domingo, 20 de janeiro de 2008

DA LATA AO FUNDO DO MAR



Houve uma vez um verão, há exatos 20 anos, em que um barco chamado Solano Star fez a alegria de muita gente no Rio. Para fugir de um flagrante, despejou no litoral carioca milhares de latas com maconha dentro. E o produto, dizem, era de excelente qualidade.

Algumas latas chegaram a praias de todo o estado, outras foram apanhadas quando ainda estavam bem longe da areia. Surfistas fizeram a festa, teve gente que alugou barco pra fazer a ‘colheita’ e há relatos de malucos que saíram pra pescar com um ímã no anzol, mas aí já era sacanagem. O assunto foi notícia durante todo o verão de 1988, que até hoje é conhecido como o verão da lata.

Confiscado depois pela Polícia Federal, o Solano Star foi leiloado e voltou a virar manchete seis anos depois, já com outro nome. Rebatizado de Tunamar, o barco foi adaptado para a pesca do atum, mas pelo visto foi mal adaptado, porque naufragou em sua primeira viagem na nova função, na madrugada da terça-feira, 11 de outubro de 1994.

No dia seguinte, eu, que trabalhava no agradável horário de 8 da matina no velho O Fluminense, o maior jornal de Niterói, atendi o telefone mais ou menos nessa hora, logo após chegar à redação vindo a pé da estação das barcas, em caminhada sempre muito agradável, sobretudo no verão. Do outro lado da linha, um representante da colônia de pescadores Z8 (de Niterói e São Gonçalo) informava o ocorrido naquela que foi a maior tragédia com pescadores da região em 13 anos.

Cobri a história o resto da semana, fui a Arraial do Cabo e me pediram uma dominical sobre o naufrágio, com mais relatos de sobreviventes, mais detalhes etc etc. É a matéria que tá ali embaixo, e ela foi a minha ligação com o Tunamar.

Já com o Solano Star... Bem, conheço um cara que, na festa de fim de ano da segunda séria do segundo grau (hoje ensino médio), na casa da avó do Karram, saiu de lá para a casa do Batata, ali perto, junto com o próprio e mais dois ou três amigos. Batata era um sujeito calmo, tranqüilo, que de vez em quando chegava atrasado na sala de aula vestindo uma calça moleton do lado do avesso. Ele tinha uma lata daquelas em casa.

O cara tinha dezesseis anos e mal tinha fumado um baseado inteiro na vida quando resolveu acompanhar os amigos à casa do Batata. Meia hora depois de chegar lá, ele começou a suar frio e a respirar com certa dificuldade, sem conseguir se mexer no sofá e com a cabeça caída no peito. Estava praticamente desmaiado, o mané, e só acordou quando enfiaram uma colher de sopa cheia de sal pela goela dele abaixo.

Conseguiu então levantar e caminhar com dificuldade, mas manteve o ar abobalhado e os olhos quase fechados durante um bom tempo, mesmo depois de voltar ao churrasco, onde a maior diversão era dar cerveja ao cágado que circulava serelepe pela casa da avó do Karram.

Ainda com os juízos um tanto atrapalhados, o cara resolveu não subir pro churrasco. Ficou sentado na escada de pedra da entrada por um tempo, cabeça entre os braços, perto dos joelhos, enquanto alguns grilos ao redor, passarinhos nas árvores e outras criaturas das proximidades, talvez até o cágado, emitiam vários sons, alguns mais altos, outros curtos, secos, mas todos incompreensíveis. Ele se esforçou bastante para entender o significado de todos aqueles ruídos, chegou a pensar que os passarinhos estavam se preparando para atacar os grilos, ou vice-versa, mas quando começava a decifrar os códigos do ataque foi interrompido por gritos de alguns colegas brincando na piscina, lá em cima.

