morar com ela. Ver a felicidade da Myrian hoje é prioridade pra mim”, disse Ike. 

Myrian recebeu de Ike dois canudos idênticos com papéis de Fernanda. Confundiu-se e abriu o mesmo canudo duas vezes, achando que tinha aberto os dois, e viu apenas fotos de uma campanha da filha. Dias depois, procurava lembranças da filha para incluir no livro quando um dos canudos caiu de um móvel aos seus pés. Dentro dele estava um desenho feito por Fernanda em que ela se auto-retratava como uma sereia, numa noite de chuva no mar. A data do desenho era de 27/12/00, exatamente sete meses antes do acidente.

Separada desde janeiro do segundo marido, Jorge, pai de seu filho caçula Eduardo, 14, e que cuidou de Fernanda desde os 6 anos, Myrian ainda faz duas sessões semanais de terapia e toma remédios para conviver com a dor da perda da filha. Ela já decidiu que parte da renda do livro será destinada a uma instituição de caridade. É uma das maneiras que encontrou para pôr em prática seus novos objetivos de vida. “Quero agora transformar a dor em amor. Homenagear a Fernanda e fazer o bem.”

quinta-feira, 30 de abril de 2015

PERNOITE NO TRIBUNAL

O julgamento já tinha começado quando o repórter chegou ao Tribunal do Júri pra render o setorista do Judiciário, num tempo em que os jornais tinham não só o setorista do Fórum como gente suficiente pra mandar alguém render ele e garantir a cobertura in loco das quase vinte horas de julgamento de um caso emblemático, de grande repercussão na época. E o réu nem era o primeiro do caso a ser julgado, mas o segundo. Outro ex-policial já tinha sido condenado semanas antes, o que não mudou em nada a determinação da chefia, de mandar ficar lá o julgamento inteiro, inclusive as quatro horas de espera pela sentença, das quatro e tanto da madrugada às nove da manhã, período em que o repórter até vagou um pouco por corredores vazios do Fórum só pra contemplar, sem se distanciar muito da escadaria da entrada, o Centro da cidade completamente vazio, às escuras, tendo apenas a extensão da Rua Primeiro de Março a separá-lo do local onde, também de madrugada, foram cometidos os crimes relatados na matéria abaixo.
 
Jornal do Brasil, edição de sexta-feira, 29 de novembro de 1996


"A hediondez dos fatos imputados ao réu, norteados pelo infamante propósito de exterminar menores socialmente marginalizados, e a forma cruel como foram eles executados, quando as vítimas indefesas foram colocadas diante de uma expectativa inapelável da morte naquela madrugada de terror e barbárie, conduzem, inevitavelmente, ao mais profundo juízo de reprovabilidade".

Depois de 19 horas de julgamento no Segundo Tribunal do Júri, o ex-soldado da Polícia Militar Nelson Cunha, réu confesso da chacina de 23 de julho de 1993 na Candelária, foi condenado a 261 anos de prisão pelo assassinato de oito meninos de rua e tentativa de homicídio contra Vágner dos Santos, principal sobrevivente e testemunha do massacre. Após cerca de quatro horas de reunião na sala secreta, os sete jurados decidiram não acatar a tese do advogado de defesa, Luís Carlos Silva Neto, de que o ex-PM teria sido coagido a participar da chacina. Silva Neto só conseguiu absolver Cunha de uma das acusações, a de tentativa de homicídio contra outros cinco meninos que sobreviveram à tragédia. Por ter sido condenado a mais de 20 anos de prisão, o réu será submetido a novo júri, ainda sem data definida.
Durante o julgamento, que começou às 14h30 de quarta-feira e só terminou às 9h30 de ontem, o promotor Maurício Assayag conseguiu convencer os jurados de que Nélson Cunha participou conscientemente da chacina, juntamente com os ex-PMs Marco Aurélio Alcântara, Marcos Vinícios Borges Emanuel e Maurício da Conceição, o Sexta-Feira Treze, morto em abril de 1994. Ao confessar o crime, no ano passado, Cunha disse que acompanhou o grupo liderado por Sexta-Feira Treze pensando que iria atrás de dois assaltantes que teriam invadido sua casa um dia antes da chacina. O réu chegou a afirmar que foi coagido a participar do massacre.
Defesa e promotoria só concordaram em um ponto: a inocência do tenente PM Marcelo Cortes, do soldado Cláudio Luís Andrade e do serralheiro Jurandir Gomes de França, os três primeiros acusados pela chacina, que ficaram presos até a confissão de Cunha e serão julgados no próximo dia 9. "O réu só confessou o crime um ano depois da morte de Sexta-Feira Treze, quando já havia sido expedido mandado de prisão contra ele. Até confessar, Nélson Cunha deixou que três inocentes ficassem presos sem fazer nada", disse Assayag no tribunal.
Os dois lados também mostraram sintonia ao praticamente ignorar o depoimento de Vágner dos Santos, que novamente não reconheceu Cunha como um dos participantes da chacina. A testemunha acusou Marcelo Cortes e o soldado PM Carlos Jorge Liafa, sequer arrolado como acusado no processo, de o terem seqüestrado na Praça Mauá, para levá-lo, junto com dois menores, ao Museu de Arte Moderna, onde os três foram baleados pelo bando. Tanto o promotor quanto o advogado de defesa sustentaram a confissão do réu, aceitando a tese de que Cunha baleou Vágner acidentalmente dentro do Chevette de Sexta-Feira Treze.
O acusado recebeu a pena máxima (30 anos) por sua participação em cada um dos oito homicídios e foi condenado a 18 anos de prisão pela tentativa de assassinar Vágner. Somando os agravantes pelo fato de três vítimas (Paulo José da Silva, Paulo Roberto de Oliveira - Pimpolho - e Ânderson de Oliveira Pereira - Careca) terem menos de 14 anos, e levando em consideração um fator atenuante, o de que Cunha confessou o crime, o ex-PM foi condenado a 27 anos por cinco homicídios, e a 36 anos por cada assassinato dos menores de 14 anos. Com os 18 anos pela tentativa de matar Vágner, a pena total foi de 261 anos de prisão.

