quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

RENOVAÇÃO

Ontem saiu o resultado de mais um desfile de carnaval no sambódromo. A Unidos da Tijuca, vascaína de coração, foi a grande campeã. Foi o segundo campeonato de Paulo Barros, que já há algum tempo vem sendo tão badalado, mas tão badalado, que só pode ser apontado como legítimo sucessor do Joãosinho Trinta, mesmo que ele não queira isso.

A badalação começou na época da matéria abaixo, depois do primeiro desfile dele no Grupo Especial.

Revista Istoé Gente, edição 239, de 8 de março de 2004

“Me impressionei com um carro que só tinha latas de tinta, sem nenhum enfeite, e estava bonito”

Antes de estrear como carnavalesco no Grupo Especial do Rio de Janeiro, Paulo Barros, 41 anos, teve uma missão difícil: convencer o presidente da Unidos da Tijuca, Fernando Horta, a montar um enredo sobre as conquistas da ciência, tema considerado complexo para o Carnaval. “Achei complicado de início. Passei uns dias pensando até aceitar”, conta Fernando, que hoje não se arrepende. Com o enredo A Arte da Criação e a Criação do Sonho; a Arte da Ciência no Tempo do Impossível, a escola que só ganhara um Carnaval no longínquo 1936, e nunca figurou entre as grandes, conseguiu um inédito vice-campeonato, atrás da Beija-Flor. Paulo, o mentor do desfile, foi aclamado como a grande revelação de 2004.
Comissário de bordo da Varig por 14 anos – de 1983 a 1997 – Paulo é um apaixonado pelo Carnaval carioca desde os 13 anos. Nessa idade, começou a acompanhar os preparativos para o desfile da Beija-Flor de Nilópolis, escola da cidade onde nasceu e foi criado, na Baixada Fluminense. “Nas vésperas do desfile, o Farid (Abrahão David, irmão de Anísio, patrono da Beija-Flor) fazia um mutirão para ajudar a preparar a escola. Eu sempre ia”, lembra. Era a época em que Joãosinho Trinta tinha acabado de assumir a escola, transformando-a numa grande agremiação ao conquistar o tricampeonato de 1976-1978.
Com o tempo, Paulo passou a prestar atenção no mestre. Mesmo depois de sair de Nilópolis, em 1984, e assumir o emprego na Varig, continuou a freqüentar o barracão da Beija-Flor até 1993, último ano de Joãosinho na escola. Paulo só não aceita ser apontado como sucessor do carnavalesco. “Quem sou eu para hoje me achar sucessor desse homem. Ele revolucionou o Carnaval numa época em que o desfile das escolas estava em decadência”, afirma ele, que, solteiro, mora em Niterói, na região metropolitana do Rio.
Revolucionário também é um dos adjetivos que vêm sendo usados para definir o desfile da Unidos da Tijuca em 2004. Graças, principalmente, ao carro do DNA, no qual a alegoria era formada pela coreografia dos 127 componentes, pintados de azul. Considerada a criação mais inovadora do Carnaval desse ano, o carro é fruto da originalidade de um carnavalesco que aprendeu a trabalhar sem muito dinheiro desde 1994, quando assinou seu primeiro desfile com a pequena Vizinha Faladeira, do centro do Rio.
Logo no primeiro ano, conquistou o segundo lugar do Grupo de Acesso B (espécie de terceira divisão do Carnaval), subindo para o Acesso A. A partir daí, acumulou experiências. “O Grupo de Acesso foi minha universidade. Aprendi a trabalhar com poucos recursos”, conta Paulo, que estudou até o quarto período de Arquitetura e usa seus conhecimentos no barracão. “Até hoje sou eu quem desenha a planta dos carros”, diz.
Livre do emprego na Varig, ingressou na Arranco de Engenho de Dentro, onde trabalhou de 1999 a 2001, mas foi na Paraíso de Tuiuti, no ano passado, que o carnavalesco começou a chamar a atenção das escolas do Grupo Especial. “Me impressionei com um carro que só tinha latas de tinta, sem nenhum enfeite, e estava bonito”, lembra Fernando Horta.
Após ser sondado pela Caprichosos de Pilares, penúltima colocada em 2004, Paulo acabou acertando com Fernando. Com o sucesso no Grupo Especial, ele só quer continuar inovando. “Cada carnavalesco tem sua marca, mas, talvez por comodismo, o desfile ficou monótono. Espero contribuir para mudar isso.”

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

SELVA NO APÊ

A primeira sensação, ao receber a pauta, foi de incredulidade. Será que tinha mesmo um cientista brasileiro que trabalhava num apartamento de dois quartos em Copacabana e podia ganhar o Nobel de Química? Tinha, mas ele próprio ironizava a tal candidatura ao Nobel, ainda que seu trabalho merecesse o prêmio, talvez mais do que qualquer outro.

Depois de chegar ao Brasil fugindo de um tal de Hitler, e de se embrenhar durante anos pelas matas nacionais, descobrindo remédios em mais de 20 mil plantinhas, todas catalogadas nas estantes que ocupavam quase todo o apartamento de dois quartos, Otto Gottlieb morreu no dia 19 de junho de 2011. Não ganhou o Nobel.

Abaixo, a matéria

Revista Istoé Gente, edição 47, de 26 de junho de 2000

“Somos mal financiados para ganhar um grande prêmio, como o Nobel. É necessário muito marketing”

Em meio à selva de pedra formada pelos edifícios de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, o químico Otto Richard Gottlieb, 79 anos, preserva uma floresta particular. Em vez de árvores, o paraíso de Gottlieb tem estantes, que tomam conta de seu apartamento de dois quartos. São cerca de 20 mil fichas, referentes às substâncias que podem ser encontradas em 270 famílias de plantas espalhadas pelo Brasil. A selva de papel do químico é fruto de sua tentativa de entender a linguagem das plantas, um trabalho pioneiro iniciado em 1944, que permite prever o valor medicinal das espécies. Esse sacerdócio já lhe rendeu três indicações (1998, 1999 e 2000) para o Prêmio Nobel.
Nascido na cidade de Brno, na República Tcheca, e naturalizado brasileiro desde os 21 anos, Gottlieb começou a se interessar pela flora nacional graças ao pai, o também químico Adolf Gottlieb. Assim que se estabeleceu no Rio de Janeiro, Adolf montou uma fábrica que transformava óleos da Amazônia em produtos químicos. “Era evidente que continuaria nesse meio”, diz, ainda com sotaque. “Meu avô paterno era químico e meu filho primogênito, Hugo, também optou pela química”, diz Gottlieb, casado com a professora de matemática Franca e pai de outros dois filhos, Marcel e Raul, ambos engenheiros.
Hoje, depois de assinar 642 publicações sobre o tema, entre livros e artigos, Gottlieb tem a convicção de que a vegetação brasileira faz parte de uma rede que liga todas as regiões do País, desde a Amazônia até os pampas, no extremo sul. E faz um alerta: “Isso é muito bonito, até o ponto em que se compreende que arruinar uma região significa machucar a outra”, afirma. Se atualmente divide o seu tempo entre o apartamento de Copacabana e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), onde também desenvolve suas pesquisas, ele já passou boa parte da vida viajando por regiões inóspitas, em busca de matéria-prima para seus estudos.
O professor continua viajando para participar de palestras e congressos. Em setembro, presidirá o 22º Simpósio Internacional de Química de Produtos Naturais, que pela primeira vez será realizado no Brasil, em São Carlos (SP). A idade avançada, no entanto, não o impede de voltar à mata. No ano passado, ele enfrentou tranqüilamente 40 minutos de avião de Belém até Breves, no interior do Pará, e outras 13 horas de barco até a reserva ecológica de Caxiuanã. “Encontrei uma mulher numa choupana que quase caiu para trás quando eu disse minha idade”, conta. “Ela nunca tinha visto alguém tão velho por ali”, completa.
Os anos de observação não se resumiram às plantas. O comportamento dos índios e até de macacos já foi estudado por Gottlieb, que conseguiu encontrar semelhanças entre homens e primatas no consumo de alimentos vegetais e até na utilização de plantas medicinais. “Resta saber quem imitou quem”, brinca. Substâncias descobertas por ele já estão sendo estudadas em laboratórios como o da Fiocruz, no Rio. É lá que pesquisadores trabalham no combate à doença de Chagas com a burcherina, planta da planície amazônica catalogada e estudada por Gottlieb. Outra planta catalogada pelo cientista, a porosina, originária da Região Sul, vem sendo testada na fabricação de antiinflamatórios.
Indicado para o Prêmio Nobel de Química três vezes, o cientista brasileiro não vê a mais remota possibilidade de ser agraciado, e culpa a falta de incentivo do governo pelo seu pessimismo. “Somos mal financiados para ganhar um grande prêmio, como o Nobel. É necessário muito marketing”, diz. Ganhador de 21 prêmios, entre eles o da Academia de Ciências do Terceiro Mundo, em 1991, Gottlieb trabalha com a ajuda da também química Maria Renata Borin, sua ex-aluna. “Como nós dois vamos competir com institutos que têm verbas milionárias?”, questiona o químico.
A originalidade do trabalho de Gottlieb é outro empecilho para que sua atividade ganhe um Nobel de Química. “Estamos desenvolvendo uma disciplina nova, que chamamos de químico-biologia”, explica. Longe de mostrar a sisudez esperada em cientistas, o químico brasileiro até se diverte com algumas bobagens escritas sobre seu trabalho. “Um repórter chegou a escrever o hífen por extenso quando eu disse o nome da disciplina”, conta. “Com as notícias que lemos nos jornais, onde estaríamos se não houvesse alguém para nos fazer rir escrevendo hífen por extenso? As bobagens são essenciais.” Gottlieb só perde o bom humor ao comentar a violência urbana. Acostumado a se embrenhar na mata, o cientista foi obrigado a antecipar das 18 horas para as 16 horas a caminhada diária no calçadão de Copacabana depois que foi assaltado. O químico das selvas acha muito perigoso andar na cidade depois do pôr-do-sol.