Até que desistiu de entender qualquer coisa ali e, ainda muito doido, achando que ia morrer e ao mesmo tempo tentando pensar numa estratégia de chegar em casa sem chamar a atenção dos pais, resolveu ir embora. Caminhou no ritmo de alguém que tivesse acabado de sair do coma, e assim deve ter gastado uns quarenta minutos para descer a ladeira de seiscentos metros até a rua principal, onde apanhou um ônibus amarelo qualquer. Chegou em casa são e salvo, aliviado por ter entrado no quarto sem ninguém notar seu estado e só um pouco arrependido, por ter feito tanta questão de experimentar o tal veneno da lata.

A matéria abaixo era de página inteira e tinha mais textos, memórias de outros naufrágios, denúncias de pescadores e outros complementos da reportagem. Aqui vai apenas o texto de abertura e a história do barco.

Jornal O Fluminense, edição de domingo, 16, e segunda-feira, 17 de outubro de 1994


"A água foi subindo e eu disse para o pessoal que iríamos morrer se ficássemos ali. Fui o único que mergulhei para tentar achar uma saída debaixo d’água. Quando cheguei à tona gritei pelos que estavam comigo, mas ninguém respondeu."

Seis dias depois do naufrágio do barco pesqueiro Tunamar, no litoral de Arraial do Cabo, as lembranças da tragédia continuam fortes em todos os sobreviventes. Dos 31 tripulantes que estavam na embarcação, 20 conseguiram sobreviver ao acidente mais grave dos últimos 13 anos envolvendo pescadores de Niterói e São Gonçalo. A maioria deles já está nessas cidades. Alguns relembraram as horas de tensão e desespero que passaram no mar.
O Tunamar partiu na noite de sábado do cais da antiga fábrica de sardinhas 88, na Ilha da Conceição, com destino a Santa Catarina. O barco estava em Arraial do Cabo pescando sardinhas, usadas como isca para o atum que seria pescado em Santa Catarina. O naufrágio aconteceu a oito milhas (12,8 km) da costa, por volta das 2h30min da última terça-feira. A causa do acidente pode ter sido o excesso de peso das tinas de água usadas para colocar as sardinhas, mas a Marinha também avalia a possibilidade de uma chapa de metal ter se soltado na proa da embarcação, possibilitando a entrada de grande quantidade de água.
De acordo com alguns sobreviventes, o navio adernou em menos de cinco minutos, e não houve tempo para soltar os oito botes salva-vidas. "Estava no banheiro quando o Tião (Sebastião Azevedo Pires, um dos sobreviventes) avisou a todo o mundo que o barco ‘tava’ virando. Não houve tempo para nada e eu fui direto para a popa do navio. Acho que muita gente não conseguiu escapar porque deve ter tentado pegar algum pertence nas gavetas e acabou ficando lá embaixo. Nessas horas você não pode pensar em nada", conta Rinaldo Marques Ferreira, 46 anos, o Lingüinha.
Outro sobrevivente, João José de Oliveira, o Joca, estava dormindo na hora do naufrágio. Quando o barco virou, ele subiu no casco, onde permaneceu durante duas horas até o barco afundar completamente, por volta das 5h. Joca estava no casco com mais outros colegas: Alain Forteau, Sandro Neves Brito (Grilo), Manoel Peixoto (Badé), Antonio Manoel de Souza (Salsa), Edson José Rodrigues (Edinho), Givaldo Barcelos (Fofão) e Hélio dos Santos. Os sete se jogaram na água e seis deles foram resgatados por um barco da empresa Brasfish, que recolheu 17 sobreviventes.
Segundo Joca, morador do Gradim, o pescador Hélio dos Santos não conseguiu sobreviver. "Estávamos todos nadando e eu vi que o Hélio estava mal, com a boca sangrando. Olhei para os que estavam na frente e quando voltei o rosto para o Hélio ele não estava mais lá. Eu mesmo quase entreguei os pontos. Quando o barco chegou, eu fazia sinal com um bambu que tinha agarrado, e estava quase me afogando. Houve muita gritaria e choro. Foi Deus quem salvou os sobreviventes", contou Joca, que nadou por cerca de uma hora até ser socorrido.Rinaldo Ferreira também foi resgatado pelo barco da Brasfish, mas teve de permanecer boiando no mar por mais de seis horas. Ele estava perto de Tião, Luiz Felipe Machado e do mestre do barco, Manuel José de Souza. Todos foram salvos. "Assim que eu subi no barco, vi um cação passando na água", conta Rinaldo, que mora no Paraíso, em São Gonçalo.