Em sua sentença, o juiz José Geraldo Antônio chegou a afirmar que "a hediondez dos fatos imputados ao réu, norteados pelo infamante propósito de exterminar menores socialmente marginalizados, e a forma cruel como foram eles executados, quando as vítimas indefesas foram colocadas diante de uma expectativa inapelável da morte naquela madrugada de terror e barbárie, conduzem, inevitavelmente, ao mais profundo juízo de reprovabilidade".
Apesar da sentença, Silva Neto comemorou a absolvição de Cunha nas acusações das cinco tentativas de homicídio contra os sobreviventes Marcelo Gomes da Silva Bento e os menores Rogério da Silva, Sérgio Dias Gomes, Jacaré e Barão. "Vencemos 40% da batalha e a guerra continua. O juiz reconheceu a atenuante de o réu ter confessado, mas não pôde fugir ao parâmetro de pena imposto no julgamento do primeiro réu (Emanuel). Mas estamos confiantes em absolver meu cliente no próximo julgamento", disse o advogado, garantindo que vai apelar em separado da condenação pela tentativa de homicídio contra Vágner.
Os promotores Maurício Assayag e José Muiños Piñeiro Filho não quiseram comentar o resultado do julgamento. Não houve unanimidade em nenhuma das decisões dos jurados.

quinta-feira, 5 de março de 2015

FOI-SE

Qual a melhor fantasia de Heidi Klum, a rainha das festas de halloween?
Cleópatra, de 2012, Mulher anatomia, de 2011, ou Vovó, de 2013?

A enquete acima estampa agora, no momento em que isso aqui está sendo escrito, a capa do site da revista Istoé Gente, e explica em boa parte, na modesta opinião de quem por lá trabalhou por quase seis anos, desde a equipe inaugural, o fim da revista anunciado oficialmente anteontem pela Editora Três, empresa, aliás, contra a qual este Relatos não tem queixa alguma, muito pelo contrário.

A lamentar, sem dúvida, o fim da Istoé Gente, ainda mais por quem acompanhou de perto o embate até rápido demais entre uma ótima ideia e o lugar comum, desde o início com força total para a ótima ideia, o projeto original, até a terceira edição, quando a matéria diferente, do dia-a-dia de nossa vida cotidiana, com gente comum, concorreu à capa e perdeu para a separação de Adriane Galisteu e Roberto Justus.

Mesmo assim, até dar na enquete que abre o texto, a boa idéia resistiu um bom tempo na revista, às vezes com menos outras com mais espaço, mas resistiu, e por isso é obrigatório, nesse momento de adeus, registrar o agradecimento pra toda vida por tudo o que a saudosa revista Istoé Gente proporcionou ao autor deste blog, do céu estrelado no meio do nada, no sertão do Piauí, ao concerto com o presidente em Varsóvia; do samba de roda no quintal de Dona Canô às demais entrevistas e matérias responsáveis por pelo menos setenta por cento da produção deste Relatos, que é, basicamente, um currículo, currículo de repórter.

A propósito: não sei quem é Heidi Klum, mas pela foto dela no site, voto na Mulher anatomia.

A matéria abaixo saiu mesmo na Istoé Gente, envergonhadinha, com pouco espaço para o texto, mas saiu, inclusive a foto, do Kiko Cabral.

Revista Istoé Gente, edição 28, de 14 de fevereiro de 2000 

Num acesso de fúria, Domingos matou sete pessoas, das quais seis pertenciam à família de sua ex-mulher.