domingo, 18 de dezembro de 2011

NO MESMO DIA II

Sérgio Britto e Joãozinho Trinta morreram no mesmo dia. Ontem.
A entrevista com o ator foi feita na casa dele, em Santa Tereza. Já com o carnavalesco foram duas entrevistas no mesmo lugar, no antigo barracão da Acadêmicos do Grande Rio, na Gamboa. A segunda foi para uma série da revista, em que a vida de alguém era contada em capítulos, um por semana. A última matéria, lá embaixo, foi o primeiro capítulo dessa série.

Revista Istoé Gente, edição 229, de 22 de dezembro de 2003

“Disse a eles: ‘Não se impressionem com o tombo. Foi de propósito. Caio todo dia num lugar’. E saí de cena.”

Além de atacar os pulmões, a anemia congênita herdada da família por Sérgio Britto, 80 anos, provoca um desequilíbrio inesperado, como um empurrão. Por conta disso, o ator teve cinco pneumonias em 2001. Curou todas, mas não escapou do “empurrão” no mês passado, quando encenava Sérgio 80, na lona cultural de Guadalupe, subúrbio carioca. Diante de 700 pessoas, ele caiu do palco e fraturou quatro costelas. Após alguns segundos de silêncio, levantou-se e, sozinho, subiu os quatro degraus de volta. Sob aplausos, avisou que continuaria a peça.
A determinação mostrada no episódio não é muito diferente da que fez o jovem estudante do quarto ano de medicina decidir pelo teatro. Mesmo que até hoje ele não saiba por que aceitou entrar no Teatro Universitário de Jerusa Camões, em 1945. Acompanhando um amigo à sede da UNE (União Nacional dos Estudantes), no Rio, o rapaz tímido que começava a admirar as peças de Ziembinski e Nelson Rodrigues, mas ainda preferia o cinema, foi surpreendido por Jerusa. “Ela me achou simpático e perguntou se eu queria fazer teatro. Acho que o ‘sim’ que falei estava contido em mim há tempos”, conta.
Na primeira peça, Romeu e Julieta, Sérgio estreou junto com Sérgio Cardoso, ator morto em 1972. Na época, o teatro ainda era brincadeira para o médico residente que dividia seu tempo entre os ensaios e o trabalho no pronto-socorro do Hospital Souza Aguiar. Com os colegas da segunda peça, Hamlet, não era muito diferente, com exceção de Sérgio Cardoso. “Ele já era um ator. O Sérgio foi uma inspiração, o culpado de eu estar fazendo teatro”, resume Britto.
Quatro dias antes da estréia de Hamlet, em 6 de janeiro de 1949, o ator se formava em Medicina, mas nunca foi buscar o diploma. Sucesso no Rio, a peça viajou por São Paulo, e foi em Campinas que Sérgio Britto abandonou a medicina. Pressionado pelo pai, o funcionário público Lauro, teve com ele a conversa definitiva:
– Você está há três meses fazendo Hamlet. E a medicina?, quis saber o pai.
Após uma noite sem dormir, o ator respondeu no dia seguinte, dizendo que iria fazer teatro.
– Mas você disse que não era ator, retrucou seu pai.
– Também acho que não sou, mas vou tentar ser, disse Sérgio.
Logo depois, Britto e Cardoso montaram, com outros amigos, o Teatro dos 12, que marcou o início da carreira profissional dos dois. As dúvidas sobre se teriam o apoio da família se dissiparam na primeira montagem do grupo, um novo Hamlet. “Faltou o bilheteiro um dia e meu pai o substituiu”, conta Sérgio.
Por falta de dinheiro, a companhia durou um ano. Convidado para interpretar em São Paulo, em 1950, Sérgio participou da fundação do Teatro de Arena, de José Renato Pécora. Depois ingressou na companhia teatral de Maria Della Costa, onde encontrou Gianni Ratto, o diretor que em 1954, em O Canto da Cotovia, de Jean Anouilh, o faria considerar-se, definitivamente, um ator. Jovem e bonito, Sérgio foi escalado para viver o Delfim, feio e frágil. Seguindo os conselhos do diretor, conseguiu deformar o próprio corpo, livrando-se do estigma de galã. “O Gianni trabalhou em mim uma emoção verdadeira, não em cima da minha beleza.”
Em São Paulo, Sérgio também conheceu Fernanda Montenegro e Fernando Torres, num período rico em idéias e diversão. Após cada espetáculo, os atores jantavam e caminhavam a pé, de madrugada, para tomar café no ex-tinto Jeca, na esquina da Rua Ipiranga com Avenida São João. Compravam os jornais do Rio e iam dormir, com o dia claro. “Foi um período de grandes e maravilhosas memórias, quando começamos a sonhar uma companhia”, lembra Fernanda Montenegro.
Montado com Fernanda, Fernando, Gianni e, mais tarde, Ítalo Rossi, o Teatro dos Sete começou a surgir num momento difícil para Sérgio Britto. Com a saída de Gianni Ratto da Cia. de Maria Della Costa, o ator se viu obrigado a optar entre duas pessoas queridas. “Foi terrível, mas não traindo a Maria, trairia a mim mesmo.”
Depois de uma passagem pelo Teatro Brasileiro de Comédia, no Rio, Sérgio e seus futuros sócios decidiram montar o Teatro dos Sete. Para isso, o antigo galã precisou usar seus dotes de sedução. Como o grupo acumulava as peças com o trabalho na televisão desde 1956, no Grande Teatro Tupi, Sérgio, que dirigia o programa, entrava no início pedindo contribuições para a futura companhia. “Fui um sedutor canalha. Dizia: ‘Vocês vão poder nos assistir de perto, ir nos bastidores para um autógrafo, quem sabe um beijinho’, uma conversa muito safada”, diverte-se.
Na estréia de O Mambembe, em 1959, o Teatro Municipal do Rio estava lotado. Entre novos sucessos e um fracasso de público, O Cristo Proclamado, de Francisco Pereira da Silva, o grupo chegou ao Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, em 1961, quando Sérgio acumulou as maiores vaias da carreira. Na pele do jornalista Amado Ribeiro, dizia falas como “minha empregada fez aborto com talo de mamona. Tá num morre, não morre”. A vaia era estrondosa. “Com o tempo eu ficava esperando a vaia”, conta o ator. Mas com a renúncia de Jânio Quadros, o público caiu muito.
Por sorte, havia a televisão, apesar das dificuldades das gravações ao vivo. Numa delas, Sérgio dirigia Fernanda Montenegro. A cena terminava com a atriz olhando pela janela, com malícia, mas o diretor de câmera, Mário Provenzano, acostumara-se a finalizar cada ato com uma mulher chorando. “A câmera ficou quase um minuto na Fernanda, até que falei para ela chorar”, lembra Sérgio.
No palco, um dos maiores apertos aconteceu no Irã, em 1974, durante apresentação dos Autos Sacramentales de Calderon de La Barca, na Planície das 50 Colunas, monumento da antiga Pérsia. Com a tensão da estréia agravada pela proibição do nu dos atores, imposta pelo xá Reza Pahlevi, Sérgio acabou cuspindo durante a primeira fala o pivô que substituía um dente recém-perdido. “Continuei o espetáculo e, quando tudo tinha acabado, achei o pivô incrustado numa madeira, na platéia vazia.”
Ao longo da carreira, o ator só não foi assíduo no cinema. Em 1951 e 1952, fez roteiro e assistência de direção nos estúdios Maristela e Multifilmes, em São Paulo, mas a falência dos dois mudou sua trajetória. “Acho que o cinema não tinha que vir para mim”, diz Sérgio, que foi sondado para o lugar de Paulo Gracindo em Terra em Transe, de Glauber Rocha, e lembra-se de ter feito dois filmes, Society em Baby-doll e O Desafio.
Se o cinema não vingou, a paixão pelo teatro marcou a vida do ator a ponto de fazê-lo, mesmo sem muita convicção, tentar o suicídio logo no início da carreira. Com 23 anos, Sérgio acumulava a dúvida entre teatro e medicina com a descoberta da homossexualidade, hoje admitida publicamente pelo ator. Embriagado na volta de um baile de Carnaval, cortou-se com uma gilete. “Não foi com a fúria de quem quer se matar”, admite o ator, que tirou suas lições do episódio. “Fiquei sábio depois daquele dia.”
E era sobre a sabedoria de envelhecer o texto dito por Sérgio Britto nos 10 minutos finais de sua apresentação em Guadalupe, quando a dor das costelas quebradas, que não o incomodara até ali, começou a latejar com força. Com a determinação mostrada em 58 anos de carreira, levou o espetáculo até o fim, e ainda brincou com a platéia antes de se despedir, quase sem agüentar mais de dor. “Disse a eles: ‘Não se impressionem com o tombo. Foi de propósito. Caio todo dia num lugar’. E saí de cena.”