O drama foi ainda maior para quem permaneceu preso no interior do barco depois que ele virou. Givaldo Barcelos ficou duas horas dentro da sala de máquinas antes de atingir o casco. Já o pescador Marcos Antonio de Oliveira, o Xuxa, ficou dentro do alojamento por cerca de quatro horas, com mais quatro companheiros, que não conseguiram escapar. "A água foi subindo e eu disse para o pessoal que iríamos morrer se ficássemos ali. Fui o único que mergulhei para tentar achar uma saída debaixo d’água. Quando cheguei à tona gritei pelos que estavam comigo, mas ninguém respondeu", conta Xuxa, que ainda ficou "alguns minutos" com a mão presa na porta de escape de água por onde saiu. Ele contou que os colegas no alojamento estavam desesperados, chorando e rezando muito.
Sérgio Rodrigues Roncalho, o Dengo-Dengo, também ficou preso no interior do Tunamar por cerca de quatro horas, até conseguir nadar. Três sobreviventes foram resgatados por pequenos barcos. Isaque Goudinho, o Rato, 26 anos, foi o primeiro a chegar em terra. Quando o barco estava afundando, ele conseguiu avistar a Ilha do Farol e nadou por três horas até alcançar as pedras, numa distância de duas milhas (3,2 km) do local do naufrágio. De lá, foi socorrido por um pequeno bote a motor, que o levou até a costa. Rato ainda voltou em outro bote a motor com mais dois pescadores, para resgatar seus companheiros. Eles conseguiram salvar Jorge Roncalho, o Tesourão, e José Idalmiro de Bruno, último sobrevivente a ser socorrido, por volta das 9 horas de terça-feira.
"Só pensava em nadar para me salvar, mas fui o tempo todo falando com Deus, me preparando para morrer. Ainda perto do barco, encontrei uma caixa boiando e dei ela para o Bruno se segurar. Acho que foi essa caixa que salvou ele", diz o sobrevivente, morador de Itajaí (SC), que não quer mais saber de trabalhar com pesca. "Já levei um susto há dois anos, numa tempestade na plataforma de São Sebastião, no litoral do Rio, e quero arrumar outro trabalho".
Isaque fez uma grave acusação. De acordo com o pescador, um navio da Marinha, no cais de Arraial do Cabo, não quis socorrer as vítimas. "Eu avisei para eles quando cheguei e o navio passou todos os sinais aos barcos que estavam próximos, mas não saiu do lugar", reclama.

O Barco. Construído em 1973, em Taiwan, o Tunamar ficou famoso no verão de 1988, quando ainda se chamava Solano Star e foi o responsável pelo despejo de mais de 10 mil latas de maconha no litoral do Rio de Janeiro.
O primeiro dono do Tunamar foi o australiano Geraldton Endeavour, que o comprou em 1973 e colocou seu próprio nome na embarcação. Endeavour permaneceu com o barco durante dez anos, navegando pelos mares da Oceania, e chegou a reformá-lo, aumentando seu comprimento dos 36 metros iniciais para os atuais 44,98 metros.
Em 1987, o barco, rebatizado Solano Star, pertencia a um armador panamenho. Naquele ano ganharia notoriedade com o episódio da maconha. Para fugir de um flagrante, a tripulação do navio lançou ao mar cerca de 14 mil latas da droga, que foram encontradas em diversas praias do litoral fluminense. O Solano Star foi confiscado pela Polícia Federal e leiloado três anos depois. O francês Henry Bueno comprou o barco e quase o transformou em iate.
A malfadada embarcação acabou sendo adquirida pelo polonês Ezbig, dono do Estaleiro Bigmar, na Ilha da Conceição, onde durante cerca de oito meses sofreu adaptações necessárias à pesca do atum.

