Craque das Copas do Mundo de 78, 82, e 86, o cara hoje é presidente da UEFA, mas na época iniciava sua carreira política no futebol. Era apenas conselheiro da FIFA, sem poder de voto para nada. Estava no Rio para o primeiro Campeonato Mundial de Clubes da entidade, de belas e fatídicas lembranças, e o evento no auditório do hotel cinco estrelas, nas pedras de São Conrado, era uma espécie de balanço do torneio, na véspera da decisão. Na mesa, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, discorria sobre alguma coisa; o cara, por sorte, estava sentado no meio do auditório, longe da primeira fila e com alguns lugares vagos atrás dele.

Campeão europeu e mundial de clubes em 1985, quando marcou um dos gols anulados mais bonitos da história, o cara ficou surpreso de novo, mas pareceu ter se lembrado do encontro da véspera, no estacionamento do Maracanã. Disse para o repórter esperar na piscina do hotel e para lá também se dirigiu. Ficou um tempo conversando com dois sujeitos no bar da piscina e depois saiu. Andou ao encontro do repórter, que esperava, gravador em punho, numa fila de espreguiçadeiras. Sentou numa delas, o repórter na outra, o gravador na mesinha de plástico entre as duas, e deu a entrevista, que durou pouco mais de quarenta minutos.
Revista Istoé Gente, edição número 25, de 24 de janeiro de 2000
"Jogamos duas semifinais contra a Alemanha, em 1982 e 1986. Precisávamos ganhar, mas os juízes não fizeram a parte deles. Em 1982, venceríamos se o juiz tivesse expulsado o Schumacher e marcado penâlti quando ele atingiu Battiston dentro da área. Já em 1986 fiz um gol e o juiz julgou que eu estava impedido. Não estava, mas o que podia fazer?"
Para quem gosta de futebol, o atual conselheiro da Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa), Michel Platini, 44 anos, dispensa apresentações. Considerado o melhor jogador da história do futebol francês e um dos melhores do mundo, nas décadas de 70 e 80, Platini fez fama na seleção de seu país e em times como a Juventus da Itália, onde conquistou a Copa Toyota de 1985, o equivalente na época ao campeonato mundial interclubes. Eleito o melhor jogador do planeta por três vezes consecutivas, em 1983, 1984 e 1985, ele só não conseguiu ganhar uma Copa do Mundo como atleta.
O que você achou deste primeiro Campeonato Mundial de Clubes da Fifa?
O sucesso da competição é inegável, e isso pode ficar provado pelos comentários dos jogadores, da imprensa especializada e até pelos índices de audiência das televisões que transmitiram o campeonato, que foram altos em todo o mundo. Para o futuro, o torneio deverá ficar ainda melhor. Ele veio para ficar.
Em 1985, você ganhou a Copa Toyota com a Juventus de Turim, quando o torneio era considerado o mundial de clubes. Com o novo campeonato da Fifa, qual será o verdadeiro mundial interclubes?
Considero-me campeão mundial de 1985 porque a Copa Toyota valia esse título na época. Só que isso acabou com o novo torneio. A partir de agora, o time campeão mundial sairá do campeonato organizado pela Fifa. A Copa Toyota passará a ser uma disputa entre o campeão europeu e o campeão sul-americano.
Pelo que mostrou ao organizar o mundial de clubes, o Brasil pode sediar a Copa do Mundo de 2006?
O Brasil é um grande país e tem condições de organizar uma Copa. Só que na mesma situação de vocês estão a Alemanha, a Inglaterra, Marrocos e África do Sul (outros países que se candidataram). Não tenho poder de voto na Fifa, mas acho que 2006 seria um ótimo momento para o continente africano, que nunca organizou uma Copa do Mundo. A América do Sul poderia ser beneficiada em 2010. A hora agora é da África. Há tempos que o futebol de lá vem evoluindo e, na minha opinião, merece essa chance, até para se aprimorar ainda mais.
Depois da Copa de 1998, o futebol brasileiro continua sendo o melhor do mundo?
Pelo que já fez e por toda a sua tradição, o Brasil será sempre um dos três melhores do mundo. Mas apontar o melhor é sempre difícil. Vocês podem argumentar que a final do mundial de clubes foi disputada por dois times brasileiros, mas se o campeonato fosse na Europa, a decisão mais provável seria entre duas equipes européias. Então diríamos que o futebol europeu é melhor. O fato é que não se pode apontar um país apenas como o melhor, mas o Brasil será sempre um grande e lindo país do futebol.
Antes de assumir o cargo na Fifa, você chegou a ser técnico da seleção francesa, depois que abandonou o futebol, em 1987. Pensa em voltar?
Não. Fui técnico da França entre 1988 e 1992, peguei o time nas eliminatórias para a Copa de 1990, quando não tínhamos quase nenhuma chance e acabamos eliminados. Depois fizemos uma boa campanha nas eliminatórias do Campeonato Europeu, mas na fase final perdemos da Dinamarca, que acabou sendo a campeã. Não suporto mais ficar sentado no banco, dependendo do que os jogadores estão fazendo dentro do campo. Prefiro ficar com minha função na Fifa. Assim continuo convivendo com meus amigos do futebol, sem tanto estresse.