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Revista Istoé Gente, edição 187, de 3 de março de 2003

"Antes da isquemia tive milhões de avisos. Me sentia mal, tinha uma dor no peito que levou quase 10 anos. Hoje não dou conselhos, porque ninguém escuta. A quem eu vejo repetindo meus erros, desejo boa isquemia. Porque sobrevivi a uma e mudei."


O lado direito do corpo está paralisado desde a isquemia cerebral sofrida em 1996, mas é com desenvoltura que o carnavalesco Joãosinho Trinta circula pelo barracão da Acadêmicos do Grande Rio, escola que defende há dois anos. Afinal, a rotina de preparar um desfile de escola de samba acompanha há 40 anos o filho da operária Júlia Jorge Trinta e do mestre de obras José de Almeida Trinta, morto quando Joãosinho tinha 2 anos.
Antes de fazer história ganhando cinco Carnavais seguidos, de 1974 a 1978, no Salgueiro e na Beija-Flor, o maranhense de São Luís realizou o sonho de ser bailarino do Teatro Municipal cinco anos após sua chegada ao Rio, em 1951, sozinho num navio. Hoje, ele tem uma explicação bem-humorada para sua ligação com a maior festa popular do Brasil. “Nasci em novembro. Portanto, fui concebido em fevereiro. Sou filho do Carnaval.”

Em 40 anos, qual foi o seu Carnaval mais marcante?
O de 1989 na Beija-Flor, com o enredo Ratos e Urubus. Apesar de não ter ganho (a Beija-Flor perdeu o título para a Imperatriz Leopoldinense por meio ponto), as pessoas me falam desse desfile até no Exterior. Ter entrado para a história compensa. Lamento somente ter esquecido de mostrar o lixo de algum jurado do desfile, porque mostrei os lixos de diversos setores da sociedade.


Naquele ano, a Beija-Flor saiu com uma imagem do Cristo Redentor coberta por ordem da Justiça. O que acha dessa nova polêmica da escola, que queria mostrar Jesus atirando no diabo?
Não tomei conhecimento, mas posso perguntar: será que não estão querendo reeditar a polêmica?

Ultimamente seus desfiles não causam tanta polêmica. Por quê?
Nunca busquei sensacionalismo. Ele surge de vez em quando, mas a intenção não é essa. É claro que se busca no Carnaval o inusitado, algo que possa surpreender como o astronauta sobrevoando a avenida no último desfile da Grande Rio. Mas a polêmica quem faz são os outros.

O apoio de empresas ao desfile tirou a identidade do Carnaval?
Esse tipo de pensamento é romantismo barato. Como manter um espetáculo grandioso sem estrutura? Quem fala isso nunca assistiu a um desfile de escolas do quinto grupo nos subúrbios. As escolas cariocas não são apenas as da Marquês de Sapucaí que a tevê mostra. Para mostrar tem de ser um espetáculo internacional, precisa estrutura. A Grande Rio está dando um exemplo de como trabalhar com a colaboração de empresas sem se deixar influenciar pelo merchandising.

De que forma isso ocorre?
Esse ano a Vale do Rio Doce está colaborando com a escola, mas tivemos cuidado de evitar merchandising no desfile. Não precisa. A mineração no Brasil é um assunto vasto. É só 
saber fazer, porque não dá para dispensar o apoio das empresas. Só com a verba que a Liga das Escolas de Samba repassa hoje, fica difícil de fazer, com o dólar disparando. Algumas escolas podem ter exagerado no merchandising em outros desfiles, o que gerou comentários.

A frase “pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”, afinal, é sua ou do jornalista Elio Gaspari?
Me arrependo de não ter guardado um artigo do Elio Gaspari no jornal no ano passado, em que ele deixava claro que a frase é minha.

Continua pensando assim?
Continuo. Me referi não ao luxo superficial de riqueza, mas ao luxo que o povo gosta, da emoção, alegria, criatividade. E falava dos pseudo-intelectuais, que diziam que eu não retratava a realidade do Brasil. A miséria existe mas o Brasil não é miserável. Tem riquezas para dar e sobrar. Quem torna esse país miserável são políticos, corruptores e ladrões, homens contados a dedo.

A quem se refere exatamente?
Preciso citar? Não preciso. Vocês da imprensa sempre denunciam.

Qual o real poder de um carnavalesco na escola?
A Grande Rio tem um patrono, um presidente executivo e uma diretoria, que administram a escola. Na parte artística fica tudo comigo. Chego no barracão às 9h e, quando precisa, fico até de madrugada.

O que mudou após a isquemia?
Tinha padrões errados tanto de alimentação como com o meu corpo. Não descansava, não me alimentava direito. Hoje como regradamente e faço a sesta religiosamente. Não atendo ninguém depois do almoço e ainda tomo um vinho tinto por recomendação médica, porque é benéfico para o coração. Também fiz reciclagens mentais depois da doença.

Que tipo de reciclagens mentais?
Tinha bloqueios e com a isquemia fui entender muita coisa por intuição. Jung dizia que muita gente morre antes de ter nascido completamente, porque carrega as mazelas da infância e até de vidas passadas, e não recicla nunca. Envelhece porque carrega um fardo pesado. Esse ano faço 70 anos e estou me reciclando dos problemas que tive na vida. Depois de uma isquemia e duas pontes de safena e uma mamária (em 1997), me sinto melhor do que há 40 anos.

Teve medo de morrer?
Nunca. A isquemia te dá uma noção de que você está perigando, que não é brincadeira. Mas no hospital sua intuição lhe esclarece muito, você entende os conselhos que te davam e, principalmente, os conselhos do seu corpo. Antes da isquemia tive milhões de avisos. Me sentia mal, tinha uma dor no peito que levou quase 10 anos. Hoje não dou conselhos, porque ninguém escuta. A quem eu vejo repetindo meus erros, desejo boa isquemia. Porque sobrevivi a uma e mudei.

A paralisia influi no seu trabalho?
A isquemia paralisa metade do corpo. É um certo esforço no desfile, mas nem sinto diante da emoção do povo. No barracão, antes eu metia a mão na massa, hoje sou forçado a delegar poderes.

Pensa em parar?
Planejo viver mais 70 anos. Pretendo fazer uma cirurgia no cérebro a laser e tenho certeza que os movimentos voltarão ao normal. Não sei que tipo de Carnaval farei nos próximos 70 anos, mas quero continuar vivo. Trabalho com o divino. A palavra divino vem do verbo advir. Então divino para mim é o futuro, o que há de vir.

Quando entrou na Beija-Flor tinha conhecimento que ela era financiada pelo jogo do bicho
Claro que tinha. Graças a Deus o bicho financiava, porque o governo, que devia tomar conta do evento que traz turistas e melhor representa o Brasil lá fora, nunca fez nada. O governo foi relapso, os banqueiros do jogo do bicho não foram.