Ricardo, 21, Fábio, 20, Fernanda, 17, Fernando e Cristina, 16, Bruno, 15, Cristiano, 13, Cássia e Tiago, 12, Bárbara, 11, Priscila, 10, Cíntia, 8, Edilson, 7, Cássio e Larissa, 4, Brenda, 3, e Otávio, 1, passaram a compartilhar uma história em comum em suas vidas. Os 17 tiveram seus destinos selados no último dia 31 pelo camelô Domingos Amorim Pinto, 40. Tornaram-se órfãos da chacina feita por ele na noite de segunda-feira, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio. Num acesso de fúria, Domingos matou sete pessoas, das quais seis pertenciam à família de sua ex-mulher, Marilene Fernandes Soares de Lima, 34, com quem tinha uma filha, Priscila, com 10 anos, e tentou a reconciliação dias antes da tragédia. No dia seguinte, os 17 receberam uma nova mãe. Sobrevivente da chacina, a tia Mariléia Fernandes Soares, 29 anos, dona-de-casa e mãe de dois filhos, anunciou que irá criá-los.
Além da ex-mulher, Domingos assassinou duas ex-cunhadas, Tânia Regina Fernandes Soares, 41, e Marina Fernandes Soares de Lima, 38. Matou, em seguida, a ex-sogra Teresa Fernandes Soares, 68, e o ex-concunhado Luiz Ederaldo Alves Martins, 41. Seguiu para a casa do cunhado de Marina, José Ferreira de Lima, 38, e matou ele e o vizinho da família, João Batista Mendes de Souza, 22. Não satisfeito, Domingos partiu para Belford Roxo, na Baixada Fluminense, em busca de mais vítimas. Lá, Mariléia foi acordada por gritos que vinham do lado de fora de sua casa. Ainda sem entender o que estava acontecendo, ela foi até a janela e avistou o ex-cunhado de revólver em punho. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Mariléia teve de se proteger dos tiros que o camelô começou a disparar. Ela entrou em casa, gritou pelo marido, o supervisor do cais do porto Flávio Fernandes Soares, 30, e mandou que os dois filhos, Jefferson, 8, e Joice, 4, deitassem no chão do quarto. Depois de atirar quatro vezes sem ferir ninguém, Domingos se afastou da casa e deu um tiro na própria cabeça. Ele chegou a ser internado em coma no Hospital da Posse, em Nova Iguaçu, mas morreu na noite do dia 2 de fevereiro.
A família Fernandes Soares pagou o preço pela separação de Domingos e Marilene. A ex-mulher do camelô, com quem vivia havia dez anos, o abandonou há quatro meses, acusando-o de assediar sua filha Cristina, 16 anos. Inconformado, o camelô tentou reatar várias vezes, até que decidiu se vingar não só de Marilene, mas de toda a família da ex-mulher. A atitude de Domingos surpreendeu a todos, principalmente Mariléia. "Ele era um sujeito tranqüilo, até brincalhão", conta a dona-de-casa, que chegou a ser namorada de Domingos quando tinha 16 anos. "Foi um caso passageiro, antes de ele conhecer minha irmã."
Dos 17 órfãos, apenas dois não são seus sobrinhos - Larissa e Otávio, filhos do vizinho assassinado. Ainda em estado de choque com a tragédia, Mariléia disse que cuidará dos órfãos. "Deus me deixou viver para que eu pudesse ajudar a criar essas crianças. Vou fazer o que puder", afirmou. Será ajudada pelos mais velhos, Fábio - balconista em um restaurante em São Gonçalo -, e Ricardo - que trabalha como jardineiro. A dona-de-casa ainda não decidiu se vai se mudar para o terreno de 300 metros quadrados no Arsenal, onde foram construídas as quatro casas dos parentes. Ela vive à custa do marido, que trabalha no cais do porto e não tem salário fixo. "Ele só ganha quando tem trabalho", explicou. Apesar do dinheiro escasso, Mariléia garante que nada vai faltar aos sobrinhos. "Não vou deixar que isso aconteça", assegura.

domingo, 7 de dezembro de 2014

NO ÔNIBUS

O repórter primeiro viu tudo na tevê da redação pequena de sucursal, cinco mesas, cinco computadores, cinco telefones, a tevê no alto, de quatorze polegadas, e mais nada além do trabalho nem tão corrido nem tão descansado de uma véspera de fechamento. Finda a tragédia que mudava tudo, inclusive a capa, ou quase, na véspera do fechamento, o repórter foi direto à delegacia do caso, na Gávea, de bloquinho e caneta e com a vantagem inestimável de não precisar escrever nada para a manhã seguinte. Anotou endereços, telefones, nomes e no dia seguinte, cedo, partiu para a Rocinha e adjacências enquanto outro repórter contratado especialmente para o caso, também criado e curtido entre as delícias da saborosa Jurujuba e os mais sombrios valões da valente São Gonçalo, seguia no encalço do perfil da outra vítima fatal da história.

A matéria abaixo foi escrita com a colaboração do Júlio Castañeda.



Revista Istoé Gente, edição 46, de 19 de julho de 2000

"Ele mandou que ela ligasse a televisão. Naquele momento, esfregou o rosto da Luciana no vidro".

