
Na carona do salão de beleza, a matéria enveredou pelo lado menos conhecido do cara, que ele tocava trompete, que quase tinha sido advogado e outras coisas mais, até descambar na última surpresa: a conversão à igreja evangélica. Mas sem fanatismo, como o próprio fez questão de frisar, ao contar a resposta dada a um repórter que o entrevistara sobre isso.
O cara perguntou se ele, Bezerra, daria a outra face a quem lhe desse um tapa na cara, e ao responder, de pronto, o cantor revelou um versículo do Evangelho Segundo Bezerra da Silva (royalties: Marlos Mendes).
Se você me der um tapa na cara e ficar na minha frente, eu vou é te sentar o dedo.
Parava por aí o respeito aos preceitos cristãos do malandro criado no Cantagalo, o Morro do Galo, como o cara chamava o lugar. E se revelou tanta coisa na entrevista que ajudava a desconstruir a imagem de “cantor dos bandidos”, Bezerra não fez a menor questão de ser ver livre dela. Confirmou que era malandro, sim, mas do jeito dele, e pra definir cantou, sentado no banquinho de plástico, na entrada do salão de beleza, o samba de um tal Marquinhos PC, um dos compositores que ele gravava e nem sabia quem era.
A letra é a seguinte:
Malandro é o cara que é considerado
Onde chega é muito bem chegado
Num ponto de esquina, na mesa de um bar
Malandro é o cara que não faz asneira
Acorda cedo na segunda-feira
E sai pro batente pra ir trabalhar
Malandro é o sujeito que é bem informado
E na sociedade sabe muito bem onde é seu lugar
Malandro não é batedor de carteira
É um rapaz decente que leva a vida a cantarolar
Malandro é o cara que gosta de samba
Só freqüenta onde tem gente bamba
E faz de tudo para agradar
Malandro é o cara que venceu na vida
E sem fazer intriga
Tem muitas verdades lindas pra contar
Malandro é o supra-sumo da decência
E pra você que não sabe
Malandro é sinônimo de inteligência

Revista Istoé Gente, edição 147, de 27 de maio de 2002
“Nunca bebi, não fumo maconha nem cheiro pó. Também não ando de madrugada. Mas essas realidades ninguém nunca fala”
Ele estudou violão clássico, arranha umas notas no trompete, foi percussionista da orquestra da Rede Globo durante oito anos, por onde se aposentou, trabalhou como assessor jurídico e freqüenta uma igreja evangélica três vezes por semana. É difícil acreditar, mas é assim a vida do sambista e ícone da malandragem carioca, Bezerra da Silva, 65 anos, famoso pelas letras que falam do cotidiano das favelas com a naturalidade de quem conhece o assunto de perto.
Chamado de cantor dos bandidos, graças aos sambas que tratam do mundo do crime e aos inúmeros shows em presídios ao longo da carreira, Bezerra não se incomoda com a fama de malandro, mas faz questão de mostrar seu outro lado. “Nunca bebi, não fumo maconha nem cheiro pó. Também não ando de madrugada. Mas essas realidades ninguém nunca fala”, diz.

Dona do salão de beleza batizado com o nome do marido, Regina, 50 anos, foi a responsável pela conversão de Bezerra. Juntos há 19 anos, os dois não são casados no papel. “Vai fazer 20 anos que ele está me enrolando”, diz a mulher, com ar resignado.
Lançando o 27o disco da carreira, A Gíria É a Cultura do Povo, Bezerra sai pela tangente ao responder se está rico. “Não estou morrendo de fome, mas fui roubado durante anos pelas gravadoras. Sou uma máquina de fazer dinheiro em perfeito estado. Sou feio, mas vendo disco”, afirma o cantor, que contabiliza cerca de dois milhões de cópias vendidas nos 27 anos de carreira, ele que aos 15 anos saiu de Recife, escondido num navio. “Fugi da fome. Se tivesse mais idade na época, seria do bando de Lampião”, conta.