Não fica constrangido em ter o Carnaval financiado pelo jogo do bicho?
Constrangido eu deveria ficar diante dos governos que não são sensíveis ao Carnaval. As escolas estavam morrendo e só os banqueiros do bicho tomaram conhecimento. Se não fossem eles, ninguém estaria lamentando o fim do Carnaval porque simplesmente ninguém iria conhecer essa festa maravilhosa que é o desfile das escolas de samba.

Como começou no Carnaval?
Em 1963 fui ser assistente de Arlindo Rodrigues no Salgueiro. Tinha know-how de montagem de óperas, porque vinha do teatro. Ainda como bailarino me interessava pela cenografia e pelo figurino, tanto que nos anos 70 cheguei a montar óperas no Teatro Municipal, como Aída e O Guarani.


Você sofreu preconceito por ser bailarino?
Da família, não, mas claro que teve. Era tão apaixonado pela dança que não entendia a reação preconceituosa das pessoas.


Qual foi seu primeiro enredo?
Em 1974, fui campeão com O Rei de França na Ilha da Assombração, no Salgueiro. No ano seguinte fomos bi, mas já estava perturbado pelas mudanças sociais no Rio e principalmente no Morro do Salgueiro. 

Que mudanças?
Vi um garoto de 12 anos, que tinha o apelido de Pedro Marreco e era presidente da ala das crianças da escola, virar o maior bandido do morro em dois anos. A bandidagem e o tráfico tinham se instalado e vi que as crianças eram as mais atingidas. Queria fazer um trabalho social, porque naquela época tive a intuição do inferno que o Rio ia se tornar, mas a diretoria do Salgueiro achava que só fazer Carnaval já era demais.


Por isso foi para a Beija-Flor?
O contrato que fiz com o Anísio previa a obra social. Em 1976 vencemos o Carnaval numa época em que só as quatro grandes (Portela, Mangueira, Salgueiro e Império Serrano) ganhavam. Quando saí da escola, 17 anos depois, estava instalada uma creche para 450 crianças, um educandário 
para 500 e um centro comunitário, entre outras melhorias. Agora na Grande Rio também fazemos um trabalho social intenso, com diversos cursos profissionalizantes.


Quantos meninos tirou do tráfico de drogas com os trabalhos sociais nas escolas de samba?
Não sei especificar quantos, mas já ajudamos centenas. Isso porque só trabalhávamos com crianças carentes e já delinqüentes. Quem não se recuperou, morreu porque a expectativa de vida no tráfico é muito pequena. Quem ficou conosco sobreviveu e mudou de vida.


A motivação hoje é a mesma?
Trabalho ainda com o Carnaval como quem cumpre uma missão importante para o Brasil. Enquanto o mundo se prepara para uma guerra de cobiça, onde vai predominar a morte, aqui no Brasil estamos preparando a guerra da alegria.

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Revista Istoé Gente, edição 237, de 23 de fevereiro de 2004

“Ficou uma fantasia sei lá de quê, mas entrei no baile.”

Do formigueiro no quintal ao carcomido muro da casa onde passou parte da infância, em São Luís, tudo era motivo para despertar a imaginação do menino João Clemente Jorge Trinta. Aos cinco anos, o filho da operária tecelã Júlia Jorge Trinta passava horas observando o trabalho das formigas. Já os buracos do muro se transformavam, na visão do garoto, em palácios, numa antecipação do que a mente do futuro carnavalesco criaria nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. “Minha infância foi cheia de surpresas. Me assombrava a todo momento com pequenas descobertas”, lembra Joãosinho.
Quarto de cinco irmãos (três mulheres e o caçula), João não se lembra do pai, o mestre-de-obras José de Almeida Trinta, morto quando o filho tinha dois anos. Nascido a 23 de novembro de 1933, numa casa da Praça Silva Jardim, morou também na Rua do Alecrim e na Rua da Paz durante a juventude marcada pelas dificuldades financeiras, mas facilitada pelo esforço da mãe mesmo quando a comida era pouca. “Quando só tinha restos de arroz, achava tão gostoso que não sentia a tragédia”, conta ele.
Entre as lembranças da Praça dos Remédios, da igreja no mesmo local e dos coretos da antiga São Luís, o carnavalesco se recorda especialmente das tardes passadas no Teatro Arthur Azevedo. Com 12 anos, já era freqüentador assíduo do local, onde assistia a ensaios de companhias como a de Procópio Ferreira. Apesar do começo trabalhando com teatro amador e teatro de bonecos, por volta dos 16 anos, foi o balé que atraiu definitivamente o futuro carnavalesco para o meio artístico. “São Luís nem tinha academia de dança. Não tenho justificativa, mas essa minha paixão pela dança foi muito forte”, recorda Joãosinho.
Tão forte que o jovem freqüentador das rodas de intelectuais da capital maranhense, que reuniam o ex-presidente José Sarney e o poeta Ferreira Gullar, entre outros, aproveitou a primeira oportunidade para viajar ao Rio de Janeiro, sonho de todo aspirante a artista da época. Promovido de office-boy a auxiliar de escritório de uma financeira, a Cosmos, João conseguiu uma transferência para o Rio. Com suas economias, comprou a mais barata passagem de um velho Ita do Norte, o barco que costumava levar retirantes do Norte e do Nordeste para a então Capital Federal.
Antes de o navio partir, porém, teve um susto e uma grata surpresa. Instalado no fundo do Ita do Norte, foi chamado à sala do capitão. O medo de ser retirado da embarcação por ser menor de idade durou até a chegada diante do comandante, que, mostrando um documento, informou ao passageiro que ele deveria mudar de lugar. “Ele me
disse que, por ser menor de idade, estava sob sua responsabilidade e iria viajar num camarote ao lado do dele”, conta o carnavalesco.
Após 20 dias de um viagem cheia de mordomias inesperadas, Joãosinho Trinta desembarcava no Rio em pleno domingo do Carnaval de 1951. Mal levou suas coisas para a casa de dona Zizi, maranhense amiga da operária Júlia Trinta, foi ao Teatro Municipal do Rio com um firme objetivo: participar do baile que seria realizado ali no dia seguinte e era um dos maiores acontecimentos do Carnaval.
Após conversar com um eletricista do teatro, obteve a promessa de ter a entrada facilitada no baile caso aparecesse com uma fantasia. Uma intensa busca por trapos velhos na casa de dona Zizi resolveu o problema, mesmo que até hoje o carnavalesco não saiba definir o que representava a primeira fantasia que criou. “Ficou uma fantasia sei lá de quê, mas entrei no baile.”
Passado o Carnaval, a primeira providência foi se matricular numa academia de dança, mas o sonho de ingressar no corpo de baile do Teatro Municipal só seria realizado cinco anos depois. Aprovado em concurso, Joãosinho estrearia como bailarino no fim de 1956, como parte do elenco da ópera Coventina. Antes disso, ainda amargaria duras experiências.
Assim que passou no concurso do Municipal, João pediu demissão da financeira. Só não contava com a demora em ser chamado para o balé. No primeiro mês ainda conseguiu pagar o aluguel da pensão onde morava, no Catete, zona sul carioca. Despejado, passou três meses dormindo no bonde que ia do centro da cidade ao Leblon, na zona sul. “Pagava uma passagem e o condutor me deixava dormir no banco de trás, indo e voltando pelo trajeto”, lembra.
Apesar de se alimentar com as amêndoas da Praça Paris, na Glória, João mal saciava a fome. Já desesperado e sem forças, lembra-se de ter suplicado a ajuda de Deus sentado num banco quando o vento provocado pela passagem de um ônibus pelo local levou aos seus pés uma nota de 50 cruzeiros. “Foi um momento de uma súplica e de um atendimento. Fiquei aberto para a energia altamente sábia de Deus”, conta o carnavalesco, que logo depois foi chamado para o Municipal.
Não demorou para que o bailarino começasse a se interessar pela montagem dos espetáculos. Ainda no fim da década de 50, virou chefe do guarda-roupa, cargo que passou a acumular com o trabalho na escola de samba do Salgueiro, onde chegou em 1963. Levado por Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, dois ex-cenógrafos do Municipal, Joãosinho participou da equipe que revolucionou o Carnaval carioca. “O Carnaval era o chamado samba do crioulo doido. O Pamplona e o Arlindo organizaram mais o desfile e começaram a fugir dos temas oficiais para abordar o negro, por exemplo”, explica o carnavalesco.
Com a experiência de quem chegara a montar óperas no Municipal como Aída, no fim da década de 60, Joãosinho deu sua contribuição à equipe numa época em que preparar um desfile era bem mais difícil que nos dias atuais. “Hoje as técnicas, os materiais, está tudo codificado, mas naquele tempo não tinha nada. Tivemos de descobrir tudo”, explica ele que, após a ida de Pamplona e Arlindo para a Mocidade Independente, em 1973, assinou sozinho o Carnaval do Salgueiro de 1974. Com o enredo O Rei de França na Ilha da Assombração, Joãosinho Trinta conquistou seu primeiro Carnaval e abriu seu caminho.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

