
E nem depois disso ele conseguiu sair do estádio. Ficou em pé nas cadeiras por uns cinco, dez minutos, observando colegas de sofrimento como o garoto de dezesseis anos, no máximo, que usava uma dessas camisas retrô, do time de 87, o que o fez lembrar que ele tinha uma camisa igual àquela no armário, com a diferença que a dele não era retrô.
O garoto fazia cara de dor e não chorava. Estava entre os abnegados que ainda conseguiam gritar o nome do time, que ainda tinham forças pra dar provas ostensivas de seu amor pelo Vasco. Mirrado, sozinho, chegou a berrar contra quatro sujeitos umas oito fileiras de cadeiras acima dele, que faziam parte de outra leva de torcedores, a dos que preferiam xingar o time inteiro.
Flamenguistas! Flamenguistas! Gritava o moleque mirrado, com a camisa de 87, e era tão improvável uma porrada entre ele e os quatro adultos revoltados que estes, mesmo ouvindo o garoto muito bem, preferiram nem olhar pra ele, que às vezes batia palmas ironicamente e falava, alto ainda: Isso mesmo! Xinga o Vasco mesmo! Flamenguistas! E nisso ele teve a impressão que o garoto já chorava, mas não ficou pra conferir.

Mas nada disso consolava naquele momento. Apoiado na grade entre a social e o gramado, ele ainda acompanhou o resgate de um idiota que fingiu que tentava se matar, sem noção de que poderia ter morrido mesmo com aquela brincadeira estúpida, de ficar pendurado na marquise do estádio, e que chegou rindo no hospital, andando, depois de ser salvo pelos bombeiros. E ele andava também, de um lado para o outro. Chegou perto do portão principal mas não conseguiu sair. Voltou às cadeiras e de lá retornou ao portão principal, ele que nunca sequer cogitou a possibilidade de ser um daqueles malucos que xinga dirigente, que berra no meio de todo mundo, que saiu calado do estádio até quando viu o time tomar de 4 do Figueirense, outro rebaixado.
Mas o time tinha acabado de cair pra segunda divisão, a cabeça latejava e, entre a porta trancada da sala de troféus e o bar aberto, ele gritou o primeiro Cadê a Diretoria?, dando voz ao pensamento que veio à mente assim que avistou a tribuna de honra do estádio completamente vazia. Seguiu-se então um grito mais alto, inimaginável na infância.
Cadê o banana do Dinamite?
Daí vieram uns Filhos da Puta berrados a esmo, entre outros ditos não menos raivosos, até que um segurança o abordou, ao lado do busto do Almirante. A cabeça ainda latejava, mas a visão daquele sujeito de 1,90 m e pescoço parecido com o do Mike Tyson rendeu um segundo de raciocínio lógico, suficiente para ele continuar com os gritos, mas dessa vez com um objetivo específico: livre do anjo exterminador, precisava sair do estádio, mas sem afinar.
Então continuou berrando, olho no olho do segurança gigantesco, e disse que era sócio do clube e que falaria o que quisesse, e que tava indo embora, porra! E nisso finalmente saiu do estádio, para se deparar com um grupo de PMs usando máscaras de oxigênio e com mais torcedores na mesma situação que ele, como o sujeito que tinha o rosto do Bill Murray, a calva do Phil Collins e os cabelos longos do Robertinho do Recife.

Ele ainda hesitou, sem saber direito pra onde ir, até que seguiu o fluxo silencioso na direção contrária. Andou alguns segundos ao lado de outros dois sujeitos, um mais velho, outro mais ou menos da idade dele. O mais moço lembrava ao mais velho algo que tinha acontecido na semana anterior, quando o outro, ao que parece, enchera a cara sem condições físicas pra isso. E o sujeito, cabeça e bigode brancos, nem dava ouvidos. De cabeça baixa, como o Edmundo, respondeu com uma frase apenas: Hoje é uma situação especial. E o outro ficou calado.
Ele também entrou no bar perto da social. Pediu uma bohêmia, sentou numa mesa improvisada do lado de fora e bebeu até escurecer, coisa de uns vinte minutos. Depois saiu andando até os bares próximos à arquibancada, mas os dois botecos estavam fechados. Sobravam apenas três isopores no meio da rua e uns oito sujeitos bebendo latinhas em pé, observados por seis PMs, que conversavam tranqüilamente apoiados em seus porretes de borracha.
Só então decidiu procurar um táxi. Andou quase até o Pavilhão de São Cristóvão quando encontrou um, de um coroa que ouvia um programa de esporte qualquer no rádio, com alguém dando pitaco sobre o rebaixamento do Vasco. Consciente, o taxista viu a camisa do passageiro e trocou rapidamente para uma estação FM. Antes de deixá-lo no bar perto de casa, se revelou torcedor do América e disse que entendia perfeitamente o que o outro sentia.