sábado, 12 de janeiro de 2008

GRAMADO É UMA FESTA


No início de agosto, durante o festival de cinema, Gramado é uma festa.Na chegada ao aeroporto de Porto Alegre, acontece aquilo que você sempre teve certeza que aconteceria um dia. Malas de diferentes tipos, cores e tamanhos passam à sua frente naquela esteira angustiante e nada da sua, verde e preta. Os passageiros do seu vôo pegam contentes suas bagagens e você fica ali, a olhar a enorme caixa de papelão envolta em plástico, que continua a rodar na esteira, sozinha, abandonada, enquanto o dono dela provavelmente deve estar contemplando a sua mala verde e preta na mesma situação, em algum outro aeroporto do país.

Mas você não é o único passageiro sem sorte. Uma senhora distinta, moradora de Porto Alegre e já com duas malas enormes em seu carrinho, reclama indignada no balcão da companhia aérea. A valise com todos os sapatos dela também não apareceu na esteira. Atencioso, o funcionário anota a reclamação e o conteúdo da bagagem: todos os sapatos. Depois vira pra você e pergunta qual o conteúdo da sua mala extraviada, e você responde com toda a sinceridade:

Tudo, a mala continha tudo. Um par de sapatos, as havaianas, o único casaco capaz de protegê-lo do fio esperado em Gramado com alguma eficácia e tudo o mais necessário para um sujeito heterossexual passar uns dias longe de casa.

Ainda atencioso, o funcionário informa que a companhia pagará 50 dólares se a mala só for entregue no hotel no dia seguinte. Se demorar dois dias, a indenização será de 100 dólares, e de 150 se a bagagem só aparecer depois de três dias. E se demorar mais, você pergunta? A indenização máxima é de 150 dólares, ele responde, para depois aconselhá-lo a entrar na Justiça se quiser receber um pouco mais. Você e a senhora deixam o balcão. Ela vai pra casa sem os sapatos e você, vestindo jeans, uma camiseta de malha e a velha camisa social obrigatória em aviões (para evitar acidentes), e munido apenas de um laptop e uma pequena mochila com pasta, escova de dente, desodorante e apetrechos para a prática do jornalismo, pega uma van que o deixará numa cidade estranha onde a temperatura máxima nessa época do ano não passa dos 10 graus.

Na van viajam três caras que falam espanhol e você fica sabendo, ao longo da viagem, que eles são representantes do filme uruguaio no festival. Sujeitos simpáticos, os uruguaios, mas sua preocupação maior é com a esperada queda de temperatura enquanto o veículo sobe a serra gaúcha, então o papo não flui muito, até porque um deles diz ser torcedor do Peñarol, time que vencera o seu na véspera pela Copa Mercosul, por 4 a 3, placar que seria motivo de uma alegria insana na final da mesma competição.

Na chegada a Gramado, uma constatação boa e outra ruim. O filme cubano, primeiro a ser exibido, já acabou faz tempo e você, lógico, não chegou a tempo de assistir. Em compensação, o frio é milagrosamente suportável com a camiseta e a camisa social por cima.

Na manhã seguinte, compras. Uma boa jaqueta de couro, preta, uma suéter cinza de gola rolê (pra economizar no cachecol) e luvas pretas. Você começa a torcer fervorosamente para que sua mala verde e preta só chegue depois do terceiro dia de atraso.