BANDIDO DAS ESTRELAS

Quando o repórter chegou para seu primeiro plantão de madrugada no jornal de renome, na redação histórica, enorme, o bandido das estrelas já tinha ficado meio que famoso, ao chamar jornalistas pra dar entrevista. A edição de domingo já estava indo pras bancas e pra mudar alguma coisa só se fosse até onze ou meia-noite, no máximo, e só se fosse o avião do papa, como gostava de dizer o secretário gráfico que ainda não tinha voltado ao jornal nessa época. O plantão era, portanto, tranqüilo, e assim foi até um pouco só depois da fatídica meia-noite, quando, quase em frente ao meio do grande H que era a redação do velho JB na época, no lugar da chefia de reportagem o repórter foi avisado, pelo super Nelsinho, então na escuta, da fuga do bandido das estrelas que só pôde entrar na edição seguinte. Depois o bandido das estrelas virou livro de outro repórter, este já consagrado, e em 2003, no mesmo ano em que a história de sua vida foi lançada, morreu na prisão, vítima de uma emboscada.

A matéria abaixo foi assinada também pela Ana Cláudia Costa e pelo Wilson Aquino. A foto que abre o texto é do Jorge William.

Jornal do Brasil, edição de segunda-feira, 28 de outubro de 1996

"O Marcinho VP e o próprio tráfico no Dona Marta não têm expressão. Se fosse importante no esquema de venda de drogas, não revelaria seu rosto para a imprensa, como fez na ocasião".



O chefe de Polícia Civil, delegado Hélio Luz, minimizou ontem a fuga de sete presos da carceragem da Polinter, na Zona Portuária. Luz fez questão de dizer que os três fugitivos mais conhecidos - Marcinho VP, Lambari e Rogerinho - são homens do terceiro escalão do tráfico de drogas no Rio e não têm a importância que o noticiário está dando a eles. O secretário estadual de Segurança Pública, general Nilton Cerqueira, fez coro às declarações do chefe de Polícia.
Marcinho VP (Márcio Amaro de Oliveira) ganhou fama depois que desafiou o governo do estado e negociou um salvo-conduto para o cantor Michael Jackson e sua equipe filmarem um clipe no Morro da Dona Marta, em Botafogo (Zona Sul). Os traficantes Lambari (Marcus Vinícius da Silva) e Rogerinho (José Rogério Soares) integram o grupo que controla o tráfico no Jacarezinho, na Zona Suburbana.
Hélio Luz frisou que, se Marcinho VP fosse uma grande figura do tráfico carioca, não teria se exposto tanto no caso da gravação de Michael Jackson. "O Marcinho VP e o próprio tráfico no Dona Marta não têm expressão. Se fosse importante no esquema de venda de drogas, não revelaria seu rosto para a imprensa, como fez na ocasião", ressaltou.
Já no caso da fuga de Lambari e Rogerinho, o chefe da Polícia Civil demonstrou maior preocupação. Embora insista em negar que estejam na linha de frente do tráfico, ele reconheceu que os dois são importantes no esquema do Jacarezinho. "Deu trabalho para prender esses homens e vai dar mais ainda para recapturá-los".
Apesar da fuga, Luz disse que a polícia continua ganhando a guerra contra o tráfico, já que os principais traficantes estão presos. Segundo o delegado, os únicos que ainda estão em liberdade são Robertinho de Lucas e Ulisses de Vigário Geral. "E só estão livres porque fugiram do Rio".
Quanto ao suborno ao detetive e carcereiro Aroldo Veloso Dias, o Paquetá, para que facilitasse a fuga, Luz disse que o caso não vai ameaçar a posição do diretor da Divisão de Capturas, Enéas Sá Freire. O delegado afirmou que, a princípio, Enéas Sá Freire permanece, a menos que fique comprovada alguma negligência. Luz disse que o comando das investigações está a cargo do delegado Paulo Maiato, subchefe de Polícia Civil.
Para o secretário de Segurança Pública, general Nilton Cerqueira, a fuga da Polinter é preocupante. Mas ele deu total apoio à posição do chefe de Polícia Civil sobre a falta de expressão dos fugitivos. Nilton Cerqueira lembrou que se Marcinho VP fosse uma liderança expressiva do tráfico, estaria em Bangu I e não na Polinter.

Duzentos reais. Ninguém na polícia tem dúvidas de que o detetive e carcereiro Aroldo Veloso Dias foi subornado para facilitar a entrada de Arlete Monteiro Carvalho, de 32 anos, presa pouco depois, e da mulher conhecida apenas como Janete, que seria namorada do traficante Téia (Francisco Dias Filho), o fugitivo que teria recebido a pistola usada para a fuga.
A arma estava escondida sob as roupas de seu filho, Clêiton, de 2 anos, que Janete levava no colo. Arlete, que não conseguiu escapar com a confusão, foi encontrada na cela 12, a mesma em que estava o detetive Paquetá. Ela confirmou que o policial recebeu R$ 200 para deixá-las entrar. "A gente tinha vindo de manhã, mas o outro policial (o detetive Jorge Firmino de Araújo, conhecido como Marron) não quis conversa. Aí, o seu Paquetá mandou a gente voltar depois das quatro da tarde", contou Arlete, jurando que não sabia do plano de fuga. "A Janete só me contou sobre a arma quando a gente já estava na carceragem", revelou ela, que receberia R$ 100 por ter feito companhia a Janete.
Já o inspetor Rubens Paladini, chefe de operações da Polinter, disse que o detetive Paquetá se refugiou sozinho na cela 12 da carceragem, após ser rendido por Téia. Paladini contou também que os presos queriam matar os outros dois carcereiros que estavam de plantão. Um deles, Cléber Jorge do Nascimento, foi baleado no rosto por Rogerinho, porque se recusou a abrir uma das portas. "O Rogerinho queria matar todos os policiais, mas foi dissuadido pelo Marcinho VP". O outro carcereiro, Emanuel Nascimento de Albuquerque, foi salvo por um preso de confiança, que o ajudou a se esconder. Paquetá e Emanuel estão presos.
A fuga só não foi em massa porque o detetive Marron, que pela manhã barrara a entrada das mulheres, reagiu a tiros. O inspetor Paladini contou que Marron ouviu quando Rogerinho atirou num dos carcereiros e cercou a saída do prédio. O policial trocou tiros com os bandidos, que haviam roubado uma metralhadora, um fuzil, duas escopetas e dois revólveres do paiol da Polinter.
Até ontem, apenas um dos detentos tinha sido recapturado, o homicida Luís Paulo Lopes. Enquanto o chefe de Polícia Civil, delegado Hélio Luz, procurou minimizar a gravidade da fuga, Paladini mostrava preocupação, especialmente por causa de Rogerinho. "É um assassino que gosta de dar tiro em policial".
Segundo Paladini, a polícia não realizou nenhuma grande operação para recapturar os fugitivos porque sabe que eles não voltaram para seus redutos, devendo estar em outros esconderijos. Além de Marcinho VP, Rogerinho, Lambari e Téia, escaparam também os traficantes Márcio de Azevedo Doréa e Camilo Zaider Filho.

sábado, 3 de dezembro de 2011

CASAL TELEJORNAL



Num dia primeiro de dezembro, a Rede Globo anunciou com pompa e circunstância: Fátima Bernardes deixaria a bancada do Jornal Nacional, que apresentava ao lado do marido, William Bonner, há sei lá quantos anos. O anúncio teve entrevista coletiva e edição especial do JN, com a carreira de Fátima sendo revista diante de milhões de brasileiros e brasileiras, um pouquinho antes da novela das oito. A repercussão foi enorme. Das revistas semanais ditas sérias às de celebridade, dos jornais diários à internet, a notícia foi replicada milhares de vezes. Todo mundo ficou sabendo, pelo menos em território nacional.

