A impressão hoje é que a rotina durou uma década, mas na verdade não chegou a dois anos. À meia-noite em ponto, ou alguns minutos antes dela, ou alguns minutos depois, o homem da madrugada adentrava no cubículo da escuta do saudoso Jornal do Brasil. Chegava como que do nada e aparecia na porta com seus quase 1,90m de altura, o corpo esguio, os cabelos grisalhos e a pele, negra, a exibir as rugas, nem tantas assim, de uma vida inteira atrás da notícia, e fugindo dela também, porque trabalhar de meia-noite às sete sem ao menos uma soneca no meio do expediente – ou um filme de três horas no vídeocassete – era, de fato, humanamente impossível.Surgia com certa cara de sono, fazia a saudação habitual e a pergunta de todas as noites, à espera da resposta que em 99% dos casos era aquela que ele queria ouvir:
Tudo tranquilo.
Dito isso, eu e o co-piloto podíamos nos considerar livres, pendurar nossas bolsas a tiracolo e atravessar, de ponta a ponta, o lado maior do H da redação do JB na Avenida Brasil, 500, até o hall dos elevadores, dois de um lado, dois do outro, sem esquecer de dar boa noite ao boêmio alemão, que ficava ali no traço de ligação entre as duas retas do H, na primeira página, a exercer a função de secretário-gráfico, e que às vezes nos encontrava uma ou duas horas depois, no Lamas, ou no Cervantes, ou, mais provavelmente, no Bukowski.
Do elevador, no térreo, eram apenas mais alguns passos até o estacionamento, muito bem apelidado de Rock in Rio, onde Honório nos esperava em meio à terra batida, aos tufos esparsos de mato ralo e, não raramente, à lama. Toda noite era a mesma coisa. Honório nos atravessava para o outro lado do túnel Santa Bárbara, onde buscávamos no chope gelado (o co-piloto no Jack Daniel`s, quem diria) o merecido relaxamento após a bruta labuta noturna.
Naquela noite, porém, o co-piloto esqueceu o casaco, o que obrigou Honório a pegar o retorno para o jornal e dar de cara, bem embaixo da perimetral, com uma blitz da valorosa Polícia Militar do Rio de Janeiro. O PM fez sinal e eu, sem um documento sequer do carro que estivesse em dia, com um estepe que já havia ultrapassado em muito a condição de careca, encostei o Gurgel.
Para escapar, era preciso ser rápido, e antes que o digníssimo policial solicitasse a documentação do veículo, eu e o co-piloto sacamos de nossos crachás de prestadores de serviço do JB, ambos verdes, retangulares e vencidos, o dele há alguns meses, o meu há mais de um ano. E funcionou. Ao olhar a logomarca do JB, com o prédio da Av. Brasil praticamente à nossa frente, o gentil PM sensibilizou-se. Nos deixou seguir na direção do jornal, sem pedir um documento sequer, e ainda nos recomendou cautela com o estepe, que, guardado do lado de fora, na traseira do Gurgel, ostentava, numa superfície totalmente lisa, um tufo de borracha do tamanho de uma bola de sinuca, a sair do que parecia ser, sim, e era, um buraco.Agradecemos a preocupação do guarda e seguimos viagem, sem um documento do carro sequer, salvos pelo JB, pelo saudoso JB da Avenida Brasil.