Um falava do barulho de coisas pendentes, marca registrada do carro; outro reclamava de andar encurvado, da falta de espaço; e a outra ria do teto solar amarrado com barbante. Ficaram nisso o tempo todo, da Avenida Brasil a Laranjeiras, achando defeitos aqui e ali no valente Gurgel, até que no final da Pinheiro Machado, ao lado da pedreira, emparelha conosco um sujeito num Del Rey prateado.

Muito maneiro esse teu carro, cara! Quer trocar?
O sujeito estava visivelmente transtornado e o problema devia ser no casamento dele, porque quando sua primeira oferta foi recusada, já entrando na Muniz Barreto, ele emendou com um lance maior, definitivo:
O carro e a minha mulher! Vai?
Nova recusa, ainda a 50 por hora, e o trânsito tratou de nos separar para toda a eternidade. Dentro do Gurgel, todos gargalhavam e ninguém mais falava mal do carro.
Esse texto é uma homenagem um tanto tardia a João do Amaral Gurgel, o sujeito que simplesmente inventou o Gurgel, essa maravilha da indústria automobilística nacional. João morreu no último dia 30 de janeiro. Fica aqui a homenagem do Relatos ao grande empreendedor.