A entrevista com a Fátima foi feita por telefone, com a conversa sendo devidamente gravada. O Brasil acabava de ser penta no Japão e ela, depois de virar musa da cobertura da Copa, voltava com fama de pé-quente, o que não deixa de ser natural. Afinal de contas, Fátima é Vascão.

Com William Bonner foi ainda mais fácil. A matéria era a capa da edição de fim de ano e ele era o grande homenageado. Nas outras duas revistas do grupo, os homenageados eram Lula e Fernando Henrique Cardoso, e haveria uma festa em São Paulo onde os dois presidentes, o de fato e o eleito, estariam presentes. Os dois e William Bonner, os três sendo homenageados no mesmo nível. A matéria foi tratada com ele pelo diretor da revista, o big boss, e como o Bonner gostou da ideia e resolveu ajudar, foi só chegar e entrevistar.

Revista Istoé Gente, edição 155, de 22 de julho de 2002

“Em casos como o meu, a dilatação do útero dá um sinal para o organismo de que está na hora de nascer bem antes dos nove meses. Então tinha que ficar deitada, tomando remédio para não ter contração. Fiquei parada dois meses e meio, até meus filhos nascerem, com sete meses e meio de gestação”.

Dias atrás, a jornalista Fátima Bernardes, 39 anos, almoçava com o marido William Bonner, seu colega de bancada no Jornal Nacional, num restaurante do Rio de Janeiro. A todo momento a conversa do casal era interrompida por crianças que saíam e voltavam de uma festa infantil ao lado apenas para gritar o nome de Fátima. A história ilustra a que ponto chegou a popularidade da apresentadora do telejornal de maior audiência no País, depois dos 42 dias de cobertura da campanha vitoriosa da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.
Eleita musa da Seleção pelos jogadores, a carioca que aos 10 anos sonhava em ser bailarina ao mesmo tempo em que já brincava de jornalista com uma máquina de escrever, hoje é uma celebridade. É parada nas ruas e recebe centenas de e-mails e telefonemas de telespectadores opinando sobre o seu corte de cabelo ou as roupas que veste. Prestes a completar 15 anos de Rede Globo e há 12 casada com Bonner, a jornalista que comandou no JN, ao lado do marido, a rodada de entrevistas dos quatro candidatos a presidente jura que não se incomoda com o assédio dos fãs. Ela só não abre mão do tempo para ficar com os trigêmeos Beatriz, Laura e Vinícius, de 4 anos.

Como foi entrevistar os presidenciáveis no Jornal Nacional?
Como estivemos tão presentes na Copa e em todos os momentos importantes do País, queríamos também estar presentes nessa eleição. A gente tem de mostrar ao público que esse é o assunto do momento. As pessoas têm de entrar nessa discussão, se informar e saber em quem votar. É ótimo estar no Jornal Nacional quando ele está atendendo a isso. Temos noção de que a tevê é a fonte de informação e diversão da grande maioria da população. Não temos a pretensão de fazer entrevistas definitivas, mas ficamos felizes em colaborar.

Dedicar o mesmo tempo aos quatro candidatos principais e mostrar imparcialidade é uma forma de o JN se recuperar depois da acusação de favorecer Fernando Collor nas eleições de 1989?
Não discuto o passado, quando eu nem estava no Jornal. Quero discutir agora. Todos estão dando espaço para as eleições e não poderia ser diferente com a gente. Estamos cientes e tranqüilos de que estamos cumprindo o nosso papel da forma mais isenta e séria possível.

Já tem candidato a presidente?
Não dizia nem se achava que o Romário tinha que ser convocado para a Copa. Jamais falaria em quem vou votar ou qual candidato acho que tem mais chances de ganhar. Formador de opinião não deve fazer isso.

Como você e William Bonner fazem para separar trabalho e vida pessoal no dia-a-dia?
Não temos tempo para discutir assuntos pessoais no Jornal. Em casa, a ordem antes era para não falar de trabalho, mas vimos que não funciona porque, como não temos tempo de discutir no Jornal, ficaríamos sem comentar assuntos importantes. O normal é conversarmos no carro até chegar em casa, quando entramos no domínio das crianças. Mas não somos tão rígidos nisso.

E depois do “boa noite” no JN, o que vocês conversam?
Ali é sempre uma coisa qualquer sobre o Jornal, é rápido.

São viciados em jornalismo?
Essa profissão não tem jeito. No domingo que antecedeu a semana das entrevistas com os presidenciáveis nos preparamos juntos, em casa, vendo nosso material de pesquisa. Nós dois não abrimos mão de ler sempre os jornais e revistas, e de entrar na internet para ler notícias sempre que temos uma folga.

O rótulo de Casal 20 a incomoda?
É inevitável que falem isso, mas pra gente é fundamental ter a noção de que cada um tem sua história. Trabalhamos no Jornal da Globo de 1989 a 1992, depois o William foi editar o Jornal Hoje e eu fui para o Fantástico. Nos reencontramos no JN, mas cada um cuida do seu.

O que fazem para relaxar?
O William gosta de correr. Eu faço ginástica três vezes por semana e gosto de ler antes de dormir. Adoramos ver filmes no vídeo ou no DVD e somos muito caseiros.

Foi difícil suportar a saudade da família durante a Copa?
Chorava praticamente todo dia depois de conversar com as crianças por telefone. O pior é que, por mais franca que você seja, elas não têm noção de espaço e tempo. Aí ficava arrasada porque não conseguia fazer com que as crianças entendessem o quanto eu ia demorar para voltar.

E como as crianças agüentaram tanto tempo sem a mãe?
O William fez um calendário de 40 a 0. Cada criança tinha um adesivo de uma cor e cada dia um colava no calendário. O William também comprou um globo terrestre para mostrar onde eu estava. Eles foram vivendo esses 40 dias em torno disso.

William deu conta da rotina da casa durante a Copa?
Deixei um manual com todos os horários dos filhos, da natação de um, da fonoaudióloga da outra, dos deveres de casa que eles trazem na sexta-feira e devem ser feitos no domingo, porque na segunda fica apertado, tudo. Ele seguiu bem, depois engrenou e fez no ritmo dele, e as crianças estavam ótimas quando voltei.

Em dias normais ele ajuda?
Quando os bebês eram pequenos ele ajudou muito, desde trocar fralda a dar mamadeira durante a noite. Mas depois que ele assumiu a chefia do JN não posso cobrar isso, porque a carga de trabalho dele é enorme.

Assustou-se ao saber que teria trigêmeos?
Estávamos preparados para ter até quatro. Na primeira vez colocamos três embriões e nenhum vingou. Botamos quatro na segunda para aumentar as chances. (O casal fez um tratamento de fertilização em 1997). Seis semanas depois, numa ultra-sonografia, o médico perguntou se estávamos preparados para uma emoção mais forte. Percebemos que seriam gêmeos, mas o médico disse: “Acho que vem mais emoção”. Aí gritei: “São três, William!”. E o William ainda falou para o médico: “Procura o quarto aí, que tem mais um”. Mas ele confirmou que eram três. Digo às crianças que pedi a Deus para ter três filhos e elas me dizem que papai do céu deve gostar muito de mim, porque me deu os três de uma vez só.

Qual foi o momento mais difícil da gravidez?
Quando tive de parar de trabalhar, com cinco meses e meio. Me sentia ótima, mas recebi cartão vermelho da médica. Em casos como o meu, a dilatação do útero dá um sinal para o organismo de que está na hora de nascer bem antes dos nove meses. Então tinha que ficar deitada, tomando remédio para não ter contração. Fiquei parada dois meses e meio, até meus filhos nascerem, com sete meses e meio de gestação.

Quanto engordou?
Engordei 14 quilos. Usava uma cinta especial, com material usado na recuperação de queimados, para diminuir o peso, e fiquei bem. Vomitei só no início e enjoei de doce e café.

Como se convenceu a parar de trabalhar?
Visitei uma UTI neonatal e saí de lá sem conseguir andar direito. Levei um susto ao ver recém-nascidos com 800 gramas de peso. Ali, vi como estava botando em risco minha gravidez mantendo uma atividade normal. Você vê sempre bebês rosadinhos e gordinhos nas revistas e quando ele nasce prematuro não é assim. Nasce com risco de vida, parece que não está formado mesmo.

Quanto tempo seus filhos ficaram na UTI?
Laura e Vinícius ficaram 23 dias e a Beatriz, 25. Mas não houve riscos. Foi só para ganhar peso. Lembro que vi um bebê de 3 kg enquanto estava lá e achei que fosse uma criança que já tinha nascido há um tempo. Era tanta diferença para meus filhos de 1,3 kg que não acreditei que um bebê pudesse nascer daquele tamanho.