Zico é um de meus grandes amigos. Tenho orgulho de ter sua amizade. O Brasil, aliás, é um lugar especial para mim. Foi no Rio de Janeiro que eu e minha mulher (Christel, 43 anos) concebemos nosso primeiro filho, durante umas férias em 1978. Eu e mais alguns jogadores viemos para cá com nossas mulheres depois que a França foi eliminada na primeira fase da Copa do Mundo da Argentina. Voltei em 1979 e 1980 e depois só vim 16 anos depois, já como presidente do comitê organizador da Copa de 1998. Espero voltar muitas vezes.
O brasileiro Rivaldo já ganhou vários prêmios como o melhor jogador do mundo em 1999 e é o favorito para receber o título da Fifa, na eleição do próximo dia 24. Você concorda com essa escolha?
Pessoalmente, prefiro os jogadores mais coletivos. Rivaldo é um excelente atacante e joga sempre para o gol, mas é um pouco individualista para o meu gosto. Ganhei esse título três vezes e posso dizer que acho tudo muito subjetivo. Você pode gostar do jogo de Zidane, e não gostar de Rivaldo. Pode gostar de Ronaldo e não gostar de Zidane. Rivaldo é bom, mas não diria que ele é o melhor do mundo.
E qual é o melhor jogador do mundo, na sua opinião?
Como falei, prefiro quem joga para o time. Poderia citar Zidane, Veron (apoiador argentino que joga na Lazio), Figo (meio-campo português do Barcelona) ou Beckham (armador inglês do Manchester United), mas prefiro não escolher um nome. Talvez em 15 anos eu possa responder essa pergunta, já que o importante será o jogador que ficar na lembrança dos torcedores. Aqui no Brasil temos Pelé, Rivelino, Zico e muitos outros que entraram para a história. Prefiro esperar para ver quais os craques dessa geração que também entrarão.
Ronaldo seria um deles?
Acho que sim. O futebol precisa de Ronaldo. É muito importante que ele volte, readquira a antiga forma e seja novamente considerado um dos melhores ou mesmo o melhor do mundo.
E da sua geração, qual foi o melhor jogador?
Também é difícil dizer. Um termo de comparação seria o campeonato italiano, que reunia os maiores craques do mundo na minha época de jogador. Só que Maradona começou a se destacar depois que eu abandonei o futebol. Zico, por sua vez, foi para o Udinese, um clube sem expressão. Acho que a torcida de Turim me considera o maior. Já os napolitanos acham que foi Maradona. Provavelmente, o pessoal de Udine considera Zico o melhor.
O que lhe deu mais prazer, eliminar o Brasil na Copa do Mundo de 1986 ou ver a França ganhar a Copa em 1998?
Foram dois grandes momentos. O jogo de Guadalajara, em 1986, foi fantástico. Os dois times jogaram muito bem, mas foi um dia de sorte para nós. Já a final de 1998 foi o grande dia do futebol francês. Ganhamos a Copa depois de tantas chances desperdiçadas, em tantos anos. Era presidente do comitê organizador da Copa e, ao entregar as medalhas de segundo lugar para Roberto Carlos, Dunga e Ronaldo, disse para que eles não ficassem tristes. O Brasil já era tetra, mas para nós era a primeira vez. O jogo de 1986, porém, foi significativo para mim. Naquele 21 de junho, eu completei 31 anos e marquei meu último gol pela seleção francesa (a partida valeu pelas quartas-de-final da Copa e terminou 1 a 1. A França ganhou nos pênaltis).

Jogamos duas semifinais contra a Alemanha, em 1982 e 1986. Precisávamos ganhar, mas os juízes não fizeram a parte deles. Em 1982, venceríamos se o juiz tivesse expulsado o Schumacher (goleiro alemão) e marcado penâlti quando ele atingiu Battiston (meio-campo francês) dentro da área. Já em 1986 fiz um gol e o juiz julgou que eu estava impedido. Não estava, mas o que podia fazer? (Em 1982, a França perdeu da Alemanha nos pênaltis. Já em 1986, a semifinal terminou 2 a 0 para os alemães.)
A respeito de Maradona, como você se sente vendo mais esse problema dele relacionado com a cocaína?
Diego Maradona é uma pessoa de quem eu gosto, porque ele é bom. Mas comete muitos erros, e o maior deles é esse envolvimento com a droga. Espero que se recupere. Não falo isso nem pelo futebol que ele jogou, mas pelo próprio Diego Maradona, para o seu bem e de sua família. Joguei muito contra ele na Itália. Não posso dizer que somos amigos porque nunca fomos muito próximos, mas gosto dele porque ele é uma pessoa legal.