Revista Istoé Gente, edição número 5, de 6 de setembro de 1999
"Está vendo esta tela? Eu sou o gelo e a cela é o deserto".

A morte de Guillaume selou o
destino de Flávio. Sem emprego fixo, passou a praticar pequenos furtos. Aos 19
anos, tornou-se assaltante. Em 1996, respondeu a dois processos por roubo. Foi
preso em flagrante em 1997, quando roubava um malote com R$ 13 mil de um
office-boy na saída de um banco no Rio. Hoje, aos 26 anos, Flávio cumpre pena no
presídio de segurança máxima Bangu III, na zona oeste do Rio. Foi
condenado a 24 anos e 8 meses de reclusão, em três processos por assalto a mão
armada. Foi-se a liberdade, mas novamente restou-lhe a pintura como refúgio:
"Está vendo esta tela? Eu sou o gelo e a cela é o deserto", diz, apontando o
quadro recém-concluído.
Flávio idolatra o impressionista francês Monet, mas diz estar
atravessando uma fase surrealista. Tal qual o avô, cuja pintura era
caracterizada como "uma bem dosada mescla de elementos realistas e levemente
surrealista", segundo o Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. O detento sonha
com o dia em que vai poder retratar o fim de sua agonia. "Perdi muito tempo da
minha vida. Quero sair daqui e viver da pintura", planeja.
Além do Louvre e de Paris,
Flávio também conheceu Londres e percorreu diversas cidades francesas ao lado do
avô de criação. O sonho durou seis meses, período importante para aprimorar os
conhecimentos. "Conheci a casa do Monet", diz ele. A viagem também serviu para
estreitar os laços que uniam o avô ao neto adotivo. "Foi lá que decidi seguir a
carreira de pintor", conta Flávio. "E meu avô foi meu exemplo."
Em 1996, quando já vivia do
crime, o pintor chegou a expor seus quadros num hotel da cidade catarinense de
Itá – onde estava foragido, no sítio de um amigo. A iniciativa, porém, não foi
suficiente para fazê-lo mudar de vida. O crime ainda era prioridade para Flávio,
que deixava em segundo plano a produção de suas obras. "Demorava seis meses para
terminar um quadro", diz. O pintor foi preso em uma rápida passagem pelo Rio,
quando tentava ganhar mais dinheiro para voltar a Santa Catarina e presentear o
filho Bruno, 4 anos, fruto de um breve relacionamento com uma
namorada.
Hoje, o neto de Guillaume trabalha num ateliê improvisado
dentro do presídio e divide com outros três prisioneiros uma cela de oito metros
quadrados, com dois beliches e um vaso sanitário. O detento tem direito a
descontar um dia de sua pena para cada três dias de trabalho. A atividade também
rende outros benefícios. Flávio vende suas telas aos colegas de prisão por
preços que variam entre R$ 100 e R$ 500, de acordo com o tamanho.
Sua rotina é a de um artista
em tempo integral. Às 9 horas, deixa a cela que ocupa com outros presos e vai
direto para o ateliê. Só volta às 17 horas. "Só paro de pintar para comer", diz
Flávio, que planeja uma exposição na prisão. O diretor de Bangu III, Lafaiete
Barsotelli Fragoso, 48 anos, conta que os primeiros dias na cadeia não foram
fáceis. Flávio era arredio e encrenqueiro. Só mudou o comportamento depois que
passou a ter uma atividade. "Decidimos abrir o ateliê de pintura e, desde então,
ele se tornou um preso nota dez", afirma Fragoso. Na cadeia, a proximidade com
presos considerados de alta periculosidade não o assusta. "Os líderes daqui
sabem quando alguém não é do crime e aconselham a pessoa a largar a bandidagem.
É o meu caso."