O que mudou com a maternidade?
Nunca tinha pensado em morte. Agora sei que posso morrer, e que tenho que ficar viva para criar meus filhos. No resto nada mudou. Nem minha relação com o trabalho, nem com o William, nem com a vida. Pelo contrário, tudo ficou mais colorido.

Mudou a casa para recebê-los?
Trocamos logo o fogão de quatro bocas por um de seis, mudamos a geladeira para uma dúplex e compramos mais uma. Também compramos uma secadora de roupa.

Ter se tornado uma celebridade a incomoda?
Entendo bem isso, por mais que eu saiba que não sou artista. Tudo bem que as pessoas que me vêem na casa delas achem que eu sou, desde que prestem atenção no que eu digo. Óbvio que tenho limitações quando estou na rua com as crianças, mas não me incomodo de dar autógrafos de vez em quando.

Já gostava de futebol antes da Copa do Mundo?
Com 10 anos ouvia jogos no rádio e depois as resenhas da noite. Meu pai (o militar Amâncio Bernardes) sempre me incentivou a gostar de esportes, e minha primeira matéria na carreira, no jornal de bairros de O Globo, foi sobre um jogo de futebol de salão, em 1983. Sou vascaína, mas infelizmente não dá para ir aos jogos.

É verdade que você tem fama de pé-quente?
Nas Olimpíadas de 1992, coincidiu de eu trabalhar em três medalhas do Brasil. Fui à Copa de 1994 e fomos tetra. Fui em 1996 e o Brasil conseguiu o maior número de medalhas em Olimpíadas. Na Copa de 1998 e nos Jogos de 2000, quando o Brasil não conseguiu ouro, não fui por causa dos filhos. Fui de novo à Copa e fomos penta. Mesmo que eu não queira, o povo acha que eu sou pé-quente.

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Revista Istoé Gente, edição 176, de 16 de dezembro de 2002

“Quando vi meu espermograma com o índice de 200 mil cheguei a comemorar, dizendo que tinha um Maracanã lotado. Até que o médico disse que o ideal seriam 60 milhões”

Ele foi o único jornalista a participar do debate que encerrou o segundo turno da disputa presidencial de 2002, transformou-se no principal nome da imprensa durante a campanha, quando entrevistou os quatro principais candidatos no Jornal Nacional, mas nunca deixará de dar valor a outra eleição, bem menos importante e ocorrida há 10 anos. Foi num longínquo plantão de madrugada com notícias sobre a corrida pelas prefeituras do País que William Bonner, 39 anos, começou a dar a volta por cima. Naquele tempo, o comportamento “arrombador de portas”, como ele mesmo define, tirou-o das principais coberturas da Globo.
Na época no Jornal da Globo, Bonner começou 1992 deixando de apresentar o Jornal Nacional aos sábados. Depois, não lembraram dele na hora da cobertura da
ECO 92, a conferência sobre meio-ambiente que reuniu os principais líderes mundiais no Rio. “Me achei bom demais naquele momento. Arrumava encrenca, discutia e meti os pés pelas mãos no relacionamento com colegas e com a chefia”, lembra o jornalista.
Com o bom trabalho no plantão das eleições municipais, Bonner reconquistou a confiança de seus superiores, mas guardou a lição. “Fiquei na geladeira um bom tempo para nunca mais esquecer”, afirma. Talvez seja este o motivo de o editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional fazer questão de atribuir seu sucesso em 2002 ao trabalho coletivo da cobertura eleitoral. “Tenho isso na cabeça por justiça aos meus colegas e para que não me perca numa egotrip de achar que sou sensacional, porque não é fato.”
O jornalismo da Globo firmou ousadia, independência e equilíbrio na cobertura da eleição deste ano e Bonner, o rosto mais visível dessa orientação editorial, consolidou-se como um dos profissionais mais respeitados do País. Nada mal para quem começou a carreira, pelo menos a de apresentador, graças ao mais absoluto acaso. Em 1984, então estudante de Comunicação da Universidade de São Paulo (USP), ele pensava em se sustentar por meio da escrita - já tinha um emprego de redator publicitário - quando gravou a locução de um programa de rádio para o trabalho de um grupo de colegas. No dia da gravação, o diretor da Rádio USP FM passou pelo estúdio, gostou do que ouviu e convidou o aluno para apresentar um programa de rock.
No ano seguinte, o recém-formado aposentou a barba rala dos tempos de faculdade e aceitou o convite para trabalhar na Rede Bandeirantes. No começo, não aparecia na tela, apenas lia notícias no programa Oito e Meia. Em seguida, apresentou o Jornal de Amanhã. Com apenas um ano de formado, em 1986, chegou à Rede Globo, sepultando definitivamente os sonhos juvenis de se tornar engenheiro mecânico. “Queria construir carros, mas odiava cálculo. Ainda bem que a vida me corrigiu”, conta.
William, no entanto, mantém a antiga paixão. Não constrói, mas adora dar consultorias aos colegas que estão prestes a adquirir um automóvel e tem um prazer especial em comprar um carro. Em sua casa, são três: o dele, o da mulher, a também jornalista Fátima Bernardes, e o que o casal usa quando sai com os três filhos. Atualizado com os novos lançamentos e atento a cada detalhe, Bonner já chegou a fazer seis test-drives em um mês até escolher seu último carro. Quando o assunto é automóvel, só não consegue influenciar a própria mulher. “Ele sugere, dá palpite, mas para mim é tudo igual”, diz Fátima, revelando um dos poucos pontos que o casal não tem em comum.
A maneira de se vestir também chegou a ser uma diferença entre os dois, mas desapareceu ao longo dos 12 anos de união. “Era mais largado. Melhorei porque a Fátima é tão elegante que comecei a me sentir incomodado”, conta o jornalista. Hoje, ficaram no passado histórias como a vez em que William entrou numa farmácia de Ribeirão Preto (SP) vestindo bermuda surrada, camisa amarrotada, com barba por fazer e óculos para os seis graus de miopia. “Depois a Fátima foi à mesma farmácia e a vendedora disse que o marido dela tinha ido lá antes, disfarçado. E eu estava autêntico”, lembra Bonner, que no JN usa lentes de contato.
Na época, os dois estavam em Ribeirão Preto para o tratamento de fertilização in vitro que possibilitou ao casal ter os trigêmeos Laura, Beatriz e Vinícius, 5 anos, assunto que William trata com o mesmo espirito esportivo. “Quando vi meu espermograma com o índice de 200 mil cheguei a comemorar, dizendo que tinha um Maracanã lotado. Até que o médico disse que o ideal seriam 60 milhões”, conta.
O bom humor foi fundamental para superar um momento efetivamente duro: o jornalista sentiu-se culpado por só descobrir que o problema era com ele, após a mulher fazer dois exames. A necessidade de Fátima tomar hormônios no tratamento contribuiu para esse sentimento. “A gravidez foi de risco porque foi fertilização in vitro, e foi assim porque a produção do pai era baixa. Me senti culpado um tempo, mas acabou quando deu tudo certo, e a gente é muito feliz hoje”, diz.
E essa felicidade está longe de ser ameaçada. Nem mesmo o assédio, que ele garante não receber, representa um risco. “Não sou mais um homem desejável. Sou o cara do Jornal Nacional. Na melhor das hipóteses sou o marido da Fátima”, diz o homem que foi tímido até 1982, quando se rebelou contra a decisão de uma professora da faculdade. “Ela queria que comentássemos um trabalho de colegas. Fiz um discurso contra aquilo, ninguém entendeu, mas descobri que podia dizer o que pensava.”
Hoje o jornalista não se aborrece nem ao lembrar do preconceito que sofria por ser apresentador. “Fui ser chamado de jornalista há meses”, diz, ressaltando a injustiça com que grande parte da mídia trata apresentadores sem funções editoriais. “Achavam que quem estava ali era um mero leitor, mas profissionais como Cid Moreira têm uma qualidade insuperável em seu ofício.”
Como editor-chefe do JN, Bonner é bem diferente da imagem séria vista diariamente pelos mais de 30 milhões de espectadores do telejornal. “O William parece sério no ar desde os 24 anos, mas na redação está bem próximo do jeito brincalhão de casa”, conta Fátima. A descontração costuma ser a marca das reuniões comandadas por Bonner, onde há espaço para brincadeiras em meio à discussão de assuntos sérios. “Minha equipe é jovem e não precisa estar condenada a fazer uma reunião barra pesada todo dia”, diz.
William, porém, enfrentou uma barra em 1999, logo que assumiu o JN. Debaixo de forte pressão nos três primeiros meses, que ele atribui a uma conjugação de vaidades feridas pela sua escolha, pensou em desistir. Um período de férias o fez mudar de idéia. “Se continuasse a ter discussões homéricas, me deixando influenciar por aquele clima, transformaria a vida de todos ali num inferno.” A solução foi sublimar a pressão até que ela desaparecesse. “Isso eu consegui, e considero uma grande vitória pessoal” diz Bonner, dando, enfim, uma trégua à modéstia.