Numa daquelas lojas em que os produtos invadem a calçada e um sujeito anuncia ofertas num megafone, é hora de adquirir um considerável estoque de cuecas e meias, além de umas três camisetas vagabundas, pra ficar embaixo da gola rolê. Pronto, você está de novo preparado para o frio (que daqui a duas noites, quando os termômetros atingirem os dois graus, será um dos maiores de sua vida); e agradece o fato de ser um anônimo em meio às celebridades na cidade, o que lhe dá plenas condições de repetir a jaqueta preta, a suéter cinza, a calça jeans do avião e a botina marrom, também do avião, durante quase todo o festival.

Devidamente agasalhado, você corre atrás do tempo perdido e encontra o diretor do filme cubano, Pastor Vega, para uma rápida entrevista no meio da rua. Ele está acompanhado de parte do elenco, inclusive de uma atriz linda, cubana também, estilo Jeniffer Lopez, um pouco mais baixa e mais magra. E como o seu portunhol está fluindo que é uma maravilha, você faz também umas perguntas desnecessárias para a atriz, só pra constar. Na correria para mandar a matéria a tempo de entrar na edição que está fechando naquele dia, você confia no que um sujeito te disse na noite anterior e bota no texto que o filme de Vega foi ovacionado pela platéia na abertura do festival.

À noite, você conhece o palco principal da festa, um enorme cinema onde artistas, cineastas e produtores de toda a América Latina se encontram. Além dos curtas da programação, o longa-metragem exibido é o filme peruano, Pantaleão e as Visitadoras, em que uma personagem chamada La Colombiana, vivida por uma atriz chamada Angie Cepeda, provoca na platéia masculina aquele silêncio respeitoso, inevitável, toda vez que entra em cena. A Colombiana não está em Gramado, provavelmente para não comprometer o bom andamento do festival.

Mas não faltam na cidade beldades nacionais e internacionais, como a Jeniffer Lopez cubana. Também circulam pelas calçadas sumidades do nosso cinema. Reginaldo Farias, por exemplo, filma tudo com uma pequena câmera. Paulo José é o homenageado do evento e também dá pinta por lá, entre outras celebridades.

Quando você está sentado num boteco, tomando uma garrafa de Brahma já no início da noite, vê passar Hugo Carvana, uma de suas pautas. Sai então atrás dele e pede uma entrevista, que ele marca para o dia seguinte, no galpão de imprensa, o mesmo local onde, horas antes, você estava escrevendo alguma coisa quando, no meio das dezenas de computadores com jornalistas do país inteiro, uma setorista de cinema pergunta para outro, em voz alta e com tom de desprezo incrédulo:

Fulano, quem escreveu que o filme cubano foi ovacionado?

O segundo longa que você assiste é o uruguaio, e logo reconhece o protagonista do filme, no papel de um repórter investigativo, e o gordo que interpreta um fotógrafo engraçado como dois dos sujeitos simpáticos que subiram a serra na mesma van que a sua. Pena que o filme é uma merda. Um policial mal resolvido cheio de clichês, que esvazia a enorme sala de cinema e faz ecoar o ronco do ator cubano parecido com o Jack Black, que dorme escandalosamente ao longo da projeção.

No galpão de imprensa, a entrevista com Hugo Carvana corre tranqüilamente, até que ele avista o organizador do festival, um gaúcho de vasto bigode chamado Esdras, e grita sem cerimônia:

Ô Esdras! Cadê a Colombiana?

O cara fica meio sem graça mas emenda logo, de primeira:

Essa não veio. Mas você viu a cubana?

Os dois trocam olhares de aprovação, o Esdras se despede e a entrevista continua.

Agora já se passaram quatro noites do festival e você dispensa algumas vezes a van para ir do hotel ao centro de Gramado. A caminhada é de uns dois quilômetros mas é agradável, numa estrada que corta a serra gaúcha e tem uma bela vista para este vale verde aí. E o frio ajuda.