A matéria abaixo não tem absolutamente nada demais. Nem entrevista teve. Foi só um apanhado da semana, depois de mais uma briga entre Romário e Edmundo. Mas, nesse momento difícil, resolvi botar o texto aqui, ao menos para relembrar um tempo não tão distante, em que o Vasco, mais uma vez, dominava o futebol brasileiro. Hoje a situação é outra, mas daqui a pouco volta a ser como era antes, não importa a torcida de nossa "mídia" esportiva, ou as arbitragens da CBF, ou as intervenções de governadores num clube, ou os ex-ídolos que viraram deputados. O Vasco vai voltar ao topo, porque o Vasco sempre volta. É só esperar.
Revista Istoé Gente, edição 28, de 14 de fevereiro de 2000:


"A braçadeira veio para o meu braço porque eu tenho braço. Se não tivesse, não haveria esse problema"
Durou pouco a tentativa de reconciliação entre Romário e Edmundo, as duas estrelas do Vasco da Gama e os dois maiores salários do futebol brasileiro: R$ 450 mil mensais para cada um. O pomo da discórdia entre os ex-amigos e atuais desafetos foi a disputa pela braçadeira de capitão do time. Escalado para o jogo contra o Palmeiras, no sábado 5, Edmundo deixou o estádio do Parque Antártica meia hora antes do jogo, alegando estar indisposto. No dia seguinte, já no Rio, o craque confessou que não gostou de ver Romário, que o substituíra como capitão durante as férias, efetivado no posto.
"Ele é falso e me tirou tudo o que conquistei no Vasco", disse Edmundo. "Uma pessoa que acabou de chegar não pode ocupar a posição de capitão", protesta. Romário não respondeu diretamente, mas foi irônico. "A braçadeira veio para o meu braço porque eu tenho braço. Se não tivesse, não haveria esse problema", disse, depois do treino da última segunda-feira. O bom humor de Romário não é à toa. Desde que está no Vasco, marcou 13 gols em apenas 11 partidas. Seis dos sete gols que a equipe fez na Copa Rio-São Paulo saíram dos pés do baixinho.

Romário, que havia jogado no Vasco no início da carreira e em dezembro voltou ao clube que o formou para o futebol, depois de ser afastado do Flamengo, evitou o conflito com o companheiro de time. Tudo mudou depois das últimas declarações de Edmundo, chamando Romário de falso. O baixinho não respondeu diretamente, mas não ficou calado. "Basta observar o dia-a-dia do time para tirar as conclusões e perceber quem é o quê", disse o craque. "Sei que todos esperam que eu fale algo sobre tudo isso, mas minha cabeça agora é outra", emendou.
Apesar da estratégia atual de evitar o confronto, foi Romário quem começou a dar motivos para a briga. Logo após a decisão da Copa do Mundo de 1998, o atacante divulgou as caricaturas pintadas nas portas dos banheiros de sua boate, o Café do Gol, na Barra da Tijuca. Em uma delas, Edmundo aparecia sentado numa bola murcha, ao lado da modelo Cristina Mortágua, com quem ele teve um filho, Alexandre, hoje com 5 anos, fruto de uma relação extraconjugal. Romário acabou recuando dias depois. Retirou as charges diante da reação de Zagallo, que inspirou outro painel. O ex- técnico da seleção brasileira - que foi estampado numa privada, enquanto Zico segurava um rolo de papel higiênico para ele - ingressou na Justiça contra o baixinho para vetar o uso de sua imagem.
A polêmica esfriou depois que Edmundo foi para a Fiorentina, da Itália, mas voltou a esquentar no retorno do atacante para o Vasco. Em julho, na véspera da decisão do campeonato carioca de 1999 entre o Vasco de Edmundo e o Flamengo de Romário, o craque vascaíno provocou os rubro-negros dizendo que seu time ganharia de dez a zero. No centro do gramado, antes do início do jogo, os dois capitães mal se cumprimentaram e sequer se olharam. Após a vitória do Flamengo por um a zero, Romário afirmou que os que o provocaram tinham de fazer muita coisa para chegar aonde ele chegou.
A trégua entre os dois veio três meses depois da decisão do campeonato carioca, quando Edmundo passou uma noite na prisão, condenado pela morte de três pessoas num acidente de carro em 1995. Em 6 de outubro, na noite da prisão, Romário fez um gol pelo Flamengo e exibiu uma camiseta com mensagem de apoio ao antigo amigo. Fora da cadeia, Edmundo retribuiu a gentileza, após marcar um gol contra o Botafogo de Ribeirão Preto, pelo campeonato brasileiro, numa camiseta com a inscrição "Valeu pela força".