sábado, 29 de outubro de 2011

HONÓRIO, O GURGEL - A VENDA

Foi o recado do porteiro, quando se chegava em casa mais uma vez, que despertou aquelas recordações nada exemplares referentes ao nome José Emir. Nada exemplares porque estúpidas, dignas da imbecilidade esporádica dos anos vinte, aquela época dourada, na flor da juventude, quando o sujeito mais faz merda na vida. No caso em questão, a merda era infringir o maior número possível de regras de trânsito durante a madrugada. Afinal de contas, ora pois, o carro jamais fora devidamente regularizado, estava ainda no nome do José Emir, então tome multa para o Zé Emir, tome pose sorridente, com a cabeça pra fora da janela, para a foto do radar do sinal avançado.

Até que veio o porteiro e entregou aquele pedaço de papel com o número de um celular e um nome do lado: José Emir.

Por sorte, a dívida com as multas era menor do que deveria ser, coisa de quinhentos e poucos reais, e o José Emir mostrou ser um sujeito sensato, honesto, que compreendeu perfeitamente as peripécias de um jovem de vinte e poucos anos, que economizou pra comprar o primeiro carro, o gurgelzinho X12, e só seis meses após a compra percebeu que jamais conseguiria botar o Gurgel em seu nome.

E tudo ficou ainda melhor quando, naquele agradável fim de tarde no Cento e Onze do Cem, nós dois confortavelmente acomodados na varandinha fechada do apartamento, em cadeiras da década de 50, com uma outra mola arrebentada, em frente à mesinha com tampo de mármore, carcomida pela ferrugem, o grande Zé Emir disse que até estava pensando em comprar um carro como o meu, ou dele ainda, ou nosso.

O negócio foi fechado ali, na hora, e todos ficaram felizes. De um lado, um cara de vinte e tantos anos que jamais conseguiria regularizar seu carro, vendendo o Gurgel para o único sujeito que jamais teria problemas de documentação com o veículo; e do outro lado esse mesmo sujeito, que finalmente conseguia se livrar das multas injustas em seu nome, e ainda por cima tinha adquirido um carro por módicos dois mil reais, ou mil e oitocentos, com o desconto do IPVA atrasado.

E assim terminava uma época da vida, um período tão desprovido de preocupações de verdade que até tempo pra batizar carro havia, se bem que essa história de dar nome a um veículo automotor continuou ainda por alguns anos, porque depois de Honório, o Gurgel, veio Bóris, o Niva. Mas isso é uma outra história.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O ENGENHEIRO

A matéria era sobre um prédio. Uma dominical de página inteira sobre a antiga sede do Ministério da Fazenda na época em que o Rio era capital. O prefeito tinha resolvido tombar o Palácio da Fazenda e anunciou a intenção de usá-lo para abrigar repartições municipais. O governador reagiu, disse que já tinha pensado nisso antes e tornou público um ofício enviado três meses antes ao presidente, requisitando para o estado as instalações do edifício suntuoso, que tinha vinte e três mil metros quadrados de mármore e muito espaço ocioso, desde a transferência da capital para Brasília. No meio da briga, o editor chamou o repórter e pediu a matéria de página inteira.

Num tempo sem internet na redação, a salvação foi a lista telefônica. Tinha o nome do engenheiro do Palácio ali, ao lado de um número, só não era muito provável que o sujeito estivesse em condições de dar entrevista quase 54 anos depois da inauguração do prédio que ele tinha construído. Atendeu o filho, que disse que sim, o pai estava vivo e lúcido, aos 93 anos, e poderia dar entrevista, mas que levá-lo pra frente do palácio para uma foto já era um pouco demais. Idéia do editor, disse logo o repórter, tratando de deixar a foto pra lá e marcando a entrevista para o dia seguinte.

E sentado no sofá da sala acarpetada, num daqueles apartamentos antigos de Copacabana, o repórter só precisou esperar uns três minutos até ser recebido pelo senhor sorridente, impecável num terno, que andava sem necessidade de apoio, nem de bengala, e segurava o relatório de construção do Palácio da Fazenda quase como um documento de identidade, e que mesmo ouvindo muito mal, e falando muito baixo, sentou com o repórter no sofá e durante pouco mais de uma hora falou sobre o palácio, lembrou de detalhes da obra, de decisões importantes, e no fim se despediu ainda sorridente, dando a impressão de que, se o repórter quisesse, poderia continuar a falar sobre o palácio, o tempo que fosse necessário.

A matéria abaixo foi um box, separado do texto de abertura

Jornal do Brasil, edição de domingo, 2 de fevereiro de 1997

“O palácio nada tem a ver com o fascismo e não é luxuoso. Se há nele abundância de mármore, é com o objetivo de executar acabamentos adequados à sua finalidade, ou de proteger paredes em locais de grande fluxo de pessoas”

A audição já não é a mesma, mas a memória funciona a todo vapor. Aos 93 anos, perfeitamente lúcido, o engenheiro chefe da construção do Palácio da Fazenda, Ari Fontoura de Azambuja, recorda com satisfação os cinco anos que passou à frente do batalhão de operários que ergueu o prédio. Satisfeito, ele se orgulha de ter concluído a obra com um custo considerado baixo para a dimensão do projeto. “A construção foi barata por causa das 30 concorrências parciais, uma para cada parte do projeto, ao contrário do que costuma ser feito atualmente”, conta Ari.
O engenheiro lembra ainda que teve participação fundamental para que a obra ficasse pronta logo. “A idéia inicial era formar uma comissão de técnicos, todos com o mesmo poder de decisão, como em outros empreendimentos do governo. Fiz valer a minha tese e consegui criar um escritório técnico com diversos especialistas, todos subordinados a mim. Um empreendimento da natureza do Palácio da Fazenda exigia, antes de tudo, pronunciamentos rápidos e firmeza de direção”, diz.
O ritmo acelerado da obra acabou proporcionando a Ari uma nova oportunidade de enriquecer seu currículo. “Fomos convidados para terminar o prédio do Ministério da Educação (o atual Palácio Gustavo Capanema, no Centro), que havia começado dois anos antes da nossa obra e só terminou uma ano depois. Aceitei com a condição de que o projeto original de Oscar Niemeyer e Le Corbusier fosse respeitado, mas saí antes da inauguração”.
Alheio ao interesse despertado pelo prédio que construiu, Ari é contra a mudança de dono pleiteada tanto pela prefeitura quanto pelo governo estadual. “O prefeito e o governador têm direito de querer usar o palácio, mas sou mais pela continuação da atual situação. É uma tradição de mais de 50 anos”, afirma o engenheiro, que por 29 anos foi funcionário do Ministério da Fazenda, até se aposentar, em 1961.
Numa comparação com as antigas sedes de outros ministérios, como o prédio do Tribunal Regional do Trabalho e o Palácio Gustavo Capanema, Ari mostra que sabe dar valor ao seu trabalho. “Nenhum desses projetos se compara ao prédio da Fazenda. A sede da Educação é bem diferente, no estilo moderno, mas o prédio do Trabalho também é neoclássico e não tem a expressão do palácio que ajudei a construir. Isso é até compreensível, já que o Ministério da Fazenda, por suas atribuições, era o que deveria ter melhores instalações”.
O engenheiro também defende o palácio de comentários que relacionam a sua suntuosidade com o fascismo de Mussolini, que teve simpatizantes entre autoridades brasileiras. “O palácio nada tem a ver com o fascismo e não é luxuoso. Se há nele abundância de mármore, é com o objetivo de executar acabamentos adequados à sua finalidade, ou de proteger paredes em locais de grande fluxo de pessoas”, conclui Ari, repetindo as mesmas palavras que escreveu há 53 anos, no relatório de construção do prédio, enviado ao então ministro Artur de Sousa Costa. Uma cópia desse relatório, aliás, é hoje uma das relíquias que o engenheiro guarda em casa, como lembrança da maior e mais importante obra de sua vida.