Na penúltima noite, você já cumpriu todas as pautas e relaxa na festa promovida pela organização do festival, numa boate da cidade. Não tem muito o que fazer porque, afinal de contas, não conhece ninguém no local, a não ser de vista, da televisão. Então você encosta no balcão em frente à pista de dança e fica observando, e bebendo cerveja.

Nota que o Jack Black cubano, aquele mesmo cara que você viu babando e roncando no cinema, com parte da barriga à mostra, tem com a Jeniffer Lopez cubana, pelo menos naquele momento, uma relação bastante íntima, porque os dois trocam vários beijos na boca no meio da pista, numa cena que, de uma hora pra outra, torna a festa do festival meio chata. Então você, já com seis latinhas na lata, sai à procura de outra festa, de anônimos.

Lembra do lugar perto do seu hotel e, às duas e pouco, ruma pra lá. O local tem um grande balcão de bar, de uns vinte metros, que fica em frente a uma espaçosa pista de dança. E como você não conhece ninguém ali, fica encostado no balcão, observando e bebendo.

Às três e pouco, você já tem dez latinhas na lata e resolve dormir. Chega ao hotel e o plantonista da recepção, que se parece com o Ivo Wortman, lhe estende ela, a mala verde e preta.

Você sorri, agradece, joga a alça no ombro esquerdo e começa a subir a escada até o quarto, até que pára, vira para o recepcionista e pergunta:

Grêmio ou Inter?

Ele responde Grêmio. E você, ligeiramente alto, resolve prestar uma homenagem ao nobre recepcionista que lhe devolveu a querida bolsa verde e preta. E entoa, com o indicador direito erguido sobre a cabeça, os dois primeiros versos do hino gremista, de Lupicinio Rodrigues.

Até a pé nós iremos!
Para o que der e vier!

Depois se cala e retoma a subida para o quarto, abraçado à mala verde e preta.

No início de agosto, durante o festival de cinema, Gramado é uma festa.


Abaixo, a entrevista com o Hugo Carvana.

Revista Istoé Gente, edição 59, de 18 de setembro de 2000


"Às vezes burlava a quimioterapia. Tomava um uisquinho antes de começar o tratamento. Aquilo é um horror, você não pode beber. É um veneno. É você injetar na veia Lubrax 4, óleo de combustível. Só que a gente toma quimio hoje e ela só vai fazer efeito daqui a dois dias. Aí é devastador. Então tomava a quimioterapia e no mesmo dia, à noite, tomava um uísque, porque sabia que ia ficar cinco, seis dias desesperado, vomitando e passando mal. O médico proibia mas eu driblava, e acabou dando certo. O uísque me salvou."
(Foto: Leandro Pimentel)

Hugo Carvana ficou conhecido do grande público na televisão interpretando personagens memoráveis, como o jornalista do seriado Plantão de Notícia, nos anos 80. Mas não esconde de ninguém que sua paixão é o cinema. Nada de surpreendente. Afinal de contas, ele ostenta no currículo 82 filmes, desde a época em que começou como figurante nas chanchadas da Atlântida, durante a década de 50, até os sucessos de Vai Trabalhar Vagabundo, Bar Esperança e O Homem Nu, como diretor. Há três anos tentando captar recursos para seu novo projeto em cinema, batizado provisoriamente de Tempestade Cerebral, Carvana sobrevive com participações em programas de tevê, entre eles o Zorra Total. Em 1996, tirou o pé do acelerador quando descobriu ter câncer de pulmão, curado há três anos. Casado com a jornalista Martha Alencar, o pai de Pedro, 31, Maria Clara, 29, Júlio, 25, e Rita, 22, ainda pretende realizar um sonho antigo: ser dono de bar na Lapa, tradicional reduto da boêmia carioca. Não para ficar administrando o negócio atrás de um balcão, mas para fazer o que mais gosta: "Meu negócio é beber".

