A entrevista tinha sido marcada por telefone no Rio, com a filha dele, por isso a certeza de que ele estaria lá no primeiro evento, três horas após a aterrissagem, seis depois da decolagem. O ministro Gilberto Gil apresentava seu primeiro escalão na pasta da Cultura num teatro e a ligeira tensão provocada pela possibilidade de não reconhecer o cineasta histórico nas cadeiras lotadas da plateia foi logo dissipada, à vista daqueles cabelos brancos de tantos filmes no meio de uma das fileiras. Pronto. Problema resolvido. Era só esperar o fim do evento, importante para a outra pauta, e ir lá falar com ele.

Eu não sou o Nelson Pereira dos Santos. Eu sou o Zelito Vianna.
A matéria abaixo não foi oriunda da entrevista de Brasília, que acabou acontecendo alguns minutos depois da gafe. Saiu de outra entrevista, no Rio, com mais calma, mais tempo, e faz parte da mesma série já mostrada aqui com a Fernanda Montenegro, o Joãozinho Trinta e o Oscar Niemeyer. No caso, é o segundo de três capítulos.
Revista Istoé Gente, edição 235, de 9 de fevereiro de 2004
“Nunca mais permiti que ator jogasse futebol em filmagem. Isso não se deve fazer”.
A idéia inicial de Nelson Pereira dos Santos e dos pintores Otávio Araújo e Luiz Ventura quando embarcaram rumo a Marselha, em 1949, era ir até Varsóvia para um festival da juventude. Mas, após 24 dias de viagem, os três amigos chegaram à França quando o festival polonês já tinha terminado. Nelson não se incomodou. Apesar de não conseguir entrar na Escola de Cinema de Paris, pois as matrículas estavam fechadas, aproveitou a viagem para aprender mais sobre a futura profissão. “Vi todos os filmes que pude lá. Fiz um curso entre aspas”, diz o cineasta.
O dinheiro para se sustentar saía de um hábito dos brasileiros que chegavam à Europa ainda abalada pelos resquícios da Segunda Guerra Mundial. Tirando proveito do racionamento vigente, os estudantes brasileiros desembarcavam na França com grande quantidade de café em grãos, açúcar e cigarros na bagagem. “Vendíamos tudo no câmbio negro de lá”, lembra.
Um dos pontos de encontro era a casa do pintor Carlos Scliar. Foi lá que o diretor conheceu Rodolfo Nanni, que, dois anos mais tarde, o convidaria para a assistência de direção no filme O Saci, primeiro trabalho profissional de Nelson. De volta ao Brasil, ele completou o serviço no Exército, foi pai pela primeira vez, com o nascimento de Nelsinho, e rodou seu primeiro documentário amador, Juventude, sobre os jovens trabalhadores de São Paulo. Tudo em 1950.
Um ano depois, o diretor engatava o início das filmagens de O Saci. Promovido de segundo a primeiro assistente de Nanni no filme, Nelson ainda seria responsável por um atraso considerável nas filmagens, graças à infeliz idéia de promover um jogo de futebol no intervalo das gravações. Numa queda, o menino que interpretava Pedrinho machucou o braço. Na tentativa de ajudar, o então assistente de direção só piorou a situação. “Fiz a única coisa que não podia, que era mexer no braço. Daí quebrou de vez”, lembra o diretor, que aprendeu a lição. “Nunca mais permiti que ator jogasse futebol em filmagem. Isso não se deve fazer.”
A participação no primeiro filme renderia o convite para outro, Agulha no Palheiro, de Alex Viany, que faria Nelson se mudar para o Rio de Janeiro, onde mora até hoje. “Vim para fazer um filme em quatro meses e estou aqui até hoje”, brinca. Antes da mudança, porém, era preciso cumprir a promessa feita ao pai, Antônio, e completar a faculdade. Pendurado em Direito Processual Civil, o aluno, que já trabalhava como revisor do jornal Diário da Noite, conseguiu o diploma em 1952, graças a uma promessa ao professor titular da matéria. “Ele me fez prometer que nunca iria exercer a profissão. Estou cumprindo até hoje”, diverte-se o diretor.
Com a mulher, Laurita, grávida de Ney, seu segundo filho, que nasceria em 1954, Nelson usava o salário do jornalismo para sustentar a família. Eram raras as propostas de emprego no cinema, como a recebida para ser assistente de direção de Balança Mas Não Cai. As dificuldades financeiras para concluir o filme fizeram com que ele e dois colegas dormissem durante uma semana no estúdio, que ficava próximo à favela do Jacarezinho, a maior do Rio na época. “Conheci bem a favela. Íamos filar bóia aos domingos nas casas dos amigos que fizemos.”

O que se seguiu foi uma campanha em favor do filme que ganhou ecos até no Exterior, graças à intervenção de Jorge Amado. “O Jorge sempre foi ótimo em relações internacionais. Recebi telegramas até do Visconti (Luchino, cineasta italiano)”, conta Nelson. Com outra ajuda substancial, dos advogados Evandro Lins e Silva e Milton Nunes, o filme foi liberado em dezembro, quatro meses após a proibição.
Antes de partir para o segundo filme, Rio Zona Norte, o diretor iria se desvincular do PCB. Em 1956, Nelson recebeu por Rio 40 Graus o Prêmio Jovem Realizador no festival de Karlovy Vary, na antiga Tchecoslováquia, e viu de perto a repercussão do relatório do líder soviético Nikita Kruschev sobre as atrocidades cometidas por Stalin, seu antecessor. Ao declarar o que vira na volta ao Brasil, foi chamado de traidor e surpreendido pela posição tomada pelo PCB, contrária ao relatório. “A partir dali nunca mais participei de atividades partidárias.”
Apesar de um esquema menos amador que o filme de estréia, Rio Zona Norte também foi prejudicado pela escassez de recursos. O mutirão de amigos para a realização do filme incluiu até Glauber Rocha, na época um aprendiz de cineasta que começava a conhecer Nelson. Em entrevista concedida a Helena Salem, autora da biografia de Nelson, Glauber falou sobre seu contato com o colega no set de filmagens. “Ele me cumprimentou e foi logo dizendo: ‘Que bom que você veio, pega aquelas cadeiras ali para ajudar’.”