Para trocar um cheque de R$ 130, na segunda-feira 12, a professora Geisa Firmo Gonçalves, 20 anos, aproveitou o intervalo entre os dois turnos de trabalho no Projeto Curumim, que atende a crianças da favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, para ir ao banco. O dinheiro, obtido com a venda das cestas que fabricava artesanalmente, seria incorporado ao salário de R$ 302. Essa poupança vislumbrava dois sonhos: o desejo de ser mãe e o retorno para Fortaleza, no Ceará, com o marido, o cavalariço Alexandre Magno de Macedo Oliveira, 21.
Naquele momento, ela servia de escudo para Sandro, que finalmente descera do ônibus. “Assisti minha mulher sendo carregada. Quando cheguei ao hospital, já estava morta”, contou o viúvo, em seu depoimento na 15ª Delegacia do Rio, na Gávea. A primeira bala que atingiu Geisa, de raspão, no queixo, foi disparada pelo soldado Marcelo Oliveira dos Santos, do Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope), conforme constataria a perícia na terça-feira 13. Ele alvejou o bandido, mas a má pontaria levou Sandro a descarregar o revólver na refém. Foram mais três tiros contra Geisa. O seqüestrador não levou nenhum tiro, foi dominado e, colocado num camburão por cinco policiais, terminou asfixiado. Depois de provocar a morte da refém, a polícia executou Sandro.
A habilidade como artesã fez de Geisa uma das expositoras do Posto de Recreação e Recepção de Turistas da Rocinha, mantido pela Secretaria Municipal de Trabalho do Rio. "Ela trabalhava conosco há pouco tempo, mas já tinha várias encomendas", afirma Telma Santos, uma das coordenadoras do posto. Três dias antes de morrer, Geisa disse a Vera que estaria grávida de dois meses. "Ela ainda não tinha contado para o marido, mas estava muito feliz." As suspeitas, porém, eram infundadas. Os exames realizados no Instituto Médico Legal não confirmaram a gravidez de Geisa, que vivia cercada de crianças. "Ela era muito boa. Ajudava e dava conselhos", diz Pamela Gomes da Costa, 13, uma das alunas do Projeto Curumim.
As quatro horas que antecederam sua morte foram de pânico e incerteza. Assim que o ônibus foi interceptado pela polícia, Geisa assistiu o assaltante fazer Glória de Jesus Albuquerque, 63, como sua primeira refém. Um policial chegou a subir a bordo do 174, mas recuou atendendo às ameaças do bandido. Para salvar Damiana, Geisa apelou para que Sandro a deixasse ir embora, sob o argumento de que a amiga era sua mãe. O bandido a atendeu, num único momento de generosidade. A partir daí, Sandro aterrorizou os passageiros friamente. Andava de um lado para o outro, trocando várias vezes de refém. "Ele dizia que a mãe tinha sido morta a facadas, o pai a tiros e a irmã, degolada. Por isso não tinha nada a perder", conta Luana Belmonti, 19, aluna do quinto período de Comunicaçãoo Social na PUC, uma das torturadas.
Na viagem do terror, Geisa integrava a amedrontada platéia nos momentos em que não estava nas mãos do bandido. Assistiu à simulação da morte da estudante Janaína Lopes Neves, 23 anos, quando Sandro mandou que ela se deitasse no chão e atirou próximo a seus pés. Também escutou Sandro cantarolar uma versão macabra do sucesso "Xibom Bombom", em que anunciava um pacto com o diabo. "A Geisa e a Janaína estavam muito assustadas. Segurava as mãos delas e dizia que sairíamos dali", conta Luana. A professora ainda testemunhou o bandido apanhar o celular da secretária Luciana Ximenes, 29 anos, e discar para a irmã dela, Cláudia. "Ele mandou que ela ligasse a televisão. Naquele momento, esfregou o rosto da Luciana no vidro", contou Rita de Cássia Ximenes, outra irmã de Luciana.
No dia seguinte ao crime, moradores do Jardim Botânico depositaram flores no local onde a professora fora abatida. Seus vizinhos da Rocinha também lhe prestaram uma homenagem. Só não conseguiram fazer com que o corpo de Geisa fosse velado no morro, antes de seguir para Fortaleza, em um võo fretado pelo governador Anthony Garotinho. A irmã da professora, Maria Elisângela Gonçalves, chegou ao Rio na terça-feira 13. Ela fez chegar uma carta de agradecimento às crianças do Projeto Curumim. Em um dos trechos, escreveu: "crianças, vocês são puras e simples, assim como a Geisa, minha irmã, que era vestida de simpatia e amor. Por isso que Deus a quis junto a ele".
Normalmente, Geisa apanharia um ônibus da linha 592 (Gávea-Leme) para chegar a seu destino, uma agência bancária no Humaitá, a cerca de 6 km da favela onde morava. Naquele dia, mudou o itinerário, a pedido da amiga, Damiana Nascimento de Souza, 40, que a acompanhava. Damiana usou um argumento irrefutável para convencê-la a embarcar num coletivo da linha 174 (Gávea-Central), cujo ponto final fica um quilômetro mais distante. Hipertensa, Geisa precisava caminhar por recomendação médica. A professora jamais desceu no ponto planejado. Quatro horas e cinqüenta minutos depois de embarcar no ônibus, ela foi morta, por um erro policial.
O drama dos passageiros começou às 14 horas, quando a polícia interceptou o ônibus, na Rua Jardim Botânico, para tentar prender o bandido Sandro do Nascimento, 22 anos, que planejava um assalto a bordo. Para se defender, Sandro manteve Geisa e outros nove reféns sob a mira de seu revólver, um Rossi calibre 38, até as 18h50. A professora foi uma das que mais sofreram. Ela foi puxada pelos cabelos e torturada com o cano da arma em sua boca. As cenas de terror eram transmitidas ao vivo pela televisão para o Brasil e para o mundo, através da CNN.
A menos de 200 metros dali, no Jockey Club do Rio, Alexandre interrompia seu trabalho para acompanhar o martírio das vítimas pela tevê. Teve a ingrata surpresa de descobrir a mulher entre os reféns. O cavalariço não desgrudou os olhos da tela até o desfecho daquela saga, quando uma ação desastrada da polícia fez com que Geisa fosse alvejada por quatro tiros. 
Alexandre e Geisa trocaram Fortaleza pelo Rio há um ano e meio. Os dois namoravam quando Alexandre decidiu tentar a sorte no Rio, no início de 1998. O casal morava numa casa de dois cômodos na favela da Rocinha, onde Geisa conseguira o emprego no Projeto Curumim, há oito meses. No início, ela ajudava a cuidar das 150 crianças de 6 a 14 anos. Com o tempo, aperfeiçoou-se na confecção de cestas de papel e miçangas e passou a dar aulas de artesanato em turmas cada vez mais concorridas. “As aulas dela enchiam a sala”, conta Vera Lúcia Caldeira, 47, que também trabalha no Projeto Curumim. “Com seu jeito tímido, de quem veio do interior, era muito carinhosa com as crianças.”
Mergulhado em denúncias contra a polícia que comanda desde o início do ano, Garotinho agiu rápido. Exonerou o comandante da Polícia Militar, o coronel Sérgio da Cruz, e afastou o soldado Marcelo Oliveira dos Santos, cuja pontaria errática transformou em vilania sua candidatura a herói. A partir de agora, exercerá apenas funções burocráticas na corporação. Outros cinco militares do Bope - o capitão Ricardo de Souza Soares e os soldados Luiz Antônio de Lima Silva, Márcio de Araújo David, Paulo Roberto Alves Monteiro e Flávio Dias -, que entraram com Sandro no camburão, foram presos e serão indiciados por homicídio. Sandro tinha quatro passagens por delegacias do Rio e duas condenações, por tentativa de furto e roubo qualificado, que somavam uma pena de cinco anos e seis meses de prisão. Uma organização não-governamental carioca, o Centro Brasileiro de Defesa da Criança e do Adolescente, sustenta que o bandido era também uma vítima. Ele seria um dos sobreviventes da chacina da Candelária, ocorrida em 1993.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