Como foi saber do câncer no pulmão logo após o lançamento de O Homem Nu, em 1996?
Quando você descobre que tem a doença é uma porrada. Um soco do Mike Tyson na cara. É uma coisa que você nunca acha que vai lhe acontecer. Só com os outros. Sofri demais no início. Primeiro você tem que chorar. Daí você chora mesmo, não tem jeito. O segundo passo é enfrentar, se informar sobre a doença e procurar as armas para enfrentá-la. É aí que a cabeça do paciente ajuda muito.

De que forma?
A primeira coisa a fazer é não permitir que tenham pena de você, porque a pena dos outros traz mais sofrimento para quem tem a doença. Outra coisa é a fé, não só a religiosa mas a fé na cura. O câncer é uma doença genética, uma célula que enlouquece, que se rebela, pula da cadeia do seu DNA e se recusa a se ordenar. O trabalho psicológico é importante nesse caso. Passei a fazer análise, e isso me ajudou bastante. Soube da doença em outubro de 1996, poucos dias após a estréia de O Homem Nu. Duas semanas depois, houve uma outra sessão de lançamento no Rio e eu não fui. Tinha tomado a primeira sessão de quimioterapia e estava muito deprimido. Estava fraco, não conseguia andar e não queria que ninguém me visse daquele jeito.

E como o Hugo Carvana boêmio resistiu ao tratamento?Às vezes burlava a quimioterapia. Tomava um uisquinho antes de começar o tratamento. Aquilo é um horror, você não pode beber. É um veneno. É você injetar na veia Lubrax 4, óleo de combustível. Só que a gente toma quimio hoje e ela só vai fazer efeito daqui a dois dias. Aí é devastador. Então tomava a quimioterapia e no mesmo dia, à noite, tomava um uísque, porque sabia que ia ficar cinco, seis dias desesperado, vomitando e passando mal. O médico proibia mas eu driblava, e acabou dando certo. O uísque me salvou.

Nem o câncer te fez abandonar o uísque?
Tive que parar de fumar, mas não de beber. Gosto de uma história do Vinícius de Moraes. Ele estava num bar com o Tom Jobim e uma amiga. O Vinícius perguntou aos dois quais os bichos que eles gostariam de ser. O Tom respondeu que queria ser um leão, e a moça disse uma garça. Quando o Tom perguntou que bicho o Vinícius gostaria de ser, a resposta foi imediata. "Uma girafa, porque o uísque ia demorar a descer". Acho que gosto tanto de uísque quanto o Vinícius gostava.

Qual a sensação de ficar curado de um câncer?Tive a notícia da cura em junho de 1997. A porrada que eu recebi quando o médico anunciou minha doença voltou com a mesma força quando soube que estava curado. Aí a porrada é no sentido inverso. Comemorei como de direito. Estou de porre até hoje.

Que privações a doença trouxe?Praticamente perdi um pulmão com a radioterapia, que é outra coisa absurda. Hoje não posso correr e subir escada. Tem que ser devagar. Fumar, só charuto, que não se traga. Mas eu me controlo. De quatro em quatro meses, faço a manutenção. Marco a consulta com o médico e faço todos os exames antes, me monitoro inteiro. Essa nunca mais me pega e, se voltar, eu pego no início. Fiquei o rei do controle.

Como será seu próximo filme?Escrevi uma história de um cantor da noite que viveu no Rio entre os anos 50 e 80.Ao narrar a vida desse personagem fictício, que não é famoso mas muito conhecido entre os amigos e nos bares da noite, viajo pela música brasileira. Perseguia a possibilidade de um dia ter a música não como moldura ou adorno, mas quase como um personagem de um filme. Também é uma forma de homenagear os velhos cantores da noite. Antigamente eu ia num bar só para ouvir gente como Altemar Dutra. Essa gente tinha um público fiel.

