A bordo de seu Defender 90, ele mostra toda a habilidade ao volante, enquanto repórter e fotógrafo quicam pra lá e pra cá na traseira do veículo, tentando se equilibrar em bancos dobráveis que, pelo tamanho, lembram o carro do vovô, a condução de volta pra casa aos 8 anos, uma caravan azul com quatro cadeirinhas no bagageiro para as crianças menores. Só que no volante do Land Rover não está aquele simpático português de cabelos brancos, que conduzia a caravan azul em velocidade de guia turístico. Roberto Jefferson pisa fundo. Freia bruscamente também, e joga o carro pra um lado, pro outro, e passa por vala, pula obstáculos, e ri muito. Parece muito bem-humorado nesta manhã de sábado, sol a pino, neste terreno enlameado da Barra da Tijuca. Sem dúvida, um jipeiro nato.
Escrita um ano e dois meses antes do chamado mensalão, que catapultou Roberto Jefferson à fama nacional, a matéria vem abaixo.
Revista Istoé Gente, edição 237, de 23 de fevereiro de 2004

Presidente nacional do PTB na Câmara Federal, o deputado federal Roberto Jefferson, 50 anos, está sempre visitando as bases do partido espalhadas pelo País. Entre junho e julho de 2001, por exemplo, ele saiu do Rio de Janeiro, onde mora, e foi até Pirassununga, em São Paulo. De lá, partiu para Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, de onde saiu para visitar Aquidauana, em pleno pantanal. A viagem continuou por Rondonópolis, Cuiabá, Barão de Melgarço e Cáceres, em Mato Grosso; passou por Porto Velho (RO), Manaus (AM), Santarém e Ilha de Marajó, no Pará; Macapá (AP), Belém e terminou em Brasília. Nada muito diferente do que outros líderes políticos costumam fazer, exceto por um detalhe: em vez de usar helicópteros ou aviões, Roberto Jefferson percorreu todo o trajeto ao volante de seu Land Rover Defender 110.
Desde que iniciou sua paixão por jipes, há 33 anos, é dessa maneira que o deputado prefere viajar. “Conheço o Brasil no chão”, vangloria-se ele, que adotou o hobby influenciado pela ex-mulher, Ecila Brasil, com quem começou a namorar em 1971 e se casou dois anos depois. Foi na fazenda da família de Ecila, em Posse, região serrana do Rio de Janeiro, que Roberto fez suas primeiras trilhas até comprar o precursor de seus veículos 4X4: um jipe Willis 64, adquirido em 1974. “Tínhamos de sair do carro para ligar a tração nas quatro rodas. Quando voltávamos, já estávamos imundos”, lembra Ecila, mãe dos três filhos do deputado, Cristiane, 30, Fabiana, 28, e Roberto, 26.
Atualmente proprietário de dois jipes Land Rover Defender, um modelo 110 e outro 90, Roberto Jefferson tem utilizado os carros não só em viagens como a que fez em 2001, durante 40 dias pelo Norte do Brasil, mas para ir a lugares bem mais distantes do que as primeiras trilhas pela região serrana fluminense. Em novembro de 2001, ele e Ecila saíram do Rio de Janeiro para passar 22 dias viajando entre o Chile e a Bolívia. Rodaram 16 mil quilômetros por localidades como Antofagasta, na costa do Oceano Pacífico, o deserto de Atacama, no Chile, e Laguna Colorada, na Bolívia.

No dia seguinte, o deputado ofereceu ajuda a um casal de franceses que tinha atolado com seu carro numa fina camada de gelo, a 4 mil metros de altitude. Depois de 40 minutos, conseguiu rebocar a Ford Ranger do francês que, agradecido, ofereceu uma nota de US$ 50 ao brasileiro, convencido de que se tratava de um profissional que o ajudara. “Quando contei que eu era deputado ele nem acreditou”, diverte-se Roberto.
Na chegada a Paso Jama, na fronteira do Chile com a Bolívia, ele voltou a ajudar outras pessoas. Munido de um celular via satélite, cedeu aos apelos para emprestá-lo aos quatro guardas obrigados a ficar 15 dias baseados no posto, a 5 mil metros de altitude. “Todos os quatro falaram para casa”, lembra.
A disposição para as viagens aumentou bastante depois que Roberto se submeteu, em 2000, a uma operação para redução de estômago. Emagreceu 70 quilos e passou a viver sob uma dieta rigorosa, que teve reflexos no seu hobby predileto. “Quando estou dirigindo, só como banana, barras de cereais e tomo água de coco, para evitar qualquer problema”, diz o político.

Foi essa disposição em ajudar que provocou mais uma cena inusitada nas viagens do deputado. No deserto do Jalapão, em Tocantins, durante o Carnaval de 2002, o deputado cavava a terra com uma enxada, na tentativa de desatolar o jipe de um amigo. No meio de seu trabalho, uma mulher se aproximou pedindo para tirar uma foto dele. A justificativa pegou Roberto de surpresa. “Ela disse que era para mostrar para a mãe dela, que nunca iria acreditar se a filha dissesse que tinha visto o deputado Roberto Jefferson cavando a terra com uma enxada no meio do deserto do Jalapão”, conta Jefferson, rindo à beça.