MAIS QUATRO ANOS

Com 51,64% dos votos válidos, contra 48,36% de Aécio Neves, do PSDB, a presidenta Dilma Rousseff foi reeleita ontem para mais quatro anos de mandato. Que venham.

A matéria abaixo é daquelas não assinadas, mais editada que escrita, com o auxílio da reportagem da Agência Reuters

Jornal do Commercio, edição de segunda-feira, 27 de outubro de 2014

"Nas democracias maduras, união não significa necessariamente unidade de ideias nem ação monolítica conjunta. Pressupõe, em primeiro lugar, abertura e disposição para o diálogo".

A presidente Dilma Rousseff (PT) afirmou em seu pronunciamento logo após ser reeleita ontem que seu primeiro compromisso do segundo mandato será o do diálogo em busca da união. Falando a aliados e militantes, Dilma disse que união não significa necessariamente unidade de ideias, mas ressaltou que, algumas vezes, resultados apertados produzem mudanças mais fortes e mais rápidas do que vitórias muito amplas. "Minhas primeiras palavras são de chamamento de base e união. Nas democracias maduras, união não significa necessariamente unidade de ideias nem ação monolítica conjunta. Pressupõe, em primeiro lugar, abertura e disposição para o diálogo. É esse meu primeiro compromisso do segundo mandato: diálogo".
Em seu discurso, a presidente reeleita disse ainda que a reforma política é a primeira e a mais importante de seu segundo mandato. "Meu compromisso, como ficou claro durante toda a campanha, é deflagrar esta reforma que é responsabilidade constitucional do Congresso e que deve mobilizar a sociedade por meio de uma consulta popular", disse Dilma, em um hotel de Brasília. "Como instrumento desta consulta, o plebiscito, nós vamos encontrar a força e a legitimidade para levarmos à frente a reforma política", acrescentou.
Dilma disse saber que foi reconduzida à Presidência para realizar mudanças que a sociedade brasileira exige, e que tem um compromisso com a refoma política. Sobre economia, afimou que promoverá ações localizadas, em especial para retomada do crescimento, garantia do elevado nível de emprego e valorização dos salários. "Vamos dar mais impulso à atividade econômica em todos os setores, em especial no setor industrial", disse ela. "Quero a parceria de todos os segmentos, áreas produtivas e financeiras, nessa tarefa que é responsabilidade de cada um de nós brasileiros e brasileiras".
A presidente afirmou também que seguirá "combatendo com rigor a inflação e avançando no terreno da responsabilidade fiscal". Em outra frente, Dilma disse que terá o "compromisso rigoroso" de combater a corrupção, com proposição de mudanças na legislação atual para acabar com a impunidade.
Vencida a batalha das urnas, a presidente precisa agora reunificar a base aliada no Congresso para a aprovação de propostas. Na corrida à reeleição, ela perdeu apoio de partidos que integravam sua base de sustentação, como o PSB de Eduardo Campos, morto em acidente aéreo, e o PTB, que apoiou o adversário, Aécio Neves (PSDB), o PSC e o PRTB, que lançaram candidatura própria no primeiro turno e depois se aliaram a Aécio.
A presidente também vai ter de trabalhar para reunir a própria base. A expectativa é que ela tenha hoje 304 deputados e 40 senadores. Apesar de grande, a base está rachada. Dentro do próprio PMDB, partido do vice-presidente eleito Michel Temer, Dilma tem a rejeição de 30% da bancada. Ela também terá de volta no Congresso o senador Eunício Oliveira (PMDB), derrotado na disputa ao governo do Ceará, que apareceu em santinhos ao lado do tucano Aécio Neves. Po outro lado, Dilma contará com o líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB), que perdeu ontem o governo do Amazonas para José Melo (Pros).
A vitória acirrada nas urnas também contará negativamente para a presidente Dilma no Congresso. Especialistas analisam o placar como mostra de um governo enfraquecido. Se Dilma venceu com 51% dos votos válidos, a oposição se mostrou fortalecida com 48%. É um alto índice de eleitores que apostaram numa possível mudança nas urnas. E essa oposição poderá usar o discurso da mudança para atacar a presidente nos próximos quatro anos. Além disso, os adversários derrotados Aécio Neves e o vice Aloysio Nunes (PSDB) voltam ao Senado para mais um mandato de quatro anos ao lado dos tucanos José Serra (SP), Antônio Anastasia (MG), Cássio Cunha Lima (PB), Lúcia Vânia (GO), Paulo Bauer (SC) e Ruben Figueiró (MS).
A oposição no Congresso ainda encontrará na CPI da Petrobras munição para tentar desconstruir o governo. Já está agendado para quarta-feira o depoimento do doleiro Alberto Youssef no Senado. Os parlamentares ainda podem ter nas mãos as delações premiadas do ex-diretor de Refino e Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa e do doleiro ao Ministério Público Federal (MPF), que foram sendo divulgadas a conta gotas ao longo da campanha eleitoral, mesmo que sem provas, na medida em que depoimentos dos dois nas delações foram sendo vazados. "A Dilma vai ter que aprender a lidar com o Congresso", disse um interlocutor do Planalto.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