Será mais um filme sobre bares, boêmios e a noite?Não é intencional. Só gosto de fazer filmes urbanos, contemporâneos. Gosto de olhar as pessoas, descrever tipos humanos. O ator vive disso, de observar. Então acaba aparecendo. Às vezes até elimino os excessos para o filme não ficar muito boêmio, mas de vez em quando é impossível. Bar Esperança, por exemplo, era a história de um bar, tinha que ter a boêmia e todos os seus personagens.

Ainda é muito difícil fazer cinema no Brasil?Tenho 45 anos de cinema e já vi centenas de crises. Estamos passando por mais uma. A última foi a do governo Collor e agora estamos com essa. Está havendo um esgotamento das leis de incentivo, que estão se tornando ineficazes. Como sempre, o problema é a falta de vontade política. Quem cuida dos setores do governo responsáveis pelo cinema não tem visão da importância do audiovisual brasileiro em termos de difusão da imagem nacional aqui e lá fora.

Por isso a demora de mais de quatro anos para lançar o filme?Estou há três anos tentando captar recursos para esse filme e não tenho mais saco. A dificuldade é tanta que parece que estou fazendo o filme da minha vida, e não é isso que eu quero. Tenho mil idéias na cabeça. Quero fazer esse filme, acabar e fazer outro, porque essa é a minha vida. Fazer cinema no Brasil. Só que estou há três anos me angustiando e correndo.

Dá para viver de cinema no País?Não. Tem que ter sempre uma outra atividade. Eu faço televisão. Não que eu tenha algo contra a televisão, pelo contrário, eu adoro, mas quisera eu poder filmar de dois em dois anos. Um ano escrevendo e montando a engenharia financeira e outro ano filmando. Era meu sonho, mas é impossível. Cheguei aos 63 anos, já desisti de sonhar.

Algum filme pode ser considerado a obra da sua vida?Sou profissional de cinema. Aprendi fazendo, mas não sou um cineasta no sentido de que o cinema para mim é visceral, um instrumento para transformar o mundo ou o homem. Nada disso. Cinema para mim é diversão e prazer, e quero fazê-lo como tal. Posso dizer que tenho um afeto por Vai Trabalhar Vagabundo, porque foi o primeiro que eu produzi e é um filme comentado até hoje. Assim como o Bar Esperança, que virou até bar de verdade em Cuba.

Que história é essa?Em 1986, ganhei o prêmio de melhor filme dado pela União dos Escritores e Artistas Cubanos. No ano seguinte, fui a Havana a convite do poeta cubano Rafael Rey, que de tão apaixonado pelo filme resolveu criar o Bar Esperança lá, que só funciona durante a semana do festival de Cinema de Havana, na sede do Estúdio de Cinema Cubano. Agora eu quero fazer um Bar Esperança no Rio de Janeiro.

Vai virar dono de bar?O governo do Estado do Rio está criando o Distrito Cultural da Lapa e já pleiteei um espaço no projeto. Quero fazer o Centro Cultural Bar Esperança, o último que fecha. Vai ser o bar dos artistas, com espaço para apresentações de cantores, músicos e poetas. Só que não vou ficar com a barriga atrás do balcão. Sempre achei que quem bebe não pode administrar um bar. Estarei lá para receber os amigos e beber, claro.

Hugo Carvana continua boêmio?Minha boêmia agora é outra. Não volto mais para casa às cinco, seis da manhã, mas sou visceralmente uma pessoa de bar, desde um bar sofisticado até o boteco vagabundo. Quem gosta de beber gosta de ser amigo de quem bebe. Não que eu não tenha amigos que não bebam, mas é uma questão de cultura, um ritual. Tenho uma casa em Itaipava, na região serrana do Rio. Chego lá na sexta-feira e vou direto a um bar, onde sei que vou encontrar os amigos, No dia seguinte vou a outro, e encontro outros amigos. Durante a semana também faço isso no Rio, eventualmente. Só que estão botando televisão em bar. Você tá lá conversando e aquele troço ligado. É um absurdo.