Atendeu a campainha um sujeito sorridente, vestido com calça branca e uma espécie de bata; segurava numa das mãos o crochê interrompido. Na poltrona e no sofá do apertado quarto e sala estavam ainda uma matrona de lenço na cabeça, certamente ex-mulata, e um casca-grossa típico, de cavanhaque grisalho, camisa aberta e medalhão dourado. Havia ainda duas mulatas à paisana, uma daquelas de interromper conversa em botequim, quase um metro e oitenta, que trajava vestido opressor, e outra bem mais discreta, magrinha, de calça moletom e blusa folgada, que usava óculos. Ao fundo da sala, sentado à mesa de jantar, de pijama, pés descalços, Sargentelli nos esperava.

E foi muito divertida aquela entrevista num quarto e sala com oito pessoas. Sargentelli era um sujeito engraçado demais. Contou histórias do tio, Lamartine Babo, falou de um jogo qualquer dos anos 40, do Botafogo dele contra o América do fotógrafo, e relembrou ótimos momentos de sua carreira de jornalista. Aliás, o cara era dos melhores no ramo.
Nos recebeu como velhos amigos, tanto que nos achamos no direito de pedir pra fazer uma foto com ele na praia, a uns oitocentos metros do apê de quarto e sala, fora a viagem no elevador de porta pantográfica. Idéia do fotógrafo, claro, e sem muito sentido, em se tratando de um senhor de 76 anos que tava em casa de pijama.
Nessa altura as duas mulatas já tinham se arrumado pra compor as fotos, e a magrinha discreta, que trocara o moleton e a camisa folgada por um jeans justo e um top, revelou-se tão perturbadora quanto a colega de um metro e oitenta. Sargentelli olhou pras moças, pra gente, fez uma cara compungida e começou a falar com ele mesmo.
Mas como eu não vou atender o pedido desses rapazes que vieram aqui pra me ajudar, pra divulgar meu livro? E botava a mão na testa, olhava pras mulatas, pra gente. Eu tenho que atender esse pedido, como não? Seria uma desfeita. E de novo a cara de lamento, de quem estava muito triste, até envergonhado, e o pedido de desculpas, porque ele não iria até a praia, não.
Depois do lançamento da biografia e sem casa nova de espetáculos, Sargentelli voltou a sair de cena. Ficou no canto dele, quieto, até ser homenageado na novela O Clone, que fazia sucesso estrondoso, daqueles incompreensíveis. Gravou com Solange Couto, também descoberta por ele, e foi internado logo em seguida. Infarto. Morreu no dia seguinte e já não estava aqui ao aparecer pela última vez em público, para o Brasil inteiro, quando sua cena foi ao ar na novela.
Abaixo, a matéria.
Revista Istoé Gente, edição 15, de 15 de novembro de 1999

Ele andava meio sumido, mas está de volta - e com a corda toda. Aos 76 anos, o sambista e especialista em mulatas Oswaldo Sargentelli prepara um novo show no Rio de Janeiro, sete anos depois de fechar sua última casa noturna, e acaba de estrear na Rádio Manchete com o programa Botequim do Sargentelli. Esse é também o nome de sua nova casa, que abrirá em parceria com o empresário Ricardo Amaral no local do antigo Sucata, na Lagoa. A estréia, prevista para 8 de dezembro, será com o show Ziriguidum 2000.
Com a fórmula de sempre, o espetáculo terá 15 mulatas e vai reviver a Lapa antiga. “A ansiedade é enorme. Parece que estou começando tudo de novo”, diz ele, que ainda consegue tempo para promover sua biografia, Memórias de um Sargento de Mulatas, escrita por Fernando Costa e lançada no último dia 4. O livro relembra o parentesco de Sargentelli com o compositor Lamartine Babo, seu tio, e histórias como as prisões durante o regime militar, quando se viu obrigado a encerrar a carreira de repórter político na extinta TV Rio.
Há dez meses, Sargentelli se submeteu a uma cirurgia no coração, realizada pelo ex-ministro Adib Jatene, no Incor, em São Paulo. “Recebi três pontes de safena e disse ao Jatene que iria fundar a Unidos da Ponte de Safena para o Carnaval”, brinca. O bom humor continua afiado e sempre presente no apartamento de quarto e sala em Copacabana, que ele divide com “o maior número de pessoas possível”. Atualmente, moram com ele o cantor de seus shows Miguel França, as mulatas Aline Barreto e Renata Santana e outras três pessoas. “Tem dia em que dormem umas 11 pessoas aqui. Não gosto de ficar sozinho”, diz. Solteiro desde 1978, quando se separou de sua terceira mulher, ele se complica na hora de enumerar os filhos. “Dentro de casa, foram sete”, diz, referindo-se aos filhos dos três casamentos - com Lúcia, que durou oito anos, Vera, 11 anos, e com Almary, 13. Desconcertado, confessa que tem 21 filhos “espalhados por aí”.


Em 1964, foi proibido de trabalhar na imprensa pelo regime militar e começou a fazer os primeiros shows com mulatas. Em 1969, assumiu a direção da sua primeira casa, o Sambão, em Copacabana. Um ano depois surgiu o Sucata e, em 1973, Sargentelli transformou o antigo Zeppellin - reduto da esquerda carioca - no Oba-Oba, a casa em Ipanema que deu fama definitiva ao produtor. Foram dez anos no Rio e outros seis em São Paulo, em que Sargentelli e suas mulatas recebiam até políticos estrangeiros - entre eles o secretário de Estado americano Henry Kissinger, que visitou a casa em 1975. Hoje, às voltas com fichas de seleção de morenas e mulatas para a nova casa, Sargentelli, que já trabalhou com 250 delas ao longo da carreira, avisa: “Não basta ser mulata, tem que sambar”.