VOLTAS DA VIDA

Ele apareceu primeiro ainda estudante, liderando passeatas de cima de carros de som com milhares e milhares de pessoas abaixo dele pedindo a deposição de um presidente, aliás, justíssima deposição. Tinha a cara pintada e era radical, tão radical de esquerda que se filiou ao PC do B, o que na época fazia algum sentido. Dois anos depois de despontar para a fama, foi eleito deputado federal, mas continuou radical, tão radical de esquerda que acabou no PSTU. Nas eleições seguintes, obteve votos suficentes para se eleger tanto para a Câmara dos Deputados quanto para vereador, isso se não estivesse no PSTU. Sem coeficiente eleitoral, acabou derrotado mesmo ficando entre os campeões de votos nos pleitos. Então, em dado momento, cansou. Mudou de estratégia e filiou-se ao PT. Mudou-se para uma cidade onde jamais tinha morado e, pouco tempo depois, foi eleito prefeito dela, derrotando um cacique local com apoio da família Garotinho, que governava o estado. Quatro anos depois, foi reeleito prefeito, fato raro na região, e em mais dois anos ganhava a cadeira de senador, com milhões de votos em todo o estado. O próximo passo, natural, era virar governador. Pois ontem, na eleição pra governador, ele ficou em quarto lugar com cerca de setecentos mil votos, um pouquinho só à frente do candidato mais radical de esquerda, do PSol, que também teve cerca de setecentos mil votos.

A matéria abaixo foi no momento da virada, quando ele virou prefeito e não parou mais de ganhar eleição, até ontem. A foto aí de cima é do Leandro Pimentel.

Revista Istoé Gente, edição 280, de 20 de dezembro de 2004

“Fui falando, mas o senador ficava sorrindo e dizendo ‘muito bem, muito bem’”.

A poesia O Jovem e a Paz Caminham Juntos, escrita por Lindberg Farias aos 14 anos, era inspirada nas primeiras leituras do adolescente. Um dos versos mencionava “pombas brancas sobre o Kremlin e a Casa Branca” e o último afirmava que se Karl Marx fosse vivo diria: “Jovens de todo mundo, uni-vos”. “É das coisas mais ridículas da minha vida”, reconhece, entre risos, o prefeito eleito de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Aos 34 anos, o deputado federal do PT se aliou a partidos como o PFL e o PP para vencer Mário Marques, do PMDB de Anthony Garotinho, com 57,74% dos votos
no segundo turno. Seu futuro político pode ser medido pelas palavras do aliado César Maia. “Se passar pelo teste nessa prefeitura, Lindberg tem tudo para ser uma forte liderança estadual e até nacional”, diz o prefeito carioca.
Na sala do apartamento para onde se mudou há um ano e meio, com o intuito de disputar a eleição, o ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) não exibe biografias da revolucionária Rosa Luxemburgo ou de Che Guevara. Os textos da adolescência foram substituídos por um relato da trajetória de Manoel Ferreira (PP), pastor da Assembléia de Deus, e obras de Eça de Queiroz e Marcel Proust. O socialismo sobrevive de maneira mais suave, num livro do fotógrafo cubano Alberto Korda. “O cara que queria a insurreição deu lugar a alguém que sabe que tem que dar um passo de cada vez”, explica o prefeito eleito.
Filho do médico Luiz Lindbergh Farias, vice-presidente da UNE em 1961, paraibano de João Pessoa, ele cresceu num ambiente de discussão política. O pai lhe contava suas experiências, mas não aprovou quando o filho se mudou para São Paulo, em 1991, ao ser eleito secretário-geral da entidade. “Ele disse que eu ia prejudicar os estudos, que o movimento estudantil não tinha mais força”, lembra Lindberg, que tirou o h do nome em 2000, aconselhado por uma numeróloga. Um ano depois, já presidente da UNE, o filho de Luiz Lindbergh liderou os estudantes no movimento dos cara-pintadas, que reuniu centenas de milhares de pessoas em manifestações pelo Brasil e ajudou a derrubar o presidente Fernando Collor.
Vieram, então, as primeiras gafes do líder estudantil ainda verde na política. Ao se reunir com o então presidente do Congresso, Mauro Benevides, em Brasília, Lindberg não sabia do costume da foto protocolar, tirada antes de encontros solenes. Na frente de dezenas de fotógrafos, o presidente da UNE apertou a mão do senador e, enquanto piscavam os flashes, tentou, sem sucesso, iniciar a conversa. “Fui falando, mas o senador ficava sorrindo e dizendo ‘muito bem, muito bem’”, lembra Lindberg.
O desconforto com as práticas políticas continuou durante o primeiro mandato como deputado federal, pelo PC do B, entre 1995 e 1998. O defensor do povo nas ruas como única solução chamava o Congresso de casa das elites e não perdia uma manifestação contra as privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso. Na venda da Vale do Rio Doce, entrincheirou-se com 100 estudantes na Bolsa de Valores do Rio. No leilão das Teles, jogou pedra na polícia. Achava o máximo. “Me sentia o próprio Guevara”, afirma.
Mas o momento era de tristeza. Em janeiro de 1995, Lindberg soube que o pai tinha câncer terminal. Até fevereiro de 1996, quando Luiz Lindbergh faleceu, trocou os fins de semana no Rio por idas a João Pessoa. Ficou deprimido e chegou a 100kg. “Achava que a vida tinha perdido o sentido”, conta. Um alento foi a notícia que recebeu no mesmo dia em que foi informado da doença do pai. Maria Antônia Goulart, 29, sua mulher, estava grávida de Luiz, 9.
O casal se separou em 1999, mas se reconciliou em fevereiro deste ano. Maria Antônia levou Luiz para Belo Horizonte, mas Lindberg via o filho único todo fim de semana. Ou ia para Minas, ou Luiz viajava para o Rio. “O Lindberg não pára de beijar e abraçar o Luiz. Eu é que dou bronca, ele fica com a parte boa”, entrega Maria Antônia.
Derrotado na eleição de 1998, Lindberg ganhou tempo para recuperar a forma e os estudos. Pegava ônibus para o curso de Direito na PUC carioca (ele está a um ano de se formar), corria na Praia de Copacabana, fazia musculação e nadava. Em um ano, voltou aos atuais 87 kg e retomou a aparência que lhe rendeu o apelido de Lindinho e o assédio de boa parte do eleitorado feminino.
A maneira de ver a política também mudou. Filiado ao PSTU, dissidência do PT de extrema esquerda, Lindberg não aceitou coligações em 1998. Foi o sexto entre os candidatos do Rio para a Câmara Federal, com 73 mil votos, mas perdeu a vaga porque sua legenda não conseguiu o mínimo necessário de eleitores. Aproveitou a ocasião para reforçar o discurso radical. “Dizia: de que serve o Parlamento? O que vale é a luta nas ruas”, lembra.
Na eleição para vereador em 2000, ficou em 4o lugar, com 47 mil votos, e novamente de fora, mas dessa vez a reação foi diferente. “Não queria chegar aos 40 anos fazendo agitação em carro de som, fora do debate político.” Favorável ao apoio a Lula em 2002, Lindberg se transferiu para o PT quando os antigos correligionários lançaram candidatura própria a presidente. “No PSTU, estava abrindo mão de um papel que podia jogar”, afirma.
Voltou à Câmara em 2002 como vice-líder da bancada. Numa conversa com Lula e José Genoino, presidente da legenda, surgiu a idéia da candidatura em Nova Iguaçu, onde o PT nunca tinha sido forte. Eleito, após começar em 3º lugar, com 12% dos votos, surpreendeu o presidente. “O Lula me disse que vencer lá era projeto para 20 anos”, diz.
Ameaçado de morte algumas vezes na Baixada, tem andado com seguranças, o que não tira sua animação com futuros projetos. Quer explorar áreas verdes como o parque municipal, onde se exercita. Também pensa numa empresa de saneamento em parceria com a iniciativa privada, para se ver livre da Cedae (Companhia Estadual de Água e Esgotos), que, no passado, defendeu contra os planos de privatização do ex-governador Marcello Alencar (1995-1998).
Aliado de Lindberg na última campanha, Marcello ouviu dele um mea culpa. “Ele me confessou que hoje pensa como eu. Ele está mudado. É talentoso e carismático pra burro”, diz o ex-governador. As mudanças, segundo o prefeito eleito, não são tão gritantes. Se houvesse a chance de uma revolução no Brasil, ele garante, largava tudo e entrava. “Mas essa bandeira não é real. Dizem que de revolucionário passei a reformista. É isso mesmo. É com reformas que conseguiremos avançar".

segunda-feira, 14 de julho de 2014

REDENÇÃO

Terminou ontem a segunda Copa do Mundo disputada no Brasil, e depois do que se viu na última terça-feira, no Mineirão, só nos cabe homenagear os caras de 50, o goleiro principalmente. Todos eles, desde a primeira semifinal desta segunda Copa brasileira, enfim descansam em paz, cientes de que honraram a história e a força do futebol brasileiro.

A matéria abaixo não foi assinada. Saiu com um discreto Da Redação em cima, e com um mais discreto ainda Com Agência Reuters no pé, entre parênteses.

Jornal do Commercio, edição de quarta-feira, 9 de julho de 2014

Foi o maior placar já registrado numa semifinal de Copa. Feito semelhante só foi obtido, por ironia do destino, pelo Brasil de 1950, que fez 7 a 1 na Suécia no quadrangular final da Copa, isso depois de aplicar 6 a 1 na Espanha, sempre num Maracanã em delírio.


Barbosa, Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Os jogadores que estiveram em campo na derrota para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950 ficaram marcados por toda a vida como protagonistas de uma tragédia sem precedentes, de uma derrota inimaginável e, muitos diziam, do maior vexame da história do futebol brasileiro. O goleiro Barbosa, então, sofreu ainda mais que os companheiros de time, isso porque deixou passar entre ele e a trave um chute à queima-roupa do atacante uruguaio Gigghia, que carregou a bola livre, sem marcação, até a quina da pequena área. O Brasil jogava pelo empate para ser campeão mundial pela primeira vez, em casa, mas com esse gol de Gigghia perdeu, e por 2 a 1, o suficiente para dar início ao pesadelo que perseguiu os jogadores de 50 até o fim da vida de todos eles, já falecidos. Pois ontem, em sua segunda Copa do Mundo jogando no País, a Seleção Brasileira, pentacampeã mundial desde 2002, mostrou o que é, de verdade, um vexame histórico. Na semifinal contra a Alemanha, no Mineirão, o time da dupla Felipão-Parreira foi goleado por inacreditáveis 7 a 1, diante de uma torcida atônita, estupefata, que antes dos 30 minutos de jogo já via o Brasil perder de 5 a 0, e jogar como um bando de crianças nervosas diante dos pragmáticos e talentosos alemães.
Foi o maior placar já registrado numa semifinal de Copa. Feito semelhante só foi obtido, por ironia do destino, pelo Brasil de 1950, que fez 7 a 1 na Suécia no quadrangular final da Copa, isso depois de aplicar 6 a 1 na Espanha, sempre num Maracanã em delírio. Ontem, no Mineirão, a festa parou na emoção de sempre do hino nacional. Com 7 minutos de jogo, Müller fez 1 a 0 completando livre na área uma cobrança de escanteio, por baixo do goleiro Julio Cesar. Logo em seguida, Klose fez o segundo pegando rebote do goleiro brasileiro, e ultrapassou Ronaldo Fenômeno para se tornar o maior artilheiro de todas as Copas, com 16 gols, um a mais que o brasileiro.
Sem Neymar, machucado, e Thiago Silva, suspenso, o técnico Luiz Felipe Scolari optou por manter o criticado Fred no ataque e entrar com Bernard e Hulk para auxiliá-lo na frente. No meio, entraram Luis Gustavo, Fernandinho e Oscar, e mais ninguém. A opção ofensiva abriu o caminho para o passeio alemão, e mesmo com dois gols sofridos em tão pouco tempo, Felipão não achou que deveria tentar corrigir seu erro. Viu do banco de reservas, tão incrédulo quanto o coordenador técnico Carlos Alberto Parreira, a Alemanha fazer o terceiro com o meia Toni Kroos, num chute que Julio Cesar quase defendeu. Ele chegou a tocar na bola, mas sem força suficiente para desviar do gol. Depois vieram o quarto gol, também de Kroos, e o quinto, do volante Khedira, e aos 29 minutos do primeiro tempo a primeira
semifinal do Mundial de 2014 já estava mais que definida.
Ao fim do primeiro tempo, os jogadores brasileiros foram muito vaiados e saíram de campo de cabeça baixa. Para a segunda etapa, Felipão fez duas alterações, colocando Paulinho e Ramires nos lugares de Fernandinho e Hulk, respectivamente. O time brasileiro até melhorou, mas desperdiçou chances claras logo depois do intervalo, com Oscar e Paulinho, com o goleiro alemão Manuel Neuer fazendo grandes defesas. A torcida alemã já gritava “Rio de Janeiro ô ô ô”, enquanto os brasileiros começaram a hostilizar Fred, que chutou muito fraco a gol aos 15 minutos e passou a ser vaiado quando pegava na bola. 
A Alemanha esperava o Brasil na defesa e ao se aventurar no ataque trocando passes fez 6 x 0 com Schuerrle, de dentro da área aos 24 minutos. O mesmo atacante ampliou dez minutos depois, num chute alto de esquerda. Para poupar Fred, o treinador brasileiro o substituiu por Willian aos 24 minutos, mas o atacante do Fluminense não escapou das vaias ao sair. Nos minutos finais, a Alemanha tocou bola ao som de "olé" das arquibancadas lotadas do Mineirão. Aos 45 minutos, Oscar ainda diminuiu para o Brasil, fazendo a torcida vibrar um pouco, ainda que meio sem graça.
Ao contrário do silêncio sepulcral no Maracanã no fim da decisão da Copa de 50, o que se ouviu ontem com o apito final foram vaias, muitas vaias. Com alguns jogadores chorando, especialmente Oscar, Felipão reuniu todos no meio-campo e eles aplaudiram a torcida. Abraçados, David Luiz e Thiago Silva foram os últimos a deixar o campo. Com o time bagunçado, o Brasil encerrou de forma constrangedora a chance de disputar o título no Maracanã e vai jogar pelo terceiro lugar em Brasília, no sábado, depois de chegar ao torneio como favorito devido ao título da Copa das Confederações de 2013, e por jogar em casa. 
Mas a Seleção, que jogava para fazer história como a primeira a chegar à final nas duas Copas que disputou em seus domínios, não conseguiu repetir o feito de 50. Ao contrário daquela equipe, que fez de Ademir artilheiro do torneio e o brasileiro que mais gols (nove) marcou numa só Copa - além de ter feito o primeiro do Mundial, contra o México, no Maracanã -, o Brasil de 2014 teve uma campanha fraca no Mundial em casa, com desempenhos que não convenceram mesmo quando seu astro, Neymar, estava em campo. Sem ele, virou vexame.